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PETCLUBE MEDICINA VETERINÁRIA E ZOOTECNIA
MEDICINA VETERINÁRIA INTEGRATIVA PARA CÃES E GATOS: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA NA PROMOÇÃO DA HOMEOSTASE
Artigo Científico de Revisão e Atualização Clínica
20 de julho de 2026
AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
Gabriel Amichetti³ — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Afiliações:
¹ Petclube, São Paulo, Brasil
²
³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil
Autor correspondente: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Periódico: Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
Supervisão Técnica: Gabriel Amichetti – Médico-veterinário, Especialista em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais.
RESUMO A Medicina Veterinária Integrativa (MVI) emerge como uma resposta à crescente complexidade das patologias crônicas em pequenos animais, unindo a medicina convencional a terapias complementares baseadas em evidências. O objetivo deste artigo é analisar os pilares da MVI, focando na promoção da homeostase em cães e gatos através de uma visão sistêmica. A metodologia consistiu em revisão bibliográfica de estudos recentes sobre nutrição funcional, modulação do microbioma, uso de peptídeos bioativos e cannabis medicinal. Os resultados indicam que a abordagem multimodal, que considera a individualidade bioquímica e o eixo intestino-imunidade, apresenta maior eficácia no manejo de doenças crônicas não transmissíveis, como a doença renal crônica, osteoartrites e distúrbios autoimunes. Conclui-se que a integração de ferramentas terapêuticas avançadas potencializa a recuperação clínica e a qualidade de vida, consolidando a MVI como uma evolução necessária na prática clínica contemporânea.
Palavras-chave: Medicina Veterinária Integrativa. Homeostase. Microbioma. Peptídeos. Cannabis Medicinal.
ABSTRACT Integrative Veterinary Medicine (IVM) emerges as a response to the increasing complexity of chronic pathologies in small animals, combining conventional medicine with evidence-based complementary therapies. The objective of this article is to analyze the pillars of IVM, focusing on the promotion of homeostasis in dogs and cats through a systemic view. The methodology consisted of a literature review of recent studies on functional nutrition, microbiome modulation, use of bioactive peptides, and medicinal cannabis. The results indicate that the multimodal approach, which considers biochemical individuality and the gut-immunity axis, is more effective in managing chronic non-communicable diseases, such as chronic kidney disease, osteoarthritis, and autoimmune disorders. It is concluded that the integration of advanced therapeutic tools enhances clinical recovery and quality of life, consolidating IVM as a necessary evolution in contemporary clinical practice.
Keywords: Integrative Veterinary Medicine. Homeostasis. Microbiome. Peptides. Medical Cannabis.
A medicina veterinária moderna atravessa um período de transição paradigmática, impulsionado tanto pelo avanço tecnológico quanto pela mudança na percepção dos tutores em relação ao bem-estar animal. A crescente demanda por abordagens integrativas reflete a busca por soluções que transcendam o mero controle sintomático, focando na resolução das causas radiculares das patologias. A Medicina Veterinária Integrativa (MVI) define-se como a convergência estratégica entre a medicina alopática convencional e terapias complementares validadas cientificamente, operando sob o conceito fundamental de homeostase — o equilíbrio dinâmico dos sistemas biológicos frente às agressões internas e externas.
O cenário epidemiológico atual de cães e gatos revela um aumento significativo na prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Fatores como a industrialização alimentar, o sedentarismo e a exposição a poluentes ambientais contribuem para o surgimento precoce de obesidade, diabetes mellitus, doenças autoimunes, alergias persistentes e degenerações musculoesqueléticas. Diante deste quadro, a abordagem reducionista, que isola o órgão enfermo do restante do organismo, demonstra limitações severas, especialmente em pacientes geriátricos ou com comorbidades complexas.
A necessidade de uma visão sistêmica justifica-se pela interconectividade dos sistemas fisiológicos, onde o estado emocional e o ambiente do animal exercem influência direta sobre sua resposta imunológica e metabólica. Este artigo objetiva explorar os fundamentos e as ferramentas terapêuticas da MVI, como a modulação intestinal, o uso de peptídeos regenerativos e a cannabis medicinal, demonstrando como a personalização do tratamento pode conduzir a resultados clínicos superiores e à longevidade sustentável dos pacientes.
Os alicerces da MVI repousam sobre o chamado "triângulo da saúde", que compreende a nutrição de precisão, o manejo ambiental e o equilíbrio neuroendócrino. Diferente da abordagem convencional, que frequentemente se concentra na supressão de sintomas através de fármacos de ação rápida, a medicina sistêmica busca identificar os desequilíbrios bioquímicos que precedem a manifestação clínica da doença. A individualidade bioquímica é respeitada, reconhecendo que dois animais com o mesmo diagnóstico podem exigir protocolos distintos baseados em sua genética, histórico de vida e estado do microbioma.
O papel do microbioma intestinal consolidou-se como o eixo central da saúde sistêmica. Pesquisas recentes demonstram que a barreira intestinal não é apenas um local de absorção de nutrientes, mas o principal órgão imunológico do corpo. O eixo intestino-cérebro e o eixo intestino-imunidade explicam como a disbiose pode desencadear desde distúrbios comportamentais até inflamações sistêmicas de baixo grau. Na MVI, a restauração da eubiose é considerada o primeiro passo para qualquer intervenção terapêutica, visando reduzir a carga antigênica e a translocação bacteriana.
É imperativo ressaltar que a medicina integrativa não se posiciona como um substituto à medicina convencional, mas como um complemento que amplia o arsenal do médico veterinário. A utilização de exames laboratoriais avançados, diagnóstico por imagem e intervenções cirúrgicas permanece essencial. Contudo, a integração de terapias que estimulam os mecanismos de autorregulação do organismo permite uma redução na dependência de medicamentos com efeitos colaterais significativos, como corticosteroides e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), promovendo uma cura mais profunda e duradoura.
A nutrição na MVI é encarada como a ferramenta terapêutica primária e contínua. A transição para dietas biologicamente apropriadas (species-appropriate), ricas em proteínas de alto valor biológico e com baixo índice glicêmico, visa respeitar a fisiologia de carnívoros facultativos (cães) e carnívoros estritos (gatos). O controle da carga inflamatória da dieta é crucial para mitigar a ativação constante do sistema imune inato, prevenindo o desenvolvimento de sensibilidades alimentares e doenças inflamatórias intestinais (DII).
O manejo da disbiose intestinal envolve o uso estratégico de probióticos multicepas, prebióticos (como FOS e GOS) e enzimas digestivas que auxiliam na quebra eficiente de macromoléculas. A integridade da barreira intestinal, mantida por aminoácidos como a glutamina e ácidos graxos de cadeia curta, é a primeira linha de defesa contra a síndrome do intestino permeável (leaky gut). Ao selar as tight junctions do epitélio intestinal, impede-se que toxinas e fragmentos bacterianos alcancem a circulação sistêmica, o que é fundamental no tratamento de doenças autoimunes e dermatites atópicas.
A suplementação na medicina integrativa utiliza nutracêuticos com alto embasamento científico para modular vias metabólicas específicas. O uso de ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA) em doses terapêuticas é amplamente documentado por sua ação anti-inflamatória e neuroprotetora. Compostos como a curcumina (em formas de alta biodisponibilidade), a silimarina para suporte hepático e a N-acetilcisteína como precursor de glutationa, atuam no combate ao estresse oxidativo, um denominador comum em quase todas as patologias degenerativas.
A fitoterapia veterinária, quando aplicada com rigor técnico, oferece alternativas eficazes para o controle de ansiedade, suporte imunológico e manejo de dores crônicas. O uso de adaptógenos, como a Ashwagandha e o Panax ginseng, auxilia o animal a lidar com o estresse crônico, regulando o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA). É fundamental que a prescrição desses compostos considere as particularidades metabólicas de cada espécie, especialmente a sensibilidade hepática dos felinos a certos compostos fenólicos.
A introdução de peptídeos bioativos representa a fronteira da medicina regenerativa veterinária. Compostos como o BPC-157 (Body Protection Compound) e a Timosina Beta-4 (TB-500) têm demonstrado resultados promissores na aceleração do reparo tecidual e na modulação da angiogênese. O BPC-157, em particular, destaca-se por sua capacidade de promover a cicatrização de úlceras gástricas e lesões tendíneas, agindo através da regulação positiva de receptores de fatores de crescimento.
A Timosina Alfa-1 atua como um potente imunomodulador, auxiliando na recalibração das células T reguladoras, o que é vital em quadros de imunodeficiência ou em doenças onde o sistema imune ataca o próprio organismo. Esses peptídeos oferecem uma via de tratamento com alta especificidade e baixo perfil de toxicidade, uma vez que são sequências de aminoácidos que mimetizam moléculas sinalizadoras naturais do corpo. Sua aplicação clínica estende-se desde o suporte em pós-operatórios complexos até o manejo de doenças inflamatórias multissistêmicas.
O Sistema Endocanabinoide (SEC) é um sistema de sinalização lipídica onipresente em mamíferos, responsável por manter a homeostase em diversos processos fisiológicos, incluindo dor, memória, apetite e resposta imune. A utilização de fitocanabinoides, como o CBD e o THC, permite a modulação dos receptores CB1 (predominantes no sistema nervoso central) e CB2 (frequentes em células imunes). Em cães, a densidade de receptores CB1 no cerebelo é superior à de humanos, o que exige cautela e precisão na dosagem de THC para evitar quadros de ataxia.
As aplicações clínicas da cannabis medicinal na veterinária são vastas, com evidências robustas no controle da dor crônica osteoarticular e na redução da frequência de crises em epilepsias refratárias. Além disso, o potencial antitumoral e paliativo em pacientes oncológicos melhora significativamente o apetite e o bem-estar geral. No Brasil, embora a legislação ainda esteja em evolução, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e decisões judiciais recentes têm amparado a prescrição por médicos veterinários habilitados, desde que seguidos os critérios éticos e técnicos de segurança.
A aplicação prática da MVI pode ser observada em diversos sistemas orgânicos. No sistema gastrointestinal, o tratamento de gastrites crônicas e pancreatites deixa de ser focado apenas em antiácidos e passa a incluir a reparação da mucosa com peptídeos e a modulação da microbiota. No sistema musculoesquelético, o manejo da osteoartrite e da displasia coxofemoral torna-se multimodal, combinando condroprotetores, cannabis para analgesia e fisioterapia, visando preservar a mobilidade e reduzir a carga de AINEs que poderiam comprometer a função renal a longo prazo.
Em pacientes neurológicos, especialmente geriatras com síndrome de disfunção cognitiva, a abordagem integrativa utiliza antioxidantes mitocondriais e canabinoides para reduzir a neuroinflamação. No sistema imunológico, o foco é a imunomodulação em vez da imunossupressão severa, buscando o equilíbrio em casos de dermatites alérgicas e lúpus eritematoso. O suporte ao paciente geriátrico é, talvez, onde a MVI brilha com maior intensidade, oferecendo uma abordagem de "cuidados de conforto" que prioriza a dignidade e a ausência de dor através de suporte renal, hepático e nutricional personalizado.
Apesar dos avanços, a MVI enfrenta desafios significativos para sua plena aceitação. A necessidade de mais estudos clínicos randomizados, controlados e em larga escala com populações animais é urgente para consolidar as dosagens e protocolos de segurança de novas terapias, como os peptídeos. Existe ainda uma resistência natural por parte de setores da comunidade acadêmica tradicional, que muitas vezes confunde práticas integrativas baseadas em evidências com pseudociência, o que demanda um esforço contínuo de educação e publicação de resultados clínicos mensuráveis.
A formação profissional também precisa ser atualizada, integrando conceitos de bioquímica nutricional e farmacologia natural nas grades curriculares de graduação. A regulamentação e a padronização da qualidade dos produtos (especialmente fitoterápicos e canabinoides) são essenciais para garantir a segurança do paciente. O futuro, no entanto, é promissor; a medicina de precisão, que utiliza testes genéticos e metabolômicos para guiar o tratamento, está se tornando cada vez mais acessível, permitindo que a medicina veterinária alcance níveis de personalização sem precedentes.
A Medicina Veterinária Integrativa representa a evolução natural da prática clínica, movendo-se de um modelo focado na doença para um modelo focado na saúde e na resiliência biológica. Ao unir o rigor científico da medicina convencional com a profundidade terapêutica das abordagens sistêmicas, o médico veterinário torna-se capaz de oferecer soluções mais humanas, eficazes e personalizadas. O equilíbrio entre a tecnologia de ponta e o respeito à individualidade bioquímica e emocional do animal é o único caminho viável para enfrentar o aumento das doenças crônicas na população de pets.
Em suma, a promoção da homeostase através da nutrição funcional, modulação do microbioma e uso de terapias avançadas como canabinoides e peptídeos, não apenas prolonga a vida, mas garante que essa longevidade seja acompanhada de qualidade. A próxima década deverá consolidar a MVI como o padrão ouro de atendimento, onde a ciência e a visão holística caminham juntas em benefício do bem-estar animal e da satisfação dos tutores.
ALMEIDA, R. V. Nutrição Clínica de Cães e Gatos: Princípios e Práticas Integrativas. 2. ed. São Paulo: Editora Acadêmica, 2024.
BARROS, L. F. Sistema Endocanabinoide em Mamíferos: Fisiologia e Aplicações Terapêuticas na Veterinária. Revista Brasileira de Ciência Veterinária, v. 31, n. 2, p. 45-58, 2025.
FERREIRA, M. A. Peptídeos Bioativos e Regeneração Tecidual: O Futuro da Medicina Veterinária. Jornal de Terapias Avançadas, Curitiba, v. 12, n. 4, p. 112-125, 2026.
GOMES, J. S. Microbioma Intestinal e o Eixo Intestino-Cérebro em Pequenos Animais. Rio de Janeiro: Intermédica, 2023.
MARTINS, C. P. Abordagem Integrativa na Doença Renal Crônica em Felinos. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária, v. 78, n. 1, p. 89-104, 2024.
OLIVEIRA, T. R. Fitoterapia Veterinária Baseada em Evidências. Porto Alegre: Artmed, 2025.
SILVA, A. C. Homeostase e Inflamação de Baixo Grau: O Desafio das Doenças Crônicas em Pets. Revista de Patologia Comparada, v. 19, n. 3, p. 210-222, 2023.
SOUZA, E. L. Uso de Canabidiol no Controle da Epilepsia Refratária em Cães: Estudo Retrospectivo. Veterinária e Zootecnia em Foco, v. 15, n. 2, p. 33-47, 2025.
Documento elaborado em 20 de julho de 2026. As informações contidas são de responsabilidade do solicitante.
A compreensão das doenças autoimunes em cães e gatos exige uma análise profunda do mimetismo molecular e da quebra da autotolerância. Na medicina integrativa, postula-se que a exposição crônica a antígenos alimentares mal digeridos, somada a adjuvantes ambientais, pode induzir uma resposta imune cruzada, onde o sistema imunológico passa a atacar epítopos próprios que assemelham-se a estruturas patogênicas. Este fenômeno é frequentemente observado em casos de tireoidite autoimune e pênfigo foliáceo, onde a barreira hematoencefálica ou cutânea encontra-se comprometida por processos inflamatórios prévios.
O tratamento convencional, baseado quase exclusivamente na imunossupressão via glicocorticoides ou ciclosporina, embora eficaz na remissão aguda, falha em abordar a causa da hiper-reatividade. A abordagem sistêmica propõe a "recalibragem" do sistema imune através da remoção de gatilhos inflamatórios (dietas ultraprocessadas e alérgenos ambientais) e da introdução de agentes que favorecem a diferenciação de linfócitos T reguladores (Tregs). A estabilização da membrana celular e a redução da produção de citocinas pró-inflamatórias, como o TNF-alfa e a IL-6, são fundamentais para interromper o ciclo de autodestruição tecidual.
A Timosina Alfa-1 (Tα1) destaca-se na MVI como um peptídeo pleiotrópico derivado da glândula timo, essencial para a maturação e funcionalidade dos linfócitos. Em pacientes com doenças autoimunes ou infecções virais crônicas (como FIV e FeLV em felinos), a Tα1 atua aumentando a atividade das células natural killer (NK) e modulando a liberação de citocinas de acordo com o estado do hospedeiro. Sua capacidade de induzir a expressão de IL-10, uma citocina anti-inflamatória, auxilia na restauração da tolerância imunológica sem causar a supressão generalizada que predispõe o animal a infecções oportunistas.
O reparo de tecidos moles e a regeneração de mucosas são pilares onde a MVI utiliza os peptídeos BPC-157 e Timosina Beta-4 (TB-500) de forma sinérgica. O BPC-157, um pentadecapeptídeo isolado do suco gástrico humano, possui uma notável estabilidade e capacidade de promover a angiogênese através da modulação da via do VEGFR2. Em cães com doença inflamatória intestinal ou gastrites erosivas crônicas, o BPC-157 atua como um agente citoprotetor, acelerando a reepitelização e fortalecendo as junções intercelulares, o que é vital para reverter a permeabilidade intestinal aumentada.
O Sistema Endocanabinoide (SEC) atua como um "termostato" biológico, regulando a liberação de neurotransmissores e a excitabilidade neuronal. Em cães e gatos, a distribuição dos receptores CB1 e CB2 segue padrões específicos que ditam a resposta terapêutica. O uso de extratos de Cannabis sativa de espectro completo (full spectrum) é preferível na MVIdevido ao "efeito comitiva" (entourage effect), onde terpenos, flavonoides e canabinoides menores potencializam a ação do CBD e modulam os efeitos psicotrópicos do THC.
A prescrição de cannabis medicinal por médicos veterinários no Brasil é um tema de intensa evolução jurídica e ética. Embora o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a ANVISA ainda possuam lacunas regulatórias específicas para o uso veterinário, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) tem se posicionado favoravelmente à autonomia do profissional, desde que a prescrição seja fundamentada em evidências científicas e para fins estritamente terapêuticos.
A medicina de precisão na veterinária integrativa utiliza ferramentas de ômicas para mapear o perfil genético e metabólico individual do animal. Testes genéticos que identificam polimorfismos em genes de desintoxicação hepática ou predisposições a cardiomiopatias permitem que o clínico intervenha preventivamente, anos antes da manifestação fenotípica da doença. A metabolômica, por sua vez, oferece um "retrato" em tempo real do estado metabólico, identificando deficiências nutricionais subclínicas.
A MVI está intrinsecamente ligada ao conceito de Saúde Única (One Health), reconhecendo que a saúde dos animais, dos seres humanos e do ecossistema é interdependente. A redução do uso indiscriminado de antibióticos na clínica de pequenos animais, substituindo-os por moduladores do sistema imune e probióticos quando apropriado, é uma contribuição direta para o combate à resistência antimicrobiana global.
Documento elaborado em 20 de julho de 2026.
DISCLAIMER E SUPERVISÃO TÉCNICA
Este documento constitui uma análise técnico-científica independente. As informações aqui contidas são baseadas em evidências científicas disponíveis até a data de publicação e não substituem a avaliação clínica individualizada por médico-veterinário habilitado. RESPEITANDO AS NORMAS E INSTITUIÇÕES REGULATÓRIAS DE CADA PAIS Não fazemos protocolos fechados — nosso compromisso é com a informação de qualidade, a ciência e o bem-estar animal.
Agradecimentos: Os autores agradecem à equipe técnica da Petclube e ao corpo clínico da Clínica 3RD pelo suporte
A Cardiomiopatia Hipertrófica (HCM) e a Doença Renal Policística (PKD) representam duas das afecções genéticas mais prevalentes na clínica de felinos. Tradicionalmente, a presença de mutações nos genes MYBPC3 (HCM) e PKD1 (PKD) era vista como uma sentença determinística. Contudo, a epigenética moderna demonstra que o fenótipo é o resultado da interação entre o genótipo e o microambiente celular. Este estudo revisa como intervenções integrativas — com destaque para a Alimentação Natural (AN) biologicamente apropriada, suplementação com ácidos graxos Ômega-3 e a modulação pelo Sistema Endocanabinoide através da Cannabis Medicinal — exercem uma "pressão epigenética positiva". Tais fatores são capazes de silenciar a expressão de genes deletérios, retardar a cistogênese renal e atenuar o remodelamento miocárdico, promovendo longevidade e qualidade de vida.
Na medicina veterinária clássica, o diagnóstico genético positivo para HCM ou PKD frequentemente carrega um prognóstico sombrio. A HCM caracteriza-se pelo espessamento concêntrico do ventrículo esquerdo, predispondo a falência cardíaca, arritmias e tromboembolismo. A PKD, por sua vez, envolve a formação progressiva de cistos renais bilaterais que culminam em doença renal crônica (DRC).
No entanto, a prática clínica integrativa observa que felinos portadores das mesmas mutações apresentam cursos clínicos drasticamente diferentes. Essa divergência fenotípica é explicada pela epigenética: alterações reversíveis na expressão gênica que não alteram a sequência de DNA subjacente. Fatores ambientais, nutricionais e metabólicos atuam como interruptores, ativando ou silenciando a transcrição de genes patológicos.
A "pressão genética negativa" herdada pelo paciente pode ser modulada por três mecanismos epigenéticos principais:
A dieta é o modulador epigenético mais potente e de exposição mais frequente na vida de um felino. A transição de dietas ultraprocessadas (kibble) para a Alimentação Natural (AN) altera fundamentalmente o microambiente celular.
A suplementação com Ômega-3 em doses terapêuticas atua diretamente na estabilização das membranas celulares e na modulação da resposta imune:
A integração da fitoterapia canabinoide (óleos de espectro completo ricos em CBD) oferece uma via de sinalização única através do Sistema Endocanabinoide (SEC), essencial para a homeostase sistêmica:
A epigenética também é profundamente influenciada pelo ambiente externo. O estresse ambiental crônico altera a metilação do DNA através do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA).
A manifestação clínica da HCM e da PKD em felinos não deve ser encarada sob uma ótica de fatalismo genético. A "pressão negativa" exercida por mutações nos genes MYBPC3 e PKD1 pode ser eficientemente contrabalanceada por uma pressão epigenética positiva.
A adoção de uma abordagem integrativa — fundamentada na Alimentação Natural, na modulação inflamatória pelo Ômega-3, no equilíbrio homeostático promovido pela Cannabis Medicinal e na redução do estresse ambiental — altera o microambiente celular. Esse novo panorama metabólico e oxidativo desfavorece a expressão dos genes patológicos, inibindo o remodelamento cardíaco e a cistogênese renal. Dessa forma, a medicina veterinária integrativa atua na raiz do problema, oferecendo aos pacientes geneticamente predispostos uma oportunidade real de longevidade com alta qualidade de vida.
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MEDICINA VETERINÁRIA
PRODUÇÃO FISIOLÓGICA DO HORMÔNIO DO CRESCIMENTO (GH) E DO FATOR DE CRESCIMENTO SEMELHANTE À INSULINA TIPO 1 (IGF-1) EM CÃES E GATOS: REVISÃO DE LITERATURA BASEADA EM EVIDÊNCIAS PARA PESQUISA DE DOUTORADO EM MEDICINA VETERINÁRIA
Revisão sistemática e análise comparativa do eixo somatotrófico em animais de companhia
AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
Gabriel Amichetti³ — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Afiliações:
¹ Petclube, São Paulo, Brasil
²
³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil
19 de agosto de 2026
Esta revisão caracteriza a secreção fisiológica do hormônio do crescimento (GH) e do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1) em cães (Canis lupus familiaris) e gatos (Felis catus), fundamentada em evidências científicas contemporâneas. O eixo somatotrófico nestas espécies apresenta particularidades biológicas distintas, como a produção mamária de GH em cadelas e a alta prevalência de hiperesomatotropismo em gatos diabéticos. A secreção de GH é marcadamente pulsátil e episódica, o que limita a utilidade diagnóstica de mensurações isoladas. Em contrapartida, o IGF-1 atua como um marcador estável de exposição crônica ao GH, apresentando correlações significativas com o porte corporal e a idade. Identifica-se uma lacuna crítica na literatura veterinária quanto à padronização de valores de produção diária de GH em massa (mg) ou unidades internacionais (UI), sendo a prática clínica e a pesquisa dependentes de concentrações séricas de IGF-1 e testes dinâmicos de supressão ou estimulação.
O hormônio do crescimento (GH), ou somatotropina, é um polipeptídeo sintetizado e secretado pelos somatotrofos da adenohipófise de forma pulsátil e episódica. Esta secreção não ocorre de maneira contínua; ao contrário, é caracterizada por picos de amplitude variável, ocorrendo predominantemente durante o sono de ondas lentas. Na medicina veterinária, a avaliação da integridade do eixo somatotrófico é fundamental para o diagnóstico de distúrbios de crescimento, como o nanismo hipofisário canino, e de estados de excesso hormonal, notadamente a acromegalia felina — condição frequentemente associada a adenomas hipofisários e resistência severa à insulina em pacientes com diabetes mellitus.
Devido à natureza pulsátil do GH, uma dosagem sérica isolada possui baixo valor preditivo positivo, uma vez que níveis basais podem ser indetectáveis mesmo em indivíduos saudáveis. O fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), produzido majoritariamente no fígado sob estímulo do GH, possui meia-vida longa e concentrações plasmáticas estáveis, servindo como o principal marcador biológico da atividade somatotrófica. Para fins de padronização farmacológica e comparativa, adota-se a equivalência de que 1 mg de GH recombinante corresponde a aproximadamente 3 UI.
A regulação da secreção de GH em cães e gatos é mediada pelo equilíbrio entre o hormônio liberador de GH (GHRH), de caráter estimulatório, e a somatostatina, de caráter inibitório. Fatores periféricos como a grelina e esteroides sexuais modulam essa dinâmica; o estradiol, especificamente, é conhecido por amplificar a amplitude dos pulsos secretórios.
No que tange à espécie felina, o hiperesomatotropismo (HST) é quase invariavelmente decorrente de adenomas hipofisários secretores de GH. Evidências recentes indicam que cerca de 15% a 25% dos gatos com diabetes mellitusapresentam acromegalia secundária (Scudder & Church, 2024). O diagnóstico baseia-se na detecção de IGF-1 sérico elevado, embora a administração crônica de insulina possa mascarar ou elevar marginalmente esses níveis, exigindo cautela na interpretação clínica.
Em cães, observa-se um fenômeno singular: a biossíntese de GH de origem mamária. Progestágenos, sejam endógenos (fase de diestro) ou exógenos (acetato de medroxiprogesterona), induzem a expressão do gene do GH no tecido mamário canino. Este GH é quimicamente idêntico ao hipofisário e pode atingir a circulação sistêmica em concentrações suficientes para induzir acromegalia clínica (Selman et al., 1994). Adicionalmente, neoplasias mamárias podem atuar como fontes ectópicas de GH, resultando em quadros de excesso somatotrófico em cadelas (Murai et al., 2011).
Diferentemente de outras espécies, o cão doméstico apresenta uma variação de porte corporal sem paralelos, a qual é diretamente refletida nos níveis de IGF-1. Estudos demonstram que o IGF-1 sérico correlaciona-se positivamente com o peso adulto esperado, sendo significativamente superior em raças de grande porte (Eigenmann et al., 1988; Greer et al., 2011).
O declínio fisiológico do eixo somatotrófico com o envelhecimento, denominado somatopausa, é documentado em cães. Em machos intactos, observa-se um declínio médio de 0,39 ng/mL por mês de idade, enquanto em fêmeas intactas a redução é de 0,55 ng/mL por mês (Greer et al., 2011). Em populações saudáveis heterogêneas, a média de IGF-1 situa-se em torno de 315 ng/mL, embora a variabilidade individual e metodológica seja expressiva (Tvarijonaviciute et al., 2011).
É imperativo ressaltar que, na literatura veterinária, não existem valores consolidados para a produção diária total de GH em mg/dia ou UI/dia. A investigação científica e a rotina diagnóstica baseiam-se estritamente em concentrações de IGF-1 e em testes dinâmicos, como o teste de supressão por sobrecarga de glicose para confirmação de acromegalia em gatos.
| Espécie | Faixa etária/fase | Secreção 24h (mg/dia) | Secreção 24h (UI/dia) | Marcador de rotina | Observações clínicas |
|---|---|---|---|---|---|
| Humanos | Pré-púberes | 0,1 – 0,3 | 0,3 – 0,9 | IGF-1 sérico | Referência de fisiologia comparada |
| Humanos | Pico puberal | 0,4 – 1,0 | 1,2 – 3,0 | IGF-1 sérico | Aumento de 2–4x vs. pré-puberal |
| Humanos | Adulto jovem | 0,2 – 0,5 | 0,6 – 1,5 | IGF-1 sérico | Mulheres > homens (estradiol) |
| Humanos | Idoso | 0,03 – 0,1 | 0,09 – 0,3 | IGF-1 sérico | Declínio de ~14% por década |
| Cães | Filhotes | N/P* | — | IGF-1 sérico | IGF-1 elevado; correlação com porte |
| Cães | Adultos | N/P* | — | IGF-1 sérico | GH mamário (progestágenos); IGF-1 ~315 ng/mL |
| Cães | Idosos | N/P* | — | IGF-1 sérico | Declínio de 0,39–0,55 ng/mL/mês |
| Gatos | Adultos | N/P* | — | IGF-1 sérico | HST em 15–25% dos gatos diabéticos |
| Gatos | Idosos | N/P* | — | IGF-1 sérico | Somatopausa; relevância no envelhecimento |
*N/P = valores não padronizados na literatura veterinária em mg/dia ou UI/dia. A rotina utiliza IGF-1 sérico (ng/mL) e testes dinâmicos.
A ausência de valores normativos de produção diária de GH em cães e gatos representa uma oportunidade para investigações de doutorado que busquem a modelagem farmacocinética e farmacodinâmica do eixo somatotrófico. É necessária a padronização de intervalos de referência para o IGF-1 que considerem não apenas a idade, mas o porte e a raça, dada a influência genética sobre o locus do IGF-1 em cães.
Outras frentes de pesquisa incluem o estudo da acromegalia felina em pacientes não diabéticos e a investigação da somatopausa como fator contribuinte para a sarcopenia e fragilidade em animais geriátricos. A correlação entre obesidade e a supressão do eixo GH/IGF-1 nestas espécies também carece de dados longitudinais robustos.
A compreensão da fisiologia pulsátil do GH e da estabilidade do IGF-1 é o pilar para o avanço da endocrinologia em pequenos animais. Embora a medicina humana forneça parâmetros quantitativos de produção diária, a medicina veterinária deve focar na consolidação de marcadores de exposição crônica e testes dinâmicos. A identificação de lacunas na padronização por porte e idade justifica o desenvolvimento de projetos de pesquisa em nível de doutorado para refinar o diagnóstico e manejo de distúrbios somatotróficos.