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Autores: Cláudio Amichetti Júnior, Médico Veterinário Integrativo @dr.claudio.amichetti@gmail.com
Resumo O uso terapêutico de derivados de Cannabis sativa tem crescido exponencialmente na medicina veterinária, especialmente no manejo da dor crônica, inflamação, epilepsia, distúrbios comportamentais e suporte paliativo. Evidências científicas apontam que os fitocanabinoides, particularmente o canabidiol (CBD), apresentam ampla margem de segurança, mesmo quando administrados em doses superiores às inicialmente recomendadas. Este artigo revisa criticamente os dados de segurança do óleo medicinal de Cannabis em animais domésticos, comparando-o com efeitos adversos de fármacos alopáticos comuns, como anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs), opioides, anticonvulsivantes e ansiolíticos. A literatura demonstra que, apesar de o clínico eventualmente utilizar doses mais altas de CBD visando controle sintomático, o risco de eventos adversos graves permanece significativamente menor do que o observado com diversas drogas veterinárias convencionais. Palavras-chave: Cannabis medicinal, CBD, segurança, medicina veterinária, farmacologia, toxicidade.
1. Introdução
O interesse clínico pelos fitocanabinoides tem aumentado à medida que novos dados demonstram sua eficácia e segurança em várias espécies. O Sistema Endocanabinoide (SEC) desempenha papel central na modulação da dor, neuroinflamação, humor, apetite e homeostase geral (Gugliandolo et al., 2020). O uso de CBD e formulações de Cannabis veterinária apresenta uma alternativa terapêutica menos agressiva que medicamentos alopáticos comumente utilizados, sobretudo em tratamentos crônicos.
Fármacos como AINEs, opioides, benzodiazepínicos e anticonvulsivantes, apesar de sua eficácia comprovada, apresentam riscos relevantes, incluindo hepatotoxicidade, nefrotoxicidade, depressão respiratória e tolerância farmacológica (Kogan & Hellyer, 2020). Em contraste, os fitocanabinoides têm baixa toxicidade, raramente produzem efeitos adversos severos e dificilmente levam à morte, mesmo em doses acidentalmente elevadas (Iffland & Grotenhermen, 2017; Landa & Sulcova, 2019). Este artigo visa comparar o perfil de segurança do óleo medicinal de Cannabis com o de fármacos alopáticos tradicionais, fornecendo um panorama para a sua aplicação na clínica veterinária.
2. Farmacologia e Segurança dos Principais Fitocanabinoides
2.1 Canabidiol (CBD)
O CBD é o principal composto utilizado em medicina veterinária devido à sua ação antiepiléptica, ansiolítica, anti-inflamatória e moduladora do SEC. Possui:
Estudos clássicos demonstram que cães toleram doses muito superiores às utilizadas clinicamente (Gamble et al., 2018; Samara et al., 1988). Gatos também apresentam boa tolerância, com perfis farmacocinéticos específicos que devem ser considerados (Deabold et al., 2019).
2.2 Tetrahidrocanabinol (THC) em Baixas Concentrações
Embora o THC seja tóxico em doses elevadas para cães e gatos, as formulações veterinárias de espectro completo (full-spectrum) ou amplo espectro (broad-spectrum) tipicamente possuem concentrações muito baixas de THC, geralmente abaixo de 0,3% (Kogan & Hellyer, 2020). Essa concentração reduz dramaticamente o risco de efeitos psicoativos indesejados. Efeitos adversos de THC em doses mais elevadas incluem ataxia, midríase, letargia e sedação, porém raramente evoluem de forma fatal e são manejáveis com suporte veterinário. O sinergismo entre os diversos canabinoides e terpenos (o "efeito entourage") em formulações com baixo teor de THC pode potencializar os benefícios terapêuticos enquanto mitiga os efeitos indesejados do THC isolado.
3. Evidências de Segurança: do Experimental ao Clínico
3.1 Estudos Experimentais
3.2 Segurança em Doses Maiores
Registros clínicos e ensaios controlados indicam que animais podem tolerar doses substancialmente mais altas de CBD (20–30 mg/kg) sem desenvolver falhas orgânicas graves (Bartner et al., 2018; McGrath et al., 2019). Esta ampla margem de segurança é um diferencial importante, permitindo aos clínicos ajustar as doses para otimizar o controle sintomático em casos refratários, com um risco significativamente reduzido de toxicidade grave, mesmo com superdosagem moderada, em comparação com muitos fármacos alopáticos.
4. Comparação com Fármacos Alopáticos: Riscos e Limitações
4.1 Anti-inflamatórios Não-Esteroidais (AINEs)
Fármacos como carprofeno, meloxicam e firocoxib são amplamente prescritos para dor e inflamação, mas apresentam:
Comparação: O CBD não causa lesão renal nem úlcera gástrica. Sua ação anti-inflamatória ocorre via modulação de citocinas pró-inflamatórias, ativação de receptores TRPV1 e modulação do SEC, sem a inibição agressiva de COX-1 e COX-2. Isso o torna uma alternativa valiosa, especialmente em pacientes com comorbidades renais ou gastrointestinais, ou como terapia adjunta para reduzir a dose de AINEs.
4.2 Opioides (Tramadol, Morfina, Buprenorfina)
Embora altamente eficazes no manejo da dor severa, carregam risco de:
Comparação: Fitocanabinoides, ao contrário dos opioides, não deprimem centros respiratórios, pois sua ação não ocorre diretamente nos núcleos do tronco cerebral ligados ao automatismo respiratório (Landa & Sulcova, 2019). Eles atuam na modulação da dor através de vias distintas, inclusive ativando receptores opioides endógenos, mas sem os mesmos riscos de dependência e depressão respiratória.
4.3 Anticonvulsivantes (Fenobarbital, Brometo de Potássio)
Utilizados para controlar epilepsia, esses fármacos apresentam riscos consideráveis:
Comparação: O CBD possui efeito anticonvulsivante validado, inclusive sendo aprovado para uso em epilepsia refratária em humanos (Epidiolex®). Em veterinária, tem se mostrado eficaz como terapia adjuvante, permitindo a redução da dose de anticonvulsivantes tradicionais e minimizando seus efeitos colaterais, com um perfil de tolerância significativamente melhor (McGrath et al., 2019).
4.4 Benzodiazepínicos e Ansiolíticos
Prescritos para distúrbios de ansiedade e fobias, apresentam:
Comparação: O CBD reduz a ansiedade por mecanismos serotoninérgicos (especialmente via receptor 5-HT1A) e modulação do SEC, sem causar dependência (Gugliandolo et al., 2020). Seus efeitos ansiolíticos são mais sutis e modulares, proporcionando alívio sem o risco de sedação excessiva ou os problemas associados à dependência física.
5. Discussão
A literatura é clara ao indicar que o óleo medicinal de Cannabis possui proporção risco-benefício superior quando comparado à farmacoterapia convencional usada em medicina veterinária. Mesmo quando o clínico opta por prescrições com margem um pouco maior, visando atingir concentração terapêutica efetiva, o perfil de segurança permanece elevado.
Explica-se essa tolerabilidade superior pelo fato de:
A multifuncionalidade dos fitocanabinoides, atuando em receptores canabinoides, serotoninérgicos, vaniloides e outros, confere-lhes uma ampla gama de efeitos terapêuticos sem a especificidade e os riscos associados à inibição ou ativação exclusiva de um único alvo, característica de muitos fármacos alopáticos. Esta abordagem "multidirecionada" minimiza a probabilidade de falhas sistêmicas ou reações adversas graves, que são frequentemente observadas em terapias mais invasivas.
O conjunto de evidências sugere que o óleo medicinal de Cannabis deve ser considerado não como último recurso, mas como parte integrativa da terapêutica moderna em cães e gatos. A crescente aceitação e regulamentação demandam, contudo, maior investimento em ensaios clínicos robustos, padronização dos produtos e educação continuada para profissionais veterinários, garantindo o uso consciente e otimizado dessas terapias. A qualidade de vida e o bem-estar animal podem ser significativamente beneficiados por uma abordagem terapêutica que priorize a segurança sem comprometer a eficácia. A pesquisa contínua é fundamental para elucidar completamente os mecanismos de ação e otimizar os protocolos de dosagem para diversas condições em diferentes espécies veterinárias.
6. Conclusão
O óleo medicinal de Cannabis, especialmente formulações ricas em CBD e com baixo teor de THC, demonstra segurança significativamente superior a diversos fármacos alopáticos de uso rotineiro na medicina veterinária. Considerando seus efeitos adversos leves, baixa toxicidade mesmo em doses ampliadas e ampla tolerabilidade em animais, o uso clínico dos fitocanabinoides representa uma alternativa promissora e mais segura para o manejo de condições crônicas e multimodais. A integração dessas terapias no arsenal veterinário moderno oferece uma perspectiva valiosa para melhorar a qualidade de vida dos animais com menor risco de complicações iatrogênicas, alinhando-se a uma abordagem mais holística e integrativa da saúde animal.
7. Referências Bibliográficas
29 de maio de 2025
Autores: Cláudio Amichetti Júnior¹; Gabriel Amichetti¹
Afiliação: ¹ Petclube – Medicina Veterinária Integrativa, São Paulo, SP, Brasil.
A neuroproteção e a modulação do eixo do estresse representam fronteiras emergentes na medicina translacional. Os peptídeos sintéticos Semax (análogo do ACTH₄₋₇-Pro-Gly-Pro) e Selank (análogo da tuftsina alongado com Pro-Gly-Pro) foram desenvolvidos no Instituto de Biologia Molecular de Moscou a partir da década de 1980 e possuem décadas de uso clínico na Federação Russa e em países do Leste Europeu. Embora sua aplicação em humanos seja a mais documentada, a totalidade dos estudos mecanísticos e de prova de conceito foi conduzida em modelos animais — majoritariamente ratos Wistar e camundongos BALB/c e C57BL/6 — o que abre uma janela de translacionalidade direta para a medicina veterinária de animais de companhia. Esta revisão compila e analisa os principais estudos pré-clínicos com Semax e Selank, organizando as evidências por desfecho (neuroproteção, cognição, ansiedade e estresse), e propõe fundamentos farmacológicos para sua potencial aplicação em cães e gatos com transtornos relacionados ao estresse, ansiedade de separação, fobias e declínio cognitivo senil.
Palavras-chave: Semax; Selank; peptídeos neuroprotetores; ansiedade; estresse; medicina veterinária; cães; gatos; BDNF; GABA.
O envelhecimento cerebral e o estresse crônico são problemas de crescente relevância na medicina veterinária de pequenos animais. A síndrome da disfunção cognitiva canina (SDCC) afeta entre 14% e 35% dos cães acima de 8 anos, com prevalência que pode chegar a 68% em cães com mais de 15 anos (Landsberg et al., 2012). Paralelamente, a ansiedade de separação, as fobias a tempestades e fogos de artifício, e o estresse crônico em felinos — frequentemente associado à cistite idiopática felina (CIF) — são condições prevalentes e de difícil manejo na clínica diária. As abordagens farmacológicas atuais (benzodiazepínicos, inibidores seletivos da recaptação de serotonina – ISRS, antidepressivos tricíclicos) apresentam limitações importantes: sedação excessiva, efeitos colaterais metabólicos, necessidade de uso prolongado para início de efeito e potencial de dependência.
Nesse contexto, a investigação de novos agentes com perfis de segurança mais favoráveis e mecanismos de ação distintos torna-se urgente. Os peptídeos Semax e Selank, desenvolvidos a partir da pesquisa neurocientífica soviética nos anos 1980, emergem como candidatos promissores. O Semax, análogo sintético do fragmento ACTH(4–7) estabilizado pela adição de Pro-Gly-Pro, é classificado como agente neuroprotetor e nootrópico, com capacidade de elevar os níveis do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e de modular a plasticidade sináptica. O Selank, derivado da tuftsina (Thr-Lys-Pro-Arg) com extensão C-terminal Pro-Gly-Pro, é um ansiolítico que atua como modulador alostérico do sistema GABAérgico, promovendo redução da ansiedade sem os efeitos sedativos e amnésicos típicos dos benzodiazepínicos.
Administrados por via intranasal, ambos os peptídeos alcançam o sistema nervoso central (SNC) diretamente, bypassando o metabolismo hepático de primeira passagem e a barreira hematoencefálica de forma eficiente (Hanson & Frey, 2008). Essa via de administração é particularmente atraente para pacientes veterinários, pois permite aplicação rápida e não invasiva, com possibilidade de uso em ambiente domiciliar.
Importante ressaltar que não há, até a presente data, aprovação da ANVISA ou do MAPA para o uso veterinário de Semax ou Selank no Brasil. Toda a discussão aqui apresentada fundamenta-se em evidências pré-clínicas e translacionais, não constituindo recomendação terapêutica. O objetivo desta revisão é compilar e analisar os principais estudos pré-clínicos com esses peptídeos em modelos animais, e propor fundamentos farmacológicos para sua potencial aplicação na medicina veterinária de cães e gatos com transtornos relacionados ao estresse, ansiedade e declínio cognitivo.
Esta revisão narrativa foi realizada por meio de busca sistemática nas bases de dados PubMed/MEDLINE, ScienceDirect, Frontiers in Pharmacology, Neurochemical Journal, Journal of Molecular Neuroscience e ResearchGate. Foram utilizados os seguintes descritores, em combinações booleanas: "Semax", "Selank", "ACTH(4-7)PGP", "tuftsin analog", "rats", "mice", "animal model", "anxiety", "stress", "cognitive", "BDNF", "GABA", "neuroprotection". Os critérios de inclusão foram: (a) estudos originais publicados entre 1991 e 2025; (b) modelos animais in vivo (ratos Wistar, camundongos BALB/c, C57BL/6 e transgênicos); (c) desfechos relacionados a neuroproteção, cognição, ansiedade ou estresse; (d) idiomas inglês ou russo (com tradução disponível). Foram excluídos estudos exclusivamente in vitro, revisões sem dados originais e ensaios clínicos exclusivamente humanos. Ao final, 12 artigos preencheram os critérios e foram incluídos na análise qualitativa.
O estudo seminal de Dolotov et al. (2006) investigou o efeito do Semax sobre a expressão do BDNF e de seu receptor trkB no hipocampo de ratos. Administrado por via intranasal em dose única de 50 µg/kg, o Semax promoveu aumento de 1,4 vezes nos níveis da proteína BDNF e aumento de 1,6 vezes na fosforilação do receptor trkB. O BDNF é um fator neurotrófico central para a sobrevivência neuronal, a plasticidade sináptica e a formação de memórias de longo prazo. Seu declínio é um marcador universal do envelhecimento cerebral, presente tanto em roedores quanto em cães idosos com disfunção cognitiva (Siwak-Tapp et al., 2008). A capacidade do Semax de elevar o BDNF hipocampal em modelo agudo indica um mecanismo de ação direto sobre a via trkB, potencialmente útil na reversão ou atenuação do declínio cognitivo senil.
Stavchansky et al. (2011) submeteram ratos à oclusão da artéria cerebral média (modelo de isquemia focal) e trataram os animais com Semax intranasal. Os resultados morfológicos demonstraram redução significativa da área de infarto, preservação da arquitetura celular e aumento da atividade proliferativa nas zonas adjacentes à lesão. Mais recentemente, Filippenkov et al. (2020) realizaram análise transcriptômica em ratos submetidos a isquemia-reperfusão cerebral e tratados com Semax. O peptídeo modulou a expressão de centenas de genes, com predomínio de vias relacionadas ao sistema imune, resposta inflamatória e remodelamento vascular. Esse perfil multimodal de ação — combinando neuroproteção direta com modulação imune — confere ao Semax um potencial terapêutico que transcende o acidente vascular cerebral, alcançando condições neurodegenerativas crônicas.
Em 2019, Kolomin et al. (publicado sob o identificador PMC12755871) avaliaram o Semax e um heptapeptídeo derivado em camundongos transgênicos APP/PS1, modelo clássico da doença de Alzheimer. Os animais receberam Semax intranasal na dose de 50 µg/kg em dias alternados durante um mês, totalizando 15 doses. Três testes comportamentais foram aplicados:
Os autores concluíram que "Semax exhibited a significant favorable effect in the open field and novel object recognition tests" e que o peptídeo "had a positive effect on an even greater number of parameters" no Barnes maze. Esse estudo é particularmente relevante para a medicina veterinária, pois a SDCC compartilha diversos mecanismos fisiopatológicos com a doença de Alzheimer humana — incluindo acúmulo de beta-amiloide, neuroinflamação e declínio de BDNF —, sugerindo que o Semax poderia ter efeitos neuroprotetores análogos em cães idosos.
Liu et al. (2025) investigaram o efeito do Semax em camundongas fêmeas submetidas a lesão medular compressiva. O peptídeo promoveu recuperação funcional significativa, medida pelo escore Basso Mouse Scale. O mecanismo identificado envolveu a deubiquitinação mediada pelo receptor opioide mu, codificado pelo gene Oprm1. Esse achado amplia o espectro de aplicações do Semax para condições neurológicas traumáticas — como a doença do disco intervertebral (IVDD) em cães —, nas quais a lesão medular aguda resulta em dano secundário por excitotoxicidade e neuroinflamação.
O estudo mais completo sobre o efeito ansiolítico do Selank em condições de estresse crônico foi conduzido por Kasian et al. (2017). Utilizaram-se ratos Wistar machos (400 g) divididos em grupo repouso (n=24) e grupo estresse (n=24). O protocolo de estresse crônico imprevisível (unpredictable chronic mild stress – UCMS) teve duração de 14 dias e incluiu: privação de comida, privação de água, inclinação da gaiola a 45°, natação forçada a 12°C, alteração do ciclo claro/escuro e serragem úmida. Os grupos receberam, por 14 dias, administração intranasal de Selank (300 µg/kg/dia), diazepam oral (1 mg/kg), combinação de ambos ou salina. A ansiedade foi avaliada pelo labirinto em cruz elevado (Elevated Plus Maze – EPM).
Os resultados mais relevantes foram:
Esse estudo é paradigmático por demonstrar que o Selank não apenas reduz a ansiedade em condições de estresse crônico, mas também protege contra o efeito ansiogênico do próprio procedimento de administração — um achado com implicações diretas para a prática veterinária, onde o manuseio do animal é frequentemente estressante.
Volkova et al. (2016) investigaram o efeito do Selank sobre a expressão gênica no córtex frontal de ratos Wistar machos (200 g). Uma administração intranasal única de Selank (300 µg/kg) foi seguida de análise transcriptômica em 1 hora e 3 horas. Os resultados mostraram que, 1 hora após, 29 genes tiveram expressão alterada; em 3 horas, 17 genes ainda apresentavam expressão modificada. Comparativamente, o GABA exógeno na mesma dose afetou 41 genes em 1 hora, reduzindo para 9 em 3 horas. O Selank, portanto, apresentou efeito mais sustentado sobre a expressão gênica, e a maioria dos genes modulados estava envolvida na neurotransmissão GABAérgica. Os autores concluíram que o Selank atua como modulador alostérico do sistema GABA, com seletividade que explica seu perfil ansiolítico sem sedação. O artigo do Frontiers in Pharmacology também cita que "Selank has pronounced anxiolytic activity and acts as a stable neuropsychotropic, antidepressant, and antistress drug that relieves aggression and fear reaction in different animal species" (Kozlovskii & Danchev, 2002; Sollertinskaya et al., 2008; Semenova et al., 2010).
Vasileva et al. (2020) compararam os efeitos de Semax (0,6 mg/kg/dia), Selank (300 µg/kg/dia) e Noopept (1 mg/kg/dia) em camundongos BALB/c e C57BL/6, administrados por via intraperitoneal (i.p.) e intranasal (i.n.), avaliados no EPM. Os principais achados foram:
Esse estudo revela que os efeitos de Semax e Selank são modulados pelo background genético e pelo estado basal de ansiedade. Para a medicina veterinária, isso implica que raças caninas com diferentes temperamentos e níveis de ansiedade basal (por exemplo, Border Collie vs. Bulldog Inglês) podem responder de forma distinta aos mesmos peptídeos, exigindo abordagens individualizadas.
| Estudo | Revista / Publicação | Modelo | Substância / Dose | Resultados Principais |
|---|---|---|---|---|
| Dolotov et al. (2006) | Brain Research | Ratos | Semax 50 µg/kg i.n. | ↑ BDNF 1.4x, ↑ p-trkB 1.6x no hipocampo |
| Stavchansky et al. (2011) | J Mol Neurosci | Ratos | Semax i.n. | Neuroproteção em isquemia cerebral |
| Volkova et al. (2016) | Front Pharmacol | Ratos Wistar | Selank 300 µg/kg i.n. | Modulação de 29 genes GABAérgicos em 1h |
| Kasian et al. (2017) | Behav Neurol | Ratos Wistar | Selank 300 µg/kg i.n. | Redução da ansiedade em UCMS; combinação c/ diazepam restaurou níveis basais |
| Kolomin et al. (2019) | PMC12755871 | Camundongos APP/PS1 | Semax 50 µg/kg i.n. | Melhora cognitiva no open field, NOR e Barnes maze |
| Vasileva et al. (2020) | Neurochem J | Camundongos BALB/c e C57BL/6 | Semax 0,6 mg; Selank 300 µg/kg i.n. e i.p. | Efeitos ansiolíticos e nootrópicos dependentes da linhagem |
| Filippenkov et al. (2020) | Genes (MDPI) | Ratos | Semax | Modulação transcriptômica em isquemia-reperfusão |
| Liu et al. (2025) | Br J Pharmacol | Camundongas fêmeas | Semax | Recuperação funcional pós-lesão medular via Oprm1 |
Ratos e camundongos compartilham com cães e gatos as vias neuroquímicas fundamentais investigadas nos estudos apresentados: sistema GABAérgico, eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), via BDNF/trkB e mecanismos de neuroplasticidade hipocampal. Embora existam diferenças metabólicas e farmacocinéticas entre roedores e carnívoros — por exemplo, o clearance hepático e a composição do muco nasal —, a conservação evolutiva desses sistemas é suficientemente alta para que os dados de prova de conceito sejam translacionalmente informativos. A administração intranasal, em particular, é uma via factível em cães e gatos por meio de sprays nasais adaptados. Estudos de drug delivery nasal demonstraram que moléculas com peso molecular entre 500 e 5000 Da (como Semax e Selank) atingem o SNC via nervo olfatório e trigêmeo, bypassando o metabolismo de primeira passagem hepático e a barreira hematoencefálica (Hanson & Frey, 2008). Essa rota é especialmente vantajosa para peptídeos, que seriam degradados no trato gastrointestinal se administrados por via oral.
Três cenários clínicos se destacam:
(a) Ansiedade de separação e fobias (tempestades, fogos de artifício): Cães com ansiedade de separação apresentam hiperativação do eixo HHA, elevação crônica de cortisol e comportamento destrutivo. Os benzodiazepínicos, embora eficazes a curto prazo, causam sedação, ataxia e dependência. No estudo de Kasian et al. (2017), o Selank isolado foi superior ao diazepam na redução da ansiedade em condições de estresse crônico, e a combinação Selank + diazepam restaurou os níveis basais de ansiedade. Para cães fóbicos, o Selank poderia ser utilizado como medicação de resgate pré-evento (antes de fogos de artifício ou tempestades) sem os efeitos colaterais sedativos que comprometem a qualidade de vida. Ademais, seu perfil de segurança a longo prazo — sem evidências de dependência nos estudos animais — o tornaria uma alternativa mais segura para uso crônico em cães com ansiedade generalizada.
(b) Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina (SDCC): Cães idosos apresentam declínio cognitivo análogo à doença de Alzheimer humana, caracterizado por acúmulo de beta-amiloide, declínio de BDNF, neuroinflamação e perda sináptica. O Semax demonstrou em camundongos APP/PS1 aumento de BDNF, melhora da memória de reconhecimento (NOR) e da aprendizagem espacial (Barnes maze) (Kolomin et al., 2019). Em cães idosos, o diagnóstico de SDCC é clínico e baseia-se em questionários padronizados (CADES, DISH). Não existem, até o momento, tratamentos modificadores da doença aprovados. O Semax, por seu perfil multimodal — neuroproteção via BDNF, redução da neuroinflamação e modulação da plasticidade sináptica —, representa um candidato promissor para estudos clínicos em cães com SDCC.
(c) Recuperação pós-cirúrgica e lesão neurológica: A doença do disco intervertebral (IVDD) é a principal causa de lesão medular em cães de raças condrodistróficas (Dachshund, Corgi, Shih Tzu). O efeito neuroprotetor do Semax em modelos de isquemia cerebral (Stavchansky et al., 2011; Filippenkov et al., 2020) e de lesão medular (Liu et al., 2025) sugere que o peptídeo poderia ser utilizado no período perioperatório de descompressão medular para reduzir o dano secundário por isquemia-reperfusão e neuroinflamação. Embora os estudos em lesão medular tenham sido conduzidos em camundongas, o mecanismo via Oprm1 é conservado entre mamíferos, conferindo plausibilidade translacional.
(a) Estresse crônico e cistite idiopática felina (CIF): Gatos são particularmente sensíveis a estressores ambientais (mudanças de residência, introdução de novos animais, reformas). O estresse crônico é fator desencadeante da CIF, que afeta até 60% dos gatos com sinais do trato urinário inferior. A modulação do sistema GABAérgico pelo Selank (Volkova et al., 2016), com redução da reatividade ao estresse sem sedação, poderia teoricamente beneficiar gatos em lares multi-felinos, em situações de realocação ou com comportamentos de marcação urinária induzidos por estresse. O estudo de Kozlovskii & Danchev (2002), citado por Volkova et al. (2016), indica que o Selank "relieves aggression and fear reaction in different animal species", sugerindo utilidade também em gatos com agressividade por medo.
(b) Administração intranasal em felinos: A via intranasal em gatos apresenta desafios de contenção, mas formulações em spray de volume reduzido (5–10 µL por narina) podem ser aplicadas rapidamente, de forma análoga às vacinas intranasais já rotineiras (ex.: vacina contra rinotraqueíte felina). O curto tempo de aplicação (< 10 segundos) minimiza o estresse adicional. Estudos de farmacocinética em gatos seriam necessários para determinar a biodisponibilidade e a dose ótima.
É imperativo reconhecer as limitações que impedem, no momento, a recomendação clínica de Semax e Selank na medicina veterinária:
Os peptídeos Semax e Selank possuem um corpo substancial de evidências pré-clínicas em modelos animais (ratos e camundongos) demonstrando, respectivamente, efeitos neuroprotetores e nootrópicos (Semax) e ansiolíticos sem sedação (Selank). Estes modelos compartilham com cães e gatos as vias neurobiológicas fundamentais investigadas — sistema GABAérgico, BDNF/trkB, eixo HHA —, conferindo plausibilidade translacional às potenciais aplicações veterinárias. A administração intranasal, via factível em animais de companhia, oferece um diferencial farmacocinético relevante, com entrega direta ao SNC e ausência de metabolismo de primeira passagem.
Especificamente, o Semax se destaca como candidato para o manejo da síndrome da disfunção cognitiva canina, para neuroproteção em lesões medulares e isquêmicas, e para recuperação pós-cirúrgica neurológica. O Selank, por sua vez, apresenta potencial para o tratamento da ansiedade de separação, fobias e estresse crônico — tanto em cães quanto em gatos — com a vantagem de não causar sedação. Contudo, a completa ausência de estudos específicos em cães e gatos, somada às limitações metodológicas de parte da literatura disponível, impõe cautela. A ponte entre a bancada de laboratório e o consultório veterinário depende de ensaios clínicos dedicados em animais de companhia, que ainda não foram realizados. Enquanto esses estudos não existirem, o uso de Semax e Selank na medicina veterinária permanece no campo da investigação translacional, não da prática clínica estabelecida.
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O rusfertide é um peptídeo terapêutico relativamente novo e ainda em fase avançada de pesquisa clínica, com um mecanismo bem interessante dentro da medicina translacional.
Dr. Cláudio Amichetti Júnior Dr. Gabriel Amichetti
CRMV-SP 75.404 VT CRMV-SP 45.592 VT
Local e data: São Paulo, 28 de abril de 2026
DISCLAIMER: DOCUMENTO CIENTÍFICO PARA USO ESTUDO PROFISSIONAL NAO É PROTOCOLO
O rusfertide (também chamado de PTG-300) é um peptídeo mimético da hepcidina, um hormônio natural do fígado que regula o metabolismo do ferro no corpo. (Takeda)
👉 Em termos simples: ele “imita” a hepcidina.
O efeito dele é altamente específico:
A hepcidina normal controla a saída de ferro das células
O rusfertide imita esse efeito e bloqueia a ferroportina, que é o canal que libera ferro para o sangue (Targeted Oncology)
Com menos ferro circulante → menor produção de hemácias
✔ Isso é crucial porque:
Ferro = combustível para produção de glóbulos vermelhos
Menos ferro disponível → reduz eritropoiese excessiva
Principal aplicação atual:
➡️ Policitemia Vera (PV)
(doença hematológica onde o corpo produz hemácias em excesso)
No PV:
Há baixa hepcidina
Ferro fica “liberado demais”
Produção de hemácias sai do controle
👉 O rusfertide atua exatamente nesse eixo fisiopatológico.
Estudos fase 2 e fase 3 mostraram:
Redução significativa da necessidade de flebotomia
Melhor controle do hematócrito (<45%)
Melhora de sintomas como fadiga
Boa tolerabilidade geral (OncLive)
Além disso:
Já recebeu Breakthrough Therapy e Priority Review pela FDA (Takeda)
Pode ser aprovado como terapia inovadora em breve (2026) (OncLive)
Aplicação subcutânea semanal
Pode ser usado junto com tratamento padrão (Takeda Oncology)
O rusfertide não atua diretamente em citocinas ou JAK2 — ele atua no metabolismo do ferro, o que é um approach diferente da maioria das terapias hematológicas.
👉 Isso abre uma linha interessante:
Regulação metabólica → controle hematológico
Não apenas bloqueio de sinalização inflamatória
Ainda é medicação experimental
Não aprovado amplamente (em avaliação regulatória)
Uso fora de estudo clínico é limitado
O rusfertide é um peptídeo inovador que regula o ferro sistêmico, reduzindo a produção excessiva de hemácias — principalmente na policitemia vera — com potencial de mudar o padrão de tratamento dessa doença.
Se quiser, posso te explicar como isso se conecta com:
eixo inflamatório
metabolismo mitocondrial
ou até aplicações futuras (longevidade / medicina integrativa)
porque esse tipo de peptídeo abre uma discussão bem interessante.
Vamos aprofundar essa discussão de forma mais integrada e crítica — porque o rusfertide não é só “mais um fármaco”, ele abre uma janela conceitual interessante entre metabolismo, inflamação e regulação sistêmica.
A hepcidina (que o rusfertide mimetiza) não é apenas um regulador de ferro — ela é, na prática, uma molécula de fase aguda.
Em estados inflamatórios:
Citocinas como IL-6 aumentam hepcidina
O corpo “sequestra” ferro dentro das células
Isso reduz ferro circulante → mecanismo de defesa contra patógenos
👉 Aqui entra o ponto interessante:
O rusfertide simula um estado de “restrição de ferro” controlada, mesmo fora de um quadro inflamatório clássico.
Isso levanta hipóteses importantes:
Poderia modular ambientes pró-inflamatórios crônicos?
Poderia reduzir disponibilidade de ferro para processos oxidativos?
Ou, em excesso, poderia mimetizar anemia de doença crônica?
📌 Discussão crítica:
Existe uma linha tênue entre:
efeito terapêutico (controle de eritropoiese)
e indução de um estado funcionalmente inflamatório
O ferro é peça-chave dentro da mitocôndria:
Cofator em citocromos da cadeia respiratória
Essencial para produção de ATP
Participa da formação de clusters ferro-enxofre
👉 Reduzir ferro circulante = impactar potencialmente:
eficiência mitocondrial
produção de energia
equilíbrio redox
Agora o ponto sofisticado:
Uma leve restrição de ferro pode:
diminuir produção de radicais livres
reduzir estresse oxidativo mitocondrial
Mas, se excessiva:
compromete respiração celular
gera fadiga metabólica
📌 Discussão crítica:
O rusfertide pode estar, indiretamente, atuando como um modulador bioenergético — e não apenas hematológico.
Isso aproxima o tema de:
doenças metabólicas
fadiga crônica
envelhecimento celular
Aqui entramos em terreno mais especulativo — mas cientificamente plausível.
Sabemos que:
Excesso de ferro está associado a:
estresse oxidativo
dano tecidual
envelhecimento precoce
Acúmulo de ferro ocorre com a idade (principalmente em homens)
👉 Surge então uma pergunta provocativa:
Regular ferro de forma fina poderia impactar longevidade?
Alguns paralelos interessantes:
Restrição de ferro já mostrou efeitos benéficos em modelos animais
Menor ferro → menor peroxidação lipídica
Possível proteção contra doenças neurodegenerativas
Agora conectando com medicina integrativa:
O rusfertide representa uma abordagem:
não sintomática
não supressiva clássica
mas regulatória de eixo metabólico
📌 Discussão crítica:
Ainda estamos longe de qualquer uso nesse contexto, mas abre espaço para pensar:
ferro como biomarcador funcional
terapias de ajuste fino (e não bloqueio total)
integração com nutrição, microbiota e inflamação
O rusfertide não é só um tratamento para policitemia vera.
Ele representa uma mudança de paradigma:
👉 sair de:
bloquear vias específicas (ex: JAK2)
👉 para:
modular o ambiente metabólico que sustenta a doença
E isso, inevitavelmente, conecta:
inflamação
metabolismo energético
envelhecimento
microbiota intestinal e absorção de ferro
uso de compostos como quercetina, lactoferrina, curcumina
".......porque esse tema ainda vai crescer muito" Dr. Claudio Amichetti Jr
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