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Enquanto a medicina humana espera, a ciência dos peptídeos avança — e ela começou nos laboratórios, no reino animal.
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube.
A história dos peptídeos bioreguladores não começou com influencers de bem-estar ou com o mercado de "biohacking". Ela começou há mais de seis décadas, na década de 1960, na Rússia, dentro de laboratórios soviéticos dedicados ao estudo do envelhecimento e da regeneração celular.
Cientistas do Instituto de Bioregulação e Gerontologia de São Petersburgo — e de outros centros de pesquisa da antiga União Soviética — investigaram sistematicamente como cadeias curtas de aminoácidos poderiam modular processos biológicos fundamentais: reparo tecidual, resposta imunológica, função cognitiva e longevidade. Foi nesse ambiente que surgiram compostos como o Semax, um peptídeo nootrópico desenvolvido para melhorar atenção e cognição, inicialmente estudado em modelos animais e posteriormente utilizado por militares e atletas russos.
O princípio que guiava esses pesquisadores era simples e poderoso: antes de qualquer aplicação em humanos, a molécula precisava provar seu valor em organismos vivos — camundongos, ratos e outras espécies de laboratório.
Essa tradição científica construiu a base de tudo o que hoje se discute sobre peptídeos regenerativos como BPC-157, GHK-Cu e TB-500.
Peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos — geralmente entre 2 e 50 monômeros — que atuam como moléculas de sinalização endógena. Diferentemente de fármacos sintéticos convencionais, que frequentemente bloqueiam ou forçam processos, os peptídeos bioreguladores trabalham a favor da fisiologia natural: modulam a regeneração de tecidos, estimulam a produção de colágeno, regulam a resposta inflamatória e sinalizam para as células retomarem programas de reparo.
Os três principais compostos estudados e utilizados na prática integrativa são:
GHK-Cu (Glicina-Histidina-Lisina + Cobre)
BPC-157 (Body Protection Compound-157)
TB-500 (fragmento de Timosina Beta-4)
É aqui que a tese central deste artigo se sustenta: a maior parte da evidência científica sobre esses peptídeos — e a mais sólida — foi produzida em estudos com animais, principalmente ratos e camundongos. E é exatamente por isso que a biologia e a medicina veterinária estão à frente.
O BPC-157 acumula mais de 500 estudos pré-clínicos, quase todos em roedores. Os protocolos publicados são detalhados e replicáveis:
Cicatrização de tendão de Aquiles (ratos)
Recuperação de ligamento (ratos)
Junção miotendínea (ratos)
Tendão-osso (ratos)
Cicatrização de queimaduras (camundongos)
Cognição em envelhecimento (camundongos C57BL/6J)
A medicina humana exige — com razão — ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos, controlados por placebo, com anos de acompanhamento. Esse rigor protege vidas, mas tem um custo: leva de 10 a 15 anos e bilhões de dólares para levar uma molécula do laboratório ao paciente.
A medicina veterinária e a biologia operam com outra lógica:
1. A espécie estudada é a espécie tratada Nos estudos pré-clínicos, ratos e camundongos são "modelos" para prever efeitos em humanos. Na veterinária, o animal é o paciente final. Um cavalo de esporte com tendinite é tratado diretamente com a terapia, e o resultado é observado em semanas — não em décadas.
2. Lesões reais e espontâneas Enquanto a medicina humana usa modelos artificiais de doença em animais de laboratório, a veterinária trata patologias naturais e espontâneas: ruptura de ligamento cruzado em cães, osteoartrite em gatos, tendinopatia em cavalos de corrida. São dados clínicos reais, de campo, em pacientes que existem de verdade.
3. Velocidade de translação A veterinária já documenta resultados clínicos observados — redução de claudicação, melhora de dor articular, retorno mais rápido de animais de trabalho à atividade — enquanto a medicina humana ainda aguarda a conclusão de ensaios de fase 3 para os mesmos compostos.
4. Validação molecular compartilhada Os mecanismos descobertos em animais — angiogênese via VEGF, síntese de colágeno tipo I, inibição de NF-κB (redução de TNF-α) e modulação epigenética (HDAC, DNMT, microRNAs) — são conservados entre as espécies. O que funciona em ratos informa o que pode funcionar em cães, cavalos e, potencialmente, em humanos.
É fundamental ser transparente: apesar da extensa evidência pré-clínica, os peptídeos citados não possuem ensaio clínico randomizado publicado em humanos para as indicações de regeneração musculoesquelética.
Na prática, o que se observa é:
A revisão narrativa publicada em Current Reviews in Musculoskeletal Medicine (2025) é clara: os dados de BPC-157 para cicatrização musculoesquelética são pré-clínicos, sem ensaios clínicos controlados em humanos ou animais de companhia.
No Brasil, o quadro é rigoroso:
A tese de que "a biologia e a veterinária estão à frente" é parcialmente verdadeira e deve ser lida com cuidado:
✅ O que é verdadeiro A veterinária e a biologia acumulam décadas de evidência pré-clínica e aplicação clínica em animais com lesões reais, com protocolos definidos e resultados observados — enquanto a medicina humana aguarda evidência de nível A.
⚠️ O que precisa de atenção A veterinária também opera em grande parte off-label e sem registro regulatório. O mercado underground humano combina a imaturidade da evidência com ausência de controle de qualidade — o pior dos dois mundos.
💡 O caminho maduro Os peptídeos bioreguladores representam uma fronteira real e promissora — mas seu potencial será realizado plenamente quando:
Os peptídeos bioreguladores não são uma moda — são o resultado de mais de 60 anos de pesquisa que começou nos laboratórios soviéticos, foi validada em ratos e camundongos e hoje é aplicada clinicamente por médicos veterinários em animais de trabalho e estimação.
A biologia e a veterinária estão à frente porque constroem evidência onde a necessidade clínica é real e imediata. A medicina humana, com seu rigor necessário, caminha atrás — e quando a evidência de nível A chegar, o reino animal já terá mostrado o caminho.
Referências (ABNT):
AMICHETTI JÚNIOR, C.; AMICHETTI, G. Peptídeos bioreguladores na medicina veterinária integrativa: BPC-157 e TB-500 para cicatrização de tendões e músculos em animas. Revista Científica Médico Veterinária Petclube, São Paulo, 2026.
CEROVECKI, T. et al. Pentadecapeptide BPC 157 (PL 14736) improves ligament healing in the rat. Journal of Orthopaedic Research, v. 28, n. 9, p. 1155-1161, 2010.
KRIVIĆ, A. et al. Achilles detachment in rat and stable gastric pentadecapeptide BPC 157: promoted tendon-to-bone healing and opposed corticosteroid aggravation. Journal of Orthopaedic Research, v. 24, n. 5, p. 982-989, 2006.
MAZZOLA, J. et al. Middle-aged mice treated with GHK-Cu peptide administered intraperitoneally or intranasally show behavioral rescue but divergent hippocampal aging programs. bioRxiv, 2026.
PEVEC, D. et al. BPC 157 in the healing of transected rat Achilles tendon. Injury, v. 41, n. 11, p. 1154-1160, 2010.
SIKIRIC, P. et al. Stable gastric pentadecapeptide BPC 157 as a therapy for the disable myotendinous junctions in rats. Biomedicines, v. 9, n. 11, p. 1547, 2021.
WANG, X. et al. GHK-Cu-liposomes accelerate scald wound healing in mice by promoting cell proliferation and angiogenesis. Wound Repair and Regeneration, v. 25, n. 2, p. 270-278, 2017.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Os peptídeos citados (BPC-157, GHK-Cu, TB-500) não possuem registro regulatório (ANVISA/MAPA) para uso clínico no Brasil. O uso é off-label e experimental, restrito a contextos de pesquisa ética com supervisão profissional habilitada. Nada aqui constitui prescrição, indicação terapêutica ou recomendação de uso.
Por que o veterinário que estuda está à frente
✅ Conhece a origem: a evidência nasceu no laboratório animal
✅ Aplica num futuro próximo em animais com lesões reais e espontâneas
✅ Traduz a ciência de bancada para a clínica com responsabilidade
⚠️ Disclaimer Conteúdo educativo e informativo. Os peptídeos citados (BPC-157, GHK-Cu, TB-500) não possuem registro regulatório (ANVISA/MAPA) para uso clínico no Brasil. O uso é off-label e experimental, restrito a contextos de pesquisa ética com supervisão profissional habilitada. Nada aqui constitui prescrição ou recomendação de uso. Não utilize substâncias sem orientação profissional.
💚 Quem estuda a origem entende o presente.
dr. Med Vet Claudio Amichetti Junior
CRMVSP 75404
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GENÉTICA DA PELAGEM TRICOLOR EM FELIS CATUS: INATIVAÇÃO DO CROMOSSOMO X, MOSAICO DE CORES E A RARIDADE DOS MACHOS CÁLICO
Artigo de Revisão Científica
20 de agosto de 2026
AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
Gabriel Amichetti³ — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Afiliações:
¹ Petclube, São Paulo, Brasil
²
³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil
RESUMO
A pelagem tricolor em gatos domésticos (Felis catus), conhecida como cálico, representa um dos exemplos mais clássicos de genética mendeliana e epigenética aplicada à biologia de mamíferos. Este artigo de revisão tem como objetivo analisar a base genética dessa coloração, fundamentada na interação entre o gene laranja (locus O) ligado ao cromossomo X e o gene de manchas brancas (locus S). A metodologia consistiu em uma revisão bibliográfica de literatura científica atualizada, abrangendo desde a hipótese de Lyon até descobertas moleculares recentes. Os resultados indicam que a expressão simultânea de pigmentos pretos e laranjas em fêmeas heterozigotas decorre da inativação aleatória de um dos cromossomos X durante a embriogênese, criando um mosaico celular. A presença de áreas brancas é controlada de forma independente por genes autossômicos. Conclui-se que a ocorrência de machos tricolores é um fenômeno biológico excepcional, resultante de aneuploidias cromossômicas, como a síndrome 39,XXY, ou de processos de quimerismo e mosaicismo. Tais indivíduos frequentemente apresentam infertilidade, embora casos raros de quimerismo possam preservar a capacidade reprodutiva, exigindo avaliação citogenética detalhada para diagnóstico clínico.
PALAVRAS-CHAVE: Genética felina; Inativação do cromossomo X; Pelagem cálico; Gene laranja; Cromossomos sexuais; Felis catus.
ABSTRACT
The tricolor coat in domestic cats (Felis catus), known as calico, represents one of the most classic examples of Mendelian genetics and epigenetics applied to mammalian biology. This review article aims to analyze the genetic basis of this coloration, based on the interaction between the orange gene (O locus) linked to the X chromosome and the white spotting gene (S locus). The methodology consisted of a bibliographic review of updated scientific literature, ranging from Lyon's hypothesis to recent molecular discoveries. The results indicate that the simultaneous expression of black and orange pigments in heterozygous females results from the random inactivation of one of the X chromosomes during embryogenesis, creating a cellular mosaic. The presence of white areas is independently controlled by autosomal genes. It is concluded that the occurrence of tricolor males is an exceptional biological phenomenon, resulting from chromosomal aneuploidies, such as the 39,XXY syndrome, or processes of chimerism and mosaicism. Such individuals often present infertility, although rare cases of chimerism may preserve reproductive capacity, requiring detailed cytogenetic evaluation for clinical diagnosis.
KEYWORDS: Feline genetics; X-chromosome inactivation; Calico coat; Orange gene; Sex chromosomes; Felis catus.
A pelagem dos felinos domésticos é um campo de estudo vasto que transcende a estética, servindo como um modelo biológico fundamental para a compreensão da herança ligada ao sexo e dos mecanismos de compensação de dose gênica. Entre os diversos padrões observados, a pelagem tricolor, ou cálico, destaca-se por sua complexidade visual e biológica. Caracterizada pela presença concomitante de manchas pretas (ou suas variações), laranjas e brancas, essa configuração é quase exclusivamente observada em indivíduos do sexo feminino. Este fenômeno desperta interesse científico não apenas pela sua manifestação fenotípica, mas pelas implicações genéticas subjacentes que envolvem a interação de múltiplos loci e processos epigenéticos críticos.
A problemática central reside na compreensão dos mecanismos que impedem, em condições normais, que machos expressem o padrão tricolor, uma vez que a determinação da cor laranja está intrinsecamente ligada ao cromossomo sexual X. O objetivo deste artigo é detalhar a base genética da pelagem cálico, explorando a inativação do cromossomo X e o papel dos genes de pigmentação, além de investigar as condições excepcionais que permitem o surgimento de machos com essa característica, analisando as implicações clínicas e reprodutivas de tais anomalias cromossômicas.
A pigmentação básica dos gatos é determinada pela presença de eumelanina (preto) e feomelanina (laranja). A produção de feomelanina é controlada pelo locus O (Orange), localizado no cromossomo X. O alelo dominante (O) converte a eumelanina em feomelanina, resultando na cor laranja, enquanto o alelo recessivo (o) permite a expressão da cor preta. Recentemente, avanços na genômica funcional identificaram o gene Arhgap36 como a provável base molecular para a cor laranja em felinos, conforme demonstrado nos estudos de Kaelin et al. (2025). Esta descoberta preenche uma lacuna histórica na genética felina, mapeando com precisão o mecanismo de regulação que ocorre no cromossomo X.
Além do locus O, a pelagem cálico requer a presença do gene de manchas brancas (locus S), um gene autossômico com dominância incompleta que determina áreas de despigmentação. Quando um gato possui o alelo S, ocorre a migração restrita de melanócitos durante o desenvolvimento embrionário, resultando em manchas brancas. As variações de intensidade, como o cinza (azul) e o creme, são influenciadas pelo gene de diluição (locus D), que altera a distribuição dos grânulos de pigmento no fio de pelo, mas não altera a lógica fundamental da herança ligada ao sexo (RODRIGUES et al., s.d.).
O padrão tricolor em fêmeas é uma manifestação direta da hipótese de Lyon, formulada por Mary Lyon em 1961. Segundo este princípio, em fêmeas de mamíferos (XX), um dos dois cromossomos X é inativado aleatoriamente em cada célula somática durante o estágio inicial de blastocisto. Esse processo de compensação de dose garante que as fêmeas não produzam o dobro de proteínas ligadas ao X em comparação aos machos (XY). Uma fêmea heterozigota para o gene laranja (Oo) terá populações de células onde o X portador do alelo O está ativo, produzindo pelos laranjas, e outras populações onde o X portador do alelo o está ativo, resultando em pelos pretos.
Essa inativação é permanente para todas as células descendentes daquela linhagem, resultando em um mosaico fenotípico. A distribuição das manchas depende do momento em que a inativação ocorreu e da migração celular subsequente. Em gatos cálico, a presença do gene de manchas brancas (S) tende a retardar a migração dos melanócitos, o que frequentemente resulta em manchas de cores sólidas e bem definidas, em contraste com o padrão "escama de tartaruga" (tortoiseshell), onde as cores laranja e preto aparecem mais misturadas devido à ausência ou baixa expressão do branco.
Diferente das cores preta e laranja, o branco não é uma cor propriamente dita, mas a ausência de pigmentação. O locus S (White Spotting) atua de forma independente dos cromossomos sexuais. A interação entre o mosaico gerado pela inativação do X e a ação do gene S é o que define o fenótipo cálico. Estudos indicam que quanto maior a quantidade de branco presente no animal, maiores e mais delimitadas tendem a ser as manchas pretas e laranjas. Isso ocorre porque o branco influencia a proliferação e a distribuição dos melanoblastos na derme, segregando as linhagens celulares que expressam diferentes alelos do cromossomo X.
Visto que os machos possuem apenas um cromossomo X (XY), eles são hemizigotos para o locus O, podendo expressar apenas laranja ou preto, mas não ambos simultaneamente. No entanto, a literatura científica registra casos raros de machos tricolores, ocorrendo em uma proporção aproximada de 1 para cada 3.000 gatos cálico. A causa mais comum é a aneuploidia cromossômica 39,XXY, análoga à síndrome de Klinefelter em humanos. Pedersen et al. (2013) descreveram um caso de macho tortoiseshell com cariótipo 39,XXY, observando que tais indivíduos são invariavelmente estéreis devido à hipoplasia testicular e ausência de espermatogênese.
Outras origens genéticas incluem o quimerismo e o mosaicismo. O quimerismo ocorre quando dois embriões distintos (por exemplo, um preto e um laranja) se fundem no útero, resultando em um único indivíduo com duas linhagens celulares geneticamente diferentes. Bugno-Poniewierska et al. (2020) relataram um caso excepcional de um macho tricolor fértil com quimerismo verdadeiro (38,XY/38,XY). Nesses casos, se a linhagem celular que forma as gônadas for tipicamente masculina e estável, a fertilidade pode ser preservada, embora o fenótipo externo exiba o mosaico de cores. O mosaicismo, por sua vez, decorre de mutações somáticas ou erros na disjunção mitótica durante o desenvolvimento inicial de um embrião XY.
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura de natureza qualitativa e descritiva. A coleta de dados foi realizada por meio de levantamento bibliográfico em bases de dados científicas reconhecidas, incluindo PubMed, ScienceDirect, Google Acadêmico e repositórios de periódicos especializados em genética e reprodução animal. Foram selecionados artigos publicados entre 1961 e 2026, priorizando estudos de caso citogenéticos e pesquisas de mapeamento molecular recentes. Os critérios de inclusão abrangeram textos que discutissem a inativação do cromossomo X, a ação dos loci O e S, e relatos de anomalias cromossômicas em felinos domésticos.
A pelagem tricolor em gatos é um fenômeno que ilustra com elegância a complexidade da regulação gênica em mamíferos. A condição cálico é, fundamentalmente, uma expressão visual da inativação aleatória do cromossomo X em fêmeas heterozigotas, combinada com a ação de genes autossômicos de manchas brancas. A raridade dos machos tricolores confirma a rigidez dos mecanismos de herança ligada ao sexo, sendo estes indivíduos o resultado de eventos biológicos atípicos como a não-disjunção cromossômica ou a fusão embrionária.
Do ponto de vista clínico, a identificação de um macho tricolor exige uma investigação profunda, visto que a maioria desses animais apresenta a síndrome 39,XXY e consequente infertilidade. Contudo, a existência de quimeras férteis ressalta a necessidade de exames de cariótipo e biópsias testiculares em casos de interesse reprodutivo. O avanço nas técnicas de sequenciamento e mapeamento molecular, como a recente caracterização do gene Arhgap36, continua a expandir o entendimento sobre a biologia do desenvolvimento e a genética da pigmentação, consolidando o gato doméstico como um modelo valioso para a ciência genômica.
ATENA EDITORA. Gato macho (Felis catus) cálico/tricolor: relato de caso. Paraná: Atena Editora, [s.d.].
BUGNO-PONIEWIERSKA, M. et al. Fertile male tortoiseshell cat with true chimerism 38,XY/38,XY. Reproduction in Domestic Animals, v. 55, n. 9, p. 1195-1199, 2020. DOI 10.1111/rda.13752.
KAELIN, C. B. et al. Molecular and genetic characterization of sex-linked orange coat color in the domestic cat. Current Biology, jun. 2025. (Preprint bioRxiv 2024, DOI 10.1101/2024.11.21.624608).
LYON, M. F. Gene action in the X-chromosome of the mouse (Mus musculus L.). Nature, v. 190, p. 372-373, 1961.
PEDERSEN, A. S.; BERG, L. C.; ALMSTRUP, K.; THOMSEN, P. D. A Tortoiseshell Male Cat: Chromosome Analysis and Histologic Examination of the Testis. Cytogenetic and Genome Research, v. 142, n. 2, p. 107-111, 2013. DOI 10.1159/000356466.
RODRIGUES, S. et al. Alterações genéticas envolvidas na expressão das pelagens tortoiseshell e cálico em gatos. PubVet, v. 12, n. 1, 2018. Disponível em: pubvet.com.br. Acesso em: 20 ago. 2026.
Documento elaborado em 20 de agosto de 2026.
AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
Gabriel Amichetti³ — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Afiliações:
¹ Petclube, São Paulo, Brasil
²
³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil
RESUMO
O Cordyceps militaris é um fungo entomopatogênico de uso tradicional na etnomedicina asiática, reconhecido por seu perfil rico em compostos bioativos, como cordicepina, polissacarídeos e ergotioneína. O presente artigo tem por objetivo revisar a composição química, os mecanismos de ação e as evidências clínicas da espécie, com enfoque em suas aplicações para profissionais de saúde. Realizou-se levantamento bibliográfico em bases de dados científicas, priorizando revisões e ensaios clínicos publicados entre 2020 e 2026. Os resultados indicam atividade imunomoduladora, antioxidante e anti-inflamatória bem caracterizada em estudos pré-clínicos, mediada principalmente por polissacarídeos e pela cordicepina. Em humanos, as evidências para efeitos ergogênicos permanecem preliminares e inconsistentes, limitadas por amostras pequenas, heterogeneidade de protocolos e ausência de preparações padronizadas com constituintes quantificados. Conclui-se que o C. militaris constitui ingrediente promissor no campo dos cogumelos funcionais, sendo necessários ensaios clínicos robustos e extratos quimicamente caracterizados para consolidar sua aplicação clínica e esportiva.
Palavras-chave: Cordyceps militaris. Cogumelos medicinais. Cordicepina. Imunomodulação. Antioxidantes.
ABSTRACT
Cordyceps militaris is an entomopathogenic fungus traditionally used in Asian ethnomedicine, recognized for its rich profile of bioactive compounds, such as cordycepin, polysaccharides and ergothioneine. This article aims to review the chemical composition, mechanisms of action and clinical evidence of the species, focusing on its applications for health professionals. A bibliographic survey was carried out in scientific databases, prioritizing reviews and clinical trials published between 2020 and 2026. The results indicate immunomodulatory, antioxidant and anti-inflammatory activity well characterized in preclinical studies, mediated mainly by polysaccharides and cordycepin. In humans, evidence for ergogenic effects remains preliminary and inconsistent, limited by small samples, heterogeneity of protocols and lack of standardized preparations with quantified constituents. It is concluded that C. militaris is a promising ingredient in the field of functional mushrooms, requiring robust clinical trials and chemically characterized extracts to consolidate its clinical and sports application.
Keywords: Cordyceps militaris. Medicinal mushrooms. Cordycepin. Immunomodulation. Antioxidants.
1 INTRODUÇÃO
O Cordyceps militaris é um fungo entomopatogênico pertencente à família Cordycipitaceae, tradicionalmente empregado na etnomedicina asiática como tônico geral e agente de suporte à vitalidade (JĘDREJKO et al., 2021). Nas últimas décadas, a espécie despertou crescente interesse científico por seu perfil fitoquímico rico em compostos bioativos — com destaque para a cordicepina, polissacarídeos, ergotioneína e esteróis — associados a atividades imunomoduladora, antioxidante, anti-inflamatória e ergogênica (JĘDREJKO et al., 2021; JĘDREJKO et al., 2026).
Diferentemente de seu congênere C. sinensis, o C. militaris apresenta a vantagem de poder ser cultivado em substrato artificial em larga escala, garantindo produção padronizada, rastreabilidade e uniformidade entre lotes — fatores críticos para a segurança e a reprodutibilidade de formulações destinadas ao uso humano.
2 COMPOSIÇÃO QUÍMICA E COMPOSTOS BIOATIVOS
Os principais metabólitos de interesse clínico do C. militaris incluem:
Estudo de Jędrejko et al. (2024) demonstrou que extratos padronizados com 7% e 1% de cordicepina apresentaram as maiores concentrações do composto, além de níveis relevantes de ergotioneína (4405 e 928 mg/100 g de peso seco, respectivamente). O mesmo trabalho evidenciou que o corpo de frutificação não processado é fonte superior de compostos bioativos quando comparado a suplementos em cápsulas ou pó, avaliada a bioacessibilidade em sucos digestivos artificiais (JĘDREJKO et al., 2024).
3 MECANISMOS DE AÇÃO
3.1 Imunomodulação
A atividade imunomoduladora do C. militaris é mediada principalmente por seus polissacarídeos e pela cordicepina. Os efeitos observados incluem modulação da proliferação de linfócitos, regulação da produção de citocinas e influência sobre a atividade de células natural killer (NK), sugerindo um papel de equilíbrio da resposta imune (JĘDREJKO et al., 2021).
3.2 Atividade antioxidante e anti-inflamatória
A combinação de ergotioneína, compostos fenólicos e polissacarídeos confere ao extrato capacidade de neutralização de radicais livres e redução de marcadores inflamatórios, contribuindo para a proteção celular contra o estresse oxidativo (JĘDREJKO et al., 2021).
3.3 Efeitos ergogênicos
A cordicepina e os polissacarídeos têm sido associados a melhorias no metabolismo energético e no consumo de oxigênio, com potencial impacto sobre o desempenho aeróbico e a recuperação pós-exercício (JĘDREJKO et al., 2026).
4 EVIDÊNCIAS CLÍNICAS EM HUMANOS
4.1 Desempenho físico e recuperação
Revisão narrativa recente (JĘDREJKO et al., 2026) avaliou cinco estudos de intervenção publicados entre 2017 e 2024, totalizando 321 participantes de 16 a 35 anos. Os protocolos variaram de 1 a 16 semanas, com doses diárias de 1 a 12 g, administradas como material fúngico isolado ou em formulações multi-ingredientes. Os desfechos avaliados incluíram VO₂máx/VO₂pico, tempo até a exaustão, potência, desempenho em corrida e manutenção da saturação periférica de oxigênio durante exercício de alta intensidade, além de marcadores bioquímicos de dano muscular (creatina quinase, ureia nitrogenada) e resposta inflamatória (contagem de leucócitos).
Conclusões da revisão:
4.2 Estudos recentes
Ensaio randomizado cruzado publicado em 2026 investigou a suplementação aguda de C. militaris e observou elevação do consumo de oxigênio em repouso e tempos de reação mais rápidos, sugerindo efeitos agudos sobre o metabolismo energético e a função cognitivo-motora (ACUTE..., 2026). Registro clínico em andamento (NCT07310108) avalia a aplicação da cepa C. militaris M2-116-04 em nutrição esportiva em adultos saudáveis ativos.
5 SEGURANÇA E CONSIDERAÇÕES CLÍNICAS
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Cordyceps militaris representa um ingrediente promissor no campo dos cogumelos funcionais, com mecanismos de ação bem caracterizados em nível pré-clínico (imunomodulação, antioxidante, anti-inflamatório) e evidências preliminares, porém ainda inconsistentes, em humanos para aplicações ergogênicas. A padronização dos extratos e a condução de ensaios clínicos robustos com preparações quimicamente caracterizadas são os próximos passos necessários para consolidar seu papel na prática clínica e na nutrição esportiva.
REFERÊNCIAS (ABNT NBR 6023)
ACUTE Cordyceps militaris supplementation and elevated resting oxygen uptake with faster reaction times: a randomized crossover trial. PLOS ONE, San Francisco, 2026. DOI 10.1371/journal.pone.0351725. [AUTORES A COMPLETAR — REQUER VERIFICAÇÃO]
JĘDREJKO, K. J.; LAZUR, J.; MUSZYŃSKA, B. Cordyceps militaris: an overview of its chemical constituents in relation to biological activity. Foods, Basel, v. 10, n. 11, p. 2634, 2021. DOI 10.3390/foods10112634.
JĘDREJKO, K.; KAŁA, K.; SUŁKOWSKA-ZIAJA, K. et al. Analysis of bioactive compounds in Cordyceps militarisfruiting bodies and dietary supplements: in vitro bioaccessibility determination in artificial digestive juices. International Journal of Food Science & Technology, Oxford, 2024. DOI 10.1111/ijfs.17156.
JĘDREJKO, M.; JĘDREJKO, K.; GRANDA, D. et al. Current evidence of ergogenic and post-exercise recovery effects of dietary supplementation with Cordyceps militaris in humans: a narrative review. Nutrients, Basel, v. 18, n. 5, p. 781, 2026. DOI 10.3390/nu18050781.
TRENDS in the immunomodulatory effects of Cordyceps militaris: total extracts, polysaccharides and cordycepin. 2020. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7735063/. Acesso em: 18 ago. 2026. \