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A obesidade felina é uma pandemia silenciosa que compromete severamente a saúde e o bem-estar dos gatos domésticos. Este artigo explora a distinção fundamental entre um gato obeso e um gato musculoso, destacando o papel crítico da nutrição na determinação da composição corporal. Aborda a fisiologia digestiva e metabólica dos felinos como carnívoros estritos, enfatizando sua ineficiência no processamento de carboidratos e a necessidade de dietas ricas em proteínas. Realiza uma análise comparativa de diferentes abordagens nutricionais, incluindo rações comerciais brasileiras e internacionais de perfil low-carb, além da Alimentação Natural (AN), avaliando seus perfis de macronutrientes, custos e impactos na prevenção e manejo da obesidade e condições inflamatórias. Exemplos de formulações básicas de AN são apresentados para ilustrar os princípios, com forte ênfase na necessidade de formulação e acompanhamento veterinário especializado. Conclui-se que a escolha da dieta, pautada em altos níveis proteicos e baixos carboidratos, é um pilar essencial para a manutenção da saúde muscular e metabólica, mitigando os riscos associados à obesidade e às doenças correlacionadas, com implicações diretas na qualidade de vida e nos custos veterinários a longo prazo.
Palavras-chave: Gato, Obesidade Felina, Nutrição Felina, Dieta Low-Carb, Proteína, Alimentação Natural, Inflamação.
A obesidade é a doença nutricional mais prevalente em animais de companhia em países desenvolvidos, afetando aproximadamente 20% a 40% da população felina (German, 2010). Caracterizada pelo acúmulo excessivo de tecido adiposo, esta condição crônica e multifatorial induz um estado pró-inflamatório sistêmico e aumenta significativamente o risco de comorbidades graves, como diabetes mellitus, doenças articulares, hepáticas, urinárias e certos tipos de neoplasias (Hoenig, 2012; Laflamme, 2001). Dada a crescente prevalência e os impactos deletérios na saúde felina, a compreensão da composição corporal ideal e o papel fundamental da nutrição na sua manutenção tornam-se imperativos para a medicina veterinária preventiva e terapêutica.
Gatos são classificados como carnívoros estritos, uma característica que moldou suas necessidades nutricionais e fisiologia metabólica ao longo da evolução. Sua dependência de uma dieta rica em proteína e gordura de origem animal, e sua capacidade limitada de processar grandes quantidades de carboidratos, é um aspecto central que deve guiar as estratégias alimentares (Zoran, 2002; NRC, 2006). A inadequação das dietas comerciais modernas em relação a essa especificidade metabólica é uma das principais preocupações que impulsionam a discussão sobre a formulação de alimentos para felinos (Amichetti et all 2024).
Este artigo visa elucidar a distinção entre um gato obeso e um gato musculoso através de critérios de avaliação física. Em seguida, aprofunda-se no papel dos macronutrientes, particularmente carboidratos e proteínas, na determinação da composição corporal e no metabolismo felino. Por fim, apresenta uma análise comparativa abrangente das principais estratégias nutricionais disponíveis, incluindo rações comerciais tradicionais brasileiras, rações internacionais de perfil low-carb e a Alimentação Natural (AN), detalhando seus perfis, custos e impactos na saúde dos felinos. O objetivo é fornecer subsídios científicos para a tomada de decisões informadas, promovendo dietas que otimizem a saúde muscular e metabólica e minimizem os riscos associados à obesidade e às doenças inflamatórias.
A avaliação da condição corporal (escore corporal) é uma ferramenta clínica essencial para identificar o estado nutricional de um gato. É crucial diferenciar o acúmulo de gordura do desenvolvimento muscular, pois, embora ambos contribuam para o peso corporal, seus efeitos na saúde são diametralmente opostos.
Um gato obeso manifesta características físicas que denunciam o excesso de tecido adiposo:
Em contraste, um gato com boa condição muscular e peso ideal apresenta:
A composição dos macronutrientes na dieta felina é o fator mais determinante para a manutenção da condição corporal ideal e prevenção de doenças metabólicas.
Os gatos apresentam adaptações metabólicas singulares que os tornam ineficientes no processamento de grandes quantidades de carboidratos:
Quando os gatos ingerem dietas com alto teor de carboidratos, comuns em muitas rações secas comerciais (Laflamme, 2001), o excesso de glicose é rapidamente convertido em gordura através da lipogênese. Isso contribui diretamente para:
Como carnívoros obrigatórios, os gatos possuem uma necessidade dietética elevada e contínua de proteína animal de alta qualidade. A proteína é essencial para a manutenção da massa muscular, reparo tecidual, produção de enzimas e hormônios, e serve como o principal substrato para a gliconeogênese (NRC, 2006). Dietas com alto teor proteico e baixo carboidrato oferecem múltiplos benefícios:
A escolha da dieta para gatos envolve a consideração de diversas opções disponíveis no mercado e na prática veterinária. Uma análise aprofundada das categorias alimentares é fundamental para subsidiar decisões que impactem positivamente a saúde felina.
Estas rações são amplamente disponíveis, caracterizam-se pela conveniência e, muitas vezes, por um custo mais acessível. Contudo, grande parte delas é formulada com altos níveis de carboidratos (oriundos de grãos como milho, arroz, trigo e seus derivados) para baratear os custos de produção e facilitar o processo de extrusão.
Representam uma categoria de rações formuladas para se aproximarem mais da dieta ancestral felina. São frequentemente importadas ou de marcas super premium com filosofias nutricionais mais alinhadas aos carnívoros estritos.
A Alimentação Natural (AN), quando corretamente formulada e balanceada, busca replicar a dieta que os felinos consumiriam em seu ambiente natural, composta majoritariamente por carne, órgãos e ossos. É uma modalidade que oferece o maior controle sobre a qualidade e procedência dos ingredientes, sendo livre de aditivos, conservantes e carboidratos excessivos.
Uma dieta de AN caseira para gatos, seja crua ou cozida, deve ser composta por ingredientes de alta qualidade, de procedência confiável, e balanceada para atender às exigências de carnívoros estritos:
É crucial ressaltar que os exemplos a seguir são simplificados e didáticos. Eles servem para ilustrar os componentes e proporções básicas, mas NÃO SÃO FORMULAÇÕES COMPLETAS E BALANCEADAS POR SI SÓS. A formulação de uma dieta de AN deve ser individualizada e calculada por um médico-veterinário nutricionista para garantir a adequação às necessidades específicas do gato e evitar deficiências ou excessos que poderiam comprometer a saúde a longo prazo.
Esta é uma estrutura básica que deve ser complementada e ajustada por um profissional.
Ingredientes (Proporções Ilustrativas para um gato adulto saudável):
Preparo Geral:
Uma alternativa para gatos que não se adaptam ao cru, requer atenção redobrada à suplementação.
Ingredientes (Proporções Ilustrativas para um gato adulto saudável):
Preparo Geral:
A seguir, um quadro comparativo das diferentes abordagens nutricionais para gatos, considerando aspectos de custo, composição e impacto na saúde.
| Característica | Ração Comercial Tradicional Brasileira | Ração Comercial Low-Carb/Importada | Alimentação Natural (AN) |
|---|---|---|---|
| Exemplos de Marcas/Tipos | N&D (linhas gerais), Royal Canin (linhas gerais), Pro Plan (linhas gerais) | Acana, Ziwi Peak, Stella & Chewy's, Instinct, Orijen | Dietas caseiras (cruas ou cozidas) formuladas por veterinário |
| Nível de Proteína (% MS) | 30-40% (moderado-alto) | 40-50%+ (alto-muito alto) | 50-65%+ (muito alto) |
| Nível de Carboidratos (% MS) | 35-50%+ (alto-muito alto) | 10-25% (baixo) | 0-5% (muito baixo/quase ausente) |
| Fontes de Carboidratos | Milho, arroz, trigo, soja, batata, ervilha | Ervilhas, lentilhas, batata-doce em menor quantidade, sem grãos | Vegetais e frutas em mínimas quantidades (fibra), ou ausentes. |
| Custo Aproximado (porção diária) | Baixo-Médio | Médio-Alto | Médio-Alto (dependendo da qualidade e procedência dos ingredientes) |
| Impacto na Obesidade | Maior risco de obesidade e ganho de peso | Menor risco de obesidade, ajuda no controle de peso | Excelente controle de peso, menor risco de obesidade |
| Impacto na Inflamação | Pode contribuir para o estado pró-inflamatório crônico | Ajuda a reduzir a inflamação sistêmica | Reduz significativamente a inflamação |
| Palatabilidade | Variável | Geralmente alta | Geralmente muito alta |
| Digestibilidade | Boa a Moderada | Excelente | Excelente |
| Conveniência | Muito alta | Alta | Baixa a Moderada (requer preparo e planejamento) |
| Necessidade de Suplementação | Geralmente não (já balanceado) | Geralmente não (já balanceado) | Essencial e individualizada, sob orientação veterinária |
A escolha da dieta tem implicações profundas não apenas na composição corporal, mas também na saúde metabólica geral e nos custos veterinários a longo prazo. Gatos obesos frequentemente requerem acompanhamento veterinário contínuo para o manejo de condições secundárias como diabetes mellitus, doenças articulares degenerativas, problemas urinários (cistite idiopática felina, urolitíases) e hepáticos (lipidose hepática), resultando em despesas significativas com consultas, exames diagnósticos, medicamentos e terapias de suporte.
O aumento da inflamação sistêmica em gatos obesos (Bermingham et al., 2014) agrava diversas doenças e pode ser um fator subjacente em condições dermatológicas, gastrointestinais e autoimunes. Dietas com alto teor de carboidratos, ao promoverem o ganho de peso e a resistência à insulina, perpetuam esse ciclo vicioso de inflamação e doença, impactando negativamente a longevidade e a qualidade de vida.
Por outro lado, o investimento em dietas de alta qualidade, como as rações low-carb ou a alimentação natural cuidadosamente formulada, embora possa representar um custo inicial por porção mais elevado, tende a se traduzir em menores despesas veterinárias ao longo da vida do animal. A prevenção da obesidade e de suas comorbidades reduz a necessidade de intervenções médicas, melhorando significativamente a qualidade de vida do gato e proporcionando tranquilidade ao tutor.
A Alimentação Natural, quando corretamente formulada por um médico-veterinário especialista em nutrição, oferece o benefício adicional de ingredientes frescos, minimamente processados e sem aditivos químicos, o que pode otimizar ainda mais a saúde felina. A referência citada (Amichetti Júnior, 2024 - https://petclube.com.br/noticias/5549-disbiose-intestinal,-trigo-moderno-e-suas-implica%C3%A7%C3%B5es-metab%C3%B3licas-e-cut%C3%A2neas-em-c%C3%A3es-e-gatos-uma-revis%C3%A3o-abrangente.html{target="_blank"}) destaca a importância de evitar ingredientes que podem levar à disbiose intestinal e inflamação, reforçando a premissa de que a qualidade da dieta é fundamental para a saúde intestinal e sistêmica.
A distinção entre um gato gordo e um gato musculoso é um indicador crítico da saúde metabólica e do bem-estar geral do felino. A fisiologia dos gatos, como carnívoros estritos, exige uma dieta rica em proteínas de alta qualidade e com baixo teor de carboidratos. Dietas que desrespeitam essa especificidade metabólica, particularmente aquelas com altos níveis de carboidratos, contribuem significativamente para a epidemia de obesidade, resistência à insulina e inflamação sistêmica em felinos.
A análise comparativa de rações comerciais e da alimentação natural revela que as opções low-carb, sejam elas rações importadas super premium ou dietas naturais cuidadosamente formuladas, são superiores para a manutenção de um corpo musculoso e saudável. Embora o custo inicial possa ser um fator, o investimento em nutrição de qualidade reflete-se em uma redução substancial dos custos veterinários a longo prazo, pela prevenção e melhor manejo de doenças associadas à obesidade. É fundamental que tutores, em conjunto com médicos-veterinários, façam escolhas nutricionais informadas e personalizadas, garantindo que as dietas de Alimentação Natural sejam sempre formuladas e acompanhadas por profissionais, para promover a longevidade, a vitalidade e a qualidade de vida de seus gatos.
Os autores agradecem ao Petclube pelo contínuo suporte à pesquisa e divulgação de informações cruciais para a saúde e bem-estar animal.
PETCLUBE – CIÊNCIA, GENÉTICA E BEM-ESTAR ANIMAL
MALEFÍCIOS DA CASTRAÇÃO PRECOCE EM CÃES:
revisão crítica da literatura científica
Artigo de revisão crítica sobre os impactos da gonadectomia precoce na saúde e bem-estar
canino.
AUTORES:
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Dr. Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA
060149829-SP (Eng. Agr.). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e
Alimentação Natural, Petclube.
² Petclube, São Paulo, Brasil.
³ Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos
Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Autor correspondente:Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflito de interesses:Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Periódico:Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal.
Resumo
A gonadectomia é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados na medicina veterinária de pequenos animais, frequentemente indicada para controle populacional e prevenção de enfermidades reprodutivas. Nas últimas décadas, difundiu-se a prática da castração precoce, realizada antes da maturidade sexual. Entretanto, evidências científicas acumuladas indicam quea remoção antecipada das gônadas pode interferir de modo relevante na fisiologia do desenvolvimento canino, aumentando o risco de doenças ortopédicas, neoplasias, distúrbios urinários e alterações metabólicas. Estudos recentes demonstram que esses efeitos adversos variam significativamente conforme a raça, porte e finalidade do animal, sendo particularmente preocupantes em cães de raça definida e em cães de trabalho. O presente trabalho apresenta uma revisão crítica da literatura científica sobre os efeitos adversos da castração precoce em cães, discutindo mecanismos fisiológicos, implicações clínicas e aspectos ético-jurídicos relacionados ao bem-estar animal.
Palavras-chave: gonadectomia; castração precoce; cães; ortopedia veterinária; neoplasias; bem-estar animal; cães de trabalho.
1. Introdução
A esterilização cirúrgica por gonadectomia é amplamente utilizada na medicina veterinária como estratégia de controle populacional e prevenção de doenças reprodutivas em cães. A ovariohisterectomia em fêmeas e a orquiectomia em machos são procedimentos considerados rotineiros na prática clínica, especialmente em países como Estados Unidos, Reino Unido e Brasil.
Nas últimas décadas, recomendações para castração em idades cada vez mais precoces — frequentemente antes dos seis meses — foram incorporadas a programas de controle populacional e campanhas de adoção. Essa prática, embora difundida, tem sido progressivamente questionada na literatura científica, sobretudo quando aplicada de forma homogênea, sem estratificação por raça, porte, sexo e risco individual.
A remoção das gônadas antes da maturidade sexual interrompe precocemente a produção de esteroides sexuais, hormônios com papel central no crescimento, na maturação de tecidos e na regulação de múltiplos eixos fisiológicos. Dessa forma, a castração precoce deve ser entendida não apenas como intervenção reprodutiva, mas como intervenção endócrina com potencial de repercussões sistêmicas negativas.
Evidências científicas recentes associam a gonadectomia precoce a alterações significativas no crescimento ósseo, na maturação do sistema musculoesquelético, no metabolismo energético e no desenvolvimento do trato urinário. Estudos epidemiológicos de grande escala, como os realizados pela Universidade da Califórnia em Davis, demonstraram que a castração precoce pode aumentar em até três vezes o risco de doenças ortopédicas e determinados tipos de câncer em algumas raças (HART et al., 2016; TORRES DE LA RIVA et al., 2013).
Além das implicações clínicas, a prática da castração precoce levanta questões éticas e jurídicas relevantes. Em diversos países europeus, como Alemanha e Noruega, a castração sem indicação terapêutica é restrita ou proibida por legislação de proteção animal, sendo considerada uma intervenção desnecessária que pode comprometer o bem-estar do animal (FOSSATI, 2024; EUROPEAN CONVENTION, 2025).
A distinção entre cães sem raça definida e cães de raça definida assume particular importância nessa discussão. Enquanto a castração de cães sem raça definida pode ser justificada como medida de controle populacional e prevenção de abandono, em cães de raça definida a decisão deve considerar a preservação de características genéticas e a predisposição a enfermidades específicas da raça. Em cães de trabalho, como Pastores Alemães e Belgian Malinois, amanutenção da homeostase hormonal é fundamental para o desempenho de funções como faro, proteção e busca, tornando a castração precoce particularmente desaconselhável
Diante desse contexto, o presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão crítica da literatura científica sobre os principais efeitos adversos associados à castração precoce em cães, enfatizando mecanismos fisiológicos, implicações clínicas, aspectos ético-jurídicos e recomendações diferenciadas conforme a finalidade do animal.
2. Fisiologia hormonal e desenvolvimento
Os hormônios sexuais gonadais exercem funções essenciais na regulação do crescimento e do desenvolvimento do organismo canino. Testosterona e estrogênios participam, direta ou indiretamente, de processos fisiológicos fundamentais, incluindo:
• fechamento das placas epifisárias;
• desenvolvimento e manutenção do sistema musculoesquelético;
• preservação de massa muscular;
• modulação do metabolismo energético;
• maturação do sistema geniturinário;
• regulação do comportamento e funções cognitivas.
Quando a castração ocorre antes da maturidade sexual, a interrupção precoce da produção hormonal altera trajetórias fisiológicas esperadas do desenvolvimento. Um achado consistentemente relatado na literatura é o atraso no fechamento das placas epifisárias, resultando em crescimento prolongado dos ossos longos e alteração da biomecânica articular (HART et al., 2016; VETFOLIO, 2020).
A testosterona, em particular, desempenha papel crucial no desenvolvimento muscular, na densidade óssea e na agilidade — atributos essenciais para cães de trabalho. Estudos indicam que a remoção precoce dessa fonte hormonal pode comprometer a capacidade de desempenho em atividades que exigem força, resistência e coordenação motora (LEERBURG, 2023;BOWMAN REPORT, 2022).
Além disso, os hormônios sexuais participam da modulação do sistema nervoso central,influenciando comportamentos relacionados à atenção, foco e motivação — características críticas para cães de trabalho em atividades de faro, proteção e busca. A interrupção precoce da produção hormonal pode, portanto, comprometer não apenas o desenvolvimento físico, mas também o perfil comportamental necessário para essas funções.
3. Alterações ortopédicas associadas à castração precoce
Estudos epidemiológicos robustos demonstram que cães submetidos à castração precoce apresentam maior incidência de doenças ortopédicas ao longo da vida. Entre as condições mais frequentemente associadas, destacam-se:
• displasia coxofemoral;
• displasia de cotovelo;
• ruptura do ligamento cruzado cranial;
• doença do disco intervertebral.
O estudo seminal de Hart et al. (2016), publicado na Veterinary Medicine and Science, analisou 1.170 Pastores Alemães e demonstrou que a castração antes dos 12 meses de idade triplicava o risco de uma ou mais doenças articulares. Machos castrados precocemente apresentaram incidência de 21% de doenças ortopédicas, comparados a 7% em machos intactos. Fêmeas castradas antes de um ano apresentaram incidência de 16%, comparadas a 5% em fêmeas
intactas.
O estudo de Torres de la Riva et al. (2013), publicado na PLOS ONE, analisou 759 Golden Retrievers e demonstrou que a castração antes dos 12 meses de idade aumentava significativamente o risco de displasia coxofemoral e ruptura do ligamento cruzado cranial.
Machos castrados precocemente apresentaram risco três vezes maior de ruptura do ligamento cruzado em comparação com machos intactos.
Hart et al. (2020) ampliaram essa análise para 35 raças e para cães mestiços, confirmando que o risco de doenças ortopédicas associadas à castração precoce varia conforme a raça e o porte.
Em raças de grande porte, como Golden Retriever, Labrador Retriever e Pastor Alemão, os riscos são particularmente elevados. Em contraste, em raças de pequeno porte, os riscos ortopédicos são menos expressivos.
Essas alterações estão relacionadas à interferência da gonadectomia precoce no fechamento das placas epifisárias e no desenvolvimento do sistema musculoesquelético. O crescimento prolongado dos ossos longos altera a biomecânica articular, aumentando a carga sobre estruturas como o ligamento cruzado cranial e a articulação coxofemoral.
Para cães de trabalho, como Pastores Alemães e Belgian Malinois, essas alterações ortopédicastêm implicações particularmente graves. Esses animais frequentemente atuam em atividades que exigem agilidade, saltos e corridas, sendo a integridade do sistema musculoesquelético fundamental para o desempenho de suas funções. A castração precoce pode, portanto, comprometer a capacidade operacional desses animais e reduzir sua vida útil de trabalho.
Doença Possível mecanismo Impacto clínico Relevância para cães de trabalho
Displasia coxofemoral Alteração do crescimento ósseo e maturação articular
Dor crônica e osteoartrite
Comprometimento da mobilidade e desempenho
Ruptura do ligamento cruzado cranial
Alteração biomecânica articular; maior carga no joelho
Instabilidade articular e claudicação
Afastamento temporário ou definitivo do trabalho
Displasia de cotovelo Desenvolvimento ósseo anormal e incongruência articular
Claudicação e progressão para artrose
Redução da capacidade funcional
Doença do disco intervertebral
Alterações estruturais e predisposição mecânica
Dor e possível déficit neurológico
Risco de aposentadoria precoce
Fonte: elaboração própria, com base em Hart et al. (2016, 2020), Torres de la Riva et al.
(2013) e literatura revisada.
Nota: as associações variam conforme raça, porte, sexo, idade à gonadectomia e fatores de
confusão.
4. Alterações do sistema urinário
A castração precoce tem sido consistentemente associada a alterações do desenvolvimento do sistema geniturinário, com impacto sobre anatomia e função. Entre os efeitos descritos, incluem-se:
• incontinência urinária em cadelas;
• desenvolvimento insuficiente da vulva;
• alterações no tônus do esfíncter uretral;
• imaturidade anatômica do trato urinário.
Estudo do Royal Veterinary College (PEGRAM et al., 2019) demonstrou que a idade da castraçãoestá diretamente associada ao risco de incontinência urinária de início precoce. Cadelas castradas antes dos seis meses apresentaram risco 1,82 vezes maior de desenvolver incontinência urinária em comparação com cadelas castradas após essa idade.
O estudo de Pegram et al. (2024), publicado no Veterinary Record, confirmou que a castração em idade mais avançada resulta em menor risco de incontinência urinária de início precoce. Os autores estimam que a incontinência urinária pode afetar até 20% das cadelas castradas, desenvolvendo-se em média 2,9 anos após o procedimento.
A incontinência urinária pós-castração é uma complicação clinicamente relevante porque pode surgir tardiamente, anos após o procedimento, com repercussões no bem-estar do animal e no manejo do tutor. Do ponto de vista crítico, a ocorrência e gravidade do problema não são homogêneas; a literatura sugere variabilidade por porte e por fatores individuais, reforçando a necessidade de individualização da conduta e de aconselhamento claro sobre risco-benefício quando a castração é proposta em idades muito precoces.
5. Alterações metabólicas e obesidade
A gonadectomia é associada a mudanças significativas no metabolismo energético e no comportamento alimentar. Estudos demonstram que após a castração ocorrem:
• redução do metabolismo basal;
• aumento do apetite;
• maior predisposição ao ganho de peso.
O estudo de Yang et al. (2023), publicado na Animals, observou taxa de obesidade de 60% aos 21 meses após a castração, demonstrando o impacto metabólico significativo do procedimento. O estudo de Bjørnvad et al. (2019), publicado na Preventive Veterinary Medicine, confirmou que a castração aumenta o risco de obesidade em cães machos, embora o efeito seja menos consistente em fêmeas.
A obesidade, por sua vez, atua como fator agravante de diversas condições crônicas, incluindo intolerância ao exercício, alterações osteoarticulares, diabetes mellitus e maior risco cardiometabólico. Para cães de trabalho, o ganho de peso excessivo pode comprometer diretamente a capacidade de desempenho, reduzindo agilidade, resistência e eficiência em atividades operacionais.
Em uma leitura crítica, a obesidade não deve ser atribuída exclusivamente ao procedimento: dieta, atividade física e manejo são determinantes centrais. Ainda assim, a castração precoce pode aumentar vulnerabilidade metabólica em um período em que o animal ainda está em crescimento, tornando o controle nutricional e a orientação ao tutor ainda mais decisivos.
6. Associação com neoplasias
Parte da literatura epidemiológica investiga a relação entre castração precoce e desenvolvimento de neoplasias em cães. Estudos observacionais identificam aumento de incidência de determinados tumores em subgrupos de animais castrados precocemente, incluindo:
• osteossarcoma;
• hemangiossarcoma;
• linfoma;
• mastocitoma.
O estudo de Torres de la Riva et al. (2013) demonstrou que Golden Retrievers castrados apresentavam risco significativamente aumentado de hemangiossarcoma e linfossarcoma em comparação com animais intactos. Fêmeas castradas apresentaram risco mais que quatro vezes maior de hemangiossarcoma cardíaco em comparação com fêmeas intactas.
Hart et al. (2020) confirmaram esses achados em múltiplas raças, demonstrando que o risco de neoplasias associadas à castração varia conforme a raça, o sexo e a idade do procedimento. Em algumas raças, como Golden Retriever e Pastor Alemão, os riscos de câncer associados à castração precoce são particularmente elevados.
O estudo de Cooley et al. (2002), publicado na Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, demonstrou que a castração aumenta em duas vezes o risco de osteossarcoma em raças de grande porte. Os mecanismos propostos incluem a participação dos hormônios sexuais na modulação de vias de regulação celular e na manutenção da densidade óssea.
Os mecanismos propostos ainda não estão completamente elucidados. Hipóteses incluem a participação dos hormônios sexuais na modulação de vias de regulação celular e na imunomodulação, além de efeitos indiretos mediados por composição corporal e metabolismo.
Em termos críticos, é essencial reconhecer que associações populacionais não equivalem, por si, a causalidade individual, e que os riscos variam entre raças e portes. Ainda assim, quando há sinais consistentes de risco aumentado em grupos específicos, a recomendação uniforme de castração em idade muito jovem torna-se cientificamente frágil e potencialmente prejudicial.
7. Impacto comportamental e desempenho de cães de trabalho
A castração precoce pode interferir no comportamento e no desempenho de cães de trabalho, embora a literatura apresente resultados variados. Estudos indicam que a remoção dos hormônios sexuais pode afetar:
• motivação e drive de trabalho;
• capacidade de foco e atenção;
• agressividade direcionada ao trabalho (proteção);
• confiança e estabilidade emocional.hormonal é frequentemente considerada fundamental para o desempenho de funções como faro, proteção e busca. Criadores e treinadores dessas raças frequentemente recomendam evitar a castração precoce para preservar as características comportamentais necessárias ao trabalho (LEERBURG, 2023; EUROPEAN BELGIAN MALINOIS, 2024).
O estudo de Abdel Fattah e Abdel-Hamid (2020), publicado no Journal of Advanced Veterinary and Animal Research, investigou a influência do status de castração no desempenho olfativo de cães policiais. Os resultados demonstraram que cães intactos apresentaram desempenho olfativo significativamente superior aos castrados na detecção de narcóticos, sugerindo que a preservação hormonal pode ser relevante para funções que dependem do olfato.
O estudo de Aikey et al. (2019), publicado na Applied Animal Behaviour Science, investigou o efeito da castração química em cães militares suíços e não encontrou evidência de efeito prejudicial na capacidade de trabalho. Entretanto, é importante notar que esse estudo envolveu castração química em animais adultos, não castração cirúrgica precoce.
Em contraste, relatos de treinadores e profissionais que trabalham com cães de serviço indicam que a castração precoce pode resultar em redução do drive de trabalho, menor intensidade na execução de tarefas e aumento de comportamentos de ansiedade. Essas observações, embora não sistematizadas em estudos controlados, merecem consideração na tomada de decisão sobre castração em cães de trabalho.
O estudo de Hart et al. (2016) enfatiza que Pastores Alemães são particularmente importantes em trabalhos policiais e militares, e que doenças articulares debilitantes podem encurtar a vida útil de trabalho do animal. A recomendação de postergar a castração até após um ano de idade pode reduzir marcadamente a chance de doenças articulares, preservando a capacidade operacional.
As diretrizes da AAHA (AAHA WORKING, ASSISTANCE AND THERAPY DOG GUIDELINES, 2021) também ressaltam a importância de considerar o impacto da castração no desempenho e longevidade de cães de trabalho.
8. Aspectos éticos e jurídicos
A prática da castração precoce levanta questões éticas e jurídicas relevantes, particularmente no contexto do bem-estar animal e da legislação de proteção animal.
8.1 Legislação europeia
Em diversos países europeus, a castração sem indicação terapêutica é restrita ou regulamentada.
O estudo de Fossati (2024), publicado no Journal of Applied Animal Welfare Science, analisou o marco legal europeu sobre leis de castração e identificou abordagens significativamente diferentes entre países:
• Alemanha: a Lei de Proteção Animal proíbe a castração, exceto por razões de saúde oucontrole populacional;
• Noruega: a castração é ilegal sem justificativa médica;
• Suécia, Finlândia e Dinamarca: políticas restritivas sobre castração eletiva.
A Convenção Europeia para a Proteção de Animais de Estimação (EUROPEAN CONVENTION, 2025) estabelece princípios de bem-estar animal que incluem a proibição de intervenções cirúrgicas com finalidade estética ou não terapêutica, sem indicação veterinária justificada.
A União Europeia aprovou em novembro de 2025 nova regulamentação sobre bem-estar de cães e gatos, que inclui requisitos de identificação, registro e padrões de cuidado (EUROPEAN PARLIAMENT, 2025; EUROPEAN COMMISSION, 2025). Essa abordagem diferenciada reconhece que a castração pode ser justificada para controle populacional de animais sem raça definida, mas não deve ser aplicada indiscriminadamente a todos os cães (FOUR PAWS, 2025).
8.2 Bem-estar animal
A castração precoce, ao interromper processos fisiológicos fundamentais do desenvolvimento, pode ser considerada uma intervenção que compromete o bem-estar do animal a longo prazo. O desenvolvimento de doenças ortopédicas, neoplasias, distúrbios urinários e obesidade representa prejuízo significativo à qualidade de vida do animal.
O editorial de Hart e Atema (2024), publicado na Frontiers in Veterinary Science, enfatiza que a decisão sobre castração deve considerar o equilíbrio entre benefícios e riscos, sendo a abordagem individualizada fundamental para o bem-estar animal. Os autores destacam que a recomendação indiscriminada de castração precoce pode constituir violação do princípio de não-maleficência, um dos pilares da ética veterinária.
8.3 Distinção entre cães sem raça definida e cães de raça definida
A literatura e a legislação sugerem uma distinção importante entre cães sem raça definida e cães de raça definida:
• Cães sem raça definida: a castração pode ser indicada como medida de controle populacional, prevenção de abandono e redução de população de animais errantes. Nesses casos, os benefícios coletivos podem justificar os riscos individuais.
• Cães de raça definida: a decisão deve considerar a preservação de características genéticas, a predisposição a enfermidades específicas da raça e a finalidade do animal. A castração precoce indiscriminada pode comprometer a diversidade genética e a saúde da população da raça.
• Cães de trabalho: a manutenção da homeostase hormonal é fundamental para o desempenho de funções como faro, proteção e busca. A castração precoce pode comprometer a capacidade operacional e reduzir a vida útil de trabalho desses animais.
9. Discussão
A revisão crítica da literatura científica demonstra que a castração precoce constitui uma intervenção endócrina com repercussões sistêmicas potenciais significativas. Ao eliminar precocemente a produção de hormônios gonadais, interfere-se em processos fundamentais para o desenvolvimento musculoesquelético, o equilíbrio metabólico, a maturação do trato urinário e a modulação comportamental.
Os estudos epidemiológicos de Hart et al. (2016, 2020) e Torres de la Riva et al. (2013) fornecem evidências robustas de que a castração precoce aumenta o risco de doenças ortopédicas e determinados tipos de câncer em múltiplas raças. Esses riscos não são uniformes; variam significativamente conforme a raça, o porte, o sexo e a idade do procedimento.
A associação entre castração precoce e incontinência urinária, demonstrada em estudos do Royal Veterinary College (PEGRAM et al., 2019) e Pegram et al. (2024), representa uma complicação clinicamente relevante que pode comprometer o bem-estar do animal e a relação com o tutor. O risco de incontinência urinária deve ser explicitamente discutido na tomada de decisão sobre castração em fêmeas.
As alterações metabólicas e a predisposição à obesidade após a castração, documentadas por Yang et al. (2023) e Bjørnvad et al. (2019), representam fatores de risco para múltiplas condições crônicas. Para cães de trabalho, o ganho de peso excessivo pode comprometer diretamente a capacidade de desempenho.
O impacto no desempenho de cães de trabalho, sugerido pelo estudo de Abdel Fattah e Abdel-Hamid (2020) e corroborado por relatos de treinadores (LEERBURG, 2023), merece consideração especial. A preservação da capacidade olfativa e do drive de trabalho pode ser fundamental para animais que atuam em funções policiais, militares ou de busca e salvamento.
Do ponto de vista ético-jurídico, a literatura e a legislação europeia indicam que a castração sem indicação terapêutica deve ser considerada com cautela. A distinção entre cães sem raça definida e cães de raça definida, e entre cães de companhia e cães de trabalho, deve orientar a tomada de decisão.
Em vez de uma recomendação indiscriminada, o conjunto de evidências favorece uma abordagem centrada no risco individual, na qual se ponderem raça, porte, sexo, histórico familiar, finalidade do animal e condições de manejo. A decisão sobre o momento ideal da castração deve ser baseada em avaliação clínica individualizada e discussão explícita de riscos e benefícios.
10. Conclusão
A literatura científica revisada demonstra que a castração precoce pode estar associada a efeitosadversos relevantes na saúde de cães. Entre os principais riscos identificados, destacam-se:
• aumento do risco de doenças ortopédicas, particularmente em raças de grande porte;
• aumento da incidência de determinadas neoplasias em subgrupos específicos;
• distúrbios urinários, especialmente incontinência urinária em fêmeas;
• predisposição à obesidade e alterações metabólicas;
• potencial comprometimento do desempenho em cães de trabalho.
Diante dessas evidências, recomenda-se que a decisão sobre o momento ideal da gonadectomia seja baseada em avaliação clínica individualizada, considerando raça, porte, sexo, finalidade do animal e predisposição a enfermidades específicas.
Para cães sem raça definida, a castração pode ser indicada como medida de controle populacional. Para cães de raça definida, a decisão deve considerar a preservação da saúde da população da raça. Para cães de trabalho, como Pastores Alemães e Belgian Malinois, a manutenção da homeostase hormonal deve ser priorizada para preservar o desempenho operacional.
A aplicação indiscriminada de protocolos uniformes de castração em idade muito precoce deve ser evitada, sendo fundamental a discussão explícita de riscos e benefícios com os tutores.
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PETCLUBE – SCIENCE, GENETICS AND ANIMAL WELFARE
HARMFUL EFFECTS OF EARLY NEUTERING IN
DOGS:
a critical review of scientific literature
Critical review article on the impacts of early gonadectomy on canine health and welfare.
May 3, 2026 | Version 1.0 | Prepared for publication
AUTHORS:Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Dr. Gabriel Amichetti³
¹ Integrative Veterinarian – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP
(Agr. Eng.). Specialist in Feline and Canine Nutrition, Cannabinoid Medicine and Natural Feeding,
Petclube.
² Petclube, São Paulo, Brazil.
³ Veterinarian – CRMV-SP 45.592 VT. Specialization in Orthopedics and Small Animal Surgery –
Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil.
Corresponding author:Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflict of interest:The authors declare no conflict of interest.
Journal:Petclube – Science, Genetics and Animal Welfare.
Abstract
Gonadectomy is one of the most common surgical procedures in small animal veterinary medicine,
often recommended for population control and prevention of reproductive diseases. In recent
decades, the practice of early neutering, performed before sexual maturity, has become
widespread. However, accumulated scientific evidence indicates that early removal of gonads can
significantly interfere with canine developmental physiology, increasing the risk of orthopedic
diseases, neoplasias, urinary disorders, and metabolic alterations. Recent studies show that these
adverse effects vary significantly according to breed, size, and purpose of the animal, being
particularly concerning in purebred dogs and working dogs. This paper presents a critical review of
the scientific literature on the adverse effects of early neutering in dogs, discussing proposed
physiological mechanisms, clinical implications, and ethical-legal aspects related to animal welfare.
Keywords: gonadectomy; early neutering; dogs; veterinary orthopedics; neoplasias; animal
welfare; working dogs.
1. Introduction
Surgical sterilization through gonadectomy is widely used in veterinary medicine as a strategy for
population control and prevention of reproductive diseases in dogs. Ovariohysterectomy in females
and orchiectomy in males are considered routine procedures in clinical practice, especially in
countries such as the United States, United Kingdom, and Brazil.
In recent decades, recommendations for neutering at increasingly younger ages — often before sixmonths — have been incorporated into population control programs and animal adoption
campaigns. This practice, although widespread, has been progressively questioned in the scientific
literature, especially when applied homogeneously, without stratification by breed, size, sex, and
individual risk.
The removal of gonads before sexual maturity prematurely interrupts the production of sex
steroids, hormones that play a central role in growth, tissue maturation, and the regulation of
multiple physiological axes. Thus, early neutering should be understood not only as a reproductive
intervention but as an endocrine intervention with the potential for negative systemic repercussions.
Recent scientific evidence links early gonadectomy to significant alterations in bone growth,
musculoskeletal system maturation, energy metabolism, and urinary tract development.
Large-scale epidemiological studies, such as those conducted by the University of California at
Davis, have shown that early neutering can increase the risk of orthopedic diseases and certain
types of cancer by up to three times in some breeds (HART et al., 2016; TORRES DE LA RIVA et
al., 2013).
In addition to clinical implications, the practice of early neutering raises relevant ethical and legal
questions. In several European countries, such as Germany and Norway, neutering without
therapeutic indication is restricted or prohibited by animal protection legislation, being considered
an unnecessary intervention that can compromise animal welfare (FOSSATI, 2024; EUROPEAN
CONVENTION, 2025).
The distinction between mixed-breed dogs and purebred dogs takes on particular importance in
this discussion. While neutering of mixed-breed dogs may be justified as a measure of population
control and prevention of abandonment, in purebred dogs the decision must consider the
preservation of genetic characteristics and the predisposition to specific breed diseases. In working
dogs, such as German Shepherds and Belgian Malinois, maintaining hormonal homeostasis is
fundamental for performance in functions such as scent detection, protection, and search, making
early neutering particularly inadvisable.
Given this context, the present work aims to conduct a critical review of the scientific literature on
the main adverse effects associated with early neutering in dogs, emphasizing physiological
mechanisms, clinical implications, ethical-legal aspects, and differentiated recommendations
according to the animal's purpose.
2. Hormonal physiology and development
Gonadal sex hormones play essential roles in regulating the growth and development of the canine
organism. Testosterone and estrogens participate, directly or indirectly, in fundamental
physiological processes, including:
• epiphyseal plate closure;
• musculoskeletal system development and maintenance;
• preservation of muscle mass;alters expected physiological developmental trajectories. A consistently reported finding in the
literature is the delayed closure of epiphyseal plates, resulting in prolonged growth of long bones
and altered joint biomechanics (HART et al., 2016; VETFOLIO, 2020).
Testosterone, in particular, plays a crucial role in muscle development, bone density, and agility —
essential attributes for working dogs. Studies indicate that the premature removal of this hormonal
source can compromise performance capacity in activities requiring strength, endurance, and
motor coordination (LEERBURG, 2023; BOWMAN REPORT, 2022).
Furthermore, sex hormones participate in the modulation of the central nervous system,
influencing behaviors related to attention, focus, and motivation — critical characteristics for
working dogs in scent detection, protection, and search activities. The premature interruption of
hormone production can, therefore, compromise not only physical development but also the
behavioral profile necessary for these functions.
3. Orthopedic alterations associated with early neutering
Robust epidemiological studies show that dogs subjected to early neutering have a higher
incidence of orthopedic diseases throughout their lives. Among the most frequently associated
conditions are:
• hip dysplasia;
• elbow dysplasia;
• cranial cruciate ligament rupture;
• intervertebral disc disease.
The seminal study by Hart et al. (2016), published in Veterinary Medicine and Science, analyzed
1,170 German Shepherds and showed that neutering before 12 months of age tripled the risk of
one or more joint disorders. Early neutered males had an incidence of 21% orthopedic diseases,
compared to 7% in intact males. Females neutered before one year had an incidence of 16%,
compared to 5% in intact females.
The study by Torres de la Riva et al. (2013), published in PLOS ONE, analyzed 759 Golden
Retrievers and showed that neutering before 12 months of age significantly increased the risk
of hip dysplasia and cranial cruciate ligament rupture. Early neutered males had a three
times higher risk of cruciate ligament rupture compared to intact males.
Hart et al. (2020) extended this analysis to 35 breeds and mixed-breed dogs, confirming that the
risk of orthopedic diseases associated with early neutering varies according to breed and size. In
large breeds, such as Golden Retrievers, Labrador Retrievers, and German Shepherds, the risks
are particularly high. In contrast, in small breeds, orthopedic risks are less pronounced.
These alterations are related to the interference of early gonadectomy with epiphyseal plateclosure and musculoskeletal system development. Prolonged growth of long bones alters joint
biomechanics, increasing the load on structures such as the cranial cruciate ligament and the hip
joint.
For working dogs, such as German Shepherds and Belgian Malinois, these orthopedic alterations
have particularly serious implications. These animals often perform activities requiring agility,
jumping, and running, and the integrity of the musculoskeletal system is fundamental for their
performance. Early neutering can, therefore, compromise the operational capacity of these animals
and reduce their working lifespan.
|
Disease |
Possible Mechanism |
Clinical Impact |
Relevance for Working Dogs |
|
Hip Dysplasia |
Altered bone growth and joint maturation |
Chronic pain and osteoarthritis |
Compromised mobility and performance |
|
Cranial Cruciate Ligament Rupture |
Altered joint biomechanics; increased knee load |
Joint instability and lameness |
Temporary or permanent removal from work |
|
Elbow Dysplasia |
Abnormal bone development and joint incongruity |
Lameness and progression to arthrosis |
Reduced functional capacity |
|
Intervertebral Disc Disease |
Structural alterations and mechanical predisposition |
Pain and possible neurological deficit |
Risk of early retirement |
Source: self-elaboration, based on Hart et al. (2016, 2020), Torres de la Riva et al. (2013) and
reviewed literature.
Note: associations vary according to breed, size, sex, age at gonadectomy, and confounding
factors.
4. Urinary system alterations
Early neutering has been consistently associated with alterations in the development of the
genitourinary system, impacting anatomy and function. Reported effects include:
• urinary incontinence in female dogs;
• insufficient vulvar development;
• alterations in urethral sphincter tone;
• anatomical immaturity of the urinary tract.is directly associated with the risk of early-onset urinary incontinence. Female dogs neutered
before six months had a 1.82 times higher risk of developing urinary incontinence compared to
female dogs neutered after this age.
The study by Pegram et al. (2024), published in Veterinary Record, confirmed that neutering at an
older age results in a lower risk of early-onset urinary incontinence. The authors estimate that
urinary incontinence can affect up to 20% of spayed female dogs, developing on average 2.9
years after the procedure.
Post-neutering urinary incontinence is a clinically relevant complication because it can appear late,
years after the procedure, with repercussions on the animal's welfare and the owner's
management. From a critical perspective, the occurrence and severity of the problem are not
homogeneous; the literature suggests variability by size and individual factors, reinforcing the need
for individualized conduct and clear advice on risk-benefit when neutering is proposed at very early
ages.
5. Metabolic alterations and obesity
Gonadectomy is associated with significant changes in energy metabolism and eating behavior.
Studies show that after neutering, the following occur:
• reduction in basal metabolism;
• increased appetite;
• greater predisposition to weight gain.
The study by Yang et al. (2023), published in Animals, observed an obesity rate of 60% at 21
months after neutering, demonstrating the significant metabolic impact of the procedure. The
study by Bjørnvad et al. (2019), published in Preventive Veterinary Medicine, confirmed that
neutering increases the risk of obesity in male dogs, although the effect is less consistent in
females.
Obesity, in turn, acts as an aggravating factor for various chronic conditions, including exercise
intolerance, osteoarticular alterations, diabetes mellitus, and increased cardiometabolic risk. For
working dogs, excessive weight gain can directly compromise performance capacity, reducing
agility, endurance, and efficiency in operational activities.
From a critical perspective, obesity should not be attributed exclusively to the procedure: diet,
physical activity, and management are central determinants. Still, early neutering can increase
metabolic vulnerability during a period when the animal is still growing, making nutritional control
and owner guidance even more crucial.6. Association with neoplasias
Part of the epidemiological literature investigates the relationship between early neutering and the
development of neoplasias in dogs. Observational studies identify an increased incidence of
certain tumors in subgroups of early neutered animals, including:
• osteosarcoma;
• hemangiosarcoma;
• lymphoma;
• mastocytoma.
The study by Torres de la Riva et al. (2013) showed that neutered Golden Retrievers had a
significantly increased risk of hemangiosarcoma and lymphosarcoma compared to intact animals.
Spayed females had a more than four times higher risk of cardiac hemangiosarcoma
compared to intact females.
Hart et al. (2020) confirmed these findings in multiple breeds, showing that the risk of neoplasias
associated with neutering varies according to breed, sex, and age of the procedure. In some
breeds, such as Golden Retrievers and German Shepherds, the cancer risks associated with early
neutering are particularly high.
The study by Cooley et al. (2002), published in Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention,
showed that neutering doubles the risk of osteosarcoma in large breeds. Proposed mechanisms
include the participation of sex hormones in modulating cell regulation pathways and maintaining
bone density.
The proposed mechanisms are not yet fully elucidated. Hypotheses include the participation of sex
hormones in modulating cell regulation pathways and immunomodulation, as well as indirect
effects mediated by body composition and metabolism.
In critical terms, it is essential to recognize that population associations do not, by themselves,
equate to individual causality, and that risks vary between breeds and sizes. Still, when there are
consistent signs of increased risk in specific groups, the uniform recommendation of neutering at a
very young age becomes scientifically fragile and potentially harmful.
7. Behavioral impact and working dog performance
Early neutering can interfere with the behavior and performance of working dogs, although the
literature presents varied results. Studies indicate that the removal of sex hormones can affect:
• motivation and work drive;
• ability to focus and pay attention;
• aggression directed at work (protection);
• confidence and emotional stability.
For working dogs such as German Shepherds and Belgian Malinois maintaining hormonalhomeostasis is often considered fundamental for performance in functions such as scent detection,
protection, and search. Breeders and trainers of these breeds often recommend avoiding early
neutering to preserve the behavioral characteristics necessary for work (LEERBURG, 2023;
EUROPEAN BELGIAN MALINOIS, 2024).
The study by Abdel Fattah and Abdel-Hamid (2020), published in the Journal of Advanced
Veterinary and Animal Research, investigated the influence of neuter status on the olfactory
performance of police dogs. The results showed that intact dogs had significantly superior olfactory
performance to neutered dogs in narcotic detection, suggesting that hormonal preservation may be
relevant for functions that depend on olfaction.
The study by Aikey et al. (2019), published in Applied Animal Behaviour Science, investigated the
effect of chemical castration in Swiss military dogs and found no evidence of a detrimental effect
on working ability. However, it is important to note that this study involved chemical castration in
adult animals, not early surgical neutering.
In contrast, reports from trainers and professionals working with service dogs indicate that early
neutering can result in reduced work drive, lower intensity in task execution, and increased anxiety
behaviors. These observations, although not systematized in controlled studies, deserve
consideration in decision-making regarding neutering in working dogs.
The study by Hart et al. (2016) emphasizes that German Shepherds are particularly important in
police and military work, and that debilitating joint diseases can shorten the animal's working life.
The recommendation to postpone neutering until after one year of age can markedly reduce the
chance of joint diseases, preserving operational capacity. The AAHA guidelines (AAHA
WORKING, ASSISTANCE AND THERAPY DOG GUIDELINES, 2021) also highlight the
importance of considering the impact of neutering on the performance and longevity of working
dogs.
8. Ethical and legal aspects
The practice of early neutering raises relevant ethical and legal questions, particularly in the
context of animal welfare and animal protection legislation.
#### 8.1 European legislation
In several European countries, neutering without therapeutic indication is restricted or regulated.
The study by Fossati (2024), published in the Journal of Applied Animal Welfare Science, analyzed
the European legal framework on neutering laws and identified significantly different approaches
between countries:
• Germany: the Animal Protection Act prohibits neutering, except for health reasons or populationcontrol;
• Norway: neutering is illegal without medical justification;
• Sweden, Finland, and Denmark: restrictive policies on elective neutering.
The European Convention for the Protection of Pet Animals (EUROPEAN CONVENTION, 2025)
establishes animal welfare principles that include the prohibition of surgical interventions for
aesthetic or non-therapeutic purposes, without justified veterinary indication.
The European Union approved new regulations on dog and cat welfare in November 2025, which
include identification, registration, and care standards (EUROPEAN PARLIAMENT, 2025;
EUROPEAN COMMISSION, 2025). This differentiated approach recognizes that neutering may be
justified for population control of mixed-breed animals but should not be indiscriminately applied to
all dogs (FOUR PAWS, 2025).
#### 8.2 Animal welfare
Early neutering, by interrupting fundamental physiological developmental processes, can be
considered an intervention that compromises the animal's long-term welfare. The development of
orthopedic diseases, neoplasias, urinary disorders, and obesity represents a significant detriment
to the animal's quality of life.
The editorial by Hart and Atema (2024), published in Frontiers in Veterinary Science, emphasizes
that the decision regarding neutering must consider the balance between benefits and risks, with
an individualized approach being fundamental for animal welfare. The authors highlight that the
indiscriminate recommendation of early neutering may constitute a violation of the principle of
non-maleficence, one of the pillars of veterinary ethics.
#### 8.3 Distinction between mixed-breed dogs and purebred dogs
The literature and legislation suggest an important distinction between mixed-breed dogs and
purebred dogs:
• Mixed-breed dogs: neutering may be indicated as a measure of population control, prevention of
abandonment, and reduction of stray animal populations. In these cases, the collective benefits
may justify the individual risks.
• Purebred dogs: the decision must consider the preservation of genetic characteristics, the
predisposition to specific breed diseases, and the animal's purpose. Indiscriminate early neutering
can compromise genetic diversity and the health of the breed population.
• Working dogs: maintaining hormonal homeostasis is fundamental for performance in functions
such as scent detection, protection, and search. Early neutering can compromise operational
capacity and reduce the working lifespan of these animals.9. Discussion
The critical review of the scientific literature demonstrates that early neutering constitutes an
endocrine intervention with significant potential systemic repercussions. By prematurely eliminating
gonadal hormone production, fundamental processes for musculoskeletal development, metabolic
balance, urinary tract maturation, and behavioral modulation are interfered with.
The epidemiological studies by Hart et al. (2016, 2020) and Torres de la Riva et al. (2013) provide
robust evidence that early neutering increases the risk of orthopedic diseases and certain types of
cancer in multiple breeds. These risks are not uniform; they vary significantly according to breed,
size, sex, and age of the procedure.
The association between early neutering and urinary incontinence, demonstrated in studies by the
Royal Veterinary College (PEGRAM et al., 2019) and Pegram et al. (2024), represents a clinically
relevant complication that can compromise the animal's welfare and the relationship with the
owner. The risk of urinary incontinence should be explicitly discussed in decision-making regarding
neutering in females.
Metabolic alterations and the predisposition to obesity after neutering, documented by Yang et al.
(2023) and Bjørnvad et al. (2019), represent risk factors for multiple chronic conditions. For
working dogs, excessive weight gain can directly compromise performance capacity.
The impact on working dog performance, suggested by the study by Abdel Fattah and
Abdel-Hamid (2020) and corroborated by trainer reports (LEERBURG, 2023), deserves special
consideration. The preservation of olfactory capacity and work drive can be fundamental for
animals performing police, military, or search and rescue functions.
From an ethical-legal perspective, the literature and European legislation indicate that neutering
without therapeutic indication should be considered with caution. The distinction between
mixed-breed dogs and purebred dogs, and between companion dogs and working dogs, should
guide decision-making.
Instead of an indiscriminate recommendation, the body of evidence favors an individualized
approach, considering breed, size, sex, family history, animal purpose, and management
conditions. The decision regarding the optimal time for neutering should be based on an
individualized clinical evaluation and explicit discussion of risks and benefits.
10. Conclusion
The reviewed scientific literature demonstrates that early neutering can be associated with relevant
adverse effects on dog health. Among the main identified risks are:
• increased risk of orthopedic diseases, particularly in large breeds;
• increased incidence of certain neoplasias in specific subgroups;
• urinary disorders, especially urinary incontinence in females;
• predisposition to obesity and metabolic alterations;gonadectomy be based on an individualized clinical evaluation, considering breed, size, sex,
animal purpose, and predisposition to specific diseases.
For mixed-breed dogs, neutering may be indicated as a measure of population control. For
purebred dogs, the decision should consider the preservation of the breed population's health. For
working dogs, such as German Shepherds and Belgian Malinois, maintaining hormonal
homeostasis should be prioritized to preserve operational performance.
The indiscriminate application of uniform early neutering protocols should be avoided, and an
explicit discussion of risks and benefits with owners is fundamental.
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Modulação da Via AMPK/mTOR por Exercício Físico e Nutrição em Cães e Gatos: Implicações para Longevidade, Metabolismo e Saúde Celular
Autores: Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Filiação: ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; Engenheiro Agrônomo Sustentável CREA 060149829-SP, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar. ² Petclube, São Paulo, Brasil.
A via de sinalização AMPK/mTOR é um regulador mestre do metabolismo energético, síntese proteica, autofagia e, consequentemente, da longevidade celular em mamíferos. Em cães e gatos, o exercício físico regular e uma estratégia nutricional adequada modulam estas vias de forma sinérgica, influenciando positivamente a composição corporal, a sensibilidade à insulina, o controle do peso e a redução do estresse oxidativo. O presente artigo científico tem como objetivo realizar uma revisão narrativa e integrativa da literatura veterinária e comparativa, explorando a intrínseca relação entre exercício, dieta e a sinalização AMPK/mTOR. Serão destacados os impactos metabólicos e clínicos dessas interações para a promoção da saúde e o incremento da longevidade em cães e gatos. Conclui-se que a implementação de intervenções nutricionais e programas de atividade física bem estruturados representa um pilar fundamental para o equilíbrio metabólico, a prevenção de doenças crônicas e o retardo do processo de envelhecimento, consolidando-se como ferramentas cruciais na medicina veterinária preventiva e integrativa.
A busca por estratégias que promovam a longevidade e otimizem a qualidade de vida em cães e gatos tem impulsionado significativas pesquisas na medicina veterinária. Fatores ambientais e fisiológicos, notadamente a nutrição e o exercício físico, emergem como pilares fundamentais na determinação da saúde e do bem-estar destes animais. No cerne da regulação metabólica celular e da adaptação a esses estímulos externos, encontra-se a intrincada interação entre a AMP-activated protein kinase (AMPK) e o mechanistic target of rapamycin (mTOR) (Amichetti, 2024). Essas duas vias de sinalização desempenham papéis antagônicos e complementares na homeostase energética, na síntese e degradação proteica, na recuperação tecidual e na modulação dos processos de envelhecimento celular (Laplante & Sabatini, 2012).
A AMPK, reconhecida como um sensor energético celular, é ativada em condições de estresse metabólico, como a depleção de ATP durante o exercício ou restrição calórica, promovendo catabolismo e produção de energia. Em contrapartida, a mTOR atua como um sensor de nutrientes e energia, sendo ativada em resposta à disponibilidade de aminoácidos, fatores de crescimento e estímulos mecânicos, orquestrando processos anabólicos, como a síntese proteica e o crescimento celular. O delicado balanço entre a ativação e inibição destas vias é crucial para a capacidade do organismo em se adaptar às demandas energéticas, manter a massa muscular, prevenir a incidência de doenças crônicas e modular processos de longo prazo associados à senescência (Amichetti, 2023).
Apesar da crescente compreensão da relevância dessas vias em modelos biomédicos, a aplicação e aprofundamento em medicina veterinária de pequenos animais ainda representam um campo fértil. O objetivo deste estudo é realizar uma revisão sistemática da literatura, com uma abordagem veterinária e translacional, para elucidar como o exercício físico e a nutrição modulam as vias AMPK/mTOR em cães e gatos. Serão explorados os efeitos clínicos resultantes dessas interações na saúde metabólica, na composição corporal e na promoção da longevidade, visando consolidar o embasamento científico para aprimorar as práticas de medicina preventiva e integrativa em Petclube e na comunidade veterinária em geral (Amichetti, 2025).
Foi conduzida uma revisão narrativa sistemática da literatura, com o objetivo de compilar e analisar o conhecimento existente sobre a modulação das vias AMPK/mTOR por exercício físico e nutrição em cães e gatos. Esta abordagem seguiu os princípios de revisões integrativas, permitindo a síntese de diversas fontes de pesquisa.
A pesquisa bibliográfica foi realizada nas seguintes bases de dados eletrônicas, conhecidas por seu vasto acervo em ciências biomédicas e veterinárias:
A estratégia de busca empregou uma combinação de termos MeSH (Medical Subject Headings) e palavras-chave livres, utilizando operadores booleanos (AND, OR) para refinar os resultados. Os termos principais utilizados, e suas combinações, incluíram:
A busca foi realizada sem restrição de data de publicação para garantir uma cobertura abrangente da literatura.
Os artigos foram selecionados com base nos seguintes critérios:
Foram excluídos os seguintes tipos de publicações:
A seleção dos artigos e a extração de dados foram realizadas de forma criteriosa para assegurar a relevância e a qualidade das informações incluídas nesta revisão.
A via AMPK/mTOR representa um nódulo integrador crucial para a saúde e a sobrevivência celular em mamíferos, incluindo cães e gatos. Sua função transcende o mero controle energético, estendendo-se à regulação da biossíntese de proteínas, lipídios e nucleotídeos, proliferação celular, angiogênese, autofagia e resposta ao estresse.
| Via | Estímulos Chave | Funções Metabólicas e Celulares Primárias | Impacto Geral na Longevidade |
|---|---|---|---|
| AMPK | Exercício, Déficit Energético (↑AMP:ATP), Grelina, Adiponectina, Hipóxia | Autofagia, Biogênese mitocondrial, Oxidação lipídica, Captação de glicose, Sensibilidade à insulina, Inibição da síntese proteica/lipídica | Promove longevidade, Proteção celular |
| mTOR | Aminoácidos (leucina), Fatores de crescimento (insulina, IGF-1), Estímulo mecânico (carga), ATP | Crescimento celular, Síntese proteica, Proliferação celular, Inibição da autofagia, Anabolismo muscular e tecidual | Mantém massa magra e reparo, Mas excesso crônico pode acelerar envelhecimento |
(Adaptado de Laplante & Sabatini, 2012; Speakman, 2020)
A AMPK atua como um "interruptor" metabólico mestre, sendo ativada quando a relação AMP:ATP aumenta, sinalizando baixo status energético. Sua ativação leva à inibição de vias anabólicas (que consomem ATP) e à ativação de vias catabólicas (que geram ATP), como a oxidação de ácidos graxos e a captação de glicose. Em contraste, a mTOR, especialmente o complexo mTORC1, responde à abundância de nutrientes e energia, promovendo anabolismo, crescimento celular e síntese proteica, enquanto inibe a autofagia. O controle preciso do balanço entre AMPK e mTOR é fundamental para a adaptação do organismo às mudanças ambientais e dietéticas, impactando diretamente a resiliência metabólica e o envelhecimento saudável.
O exercício físico é um dos mais potentes moduladores das vias AMPK/mTOR, com implicações profundas para a saúde e o metabolismo de cães e gatos, refletindo adaptações moleculares observadas em outras espécies.
O exercício aeróbico, caracterizado por atividades de intensidade moderada e duração prolongada, como caminhadas vigorosas ou corridas, é um estímulo primário para a ativação da AMPK no tecido muscular esquelético e em outros tecidos metabolicamente ativos. Esta ativação é diretamente proporcional à intensidade e duração do esforço, resultando em:
Em cães, estudos corroboram o aumento da atividade da AMPK muscular após sessões de corrida controlada, evidenciando a responsividade desta via ao estímulo físico (Camacho et al., 2019).
Enquanto a AMPK é ativada em estados de baixa energia, a mTOR é estimulada em situações de abundância energética e estímulo mecânico, promovendo o anabolismo e o crescimento. O exercício resistido, embora não tão convencional em pets quanto em humanos, pode ser simulado por atividades que envolvem força e explosão, como saltos, brincadeiras de cabo de guerra controladas, e subida de rampas ou escadas. A ativação da mTOR pelo exercício ocorre via:
Em felinos, que por natureza são caçadores e escaladores, atividades que mimetizam seus comportamentos naturais — como caça simulada com varinhas, plataformas de escalada e brinquedos interativos que exigem esforço físico — também ativam a via mTOR, contribuindo para a manutenção da massa muscular e da força (Zanghi, 2016). É importante ressaltar que a ativação aguda da mTOR é benéfica para a recuperação e hipertrofia, enquanto sua ativação crônica e desregulada pode estar associada a processos de envelhecimento acelerado e doenças.
A dieta é um fator determinante na modulação das vias AMPK/mTOR, atuando de forma complementar ao exercício físico para otimizar a saúde metabólica e a longevidade.
A restrição calórica (RC), sem desnutrição, é a intervenção mais consistentemente associada ao aumento da longevidade em diversas espécies, operando primariamente através da ativação da AMPK e inibição da mTOR (Speakman, 2020). Embora a RC estrita seja desafiadora na prática clínica, dietas formuladas para manter um peso corporal ideal e evitar o excesso calórico podem emular alguns de seus benefícios.
Compostos bioativos, como polifenóis (ex: resveratrol) e antioxidantes presentes em certos alimentos e suplementos, também podem influenciar as vias AMPK/mTOR, contribuindo para a redução do estresse oxidativo e inflamação, e promovendo a saúde celular.
A modulação sinérgica das vias AMPK/mTOR através de exercício e nutrição se traduz em uma série de benefícios clínicos observáveis e quantificáveis em cães e gatos.
O exercício regular e uma dieta balanceada são a base para a prevenção e tratamento da obesidade em pets. A ativação da AMPK pelo exercício aumenta o gasto energético e a oxidação de gordura, enquanto o controle da mTOR pela dieta e atividade física adequada ajuda a manter a massa magra. A redução da massa adiposa e a melhora da homeostase glicêmica são desfechos diretos dessas intervenções (German et al., 2018).
A ativação da AMPK pelo exercício e dietas de baixo índice glicêmico melhora significativamente a sensibilidade à insulina. Este efeito é crucial, especialmente em gatos, que são geneticamente predispostos à resistência insulínica e ao desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 (Rand et al., 2016). Em cães, a melhora da sensibilidade à insulina contribui para a prevenção de síndromes metabólicas e para o manejo de patologias relacionadas.
O exercício físico moderado ativa as vias antioxidantes endógenas e a AMPK, o que, em conjunto com dietas ricas em ômega-3 e antioxidantes, reduz a produção de radicais livres e a inflamação sistêmica crônica. Este cenário é fundamental para retardar o envelhecimento celular e prevenir doenças degenerativas.
A manutenção da massa muscular (via mTOR ativada por proteínas e estímulo mecânico) e a redução da inflamação (via AMPK e ômega-3) são essenciais para a proteção articular e a mobilidade, especialmente em animais idosos. A sarcopenia, a perda progressiva de massa muscular, é um fator de risco para a diminuição da qualidade de vida e a progressão de osteoartrite, sendo mitigada pela modulação adequada dessas vias.
A compreensão e aplicação da modulação da via AMPK/mTOR representam um avanço significativo na promoção da longevidade e da qualidade de vida em cães e gatos. A combinação estratégica de:
Essa abordagem equilibrada é reconhecida como um dos mais robustos mecanismos para estender a saúde e a vida em mamíferos (Speakman, 2020). Em cães e gatos, isso se traduz em:
A medicina veterinária, ao incorporar esses princípios, pode oferecer programas de bem-estar e longevidade mais completos e eficazes.
A presente revisão sistemática reforça a crucial interconexão entre o exercício físico regular e a nutrição funcional na modulação das vias AMPK/mTOR em cães e gatos. A ativação estratégica da AMPK, em resposta ao balanço energético celular, e a estimulação oportuna da mTOR, em face da disponibilidade de nutrientes e estímulos anabólicos, orquestram uma série de adaptações fisiológicas que culminam na promoção da homeostase metabólica, na manutenção da saúde muscular e celular, e na prevenção de uma gama de doenças crônicas associadas ao envelhecimento.
As evidências acumuladas demonstram que intervenções integradas, que combinam um programa de atividade física adaptado à espécie e à idade do animal com uma dieta nutricionalmente balanceada e rica em compostos bioativos, são ferramentas poderosas. Tais abordagens não apenas otimizam a composição corporal e a sensibilidade à insulina, mas também mitigam o estresse oxidativo e a inflamação, componentes essenciais para o aumento da longevidade e da qualidade de vida. Portanto, a integração desses conhecimentos na prática clínica veterinária é fundamental para o desenvolvimento de protocolos preventivos e terapêuticos inovadores, elevando os padrões da medicina veterinária preventiva e integrativa e permitindo que cães e gatos desfrutem de uma vida mais longa, saudável e plena.
1. Laplante, M., & Sabatini, D. M. (2012). mTOR signaling in growth control and disease. Cell, 149(2), 274-293. 2. Speakman, J. R. (2020). Why does caloric restriction increase life and healthspan? Cell Metabolism, 32(4), 513-524. 3. German, A. J. (2018). The growing problem of obesity in dogs and cats. Journal of Nutrition, 148(9), 1362S-1365S. 4. Hall, J. A., Jewell, D. E., & Ephraim, E. (2020). Evaluation of a novel diet for obese cats: a randomized, controlled, clinical trial. Journal of Feline Medicine and Surgery, 22(11), 1042-1050. 5. Hyytiäinen, H., Hielm-Björkman, A., & Putaala, H. (2021). Physical activity and nutrition in canine health: A review of current knowledge. Frontiers in Veterinary Science, 8, 645163. 6. Camacho, A., de Almeida, F. M., & da Silva, J. C. (2019). AMPK activation in canine skeletal muscle after acute exercise: A molecular study. Veterinary Research, 50(1), 1-9. 7. Rand, J. S., Marshall, R. D., & et al. (2016). Insulin sensitivity and glucose metabolism in feline obesity and type 2 diabetes mellitus: A review. Journal of Feline Medicine and Surgery, 18(9), 701-713. 8. Zanghi, B. M. (2016). The importance of physical activity in cats: Effects on body composition, behavior, and metabolic health. Journal of Feline Medicine and Surgery, 18(9), 693-700.