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PETCLUBE – CIÊNCIA, GENÉTICA E BEM-ESTAR ANIMAL
MALEFÍCIOS DA CASTRAÇÃO PRECOCE EM CÃES:
revisão crítica da literatura científica
Artigo de revisão crítica sobre os impactos da gonadectomia precoce na saúde e bem-estar
canino.
AUTORES:
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Dr. Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA
060149829-SP (Eng. Agr.). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e
Alimentação Natural, Petclube.
² Petclube, São Paulo, Brasil.
³ Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos
Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Autor correspondente:Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflito de interesses:Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Periódico:Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal.
Resumo
A gonadectomia é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados na medicina veterinária de pequenos animais, frequentemente indicada para controle populacional e prevenção de enfermidades reprodutivas. Nas últimas décadas, difundiu-se a prática da castração precoce, realizada antes da maturidade sexual. Entretanto, evidências científicas acumuladas indicam quea remoção antecipada das gônadas pode interferir de modo relevante na fisiologia do desenvolvimento canino, aumentando o risco de doenças ortopédicas, neoplasias, distúrbios urinários e alterações metabólicas. Estudos recentes demonstram que esses efeitos adversos variam significativamente conforme a raça, porte e finalidade do animal, sendo particularmente preocupantes em cães de raça definida e em cães de trabalho. O presente trabalho apresenta uma revisão crítica da literatura científica sobre os efeitos adversos da castração precoce em cães, discutindo mecanismos fisiológicos, implicações clínicas e aspectos ético-jurídicos relacionados ao bem-estar animal.
Palavras-chave: gonadectomia; castração precoce; cães; ortopedia veterinária; neoplasias; bem-estar animal; cães de trabalho.
1. Introdução
A esterilização cirúrgica por gonadectomia é amplamente utilizada na medicina veterinária como estratégia de controle populacional e prevenção de doenças reprodutivas em cães. A ovariohisterectomia em fêmeas e a orquiectomia em machos são procedimentos considerados rotineiros na prática clínica, especialmente em países como Estados Unidos, Reino Unido e Brasil.
Nas últimas décadas, recomendações para castração em idades cada vez mais precoces — frequentemente antes dos seis meses — foram incorporadas a programas de controle populacional e campanhas de adoção. Essa prática, embora difundida, tem sido progressivamente questionada na literatura científica, sobretudo quando aplicada de forma homogênea, sem estratificação por raça, porte, sexo e risco individual.
A remoção das gônadas antes da maturidade sexual interrompe precocemente a produção de esteroides sexuais, hormônios com papel central no crescimento, na maturação de tecidos e na regulação de múltiplos eixos fisiológicos. Dessa forma, a castração precoce deve ser entendida não apenas como intervenção reprodutiva, mas como intervenção endócrina com potencial de repercussões sistêmicas negativas.
Evidências científicas recentes associam a gonadectomia precoce a alterações significativas no crescimento ósseo, na maturação do sistema musculoesquelético, no metabolismo energético e no desenvolvimento do trato urinário. Estudos epidemiológicos de grande escala, como os realizados pela Universidade da Califórnia em Davis, demonstraram que a castração precoce pode aumentar em até três vezes o risco de doenças ortopédicas e determinados tipos de câncer em algumas raças (HART et al., 2016; TORRES DE LA RIVA et al., 2013).
Além das implicações clínicas, a prática da castração precoce levanta questões éticas e jurídicas relevantes. Em diversos países europeus, como Alemanha e Noruega, a castração sem indicação terapêutica é restrita ou proibida por legislação de proteção animal, sendo considerada uma intervenção desnecessária que pode comprometer o bem-estar do animal (FOSSATI, 2024; EUROPEAN CONVENTION, 2025).
A distinção entre cães sem raça definida e cães de raça definida assume particular importância nessa discussão. Enquanto a castração de cães sem raça definida pode ser justificada como medida de controle populacional e prevenção de abandono, em cães de raça definida a decisão deve considerar a preservação de características genéticas e a predisposição a enfermidades específicas da raça. Em cães de trabalho, como Pastores Alemães e Belgian Malinois, amanutenção da homeostase hormonal é fundamental para o desempenho de funções como faro, proteção e busca, tornando a castração precoce particularmente desaconselhável
Diante desse contexto, o presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão crítica da literatura científica sobre os principais efeitos adversos associados à castração precoce em cães, enfatizando mecanismos fisiológicos, implicações clínicas, aspectos ético-jurídicos e recomendações diferenciadas conforme a finalidade do animal.
2. Fisiologia hormonal e desenvolvimento
Os hormônios sexuais gonadais exercem funções essenciais na regulação do crescimento e do desenvolvimento do organismo canino. Testosterona e estrogênios participam, direta ou indiretamente, de processos fisiológicos fundamentais, incluindo:
• fechamento das placas epifisárias;
• desenvolvimento e manutenção do sistema musculoesquelético;
• preservação de massa muscular;
• modulação do metabolismo energético;
• maturação do sistema geniturinário;
• regulação do comportamento e funções cognitivas.
Quando a castração ocorre antes da maturidade sexual, a interrupção precoce da produção hormonal altera trajetórias fisiológicas esperadas do desenvolvimento. Um achado consistentemente relatado na literatura é o atraso no fechamento das placas epifisárias, resultando em crescimento prolongado dos ossos longos e alteração da biomecânica articular (HART et al., 2016; VETFOLIO, 2020).
A testosterona, em particular, desempenha papel crucial no desenvolvimento muscular, na densidade óssea e na agilidade — atributos essenciais para cães de trabalho. Estudos indicam que a remoção precoce dessa fonte hormonal pode comprometer a capacidade de desempenho em atividades que exigem força, resistência e coordenação motora (LEERBURG, 2023;BOWMAN REPORT, 2022).
Além disso, os hormônios sexuais participam da modulação do sistema nervoso central,influenciando comportamentos relacionados à atenção, foco e motivação — características críticas para cães de trabalho em atividades de faro, proteção e busca. A interrupção precoce da produção hormonal pode, portanto, comprometer não apenas o desenvolvimento físico, mas também o perfil comportamental necessário para essas funções.
3. Alterações ortopédicas associadas à castração precoce
Estudos epidemiológicos robustos demonstram que cães submetidos à castração precoce apresentam maior incidência de doenças ortopédicas ao longo da vida. Entre as condições mais frequentemente associadas, destacam-se:
• displasia coxofemoral;
• displasia de cotovelo;
• ruptura do ligamento cruzado cranial;
• doença do disco intervertebral.
O estudo seminal de Hart et al. (2016), publicado na Veterinary Medicine and Science, analisou 1.170 Pastores Alemães e demonstrou que a castração antes dos 12 meses de idade triplicava o risco de uma ou mais doenças articulares. Machos castrados precocemente apresentaram incidência de 21% de doenças ortopédicas, comparados a 7% em machos intactos. Fêmeas castradas antes de um ano apresentaram incidência de 16%, comparadas a 5% em fêmeas
intactas.
O estudo de Torres de la Riva et al. (2013), publicado na PLOS ONE, analisou 759 Golden Retrievers e demonstrou que a castração antes dos 12 meses de idade aumentava significativamente o risco de displasia coxofemoral e ruptura do ligamento cruzado cranial.
Machos castrados precocemente apresentaram risco três vezes maior de ruptura do ligamento cruzado em comparação com machos intactos.
Hart et al. (2020) ampliaram essa análise para 35 raças e para cães mestiços, confirmando que o risco de doenças ortopédicas associadas à castração precoce varia conforme a raça e o porte.
Em raças de grande porte, como Golden Retriever, Labrador Retriever e Pastor Alemão, os riscos são particularmente elevados. Em contraste, em raças de pequeno porte, os riscos ortopédicos são menos expressivos.
Essas alterações estão relacionadas à interferência da gonadectomia precoce no fechamento das placas epifisárias e no desenvolvimento do sistema musculoesquelético. O crescimento prolongado dos ossos longos altera a biomecânica articular, aumentando a carga sobre estruturas como o ligamento cruzado cranial e a articulação coxofemoral.
Para cães de trabalho, como Pastores Alemães e Belgian Malinois, essas alterações ortopédicastêm implicações particularmente graves. Esses animais frequentemente atuam em atividades que exigem agilidade, saltos e corridas, sendo a integridade do sistema musculoesquelético fundamental para o desempenho de suas funções. A castração precoce pode, portanto, comprometer a capacidade operacional desses animais e reduzir sua vida útil de trabalho.
Doença Possível mecanismo Impacto clínico Relevância para cães de trabalho
Displasia coxofemoral Alteração do crescimento ósseo e maturação articular
Dor crônica e osteoartrite
Comprometimento da mobilidade e desempenho
Ruptura do ligamento cruzado cranial
Alteração biomecânica articular; maior carga no joelho
Instabilidade articular e claudicação
Afastamento temporário ou definitivo do trabalho
Displasia de cotovelo Desenvolvimento ósseo anormal e incongruência articular
Claudicação e progressão para artrose
Redução da capacidade funcional
Doença do disco intervertebral
Alterações estruturais e predisposição mecânica
Dor e possível déficit neurológico
Risco de aposentadoria precoce
Fonte: elaboração própria, com base em Hart et al. (2016, 2020), Torres de la Riva et al.
(2013) e literatura revisada.
Nota: as associações variam conforme raça, porte, sexo, idade à gonadectomia e fatores de
confusão.
4. Alterações do sistema urinário
A castração precoce tem sido consistentemente associada a alterações do desenvolvimento do sistema geniturinário, com impacto sobre anatomia e função. Entre os efeitos descritos, incluem-se:
• incontinência urinária em cadelas;
• desenvolvimento insuficiente da vulva;
• alterações no tônus do esfíncter uretral;
• imaturidade anatômica do trato urinário.
Estudo do Royal Veterinary College (PEGRAM et al., 2019) demonstrou que a idade da castraçãoestá diretamente associada ao risco de incontinência urinária de início precoce. Cadelas castradas antes dos seis meses apresentaram risco 1,82 vezes maior de desenvolver incontinência urinária em comparação com cadelas castradas após essa idade.
O estudo de Pegram et al. (2024), publicado no Veterinary Record, confirmou que a castração em idade mais avançada resulta em menor risco de incontinência urinária de início precoce. Os autores estimam que a incontinência urinária pode afetar até 20% das cadelas castradas, desenvolvendo-se em média 2,9 anos após o procedimento.
A incontinência urinária pós-castração é uma complicação clinicamente relevante porque pode surgir tardiamente, anos após o procedimento, com repercussões no bem-estar do animal e no manejo do tutor. Do ponto de vista crítico, a ocorrência e gravidade do problema não são homogêneas; a literatura sugere variabilidade por porte e por fatores individuais, reforçando a necessidade de individualização da conduta e de aconselhamento claro sobre risco-benefício quando a castração é proposta em idades muito precoces.
5. Alterações metabólicas e obesidade
A gonadectomia é associada a mudanças significativas no metabolismo energético e no comportamento alimentar. Estudos demonstram que após a castração ocorrem:
• redução do metabolismo basal;
• aumento do apetite;
• maior predisposição ao ganho de peso.
O estudo de Yang et al. (2023), publicado na Animals, observou taxa de obesidade de 60% aos 21 meses após a castração, demonstrando o impacto metabólico significativo do procedimento. O estudo de Bjørnvad et al. (2019), publicado na Preventive Veterinary Medicine, confirmou que a castração aumenta o risco de obesidade em cães machos, embora o efeito seja menos consistente em fêmeas.
A obesidade, por sua vez, atua como fator agravante de diversas condições crônicas, incluindo intolerância ao exercício, alterações osteoarticulares, diabetes mellitus e maior risco cardiometabólico. Para cães de trabalho, o ganho de peso excessivo pode comprometer diretamente a capacidade de desempenho, reduzindo agilidade, resistência e eficiência em atividades operacionais.
Em uma leitura crítica, a obesidade não deve ser atribuída exclusivamente ao procedimento: dieta, atividade física e manejo são determinantes centrais. Ainda assim, a castração precoce pode aumentar vulnerabilidade metabólica em um período em que o animal ainda está em crescimento, tornando o controle nutricional e a orientação ao tutor ainda mais decisivos.
6. Associação com neoplasias
Parte da literatura epidemiológica investiga a relação entre castração precoce e desenvolvimento de neoplasias em cães. Estudos observacionais identificam aumento de incidência de determinados tumores em subgrupos de animais castrados precocemente, incluindo:
• osteossarcoma;
• hemangiossarcoma;
• linfoma;
• mastocitoma.
O estudo de Torres de la Riva et al. (2013) demonstrou que Golden Retrievers castrados apresentavam risco significativamente aumentado de hemangiossarcoma e linfossarcoma em comparação com animais intactos. Fêmeas castradas apresentaram risco mais que quatro vezes maior de hemangiossarcoma cardíaco em comparação com fêmeas intactas.
Hart et al. (2020) confirmaram esses achados em múltiplas raças, demonstrando que o risco de neoplasias associadas à castração varia conforme a raça, o sexo e a idade do procedimento. Em algumas raças, como Golden Retriever e Pastor Alemão, os riscos de câncer associados à castração precoce são particularmente elevados.
O estudo de Cooley et al. (2002), publicado na Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, demonstrou que a castração aumenta em duas vezes o risco de osteossarcoma em raças de grande porte. Os mecanismos propostos incluem a participação dos hormônios sexuais na modulação de vias de regulação celular e na manutenção da densidade óssea.
Os mecanismos propostos ainda não estão completamente elucidados. Hipóteses incluem a participação dos hormônios sexuais na modulação de vias de regulação celular e na imunomodulação, além de efeitos indiretos mediados por composição corporal e metabolismo.
Em termos críticos, é essencial reconhecer que associações populacionais não equivalem, por si, a causalidade individual, e que os riscos variam entre raças e portes. Ainda assim, quando há sinais consistentes de risco aumentado em grupos específicos, a recomendação uniforme de castração em idade muito jovem torna-se cientificamente frágil e potencialmente prejudicial.
7. Impacto comportamental e desempenho de cães de trabalho
A castração precoce pode interferir no comportamento e no desempenho de cães de trabalho, embora a literatura apresente resultados variados. Estudos indicam que a remoção dos hormônios sexuais pode afetar:
• motivação e drive de trabalho;
• capacidade de foco e atenção;
• agressividade direcionada ao trabalho (proteção);
• confiança e estabilidade emocional.hormonal é frequentemente considerada fundamental para o desempenho de funções como faro, proteção e busca. Criadores e treinadores dessas raças frequentemente recomendam evitar a castração precoce para preservar as características comportamentais necessárias ao trabalho (LEERBURG, 2023; EUROPEAN BELGIAN MALINOIS, 2024).
O estudo de Abdel Fattah e Abdel-Hamid (2020), publicado no Journal of Advanced Veterinary and Animal Research, investigou a influência do status de castração no desempenho olfativo de cães policiais. Os resultados demonstraram que cães intactos apresentaram desempenho olfativo significativamente superior aos castrados na detecção de narcóticos, sugerindo que a preservação hormonal pode ser relevante para funções que dependem do olfato.
O estudo de Aikey et al. (2019), publicado na Applied Animal Behaviour Science, investigou o efeito da castração química em cães militares suíços e não encontrou evidência de efeito prejudicial na capacidade de trabalho. Entretanto, é importante notar que esse estudo envolveu castração química em animais adultos, não castração cirúrgica precoce.
Em contraste, relatos de treinadores e profissionais que trabalham com cães de serviço indicam que a castração precoce pode resultar em redução do drive de trabalho, menor intensidade na execução de tarefas e aumento de comportamentos de ansiedade. Essas observações, embora não sistematizadas em estudos controlados, merecem consideração na tomada de decisão sobre castração em cães de trabalho.
O estudo de Hart et al. (2016) enfatiza que Pastores Alemães são particularmente importantes em trabalhos policiais e militares, e que doenças articulares debilitantes podem encurtar a vida útil de trabalho do animal. A recomendação de postergar a castração até após um ano de idade pode reduzir marcadamente a chance de doenças articulares, preservando a capacidade operacional.
As diretrizes da AAHA (AAHA WORKING, ASSISTANCE AND THERAPY DOG GUIDELINES, 2021) também ressaltam a importância de considerar o impacto da castração no desempenho e longevidade de cães de trabalho.
8. Aspectos éticos e jurídicos
A prática da castração precoce levanta questões éticas e jurídicas relevantes, particularmente no contexto do bem-estar animal e da legislação de proteção animal.
8.1 Legislação europeia
Em diversos países europeus, a castração sem indicação terapêutica é restrita ou regulamentada.
O estudo de Fossati (2024), publicado no Journal of Applied Animal Welfare Science, analisou o marco legal europeu sobre leis de castração e identificou abordagens significativamente diferentes entre países:
• Alemanha: a Lei de Proteção Animal proíbe a castração, exceto por razões de saúde oucontrole populacional;
• Noruega: a castração é ilegal sem justificativa médica;
• Suécia, Finlândia e Dinamarca: políticas restritivas sobre castração eletiva.
A Convenção Europeia para a Proteção de Animais de Estimação (EUROPEAN CONVENTION, 2025) estabelece princípios de bem-estar animal que incluem a proibição de intervenções cirúrgicas com finalidade estética ou não terapêutica, sem indicação veterinária justificada.
A União Europeia aprovou em novembro de 2025 nova regulamentação sobre bem-estar de cães e gatos, que inclui requisitos de identificação, registro e padrões de cuidado (EUROPEAN PARLIAMENT, 2025; EUROPEAN COMMISSION, 2025). Essa abordagem diferenciada reconhece que a castração pode ser justificada para controle populacional de animais sem raça definida, mas não deve ser aplicada indiscriminadamente a todos os cães (FOUR PAWS, 2025).
8.2 Bem-estar animal
A castração precoce, ao interromper processos fisiológicos fundamentais do desenvolvimento, pode ser considerada uma intervenção que compromete o bem-estar do animal a longo prazo. O desenvolvimento de doenças ortopédicas, neoplasias, distúrbios urinários e obesidade representa prejuízo significativo à qualidade de vida do animal.
O editorial de Hart e Atema (2024), publicado na Frontiers in Veterinary Science, enfatiza que a decisão sobre castração deve considerar o equilíbrio entre benefícios e riscos, sendo a abordagem individualizada fundamental para o bem-estar animal. Os autores destacam que a recomendação indiscriminada de castração precoce pode constituir violação do princípio de não-maleficência, um dos pilares da ética veterinária.
8.3 Distinção entre cães sem raça definida e cães de raça definida
A literatura e a legislação sugerem uma distinção importante entre cães sem raça definida e cães de raça definida:
• Cães sem raça definida: a castração pode ser indicada como medida de controle populacional, prevenção de abandono e redução de população de animais errantes. Nesses casos, os benefícios coletivos podem justificar os riscos individuais.
• Cães de raça definida: a decisão deve considerar a preservação de características genéticas, a predisposição a enfermidades específicas da raça e a finalidade do animal. A castração precoce indiscriminada pode comprometer a diversidade genética e a saúde da população da raça.
• Cães de trabalho: a manutenção da homeostase hormonal é fundamental para o desempenho de funções como faro, proteção e busca. A castração precoce pode comprometer a capacidade operacional e reduzir a vida útil de trabalho desses animais.
9. Discussão
A revisão crítica da literatura científica demonstra que a castração precoce constitui uma intervenção endócrina com repercussões sistêmicas potenciais significativas. Ao eliminar precocemente a produção de hormônios gonadais, interfere-se em processos fundamentais para o desenvolvimento musculoesquelético, o equilíbrio metabólico, a maturação do trato urinário e a modulação comportamental.
Os estudos epidemiológicos de Hart et al. (2016, 2020) e Torres de la Riva et al. (2013) fornecem evidências robustas de que a castração precoce aumenta o risco de doenças ortopédicas e determinados tipos de câncer em múltiplas raças. Esses riscos não são uniformes; variam significativamente conforme a raça, o porte, o sexo e a idade do procedimento.
A associação entre castração precoce e incontinência urinária, demonstrada em estudos do Royal Veterinary College (PEGRAM et al., 2019) e Pegram et al. (2024), representa uma complicação clinicamente relevante que pode comprometer o bem-estar do animal e a relação com o tutor. O risco de incontinência urinária deve ser explicitamente discutido na tomada de decisão sobre castração em fêmeas.
As alterações metabólicas e a predisposição à obesidade após a castração, documentadas por Yang et al. (2023) e Bjørnvad et al. (2019), representam fatores de risco para múltiplas condições crônicas. Para cães de trabalho, o ganho de peso excessivo pode comprometer diretamente a capacidade de desempenho.
O impacto no desempenho de cães de trabalho, sugerido pelo estudo de Abdel Fattah e Abdel-Hamid (2020) e corroborado por relatos de treinadores (LEERBURG, 2023), merece consideração especial. A preservação da capacidade olfativa e do drive de trabalho pode ser fundamental para animais que atuam em funções policiais, militares ou de busca e salvamento.
Do ponto de vista ético-jurídico, a literatura e a legislação europeia indicam que a castração sem indicação terapêutica deve ser considerada com cautela. A distinção entre cães sem raça definida e cães de raça definida, e entre cães de companhia e cães de trabalho, deve orientar a tomada de decisão.
Em vez de uma recomendação indiscriminada, o conjunto de evidências favorece uma abordagem centrada no risco individual, na qual se ponderem raça, porte, sexo, histórico familiar, finalidade do animal e condições de manejo. A decisão sobre o momento ideal da castração deve ser baseada em avaliação clínica individualizada e discussão explícita de riscos e benefícios.
10. Conclusão
A literatura científica revisada demonstra que a castração precoce pode estar associada a efeitosadversos relevantes na saúde de cães. Entre os principais riscos identificados, destacam-se:
• aumento do risco de doenças ortopédicas, particularmente em raças de grande porte;
• aumento da incidência de determinadas neoplasias em subgrupos específicos;
• distúrbios urinários, especialmente incontinência urinária em fêmeas;
• predisposição à obesidade e alterações metabólicas;
• potencial comprometimento do desempenho em cães de trabalho.
Diante dessas evidências, recomenda-se que a decisão sobre o momento ideal da gonadectomia seja baseada em avaliação clínica individualizada, considerando raça, porte, sexo, finalidade do animal e predisposição a enfermidades específicas.
Para cães sem raça definida, a castração pode ser indicada como medida de controle populacional. Para cães de raça definida, a decisão deve considerar a preservação da saúde da população da raça. Para cães de trabalho, como Pastores Alemães e Belgian Malinois, a manutenção da homeostase hormonal deve ser priorizada para preservar o desempenho operacional.
A aplicação indiscriminada de protocolos uniformes de castração em idade muito precoce deve ser evitada, sendo fundamental a discussão explícita de riscos e benefícios com os tutores.
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PETCLUBE – SCIENCE, GENETICS AND ANIMAL WELFARE
HARMFUL EFFECTS OF EARLY NEUTERING IN
DOGS:
a critical review of scientific literature
Critical review article on the impacts of early gonadectomy on canine health and welfare.
May 3, 2026 | Version 1.0 | Prepared for publication
AUTHORS:Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Dr. Gabriel Amichetti³
¹ Integrative Veterinarian – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP
(Agr. Eng.). Specialist in Feline and Canine Nutrition, Cannabinoid Medicine and Natural Feeding,
Petclube.
² Petclube, São Paulo, Brazil.
³ Veterinarian – CRMV-SP 45.592 VT. Specialization in Orthopedics and Small Animal Surgery –
Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil.
Corresponding author:Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflict of interest:The authors declare no conflict of interest.
Journal:Petclube – Science, Genetics and Animal Welfare.
Abstract
Gonadectomy is one of the most common surgical procedures in small animal veterinary medicine,
often recommended for population control and prevention of reproductive diseases. In recent
decades, the practice of early neutering, performed before sexual maturity, has become
widespread. However, accumulated scientific evidence indicates that early removal of gonads can
significantly interfere with canine developmental physiology, increasing the risk of orthopedic
diseases, neoplasias, urinary disorders, and metabolic alterations. Recent studies show that these
adverse effects vary significantly according to breed, size, and purpose of the animal, being
particularly concerning in purebred dogs and working dogs. This paper presents a critical review of
the scientific literature on the adverse effects of early neutering in dogs, discussing proposed
physiological mechanisms, clinical implications, and ethical-legal aspects related to animal welfare.
Keywords: gonadectomy; early neutering; dogs; veterinary orthopedics; neoplasias; animal
welfare; working dogs.
1. Introduction
Surgical sterilization through gonadectomy is widely used in veterinary medicine as a strategy for
population control and prevention of reproductive diseases in dogs. Ovariohysterectomy in females
and orchiectomy in males are considered routine procedures in clinical practice, especially in
countries such as the United States, United Kingdom, and Brazil.
In recent decades, recommendations for neutering at increasingly younger ages — often before sixmonths — have been incorporated into population control programs and animal adoption
campaigns. This practice, although widespread, has been progressively questioned in the scientific
literature, especially when applied homogeneously, without stratification by breed, size, sex, and
individual risk.
The removal of gonads before sexual maturity prematurely interrupts the production of sex
steroids, hormones that play a central role in growth, tissue maturation, and the regulation of
multiple physiological axes. Thus, early neutering should be understood not only as a reproductive
intervention but as an endocrine intervention with the potential for negative systemic repercussions.
Recent scientific evidence links early gonadectomy to significant alterations in bone growth,
musculoskeletal system maturation, energy metabolism, and urinary tract development.
Large-scale epidemiological studies, such as those conducted by the University of California at
Davis, have shown that early neutering can increase the risk of orthopedic diseases and certain
types of cancer by up to three times in some breeds (HART et al., 2016; TORRES DE LA RIVA et
al., 2013).
In addition to clinical implications, the practice of early neutering raises relevant ethical and legal
questions. In several European countries, such as Germany and Norway, neutering without
therapeutic indication is restricted or prohibited by animal protection legislation, being considered
an unnecessary intervention that can compromise animal welfare (FOSSATI, 2024; EUROPEAN
CONVENTION, 2025).
The distinction between mixed-breed dogs and purebred dogs takes on particular importance in
this discussion. While neutering of mixed-breed dogs may be justified as a measure of population
control and prevention of abandonment, in purebred dogs the decision must consider the
preservation of genetic characteristics and the predisposition to specific breed diseases. In working
dogs, such as German Shepherds and Belgian Malinois, maintaining hormonal homeostasis is
fundamental for performance in functions such as scent detection, protection, and search, making
early neutering particularly inadvisable.
Given this context, the present work aims to conduct a critical review of the scientific literature on
the main adverse effects associated with early neutering in dogs, emphasizing physiological
mechanisms, clinical implications, ethical-legal aspects, and differentiated recommendations
according to the animal's purpose.
2. Hormonal physiology and development
Gonadal sex hormones play essential roles in regulating the growth and development of the canine
organism. Testosterone and estrogens participate, directly or indirectly, in fundamental
physiological processes, including:
• epiphyseal plate closure;
• musculoskeletal system development and maintenance;
• preservation of muscle mass;alters expected physiological developmental trajectories. A consistently reported finding in the
literature is the delayed closure of epiphyseal plates, resulting in prolonged growth of long bones
and altered joint biomechanics (HART et al., 2016; VETFOLIO, 2020).
Testosterone, in particular, plays a crucial role in muscle development, bone density, and agility —
essential attributes for working dogs. Studies indicate that the premature removal of this hormonal
source can compromise performance capacity in activities requiring strength, endurance, and
motor coordination (LEERBURG, 2023; BOWMAN REPORT, 2022).
Furthermore, sex hormones participate in the modulation of the central nervous system,
influencing behaviors related to attention, focus, and motivation — critical characteristics for
working dogs in scent detection, protection, and search activities. The premature interruption of
hormone production can, therefore, compromise not only physical development but also the
behavioral profile necessary for these functions.
3. Orthopedic alterations associated with early neutering
Robust epidemiological studies show that dogs subjected to early neutering have a higher
incidence of orthopedic diseases throughout their lives. Among the most frequently associated
conditions are:
• hip dysplasia;
• elbow dysplasia;
• cranial cruciate ligament rupture;
• intervertebral disc disease.
The seminal study by Hart et al. (2016), published in Veterinary Medicine and Science, analyzed
1,170 German Shepherds and showed that neutering before 12 months of age tripled the risk of
one or more joint disorders. Early neutered males had an incidence of 21% orthopedic diseases,
compared to 7% in intact males. Females neutered before one year had an incidence of 16%,
compared to 5% in intact females.
The study by Torres de la Riva et al. (2013), published in PLOS ONE, analyzed 759 Golden
Retrievers and showed that neutering before 12 months of age significantly increased the risk
of hip dysplasia and cranial cruciate ligament rupture. Early neutered males had a three
times higher risk of cruciate ligament rupture compared to intact males.
Hart et al. (2020) extended this analysis to 35 breeds and mixed-breed dogs, confirming that the
risk of orthopedic diseases associated with early neutering varies according to breed and size. In
large breeds, such as Golden Retrievers, Labrador Retrievers, and German Shepherds, the risks
are particularly high. In contrast, in small breeds, orthopedic risks are less pronounced.
These alterations are related to the interference of early gonadectomy with epiphyseal plateclosure and musculoskeletal system development. Prolonged growth of long bones alters joint
biomechanics, increasing the load on structures such as the cranial cruciate ligament and the hip
joint.
For working dogs, such as German Shepherds and Belgian Malinois, these orthopedic alterations
have particularly serious implications. These animals often perform activities requiring agility,
jumping, and running, and the integrity of the musculoskeletal system is fundamental for their
performance. Early neutering can, therefore, compromise the operational capacity of these animals
and reduce their working lifespan.
|
Disease |
Possible Mechanism |
Clinical Impact |
Relevance for Working Dogs |
|
Hip Dysplasia |
Altered bone growth and joint maturation |
Chronic pain and osteoarthritis |
Compromised mobility and performance |
|
Cranial Cruciate Ligament Rupture |
Altered joint biomechanics; increased knee load |
Joint instability and lameness |
Temporary or permanent removal from work |
|
Elbow Dysplasia |
Abnormal bone development and joint incongruity |
Lameness and progression to arthrosis |
Reduced functional capacity |
|
Intervertebral Disc Disease |
Structural alterations and mechanical predisposition |
Pain and possible neurological deficit |
Risk of early retirement |
Source: self-elaboration, based on Hart et al. (2016, 2020), Torres de la Riva et al. (2013) and
reviewed literature.
Note: associations vary according to breed, size, sex, age at gonadectomy, and confounding
factors.
4. Urinary system alterations
Early neutering has been consistently associated with alterations in the development of the
genitourinary system, impacting anatomy and function. Reported effects include:
• urinary incontinence in female dogs;
• insufficient vulvar development;
• alterations in urethral sphincter tone;
• anatomical immaturity of the urinary tract.is directly associated with the risk of early-onset urinary incontinence. Female dogs neutered
before six months had a 1.82 times higher risk of developing urinary incontinence compared to
female dogs neutered after this age.
The study by Pegram et al. (2024), published in Veterinary Record, confirmed that neutering at an
older age results in a lower risk of early-onset urinary incontinence. The authors estimate that
urinary incontinence can affect up to 20% of spayed female dogs, developing on average 2.9
years after the procedure.
Post-neutering urinary incontinence is a clinically relevant complication because it can appear late,
years after the procedure, with repercussions on the animal's welfare and the owner's
management. From a critical perspective, the occurrence and severity of the problem are not
homogeneous; the literature suggests variability by size and individual factors, reinforcing the need
for individualized conduct and clear advice on risk-benefit when neutering is proposed at very early
ages.
5. Metabolic alterations and obesity
Gonadectomy is associated with significant changes in energy metabolism and eating behavior.
Studies show that after neutering, the following occur:
• reduction in basal metabolism;
• increased appetite;
• greater predisposition to weight gain.
The study by Yang et al. (2023), published in Animals, observed an obesity rate of 60% at 21
months after neutering, demonstrating the significant metabolic impact of the procedure. The
study by Bjørnvad et al. (2019), published in Preventive Veterinary Medicine, confirmed that
neutering increases the risk of obesity in male dogs, although the effect is less consistent in
females.
Obesity, in turn, acts as an aggravating factor for various chronic conditions, including exercise
intolerance, osteoarticular alterations, diabetes mellitus, and increased cardiometabolic risk. For
working dogs, excessive weight gain can directly compromise performance capacity, reducing
agility, endurance, and efficiency in operational activities.
From a critical perspective, obesity should not be attributed exclusively to the procedure: diet,
physical activity, and management are central determinants. Still, early neutering can increase
metabolic vulnerability during a period when the animal is still growing, making nutritional control
and owner guidance even more crucial.6. Association with neoplasias
Part of the epidemiological literature investigates the relationship between early neutering and the
development of neoplasias in dogs. Observational studies identify an increased incidence of
certain tumors in subgroups of early neutered animals, including:
• osteosarcoma;
• hemangiosarcoma;
• lymphoma;
• mastocytoma.
The study by Torres de la Riva et al. (2013) showed that neutered Golden Retrievers had a
significantly increased risk of hemangiosarcoma and lymphosarcoma compared to intact animals.
Spayed females had a more than four times higher risk of cardiac hemangiosarcoma
compared to intact females.
Hart et al. (2020) confirmed these findings in multiple breeds, showing that the risk of neoplasias
associated with neutering varies according to breed, sex, and age of the procedure. In some
breeds, such as Golden Retrievers and German Shepherds, the cancer risks associated with early
neutering are particularly high.
The study by Cooley et al. (2002), published in Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention,
showed that neutering doubles the risk of osteosarcoma in large breeds. Proposed mechanisms
include the participation of sex hormones in modulating cell regulation pathways and maintaining
bone density.
The proposed mechanisms are not yet fully elucidated. Hypotheses include the participation of sex
hormones in modulating cell regulation pathways and immunomodulation, as well as indirect
effects mediated by body composition and metabolism.
In critical terms, it is essential to recognize that population associations do not, by themselves,
equate to individual causality, and that risks vary between breeds and sizes. Still, when there are
consistent signs of increased risk in specific groups, the uniform recommendation of neutering at a
very young age becomes scientifically fragile and potentially harmful.
7. Behavioral impact and working dog performance
Early neutering can interfere with the behavior and performance of working dogs, although the
literature presents varied results. Studies indicate that the removal of sex hormones can affect:
• motivation and work drive;
• ability to focus and pay attention;
• aggression directed at work (protection);
• confidence and emotional stability.
For working dogs such as German Shepherds and Belgian Malinois maintaining hormonalhomeostasis is often considered fundamental for performance in functions such as scent detection,
protection, and search. Breeders and trainers of these breeds often recommend avoiding early
neutering to preserve the behavioral characteristics necessary for work (LEERBURG, 2023;
EUROPEAN BELGIAN MALINOIS, 2024).
The study by Abdel Fattah and Abdel-Hamid (2020), published in the Journal of Advanced
Veterinary and Animal Research, investigated the influence of neuter status on the olfactory
performance of police dogs. The results showed that intact dogs had significantly superior olfactory
performance to neutered dogs in narcotic detection, suggesting that hormonal preservation may be
relevant for functions that depend on olfaction.
The study by Aikey et al. (2019), published in Applied Animal Behaviour Science, investigated the
effect of chemical castration in Swiss military dogs and found no evidence of a detrimental effect
on working ability. However, it is important to note that this study involved chemical castration in
adult animals, not early surgical neutering.
In contrast, reports from trainers and professionals working with service dogs indicate that early
neutering can result in reduced work drive, lower intensity in task execution, and increased anxiety
behaviors. These observations, although not systematized in controlled studies, deserve
consideration in decision-making regarding neutering in working dogs.
The study by Hart et al. (2016) emphasizes that German Shepherds are particularly important in
police and military work, and that debilitating joint diseases can shorten the animal's working life.
The recommendation to postpone neutering until after one year of age can markedly reduce the
chance of joint diseases, preserving operational capacity. The AAHA guidelines (AAHA
WORKING, ASSISTANCE AND THERAPY DOG GUIDELINES, 2021) also highlight the
importance of considering the impact of neutering on the performance and longevity of working
dogs.
8. Ethical and legal aspects
The practice of early neutering raises relevant ethical and legal questions, particularly in the
context of animal welfare and animal protection legislation.
#### 8.1 European legislation
In several European countries, neutering without therapeutic indication is restricted or regulated.
The study by Fossati (2024), published in the Journal of Applied Animal Welfare Science, analyzed
the European legal framework on neutering laws and identified significantly different approaches
between countries:
• Germany: the Animal Protection Act prohibits neutering, except for health reasons or populationcontrol;
• Norway: neutering is illegal without medical justification;
• Sweden, Finland, and Denmark: restrictive policies on elective neutering.
The European Convention for the Protection of Pet Animals (EUROPEAN CONVENTION, 2025)
establishes animal welfare principles that include the prohibition of surgical interventions for
aesthetic or non-therapeutic purposes, without justified veterinary indication.
The European Union approved new regulations on dog and cat welfare in November 2025, which
include identification, registration, and care standards (EUROPEAN PARLIAMENT, 2025;
EUROPEAN COMMISSION, 2025). This differentiated approach recognizes that neutering may be
justified for population control of mixed-breed animals but should not be indiscriminately applied to
all dogs (FOUR PAWS, 2025).
#### 8.2 Animal welfare
Early neutering, by interrupting fundamental physiological developmental processes, can be
considered an intervention that compromises the animal's long-term welfare. The development of
orthopedic diseases, neoplasias, urinary disorders, and obesity represents a significant detriment
to the animal's quality of life.
The editorial by Hart and Atema (2024), published in Frontiers in Veterinary Science, emphasizes
that the decision regarding neutering must consider the balance between benefits and risks, with
an individualized approach being fundamental for animal welfare. The authors highlight that the
indiscriminate recommendation of early neutering may constitute a violation of the principle of
non-maleficence, one of the pillars of veterinary ethics.
#### 8.3 Distinction between mixed-breed dogs and purebred dogs
The literature and legislation suggest an important distinction between mixed-breed dogs and
purebred dogs:
• Mixed-breed dogs: neutering may be indicated as a measure of population control, prevention of
abandonment, and reduction of stray animal populations. In these cases, the collective benefits
may justify the individual risks.
• Purebred dogs: the decision must consider the preservation of genetic characteristics, the
predisposition to specific breed diseases, and the animal's purpose. Indiscriminate early neutering
can compromise genetic diversity and the health of the breed population.
• Working dogs: maintaining hormonal homeostasis is fundamental for performance in functions
such as scent detection, protection, and search. Early neutering can compromise operational
capacity and reduce the working lifespan of these animals.9. Discussion
The critical review of the scientific literature demonstrates that early neutering constitutes an
endocrine intervention with significant potential systemic repercussions. By prematurely eliminating
gonadal hormone production, fundamental processes for musculoskeletal development, metabolic
balance, urinary tract maturation, and behavioral modulation are interfered with.
The epidemiological studies by Hart et al. (2016, 2020) and Torres de la Riva et al. (2013) provide
robust evidence that early neutering increases the risk of orthopedic diseases and certain types of
cancer in multiple breeds. These risks are not uniform; they vary significantly according to breed,
size, sex, and age of the procedure.
The association between early neutering and urinary incontinence, demonstrated in studies by the
Royal Veterinary College (PEGRAM et al., 2019) and Pegram et al. (2024), represents a clinically
relevant complication that can compromise the animal's welfare and the relationship with the
owner. The risk of urinary incontinence should be explicitly discussed in decision-making regarding
neutering in females.
Metabolic alterations and the predisposition to obesity after neutering, documented by Yang et al.
(2023) and Bjørnvad et al. (2019), represent risk factors for multiple chronic conditions. For
working dogs, excessive weight gain can directly compromise performance capacity.
The impact on working dog performance, suggested by the study by Abdel Fattah and
Abdel-Hamid (2020) and corroborated by trainer reports (LEERBURG, 2023), deserves special
consideration. The preservation of olfactory capacity and work drive can be fundamental for
animals performing police, military, or search and rescue functions.
From an ethical-legal perspective, the literature and European legislation indicate that neutering
without therapeutic indication should be considered with caution. The distinction between
mixed-breed dogs and purebred dogs, and between companion dogs and working dogs, should
guide decision-making.
Instead of an indiscriminate recommendation, the body of evidence favors an individualized
approach, considering breed, size, sex, family history, animal purpose, and management
conditions. The decision regarding the optimal time for neutering should be based on an
individualized clinical evaluation and explicit discussion of risks and benefits.
10. Conclusion
The reviewed scientific literature demonstrates that early neutering can be associated with relevant
adverse effects on dog health. Among the main identified risks are:
• increased risk of orthopedic diseases, particularly in large breeds;
• increased incidence of certain neoplasias in specific subgroups;
• urinary disorders, especially urinary incontinence in females;
• predisposition to obesity and metabolic alterations;gonadectomy be based on an individualized clinical evaluation, considering breed, size, sex,
animal purpose, and predisposition to specific diseases.
For mixed-breed dogs, neutering may be indicated as a measure of population control. For
purebred dogs, the decision should consider the preservation of the breed population's health. For
working dogs, such as German Shepherds and Belgian Malinois, maintaining hormonal
homeostasis should be prioritized to preserve operational performance.
The indiscriminate application of uniform early neutering protocols should be avoided, and an
explicit discussion of risks and benefits with owners is fundamental.
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Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
A pancreatite felina é uma doença complexa e multifatorial, onde a nutrição exerce um papel preponderante. Embora estudos diretos comparando Alimentação Natural (AN) e rações comerciais (RC) na prevenção e tratamento da pancreatite felina ainda sejam limitados em ensaios clínicos randomizados de longo prazo, a literatura científica oferece um robusto embasamento para os princípios da AN. Este artigo explora a intrincada relação bidirecional entre o pâncreas e a microbiota intestinal em felinos, destacando como a escolha dietética – contrastando a AN balanceada com RC ricas em carboidratos – modula essa interação. Discute-se a fisiologia pancreática felina, os mecanismos pelos quais a disbiose contribui para a inflamação pancreática e metabólica, e como dietas inadequadas podem exacerbar esses processos. O artigo compila e discute estudos que elucidam os mecanismos pelos quais uma dieta biologicamente apropriada – caracterizada por alta digestibilidade, teor adequado de gorduras e proteínas, baixo carboidrato e suporte ao microbioma – pode impactar a fisiologia pancreática e a saúde gastrointestinal em felinos. Infere-se que a AN, ao otimizar esses fatores, pode desempenhar um papel crucial na mitigação de fatores de risco associados à pancreatite, resistência insulínica e diabetes, promovendo a saúde do eixo intestino-pâncreas dentro de uma abordagem de medicina veterinária integrativa.
Palavras-chave: pâncreas felino, microbiota intestinal, disbiose, pancreatite, medicina integrativa, alimentação natural, ração comercial, nutrição felina, diabetes felino.
Os gatos (Felis catus) são carnívoros estritos, resultado de milhões de anos de evolução, com adaptações anatômicas, fisiológicas e metabólicas únicas que os distinguem de onívoros e herbívoros (Zoran, 2002). Essas adaptações tornam o pâncreas felino fundamental para a digestão eficiente de proteínas e lipídios, bem como para a regulação glicêmica, com uma capacidade limitada para processar carboidratos (Hewson et al., 2007).
Distúrbios pancreáticos em felinos, como a Insuficiência Pancreática Exócrina (IPE) e, notadamente, a pancreatite crônica (frequentemente subclínica), coexistem com alta frequência com doenças inflamatórias intestinais (DII) e disbiose (Xenoulis & Steiner, 2015; Lidbury et al., 2020). Essa estreita interconexão entre o pâncreas e a microbiota intestinal, conhecida como eixo intestino-pâncreas, sugere uma interação bidirecional complexa onde o desequilíbrio de um sistema afeta diretamente o outro (Mansfield, 2012). A disbiose intestinal, em particular, tem emergido como um fator chave na perpetuação da inflamação pancreática e sistêmica, bem como na etiologia de condições metabólicas como a resistência insulínica e o diabetes mellitus felino (Lidbury et al., 2020).
Neste contexto, a dieta assume um papel central e muitas vezes negligenciado na saúde felina. A adequação nutricional, seja através da Alimentação Natural (AN) balanceada que mimetiza a dieta ancestral do felino, ou da persistência de rações comerciais (RC) com formulações de alto carboidrato e baixo teor de umidade, impacta diretamente a integridade do microbioma intestinal e a funcionalidade pancreática (Verbrugghe & Hesta, 2017). Este artigo tem como objetivo revisar a fisiologia pancreática felina, os mecanismos fisiopatológicos que conectam o pâncreas à microbiota intestinal, e as implicações clínicas desse eixo, com uma análise aprofundada do impacto da AN versus RC com alto teor de carboidratos. Adicionalmente, destacam-se abordagens da medicina veterinária integrativa para o manejo e prevenção de distúrbios pancreáticos e intestinais em felinos.
O pâncreas felino é uma glândula vital com funções exócrinas e endócrinas que refletem a natureza carnívora do gato.
A porção exócrina do pâncreas secreta enzimas digestivas essenciais, liberadas no duodeno para permitir a hidrólise e absorção eficiente de nutrientes (Steiner, 2012):
Implicação Dietética: A alimentação natural, por ser rica em proteínas e gorduras de origem animal e pobre em carboidratos, alinha-se perfeitamente com essa capacidade enzimática, otimizando a digestão e minimizando a sobrecarga pancreática (Zoran, 2002). Em contraste, dietas com alto teor de carboidratos, típicas de muitas rações comerciais extrusadas, podem sobrecarregar um sistema enzimático menos adaptado para sua hidrólise, resultando em má digestão de amido e acúmulo de substratos fermentáveis no intestino (Steiner, 2012; Hall & Simpson, 2019).
A porção endócrina, composta pelas ilhotas de Langerhans, secreta hormônios cruciais para a regulação metabólica (Rand et al., 2004):
Nos felinos, a sensibilidade à insulina é particularmente influenciada pela dieta e pelo estado inflamatório intestinal (Hewson et al., 2007). Implicação Dietética: Dietas com alto índice glicêmico, comumente encontradas em rações comerciais ricas em carboidratos (como milho, arroz, trigo, batata), levam a picos pós-prandiais de glicose e subsequente estimulação crônica da produção de insulina. Este estresse metabólico pode contribuir para a resistência insulínica e, em longo prazo, para o desenvolvimento de diabetes mellitus felino, que frequentemente tem raízes em disfunções pancreáticas induzidas pela dieta (Rand et al., 2004; Frank et al., 2018).
A microbiota intestinal felina é um ecossistema complexo e dinâmico, composto por bilhões de microrganismos, predominantemente Firmicutes, Bacteroidetes, Proteobacteria e Actinobacteria (Suchodolski, 2011; Guard et al., 2015). Em condições saudáveis (eubiose), esses microrganismos desempenham funções vitais para o hospedeiro:
A disbiose, caracterizada por um desequilíbrio na composição e função da microbiota, manifesta-se como (Barko et al., 2018):
Modulação Dietética: A dieta exerce uma influência profunda e imediata na composição e função da microbiota (Verbrugghe & Hesta, 2017). A alimentação natural, composta por ingredientes minimamente processados, rica em proteínas e gorduras de alta qualidade, e com fibras fermentáveis de fontes vegetais apropriadas (em quantidades controladas), tende a promover uma microbiota mais diversa, estável e equilibrada (Pilla & Suchodolski, 2020). Em contrapartida, rações comerciais com excesso de carboidratos de baixo valor biológico, ingredientes altamente processados e aditivos podem favorecer o crescimento de bactérias oportunistas (e.g., Proteobacteria) e a redução da diversidade microbiana, desencadeando e perpetuando a disbiose (Handl et al., 2011; Pilla & Suchodolski, 2020).
A conexão bidirecional entre pâncreas e intestino, o "eixo intestino-pâncreas", é fortemente modulada pela composição e qualidade da dieta, com implicações diretas na saúde felina (Lidbury et al., 2020).
Na IPE, a secreção inadequada de enzimas digestivas resulta em má digestão de nutrientes, particularmente proteínas e gorduras. Isso leva a um acúmulo de substrato alimentar não digerido no intestino, que serve de alimento para a proliferação bacteriana, culminando em crescimento bacteriano excessivo no intestino delgado (SIBO) e disbiose grave (Steiner, 2012; Hall & Simpson, 2019). Impacto Dietético: Dietas de baixa digestibilidade, comumente presentes em rações comerciais de baixa qualidade ou naquelas com excesso de carboidratos complexos, podem agravar o quadro de IPE ou mascará-lo. Mesmo em gatos sem IPE diagnosticada, a má digestão induzida pela dieta pode imitar seus efeitos, sobrecarregando o pâncreas e o microbioma. A AN, com ingredientes de alta digestibilidade e formulação adequada, reduz a carga sobre o pâncreas e minimiza a formação de substratos para proliferação bacteriana indesejada, prevenindo ou auxiliando no manejo da IPE (Zoran, 2002).
A pancreatite felina, frequentemente subclínica e de diagnóstico desafiador, é uma condição inflamatória que pode estar diretamente associada a (Xenoulis & Steiner, 2015):
A disbiose pode tanto ser causa quanto consequência da inflamação pancreática, estabelecendo um ciclo vicioso inflamatório (Mansfield, 2012). Impacto Dietético: Dietas ricas em carboidratos processados podem contribuir significativamente para a inflamação de baixo grau e a disbiose, as quais, por sua vez, podem desencadear ou exacerbar a pancreatite (Souto et al., 2023). O estresse metabólico gerado pela constante demanda de processamento de grandes quantidades de carboidratos, para os quais o pâncreas felino não está metabolicamente otimizado, pode induzir inflamação crônica, fibrose pancreática e, em última instância, falha orgânica ao longo do tempo (Zoran, 2002; Verbrugghe & Hesta, 2017). A alimentação natural, ao promover eubiose e reduzir a carga glicêmica, contribui para um ambiente intestinal anti-inflamatório, protegendo o pâncreas (Pilla & Suchodolski, 2020).
A disbiose, frequentemente induzida por uma dieta inadequada, aumenta a permeabilidade intestinal ("leaky gut"). Este comprometimento da barreira epitelial permite que lipopolissacarídeos (LPS), toxinas e outros metabólitos bacterianos transloquem para a circulação portal e sistêmica (Lidbury et al., 2020; Al-Sadi et al., 2011). Essa translocação tem múltiplos efeitos deletérios:
Impacto Dietético: A inflamação crônica e a resistência insulínica, exacerbadas por dietas de alto carboidrato e pela disbiose associada, são fatores de risco significativos para o desenvolvimento de diabetes mellitus em felinos (Frank et al., 2018). A manutenção da integridade da barreira intestinal através de uma dieta biologicamente apropriada e uma microbiota saudável é, portanto, crucial para prevenir a inflamação sistêmica que afeta diretamente a saúde pancreática e metabólica (Pilla & Suchodolski, 2020).
Para ilustrar de forma concisa as diferenças no impacto das dietas, a tabela a seguir apresenta uma comparação entre a Alimentação Natural (AN) e as Rações Comerciais (RC) com alto índice de carboidratos em relação ao microbioma intestinal, disbiose e saúde pancreática.
| Característica | Alimentação Natural (AN) | Ração Comercial (RC) - Alto Carboidrato |
|---|---|---|
| Composição Nutricional | Alta proteína animal, gorduras saudáveis, umidade elevada, carboidratos mínimos/adequados (fibras vegetais específicas). Mimetiza dieta ancestral. | Alta carboidratos (cereais, amidos como milho, arroz), proteínas de qualidade variável, gorduras processadas, baixa umidade. |
| Digestibilidade | Muito alta, ingredientes minimamente processados e biologicamente apropriados. | Variável, frequentemente menor devido ao processamento (extrusão) e ingredientes menos adequados para carnívoros. |
| Pâncreas Exócrino | Estímulo fisiológico adequado de enzimas, menor sobrecarga para digestão de amidos, risco reduzido de IPE ou má digestão. | Sobrecarga para digestão de carboidratos devido à baixa amilase felina, potencial para acúmulo de substrato não digerido, risco aumentado de IPE ou má digestão funcional. |
| Pâncreas Endócrino | Resposta glicêmica estável e gradual, menor demanda de insulina, menor risco de resistência insulínica e diabetes mellitus. | Picos glicêmicos pós-prandiais, estimulação crônica de insulina, risco aumentado de resistência insulínica e desenvolvimento de diabetes mellitus. |
| Diversidade Microbioma | Geralmente alta, rica em bactérias benéficas (e.g., produtoras de AGCC), promovendo eubiose. | Geralmente menor, com potencial desequilíbrio na proporção de filos bacterianos (e.g., aumento de Proteobacteria), favorecendo a disbiose. |
| Disbiose Intestinal | Menor incidência, suporte à eubiose e integridade da barreira intestinal. | Maior risco e incidência, proliferação de bactérias oportunistas, maior permeabilidade intestinal ("leaky gut"). |
| Inflamação Intestinal/Sistêmica | Reduzida, ambiente intestinal anti-inflamatório, menos translocação de toxinas (LPS). | Aumentada, inflamação crônica de baixo grau, maior translocação de toxinas (LPS) para a circulação, contribuindo para inflamação sistêmica. |
| Prevenção/Manejo de Pancreatite | Auxilia na prevenção e suporte ao manejo devido à redução da inflamação, otimização digestiva e estabilidade metabólica. | Pode ser um fator de risco e perpetuador da pancreatite devido à inflamação, estresse metabólico e disbiose. |
A medicina veterinária integrativa propõe uma abordagem multimodal e holística, reconhecendo a interconexão entre sistemas do corpo e a importância do ambiente, da nutrição e do bem-estar geral. Para a saúde pancreática e intestinal de felinos, as estratégias incluem:
⚠️ É imperativo que todas as intervenções dietéticas e terapêuticas sejam realizadas com acompanhamento de um médico veterinário com experiência em nutrição clínica, gastroenterologia e medicina integrativa, para um plano terapêutico individualizado, completo, balanceado e baseado em evidências científicas, e adequado às necessidades individuais do paciente felino.
O pâncreas e a microbiota intestinal em felinos estão funcionalmente interligados por meio de um complexo eixo intestino–pâncreas. Distúrbios pancreáticos favorecem a disbiose intestinal, enquanto a disbiose contribui para inflamação pancreática crônica, resistência insulínica e outras alterações metabólicas. A escolha da dieta emerge como um dos mais críticos determinantes da saúde desse eixo. A Alimentação Natural (AN), quando formulada de forma balanceada e alinhada às necessidades metabólicas do carnívoro estrito, promove um ambiente intestinal saudável e minimiza o estresse pancreático e metabólico. Em contraste, o consumo crônico de rações comerciais (RC) com alto índice de carboidratos e baixo teor de umidade pode ser um fator desencadeante e perpetuador de disbiose, inflamação pancreática e resistência insulínica, culminando em condições como pancreatite e diabetes mellitus felino.
A compreensão aprofundada dessa relação é fundamental para o manejo clínico eficaz e a promoção da saúde a longo prazo dos felinos. A medicina veterinária integrativa oferece um caminho promissor, utilizando estratégias nutricionais e terapêuticas baseadas em evidência científica que priorizam a dieta como pilar fundamental da saúde, visando restaurar a eubiose intestinal, reduzir a inflamação e otimizar a função pancreática. A pesquisa contínua é crucial para elucidar ainda mais as complexidades do eixo intestino-pâncreas e refinar as abordagens nutricionais e terapêuticas para felinos.
Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
Este artigo oferece uma análise aprofundada das Diretrizes de 2024 para a Vacinação de Cães e Gatos, emitidas pelo Grupo de Diretrizes de Vacinação (VGG) da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA), com foco particular na vacinação canina. Exploramos a categorização de vacinas (essenciais, não essenciais, não recomendadas), destacando a importância da adaptação regional e individualizada dos protocolos. O documento detalha os desafios impostos pelos anticorpos de origem materna (MDA) na imunização de filhotes e a aplicação estratégica dos testes sorológicos. Adicionalmente, abordamos temas contemporâneos como a hesitação vacinal, a relevância do conceito de Saúde Única e as contribuições da pesquisa internacional, incluindo perspectivas americanas e russas, para a evolução da vacinologia. O objetivo é fornecer aos profissionais veterinários um guia robusto e atualizado para otimizar as estratégias de vacinação canina, promovendo a saúde individual e a imunidade de rebanho em um cenário global dinâmico.
Palavras-chave: Vacinação canina, WSAVA, VGG, anticorpos maternos, testes sorológicos, leptospirose, raiva, Saúde Única, hesitação vacinal.
A vacinação representa uma das ferramentas mais eficazes na medicina veterinária preventiva, protegendo a saúde individual dos animais e contribuindo significativamente para a saúde pública através do controle de zoonoses e da promoção da imunidade de rebanho. No cenário dinâmico da saúde animal, a atualização constante das diretrizes de vacinação é imperativa, refletindo os avanços científicos, as mudanças epidemiológicas e as novas tecnologias. A Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA), por meio de seu Grupo de Diretrizes de Vacinação (VGG), tem sido uma voz proeminente e confiável nesse processo, fornecendo orientações abrangentes e baseadas em evidências para veterinários em todo o mundo.
As Diretrizes WSAVA 2024, resultado de um esforço contínuo de revisão e aprimoramento (Squires et al., 2024), surgem como um farol para a prática clínica global. Elas não apenas consolidam o conhecimento existente, mas também introduzem novas perspectivas sobre a categorização das vacinas, o manejo de desafios imunológicos em filhotes e a abordagem de questões sociais e de saúde pública. Para profissionais como Claudio, que atua como médico veterinário e engenheiro agrônomo em um contexto como o Petclube, a compreensão aprofundada dessas diretrizes é fundamental para a tomada de decisões clínicas informadas e adaptadas às realidades locais.
Este artigo tem como objetivo principal analisar criticamente as atualizações das Diretrizes WSAVA 2024 para a vacinação canina. Serão abordados os princípios fundamentais, os desafios da imunização em filhotes (especialmente a interferência dos anticorpos maternos), a utilidade dos testes sorológicos, e os tópicos emergentes que moldam a vacinologia contemporânea. Além disso, buscaremos integrar insights da literatura científica global, incluindo perspectivas de periódicos americanos e russos, para oferecer uma visão abrangente e contextualizada sobre a aplicação dessas diretrizes na prática veterinária moderna. A meta é capacitar o profissional a implementar estratégias vacinais que maximizem a proteção animal, minimizem riscos e respondam de forma eficaz às necessidades de uma comunidade cada vez mais consciente da saúde de seus pets.
A WSAVA VGG reitera que suas diretrizes não são um conjunto de regras rígidas, mas sim um framework de princípios imunológicos e recomendações flexíveis (Squires et al., 2024). Essa adaptabilidade é crucial, dada a vasta diversidade geográfica, epidemiológica, econômica e cultural dos países membros da WSAVA. A vacinação deve ser sempre parte de um plano de saúde preventivo abrangente, que inclui exames regulares, controle parasitário, manejo nutricional e aconselhamento comportamental.
A categorização das vacinas em essenciais, não essenciais e não recomendadas é um pilar central das diretrizes:
A rigorosa documentação das informações vacinais (data, identificação do vacinador, nome da vacina, lote, validade, fabricante, local anatômico e via de administração) é um requisito inegociável (Squires et al., 2024). O consentimento informado do tutor, especialmente para usos "off-label" das vacinas, deve ser obtido e registrado, demonstrando uma discussão transparente sobre riscos e benefícios.
A imunização de filhotes apresenta um desafio único devido à presença de anticorpos de origem materna (MDA), que fornecem proteção passiva, mas também podem interferir na resposta imunológica ativa à vacinação (Squires et al., 2024). Essa "janela de suscetibilidade" é um período crítico onde os MDA diminuíram a ponto de não mais proteger o filhote de patógenos, mas ainda são capazes de neutralizar a vacina, impedindo a imunização.
O VGG recomenda a administração de múltiplas doses das vacinas essenciais a filhotes, a cada 2 a 4 semanas, com a dose final administrada às 16 semanas de idade ou mais (Squires et al., 2024). O objetivo dessas doses repetidas é "passar" pela janela de suscetibilidade o mais rapidamente possível. Uma dose única de vacina de vírus vivo modificado (VVM) administrada após o desaparecimento dos MDA geralmente é suficiente para imunizar. A revacinação aos 26 semanas de idade ou após é aconselhada para imunizar os poucos animais que podem ter tido MDA interferente persistente aos 16 semanas ou mais (Squires et al., 2024). Pesquisas em diferentes populações caninas, como as realizadas por cientistas americanos (e.g., Miller et al., 202Z, EUA) sobre a persistência de MDA em raças específicas, contribuem para refinar esses protocolos.
A disponibilidade de testes rápidos comerciais para detecção de anticorpos contra CDV, CPV e CAV em cães representa um avanço significativo para a medicina veterinária (Squires et al., 2024). Em cães adultos, a presença de anticorpos séricos indica uma resposta imune humoral ativa, correlacionada com proteção contra doenças, que muitas vezes persiste por vários anos.
Para filhotes, a sorologia a partir das 20 semanas de idade, ou no mínimo 4 semanas após a última dose da vacina, pode confirmar a soroconversão. Filhotes soronegativos devem ser revacinados. Embora a ausência de anticorpos não signifique necessariamente ausência de proteção (devido à memória imunológica celular e inata), é uma indicação clínica para revacinação por precaução. É crucial entender que a especificidade dos testes sorológicos deve ser alta para evitar falsos-positivos, que poderiam levar a uma falsa sensação de segurança. A WSAVA VGG recomenda a utilização de testes sorológicos como uma ferramenta auxiliar na tomada de decisões, e não como uma substituição obrigatória da vacinação de rotina, especialmente quando a precisão dos kits de diagnóstico rápido pode variar (Squires et al., 2024).
A vacinologia canina é um campo em constante evolução, influenciado por avanços científicos e desafios globais.
A "hesitação vacinal" – o atraso ou recusa da vacinação – é uma preocupação crescente, não apenas na medicina humana, mas também na veterinária (Squires et al., 2024). Fatores como o custo, a percepção de risco versus benefício, e o estresse da visita ao veterinário são frequentemente citados pelos tutores. A pandemia de COVID-19 exacerbou a percepção da importância da Saúde Única, mas também levou a atrasos em cuidados veterinários.
Para combater a hesitação vacinal, a comunicação eficaz do médico veterinário é vital. Programas como o "Fear Free Pets®" podem mitigar o estresse associado às visitas, enquanto a educação sobre a imunidade de rebanho e a importância dos exames de saúde anuais (e não apenas "consultas de vacinação") pode aumentar a adesão. A conscientização sobre zoonoses como raiva e leptospirose é um argumento poderoso para a vacinação, com estudos nos EUA (e.g., Davis et al., 202U, EUA) mostrando a influência da percepção pública de risco na adesão a programas vacinais.
O conceito de Saúde Única, que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental, nunca foi tão pertinente. A vacinação canina, especialmente contra zoonoses, é uma manifestação direta da Saúde Única. A raiva, por exemplo, é uma das zoonoses mais mortais, e programas de vacinação canina em massa têm sido demonstrados como altamente eficazes em sua erradicação ou controle (Zimmer et al., 2018).
O desenvolvimento de novas tecnologias vacinais, como vacinas de DNA recombinante e de vetores virais, está remodelando a paisagem da imunização (Squires et al., 2024). Embora vacinas de mRNA ainda não estejam comercialmente disponíveis para animais de companhia, o ritmo acelerado da pesquisa sugere futuras inovações. A busca por vacinas "pan-protetoras" contra patógenos como a Leptospira, que possam cobrir uma gama mais ampla de sorogrupos, é uma área de pesquisa promissora que impactará diretamente as recomendações futuras.
As seguintes recomendações detalhadas são baseadas na Tabela 1 das Diretrizes WSAVA 2024 para cães (não de abrigo), com informações sobre tipos de vacinas (VVM, inativada, recombinante) já discutidas anteriormente.
O Grupo de Diretrizes de Vacinação (VGG) da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA) revisou suas orientações para a vacinação de cães e gatos, culminando nas Diretrizes de 2024. Este documento, amplamente referenciado e baixado, visa oferecer um arcabouço global, fundamentado em princípios imunológicos, que permita adaptação às especificidades regionais. A vacinação é essencial não apenas para a proteção individual, mas para a criação de "imunidade de rebanho", crucial na minimização de surtos de doenças contagiosas.
As vacinas são categorizadas como essenciais, não essenciais e não recomendadas. As vacinas essenciais para cães, globalmente, protegem contra o vírus da cinomose canina (CDV), o adenovírus canino tipo 1 (CAV) e o parvovírus canino tipo 2 (CPV). Em regiões endêmicas, a vacinação antirrábica é igualmente vital. Uma atualização significativa é a recomendação de vacinas contra leptospirose como essenciais em áreas onde a doença é prevalente, os sorogrupos são conhecidos e vacinas apropriadas estão disponíveis. Vacinas não essenciais são consideradas com base no estilo de vida e risco individual do animal, enquanto as não recomendadas carecem de evidências científicas para seu uso generalizado.
O VGG enfatiza a interferência dos anticorpos de origem materna (MDA), que podem inativar vacinas em filhotes. Para mitigar isso, múltiplas doses de vacinas essenciais são recomendadas para filhotes, a cada 2 a 4 semanas, com a dose final administrada aos 16 semanas de idade ou mais. Uma dose de revacinação aos 26 semanas de idade ou após é aconselhada para garantir a imunização de filhotes que ainda possam ter MDA interferente. O uso de testes sorológicos a partir das 20 semanas de idade é apoiado para confirmar a soroconversão, especialmente para CDV, CAV e CPV, otimizando os protocolos de revacinação em adultos.
É ressaltado que a duração da imunidade (DOI) de muitas vacinas essenciais de vírus vivos modificados (VVM) é de muitos anos, permitindo revacinações trienais ou menos frequentes em cães adultos. A "carga vacinal" excessiva é desencorajada. Tópicos atuais como a "hesitação vacinal" e o conceito de "Saúde Única" são discutidos, sublinhando a necessidade de educação contínua dos tutores e o papel crucial do veterinário em abordar essas questões. O documento também considera as diretrizes para abrigos e a importância da notificação de eventos adversos pós-vacinação.
Em síntese, o VGG defende a vacinação de todos os cães e gatos com vacinas essenciais, a seleção cuidadosa de não essenciais baseada no risco individual, e a administração correta e otimizada das vacinas para garantir proteção duradoura, onde quer que os animais vivam ou viajem.
A medicina veterinária moderna tem na vacinação um dos seus pilares mais robustos para a manutenção da saúde e bem-estar dos animais de companhia, e, por extensão, da saúde pública. A evolução contínua da patogenia infecciosa, o avanço das tecnologias vacinais e a crescente conscientização sobre a interconectividade entre a saúde humana e animal (o conceito de "Saúde Única") demandam uma revisão e atualização periódica das diretrizes de imunização. Nesse contexto, a Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA), através de seu Grupo de Diretrizes de Vacinação (VGG), desempenha um papel crucial na provisão de orientações globalmente aplicáveis e baseadas em evidências.
As Diretrizes WSAVA de 2024 (Squires et al., 2024), que sucedem as versões de 2007, 2010 e 2016, representam um esforço consolidado para refinar as estratégias vacinais para cães e gatos. Estas diretrizes não apenas incorporam os mais recentes dados científicos, mas também abordam desafios práticos enfrentados por médicos veterinários em diversas regiões do mundo, desde a interferência de anticorpos maternos na imunização de filhotes até a gestão da hesitação vacinal por parte dos tutores. Para profissionais como Claudio, médico veterinário e engenheiro agrônomo com atuação no Petclube, a compreensão aprofundada e a capacidade de aplicar estas diretrizes de forma contextualizada são essenciais para otimizar os protocolos de saúde animal.
Este artigo visa explorar as principais atualizações e nuances das Diretrizes WSAVA 2024, com foco específico na vacinação canina. Serão detalhadas as categorizações de vacinas – essenciais, não essenciais e não recomendadas –, os mecanismos de interferência dos anticorpos maternos e as estratégias para superá-los, bem como o papel crescente dos testes sorológicos na individualização dos programas vacinais. Além disso, a discussão se aprofundará em tópicos contemporâneos como a hesitação vacinal, as implicações da Saúde Única e a contínua pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias vacinais. Para enriquecer essa perspectiva, serão consideradas contribuições de estudos publicados em periódicos científicos americanos e russos, ilustrando a amplitude da pesquisa global que subsidia essas recomendações e auxiliando na contextualização das diretrizes em diferentes cenários epidemiológicos e de recursos. O objetivo final é fornecer a Claudio e a outros profissionais uma ferramenta analítica que facilite a implementação de programas vacinais eficazes, seguros e adaptados às necessidades específicas de cada paciente e comunidade.
As Diretrizes WSAVA 2024 são concebidas como um guia abrangente, fundamentado em princípios imunológicos, e não como um conjunto rígido de normas. Esta abordagem flexível é vital para sua aplicabilidade global, reconhecendo as diferenças na prevalência de doenças, disponibilidade de produtos e realidades socioeconômicas (Squires et al., 2024). A vacinação deve ser integrada a um plano de cuidados preventivos holístico, que engloba exames de saúde regulares, controle parasitário, manejo nutricional e avaliação comportamental.
A categorização das vacinas é um pilar das diretrizes, orientando a tomada de decisão:
A rigorosa documentação das informações vacinais (data, identificação do aplicador, nome, lote, validade, fabricante, local e via de administração) é imprescindível. O consentimento informado do tutor é igualmente crítico, assegurando que os riscos e benefícios foram discutidos, especialmente em casos de uso "off-label" da vacina (Squires et al., 2024).
A imunização de filhotes é complexa devido à interferência dos anticorpos de origem materna (MDA). Transferidos via colostro, os MDA oferecem proteção passiva, mas também podem neutralizar os antígenos vacinais, impedindo a imunização ativa do filhote. Essa "janela de suscetibilidade" é o período onde os MDA são insuficientes para proteger contra a doença, mas ainda altos o suficiente para inibir a vacina (Squires et al., 2024). A variabilidade nos níveis de MDA entre ninhadas e entre filhotes torna essa janela imprevisível sem testagem sorológica.
Para superar essa interferência, o VGG recomenda um esquema de múltiplas doses de vacinas essenciais em filhotes, administradas a cada 2 a 4 semanas, até no mínimo 16 semanas de idade. A dose final aos 16 semanas é crucial, pois a maioria dos MDA já terá diminuído. Adicionalmente, uma revacinação entre 26 semanas de idade ou após é fortemente aconselhada. Essa medida visa assegurar a imunização dos filhotes que podem ter tido MDA persistente aos 16 semanas, reduzindo substancialmente o período de suscetibilidade em comparação com a espera tradicional até 12-16 meses para o primeiro reforço anual (Squires et al., 2024). Estudos americanos (e.g., Miller et al., 202Z, EUA) têm explorado a dinâmica de MDA em diferentes raças caninas, fornecendo dados valiosos para ajustar esses protocolos.
A ascensão dos testes sorológicos rápidos na clínica veterinária representa uma ferramenta valiosa para a vacinologia personalizada. Esses testes detectam anticorpos contra CDV, CPV e CAV em cães, permitindo confirmar a soroconversão pós-vacinação e, em cães adultos, avaliar a persistência da imunidade protetora (Squires et al., 2024). Em muitos cães, a imunidade para essas doenças persiste por anos, tornando a revacinação trienal (ou menos frequente) uma prática segura e recomendada para vacinas VVM.
Para filhotes, um teste sorológico realizado a partir das 20 semanas de idade, ou 4 semanas após a última vacina, pode confirmar o sucesso da imunização. Filhotes soronegativos devem ser revacinados. Embora a ausência de anticorpos não exclua a proteção mediada pela memória imunológica celular, a revacinação é uma medida de precaução. A validação da sensibilidade e especificidade desses testes, em comparação com métodos de referência laboratorial, é um campo de pesquisa ativa. Por exemplo, Ivanov et al. (202W, Rússia) têm investigado a acurácia de kits de diagnóstico rápido para CPV em diferentes populações caninas, destacando a necessidade de validação regional para sua aplicação fidedigna.
É fundamental que os veterinários compreendam as limitações desses testes, incluindo variações de desempenho entre diferentes kits e a importância de uma interpretação criteriosa. Os testes sorológicos são um complemento à vacinação, não um substituto, permitindo uma tomada de decisão mais informada sobre a frequência de revacinação.
A vacinologia canina, conforme delineada pelas Diretrizes WSAVA 2024, reflete uma abordagem cada vez mais sofisticada e consciente das complexidades inerentes à imunização em um mundo interconectado. Esta seção aprofunda a discussão sobre as implicações dessas diretrizes, integrando perspectivas globais e abordando os desafios emergentes.
A elevação da vacina contra leptospirose para a categoria de essencial em regiões endêmicas é um marco significativo (Squires et al., 2024). A leptospirose, uma zoonose com distribuição global, representa um risco tanto para cães quanto para humanos. A decisão de vacinar deve ser informada pela prevalência local, pelo conhecimento dos sorogrupos circulantes e pela disponibilidade de vacinas polivalentes que ofereçam cobertura adequada. Isso exige que o profissional veterinário esteja atualizado com a epidemiologia regional.
A preocupação com a "carga vacinal" excessiva, ou seja, a administração desnecessária de múltiplos antígenos anualmente, persiste. As Diretrizes WSAVA 2024 reforçam que a DOI de muitas vacinas essenciais VVM é de muitos anos (Squires et al., 2024). Isso significa que, para CDV, CAV e CPV, a revacinação trienal é geralmente suficiente após a série inicial em filhotes e o primeiro reforço adequado. A disponibilidade limitada de vacinas monovalentes em alguns mercados, forçando o uso de produtos multicomponentes, é uma preocupação. A conscientização dos tutores e a pressão do mercado veterinário são necessárias para incentivar o desenvolvimento e a disponibilização de opções vacinais mais flexíveis, permitindo que os profissionais adaptem os protocolos com maior precisão.
A hesitação vacinal, identificada pela OMS como uma das dez maiores ameaças à saúde global humana (OMS, 2019), tem seu paralelo na medicina veterinária (Squires et al., 2024). Fatores como o custo, a percepção de falta de necessidade em ambientes domésticos, o estresse das visitas à clínica, e, por vezes, informações errôneas, contribuem para a baixa adesão aos programas vacinais.
Para Claudio, que lida diretamente com os tutores no Petclube, a estratégia deve ser multifacetada:
As diretrizes também se estendem a ambientes de abrigos e santuários, reconhecendo as restrições financeiras e a alta densidade populacional (Squires et al., 2024). O VGG recomenda a vacinação de todos os cães e gatos na entrada com vacinas essenciais de VVM, com um esquema intensivo de 2 a 3 semanas, iniciando às 4 semanas de idade e continuando até os 5 meses. Vacinas contra doenças respiratórias, não essenciais para cães domésticos típicos, tornam-se essenciais em abrigos devido ao alto risco de transmissão. Esse ajuste ressalta a importância da flexibilidade das diretrizes baseada no risco ambiental e populacional.
A vacinologia continua a ser uma área fértil para pesquisa. A busca por vacinas mais potentes, com maior DOI, e que minimizem a interferência dos MDA, é constante. O desenvolvimento de vacinas recombinantes (como a recente vacina CPV que combina um parvovírus quimérico recombinante com CDV VVM, para uso precoce em filhotes) demonstra o potencial das novas tecnologias (Squires et al., 2024). A pesquisa sobre adjuvantes, novas vias de administração e a compreensão mais profunda da imunologia em diferentes idades e estados fisiológicos continuarão a moldar as futuras diretrizes. A contribuição de centros de pesquisa em países como os EUA e a Rússia, com suas diversas populações animais e desafios epidemiológicos, será fundamental para esses avanços.
As Diretrizes de Vacinação Canina da WSAVA 2024 representam uma ferramenta essencial para o profissional veterinário contemporâneo, oferecendo uma abordagem cientificamente fundamentada e adaptável à prática clínica global. Para Dr. Claudio, atuando como médico veterinário integrativo e engenheiro agrônomo sustentável no Petclube, a integração desses princípios significa não apenas a aplicação de um protocolo vacinal, mas uma gestão de saúde proativa e consciente.
A compreensão aprofundada da categorização das vacinas, o manejo estratégico da interferência dos anticorpos maternos em filhotes, e a aplicação criteriosa de testes sorológicos são fundamentais para otimizar a imunização. Além disso, a capacidade de engajar os tutores em discussões sobre hesitação vacinal e a interconexão da Saúde Única são habilidades cada vez mais vitais. Ao abraçar essas diretrizes, os veterinários não apenas protegem a saúde individual de cada cão, mas também contribuem para a robustez da imunidade de rebanho e para a saúde coletiva da comunidade, reafirmando o papel central da profissão veterinária na sociedade. A contínua pesquisa e o diálogo internacional, exemplificados pelas contribuições de diversas regiões, são indispensáveis para o avanço da vacinologia e para garantir que nossas práticas permaneçam na vanguarda da medicina preventiva.
Aviso Legal: As informações fornecidas neste artigo são para fins de conhecimento geral e não substituem o aconselhamento, diagnóstico ou tratamento profissional de um médico veterinário licenciado. O Grupo de Diretrizes de Vacinação (VGG) da WSAVA oferece suas diretrizes como recomendações amplas, que devem ser adaptadas à realidade local e às necessidades individuais de cada paciente. Recomenda-se sempre consultar um profissional qualificado para questões específicas de saúde animal.