ACROMEGALIA FELINA E HORMÔNIO DO CRESCIMENTO (GH) DE ORIGEM MAMÁRIA CANINA: REVISÃO APROFUNDADA DE EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS PARA PESQUISA DE DOUTORADO EM MEDICINA VETERINÁRIA
Documento complementar de aprofundamento técnico-científico sobre hiperesomatotropismo em animais de companhia
AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
Gabriel Amichetti³ — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Afiliações:
¹ Petclube, São Paulo, Brasil
²
³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil
19 de agosto de 2026
1. RESUMO
O presente documento apresenta uma revisão aprofundada de duas condições centrais relacionadas ao excesso de hormônio do crescimento (GH) em animais de companhia, fundamentais para o escopo de pesquisa em nível de doutorado. Primeiramente, aborda-se a acromegalia felina (hiperesomatotropismo), condição quase invariavelmente etiológica de adenomas hipofisários secretores de GH e intrinsecamente ligada ao diabetes mellitus resistente à insulina. Em segundo plano, analisa-se o GH de origem mamária canina, um fenômeno singular da espécie Canis lupus familiarisinduzido por progestágenos. A revisão destaca os mecanismos fisiopatológicos distintos — origem hipofisária versus extra-hipofisária —, os métodos diagnósticos baseados no fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1) e as implicações clínicas e experimentais para a endocrinologia veterinária contemporânea.
2. SEÇÃO 1 — ACROMEGALIA FELINA (HIPERESOMATOTROPISMO)
2.1 Epidemiologia e fisiopatologia
O hiperesomatotropismo (HST) em felinos é caracterizado pela secreção excessiva e crônica de GH, sendo quase invariavelmente causado por adenomas somatotróficos na hipófise anterior. Evidências epidemiológicas recentes indicam que a prevalência desta condição é subestimada na clínica de pequenos animais. Estudos demonstram que aproximadamente 15–25% dos gatos diagnosticados com diabetes mellitus desenvolvem a patologia secundariamente à resistência à insulina induzida pelo GH (Scudder & Church, 2024). Considerando que o diabetes mellitus afeta cerca de 1 em cada 200 gatos, o HST emerge como uma das endocrinopatias mais relevantes e complexas da espécie.
2.2 Manifestações clínicas
Diferente da apresentação clássica em humanos, muitos gatos com HST não exibem precocemente as alterações fenotípicas dramáticas da acromegalia, como o prognatismo mandibular ou o crescimento acentuado das extremidades. Os sinais clínicos predominantes são frequentemente metabólicos, incluindo polifagia marcada, ganho de peso paradoxal em face ao diabetes e estridor inspiratório devido à proliferação de tecidos moles nas vias aéreas superiores. A resistência à insulina é o sinal cardinal, manifestando-se por um controle glicêmico errático mesmo sob doses elevadas de insulinoterapia.
2.3 Diagnóstico
O padrão-ouro para o rastreio diagnóstico é a mensuração da concentração sérica de IGF-1. Contudo, a interpretação exige cautela: gatos afetados podem apresentar elevações marginais e a administração exógena de insulina pode elevar artificialmente os níveis de IGF-1, mascarando ou mimetizando a condição. Niessen et al. (2015) descreveram o fenômeno da "acromegalia impostora", alertando para a necessidade de critérios rigorosos. Adicionalmente, o estudo de Corsini (2024) com 28 casos demonstrou a ocorrência de HST sem diabetes concomitante, sugerindo que a hiperglicemia não é um pré-requisito absoluto para a suspeita clínica, devendo-se considerar exames de imagem (Ressonância Magnética) e testes de supressão com glicose em casos inconclusivos.
2.4 Tratamento e prognóstico
As estratégias terapêuticas variam conforme a disponibilidade tecnológica e o estágio da doença. O manejo inclui o controle agressivo do diabetes, a radioterapia para redução da massa tumoral hipofisária e, mais recentemente, a hipofisectomia transesfenoidal. O prognóstico é reservado a longo prazo sem intervenção definitiva no tumor, devido às complicações cardiovasculares (cardiomiopatia hipertrófica) e renais secundárias ao excesso de GH/IGF-1.
3. SEÇÃO 2 — HORMÔNIO DO CRESCIMENTO DE ORIGEM MAMÁRIA CANINA
3.1 Mecanismo de indução
Na espécie canina, ocorre um fenômeno fisiopatológico singular onde progestágenos — sejam eles endógenos (durante a fase de diestro) ou exógenos (como o acetato de medroxiprogesterona utilizado para supressão de estro) — induzem a biossíntese local de GH no epitélio glandular mamário. Diferente do HST felino, esta produção é extra-hipofisária, embora o hormônio produzido seja quimicamente idêntico ao de origem hipofisária (Selman et al., 1994).
3.2 Evidência molecular e sistêmica
Estudos de biologia molecular confirmaram que a indução da biossíntese local de GH nas glândulas mamárias ocorre em cães, gatos e humanos sob influência de progestágenos (Mol et al., 1996). No entanto, apenas na cadela o GH mamário atinge a circulação sistêmica em concentrações suficientes para mimetizar um estado de acromegalia clínica, promovendo o crescimento de tecidos moles e induzindo resistência periférica à insulina através da regulação negativa de receptores.
3.3 Tumores mamários produtores de GH
A literatura registra casos raros, porém significativos, de neoplasias mamárias com secreção autônoma de GH. Murai et al. (2011) relataram duas cadelas com tumores mamários e sinais clínicos de acromegalia. A resolução dos sinais clínicos e a normalização dos níveis de GH, IGF-1 e insulina após a ovariohisterectomia e mastectomia, aliadas à imunohistoquímica positiva para GH no tecido tumoral, confirmam a glândula mamária como uma fonte endócrina potente nesta espécie.
4. SEÇÃO 3 — COMPARAÇÃO E IMPLICAÇÕES PARA A PESQUISA
A comparação entre os modelos felino e canino revela dicotomias fundamentais para a investigação científica. Enquanto no gato a patogênese é centrada em um adenoma hipofisário (primário), na cadela a etiologia é predominantemente hormônio-dependente e periférica (secundária). Em ambos os casos, o IGF-1 atua como o biomarcador efetor comum, refletindo a exposição tecidual crônica ao GH.
Para a pesquisa de doutorado, as lacunas identificadas incluem a necessidade de padronização dos valores de referência de IGF-1 estratificados por raça e porte, visto que a variação fenotípica em cães influencia diretamente o eixo somatotrófico. Além disso, a investigação de biomarcadores precoces para o HST felino e a exploração dos mecanismos moleculares que permitem ao GH mamário canino ganhar a circulação sistêmica são campos férteis para o avanço do conhecimento. A correlação entre esses estados de hiperesomatotropismo, a obesidade e os processos de envelhecimento celular (somatopausa) permanece como um tópico crítico para futuras teses.
5. CONCLUSÃO
A acromegalia felina e o GH mamário canino representam dois modelos distintos de excesso de hormônio do crescimento em animais de companhia. A compreensão das diferenças entre a origem hipofisária felina e a extra-hipofisária canina é crucial para o diagnóstico diferencial e para o desenvolvimento de protocolos terapêuticos específicos. O uso do IGF-1 como marcador central une ambas as condições, mas a complexidade de sua interpretação reforça a necessidade de pesquisas contínuas em endocrinologia comparada.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- SCUDDER, C.; CHURCH, D. B. Feline comorbidities: hypersomatotropism-induced diabetes in cats. J Feline Med Surg, v. 26, n. 2, 2024.
- NIESSEN, S. J. M. et al. Studying cat (Felis catus) diabetes: beware of the acromegalic imposter. PLoS One, v. 10, n. 5, p. e0127794, 2015.
- CORSINI, A. Hypersomatotropism without concurrent diabetes mellitus in cats: 28 cases (2014–2024). [S.l.]: Case Series Study, 2024.
- SELMAN, P. J. et al. Progestin-induced growth hormone excess in the dog originates from the mammary gland. Endocrinology, v. 134, n. 6, p. 2873–2878, 1994.
- MOL, J. A. et al. New insights in the molecular mechanism of progestin-induced proliferation of mammary epithelium: induction of the local biosynthesis of growth hormone (GH) in the mammary glands of dogs, cats and humans. J Steroid Biochem Mol Biol, v. 57, n. 1-2, p. 67-71, 1996.
- MURAI, A. et al. GH-producing mammary tumors in two dogs with acromegaly. J Vet Med Sci, v. 73, n. 12, p. 1661–1664, 2011.
- FELDMAN, E. C.; NELSON, R. W. Canine and Feline Endocrinology and Reproduction. 3. ed. St. Louis: Saunders, 2004.
- NIESSEN, S. J. M. et al. Hypersomatotropism, acromegaly, and hyperadrenocorticism and feline diabetes mellitus. Vet Clin North Am Small Anim Pract, v. 43, n. 2, p. 319–350, 2013.