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A origem autêntica do Gato Maine Coon

Por Beth Kus
Há duzentos anos, os gatos Maine Coons eram chamados de Gatos do Maine (Maine cats) e cem anos mais tarde, em 1900, eles eram ainda simplesmente, Maine cats. Onde e como a palavra "coon" foi inserida no seu nome não se sabe ao certo, mas é algo que aconteceu no século vinte.
O escritor mais antigo que descreveu um Maine cat foi F. R. Pierce. Mrs. Pierce, uma americana do Estado do Maine, que escreveu o capitulo "Maine Cats" para "O Livro dos gatos" ("The Book of the Cat"). Esse livro clássico publicado na Inglaterra em 1903, foi primeiramente escrito por um autor Inglês chamado Frances Simpson. Mrs. Pierce escreveu o capítulo sobre os Maine cats à partir do seu largo conhecimento e da sua experiência pessoal. Ela incluiu nele comentários das suas correspondências trocadas com outros donos de Maine cats no século 19. Esse relato e descrição do Maine cat é um guia para criadores e amantes de gatos em geral, no que tange a avaliação da origem histórica dos gatos que hoje conhecemos como Maine Coon.
De acordo com Mrs. Pierce, os Maine cats eram abundantes antes da publicação do "The Book of the Cat". Na verdade, eles existiam no Maine gerações antes da Guerra Civil, e de acordo com ela, nos anos de 1880, já eram bem numerosos em certas áreas do Maine.
O primeiro gato de Mrs. Pierce e do seu irmão em 1861 foi um Maine cat chamado "Captain Jenks of the Horse Marines." Ela descreve este gato como um dos "gatos de pêlos longos do tipo frequentemente chamado de Maine cats... sua aparição é da época do mais velho habitante". Fica claro nesto comentário que Mrs. Pierce questionou seus parentes mais velhos e amigos sobre seus Maine cats, e ouviu contos sobre os Maine cats em toda a sua infância.
Seu comentario "....eu tenho escrito sobre esses gatos há muito tempo" autentica historicamente a sua presença e o reconhecido do Maine cat como presente no Maine muito antes da Guerra Civil em 1861; muito antes do seu primeiro gato o "Captain Jenks of the Horse Marines."
Maine cats em shows - muitos brown tabbies
Ela escreve sobre um parente, Mr. Robinson, cujo o Maine cat "Richelieu" ganhou o best in class em 1884 num cat show em Bangor, Maine. Este comentário marca a data em que ela se refere no parágrafo seguinte, onde descreve a plenitude dos Maine cats na época de 1880.
"Nesta época (no cat show de 1884) o Maine, próximo à costa, era rico em espécies de gatos de pêlo longo. Mas isso foi antes deles começarem à vender. Eu me recordo dos brown tabbies." "...Eles tinham belos brown tabbies no Maine. .... Esse é um dos segredos da natureza, como eles continuam indo e vindo- agora e depois, mas não sempre, com esse tipos belos." " ......tabbies também existem ...distribuídos ao longo da costa, e se estendem talvez por sessenta milhas ou mais ; mas eu não soube da sua aparição na parte norte do estado, território mais denso."
Essas observações nos mostram uma certeza absoluta de que os Maine cats estavam estabelecidos na costa do Maine no inicio de 1800 e que foram reconhecidos como um tipo de gato desde então.
A Associaçao nativa de Maine Coon Cat Newsletter; # 2, 1998
Páginas 13, 14, & 15:
Nos anos 1800's, os Maine cats se tornaram numerosos, e frequentemente eram reconhecidos em cat shows. A cor brown tabby dominava provavelmente a raça nessa época.
Maine cats de origem Marítima
Que os ancestrais do Maine Coon vieram do Maine pelo mar ficou claro para Mrs. Pierce. Ainda jovem em 1869, ela se lembra de ter visto o primeiro par de filhotes brancos com olhos azuis saindo dos bolsos de um marinheiro. Mrs. Pierce mais tarde teve um gato descendente desta linha. "A partir desta época filhotes brancos de pêlos longos e olhos azuis se espalharam nos lugares mais inexperados." Mrs. Pierce é cuidadosa ao explicar que "o Maine nesta época era um dos maiores estados montadores de navios dos Estados Unidos, e residentes do porto e das cidades vizinhas tinham palácios flutuantes, que levavam suas familias para países estrangeiros, ..."
Ela explica cuidadosamente que "filhotes de toda variedade eram trazidos para distrair as crianças à bordo; caso contrário, como eu me lembro, as crianças fariam dos estoques de animais vivos seus animais de estimação...." " Entretanto ....gatos....acharam seu caminho e atigiram várias cidades portuárias ---muito mais no passado do que agora [impresso pela primeira vez em 1903], quando barcos à velas passaram a ser instituições rentosas, ...."...."esses [gatos] eram estavam agora salvos e eram chamados de nativos."
Este relato mostra que a base genética do Maine foi estabelecida pelo amor de famílias marítimas por gatos, e o que mudou depois do advento da indústria naval.
Capitães nutriam os gatos
Para Mrs. Pierce, a chegada do par de filhotes brancos de pêlos longos doados ao marinheiro foi um evento singular, e memorável. Seu testemunho pessoal e suas observações captam e provam o cuidado dado aos Maine cats. Foi assim que essa raça de gatos sobreviveu dois séculos de pura hereditariedade. Ela notou que esses filhotes "cresceram e foram cuidados com ternura." Quando os proprietários obtiveram o macho perfeito para guardar, o par original foi enviado para um parente. Esses dois filhotes cresceriam e se tornariam a parte original do pool genético dos primeiros Maine cats brancos. Uma segunda fonte dos Maine cats brancos foi identificada como proveniente também do Maine e também pelo mar. O ancestral de um gato chamado Swampscott, um Maine cat branco, foi descrito numa carta enviada à Mrs. Pierce. ..."o avô do meu gato foi trazido para Rockport, Maine, direto da França, ele era branco e de olhos azuis."
Outros dois capitães de mar citados pela Mrs. Pierce, solidificaram a influência marítima tanto no desenvolvimento quanto no carisma do Maine cat. Na era de 1885, o Capitão Condon teve um belo creme cujo os filhotes eram conhecidos pela " sua força, forma, ossos, e equilíbrio." O Captão Ryan foi pessoalmente citado pela Mrs. Pierce como tendo tido uma vez quatro gerações de gatos negros desta linha, e que procurava lares específicos para eles. "Eles amavam seus gatos como se fossem bebês," ela descreve o Capitão Ryan e sua família pois, "por anos eles procuraram pessoas adequadas para enviar seus filhotes." O local favorito para capitães aposentados ou não eram as pequenas cidades costeiras do Maine. Porque muitos marinheiros amavam seus gatos de embarcação e prezavam seus filhotes, existe uma mística por tráz dessa estória que liga o mar e o desenvolvimento do Maine Cat.
A sua expertise com relação ao Maine cat fica clara nos relatos e explicações dados pela Mrs. Pierce. Claramente Mrs. Pierce reconhece que o Maine cat foi um produto sasonal dos animais de estimação dos marinheiros do Maine. Ela explica que o Maine cat foi desenvolvido originalmente ao longo da área costeira do Maine, e se espalhou para o interior e para as fazendas de forma lenta a medida em que os filhotes eram doados à parentes e amigos.
"Por um longo tempo os gatos de pêlos longos ficaram confinados majoritariamente nas cidades da costa; mas a doação dos melhores filhotes pora irmãos, primos e tias fez eles se espalharem pela região," ela escreve.
Mesmo as cores eram constatadas entre os fatos que deram alusão ao desenvolvimento do Maine cat. Ela claramente descreve a prevalência de algumas cores dominantes.... "Fortes cores predominam, brancos, negros, blues, laranja, e cremes, tabbies também são bem distribuídos..." Cores raras como smoke foram localizados em apenas um ou dois a cada duzentos filhotes de acordo com uma resposta de um agente à ela. "Silvers e chinchillas não são comuns" ela escreve, e essas cores ainda não são comuns no Maine Coon Cat até hoje.
Quem era Mrs. Pierce? Ela se descreve brevemente como alguém interessado nos Maine cats desde jovem. "Tendo essa paixão desde a infância e antes de se tornar moda, eu apreciei cuidadosamente todo o seu desenvolvimento." Ela descreve sua familia como amadora de gatos: " Nosso círculo familiar nunca foi completo sem um ou mais gatos - nem sempre de pêlos longos, sem bem que esse tipo sempre ocupou um lugar de honra. " Ela levou seus gatos à varios concursos e muitos dos seus gatos eram premiados. Ela visitou e se correspondeu com companheiros amantes de gatos da sua época. Suas descrições precisas e avaliações sobre vários gatos deixa óbvia a sua expertise nativa e o seu conhecimento do Maine cat. Quando ela descreve um dos "bons brown tabbies no Maine," ela é detalhista."
'Leo,' brown tabby, nascido em 1884, falecido em 1901; ...e observa " a cor do foçinho, comprimento do nariz, tamanho e forma dos olhos, testa e boca, tamanho das orelhas, comprimento dos pêlos da orelha e da cabeça."
Esses detalhes impressionantes dados por Ms. Pierce, nos fazem concluir que o Maine cat foi inicialmente desenvolvido já no inicio de 1800's; e que o crescimento inicial da raça aconteceu na primeira parte dos anos de 1800's. Mais tarde no mesmo século, foram adicionados nova diversidade e cores bem como tamanho para a raça. A origem dessa raça distinta foi claramente o desembarque de gatos da época pertencentes aos marinheiros e suas famílias de animais de estimação. Conforme os animais eram trazidos para as casas das famílias dos capitães, eles reproduziam naturalmente e se multiplicaram nas cidades costeiras. A base genética do Maine cat foi estabelecida e modificada com o advento da indústria naval; "Os que existem hoje podem ser chamados de nativos com toda segurança."
Mrs. Pierce notou que características do gato, pêlos longos, variedade natural, eram melhorados pois o "clima fresco e longo inverno, com ar puro cheio de ozônio, é o necessário para o desenvolvimento das suas melhores qualidades, ..." Olhando para o futuro, ela escreve que em " alguns anos de reprodução cuidadosa visando um tipo, eles seriam capazes de competir com sucesso em qualquer cat show internacional."
O Maine cat se tornou popular. Com a sua popularidade, suas origens ficaram nebulosas ou esquecidas. Ele agora é chamado de Maine Coon e é reconhecido internacionalmente com um show cat e animal des estimação de tipo remarcável. O Maine Coon de hoje tem uma hereditariedade distinta e reconhecida, e sua ancestralidade e pedigree podem ser rastreados até os primeiros gatos vindos do estado do Maine.
Copyright Abril 18, 1998 Beth E. Kus
All quotations are from: Todas as citações são de, Simpson, Chapter xxviii, by F. R. Pierce, Published Cassell and Company Limited 1903
[Traduzido por Roberta Martire, Chatterie des Mûres Sauvages]
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Cães que lhes dão o mundo
Submetido em Sábado, 16/05/2009 - 12:14 por Sérgio Gonçalves
Com o tema: Cão-guia
Os cães de serviço e os cães para surdos fazem parte dos cães de assistência e dispõem de legislação própria.
Em Portugal são educados pela Ânimas (www.animaspt.org ), uma associação que também realiza programas de actividades e de terapias assistidas por animais.
A Ânimas tem sede no Porto mas os seus cães estão instalados na Quinta do Couvo, em Oliveira de Azeméis.
Kuka sabe exactamente a que velocidade caminhar. Nem mais depressa nem mais devagar do que os pequeníssimos passos de Maria do Céu. Sempre dócil e disponível. Sempre atenta e concentrada nas necessidades da sua companheira. Kuka trouxe a Maria do Céu uma tranquilidade que esta desconhecia, uma confiança que mudou a sua vida.
Aliviou-lhe o peso que os obstáculos representam, minimizou-lhe as adversidades. Física e psicologicamente. À função de cadela de serviço juntou a de companhia, até ganhar o estatuto de melhor amiga da sua utilizadora e deixar a psicóloga Maria do Céu em dificuldades para explicar a relação que se estabeleceu entre ela e esta labradora: "A Kuka faz parte do meu dia-a-dia, é quase uma extensão de mim... É uma companhia, mas é muito mais do que isso... Não consigo comparar a relação que tenho com ela a nenhuma outra...". As palavras são redutoras de algo que se tornou tão imenso. Maria do Céu tenta uma última definição para nos aproximar ao mundo de cumplicidade que ela e Kuka criaram: "A nossa relação é uma magia de afectos".
Tem razão Maria do Céu Seabra: não é fácil falar sobre sentimentos, menos ainda sobre sentimentos em estado puro, que são aqueles que os cães dedicam aos humanos que os cuidam e que estes lhes tentam devolver com intensidade idêntica. Não a ajuda sequer o seu treino profissional como psicóloga e terapeuta familiar (na CERCI da Póvoa de Santa Iria e como voluntária na Raríssimas, a Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras). Mas não ficam dúvidas que é especial a relação estabelecida com Kuka, uma labradora amarela que vai fazer seis anos. Ela é um dos três cães de serviço (ver caixa) treinados até ao momento pela Ânimas - Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social - cujo lema é uma síntese feliz da atitude dos cães: "Capaz de tudo por si".
E, em termos das suas funcionalidades técnicas, o que tem feito Kuka por Maria do Céu, 37 anos, neste ano e meio de coabitação? A primeira vez que vemos esta dupla feminina, a Kuka vem a desempenhar uma das suas tarefas mais importantes: transportar na boca a mala da sua utilizadora (e não dona porque os cães de assistência são cedidos, permanecendo pertença da Ânimas e da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual -, as associações que em Portugal preparam estes cães). Maria do Céu fica assim com as mãos libertas para trazer um banquinho desmontável, que a ajuda a chegar a sítios mais altos, como sentar-se na cadeira do café onde nos encontramos.
O ar doce e a boa disposição da cadela, assinalada por um quase constante dar de cauda, conquistam atenções, tornam irresistível a vontade de fazer festas. Mas Maria do Céu rejeita o pedido e explica porquê. "Percebo que seja uma tentação fazer-lhe festas. Mas ela está a trabalhar e qualquer distracção pode pôr em risco a minha segurança". Um colete com a inscrição "cão de assistência" indica isso mesmo e deve funcionar como o passaporte que dá a estes cães acesso ilimitado a todos os locais. Para a Kuka, como para todos os cães de assistência, ter colocado o colete significa que está a trabalhar e só tem direito a descontrair quando este é retirado.
Todos os interruptores de luz e botões de elevadores estão colocados alto de mais para um anão com menos de um metro. Grande parte do mobiliário urbano continua a não cumprir a legislação das acessibilidades, frisa Maria do Céu. Kuka tornou a maioria deles acessível à psicóloga, que sofre de displasia diastrófica, um distúrbio que resulta em baixa estatura, como explica embora sem revelar a altura exacta. Esse foi um dos pedidos que fez quando foi entrevistada na Ânimas para se candidatar a um cão de serviço.
O educador da Kuka, Sebastião Castro Lemos - 57 anos, proprietário da Quinta do Couvo, em Oliveira de Azeméis, onde estão os cães da associação, da qual é voluntário - contou ao Expresso que teve de imaginar um sistema que servisse esta necessidade específica: a técnica de targeting, ou seja, tocar num alvo, foi completada com uma luz laser para indicar o alvo onde se deseja que o cão toque. Sebastião e Bruna - uma labrador com um ano que está a finalizar o treino de obediência e a começar a receber os primeiros ensinamentos para se tornar numa cadela de serviço - exemplificam o procedimento, mas sem o apontador a laser. No dia seguinte, é a vez de Maria do Céu e Kuka. As imagens que se seguem são únicas. Maria do Céu começa por fazer incidir no chão o ponto vermelho do laser tornando-o, assim, no foco de atenção de Kuka.
Imediatamente, aponta-o ao interruptor da luz e à ordem "toca", a cadela toca no botão e acende a luz. O mesmo acontece para chamar o elevador. A acção é repetida várias vezes para o repórter fotográfico e o operador de vídeo do Expresso conseguirem o melhor registo. Kuka dá o seu melhor - "ela está sempre disponível e são poucas as vezes em que acusa cansaço", sublinha Maria do Céu - e por isso vai sendo recompensada com grãos de ração, à laia de guloseima, o que acentua o carácter lúdico que este tipo de trabalho tem para um cão.
"Que querem ver mais?", pergunta a psicóloga, quebrando o silêncio provocado pelo espanto. Ficamos a saber que Kuka apanha objectos do chão, ajuda Maria do Céu a subir e descer escadas e lancis de passeios, a abrir as portas... "Já está tudo tão automatizado que, às tantas, nem me lembro de tudo o que a Kuka faz", conta a utilizadora. Nem precisa de dar todas as ordens. Kuka sabe, por exemplo, que a sua última tarefa no gabinete da psicóloga na CERCI, antes de subir para o banco de trás do automóvel de Maria do Céu para fazerem os 45 quilómetros de regresso a casa, é apagar a luz. E fá-lo como quem diz "vamos embora".
Na casa de Maria do Céu e dos pais sempre houve cães - actualmente têm a Becas, uma rafeira abandonada que a família acolheu - , mas a especificidade de um cão de serviço obrigou a um curso de acoplamento, três semanas de adaptação às funcionalidades técnicas e também de aprendizagem dos cuidados de que o canídeo necessita, como brincar entre 30 minutos a uma hora por dia para aliviar o stresse da sua missão.
"Antes tinha de antecipar tudo o que ia fazer, principalmente se ia a sítios novos... Agora, não penso nisso porque sei que a Kuka está lá para me ajudar. Houve uma mudança significativa na minha vida, mas não passei a fazer outras coisas, mas sim a fazer as coisas com despreocupação. Porque a Kuka está sempre comigo".
Lana é o único cão para surdos existente em Portugal. Desde há um ano que tem a missão especial de avisar o casal Baltazar - ambos surdos - quando toca a campainha da porta, o sinal avisador do microondas ou o alarme de incêndio. Ou, mas já por iniciativa da própria, quando há trovoada ou chega o peixeiro.
Ao contrário da Kuka, a Lana é irrequieta, tem um ar desafiador e só o colete mostra que é um cão de assistência. Como qualquer raça ou rafeiro pode desempenhar a função de cão para surdos, a pequena estatura desta pekinois de quatro anos funcionou como uma vantagem, pois os chamamentos de atenção são feitos com toques da pata, explica Liliana de Sousa, 55 anos, a bióloga fundadora e presidente da Ânimas. Já os cães de serviço são obrigatoriamente retriever do labrador - e quase em exclusivo os cães-guia para cegos -, dada as características da raça, como a inteligência e capacidade de aprendizagem, a afabilidade e o carácter.
No dia da visita da reportagem do Expresso à casa desta família de Valongo ninguém tinha a certeza se a coqueluche da casa se iria portar à altura. A razão é simples: se em casa estiverem pessoas da comunidade ouvinte, e desde logo Fernando Baltazar, o filho do casal que é intérprete de língua gestual, Lana pode aproveitar para se deixar ficar quieta. Quem o conta, a rir a bom rir, é o dono, Armando, 58 anos, reformado da banca e a frequentar na Universidade de Coimbra o Curso de Língua Gestual Portuguesa. A mulher, Maria da Glória, um ano mais nova e bancária, corrobora. Mas Lana não quis fazer feio, muito menos à frente do seu instrutor, Hugo Roby, 29 anos, educador de cães de profissão e voluntário na Ânimas. "Tive de perceber a realidade da família Baltazar e os seus problemas. E depois trabalhar em função disso". O primeiro passo foi um vulgar treino de obediência e de comportamento, só depois as necessidades especiais de quem não ouve. Ao fim de cerca de oito meses a ser educada por Hugo regressou a casa com as novas competências: a campainha da porta toca e ela corre na direcção de Armindo ou de Maria da Glória, empina-se e bate-lhes com a pata numa das pernas. É assim com todos os sons para que foi ensinada.
Lana era já a cadela da família. Chegou aos seis meses trazida pelo irmão gémeo de Fernando, na sequência de uma separação. "Eu, que tive um pastor alemão, fiquei a olhar para aquela coisa pequena e feia", recorda, bem humorado, Armindo Baltazar, repentinamente surdo aos 13 anos devido a um ataque de meningite violenta. Maria da Glória, que também perdeu a audição devido à meningite mas ainda bebé, aos 18 meses, apesar da grande dificuldade em se exprimir oralmente, deixa claro que está a sair em defesa da bicha de estimação e que nunca a achou feia. No fundo, sabe que o marido está a brincar e ambos mostram estar muito ligados a um animal que começou por ser apenas de estimação.
Sempre com a ajuda de Fernando Baltazar, 35 anos, como intérprete - função que exerce para o Ministério da Justiça e na televisão - essencialmente para colocar as nossas perguntas ao pai, uma vez que Armindo mantém parte da oralidade, ficamos a saber que este tem um longo percurso na Associação de Surdos do Porto e na Federação Portuguesa das Associações de Surdos e foi nesse âmbito que teve conhecimento do trabalho da Ânimas. "Às vezes as pessoas só protestam e não agem. Quis saber como era ter um cão assim treinado, até para dar o exemplo..." Na verdade não se pode dizer que a vida do casal Baltazar tenha mudado radicalmente com a nova Lana. "Mas poderia ter mudado se, como a maior parte dos não ouvintes, tivéssemos a casa toda adaptada com sinais luminosos e não apenas uma lâmpada na cozinha que avisa quando a campainha da porta toca...", defende Armindo Baltazar.
Há dez anos, era entregue o primeiro cão-guia para cegos. Hoje, a Escola de Cães-Guia para Cegos de Mortágua (da já referida ABAADV) já entregou mais de 70 cães e não tem mãos a medir, como explica o seu presidente, João Fonseca, 46 anos, veterinário e autarca. Mas os três educadores da escola só têm capacidade para preparar 12 cães por ano, com um custo estimado de 17.500 euros cada, mas entregue gratuitamente ao utilizador. O subsídio da Segurança Social por cada dupla cego/ cão-guia formada "representa apenas 65% dos custos totais da escola". Enquanto a Ânimas lamenta a falta de conhecimento por parte dos potenciais beneficiários dos seus cães, aqui é a lista de espera que aumenta.
Augusto Hortas, 58 anos, funcionário público há mais de 35, teve um descolamento de retina que rapidamente o levou à cegueira. Passou por um "desmoronar de castelos muito complicado", mas acabou por reagir quando percebeu que não era o único jovem a enfrentar tal provação. Fez o curso de Filosofia, casou com Arminda (que cegou aos 14 anos na sequência de uma meningite), teve dois filhos e entrou no associativismo, na conhecida ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal), através da qual se candidata a um cão-guia e se torna no primeiro utilizador português. E, por consequência, no primeiro cego a lutar pelo cumprimento da lei que permite a entrada destes cães a locais de acesso público e transportes. É num restaurante, com Lua deitada junto à mesa, que decorre esta conversa. Tem quase seis anos e é mais uma fêmea labradora desta reportagem: mais calmas do que os machos, têm a vantagem de ser mais pequenas e se acomodarem melhor, mas serem suficientemente grandes para possibilitar a devida comunicação, através do arnês, com a pessoa que guiam. O arnês é considerado a farda do cão-guia, que inclui um guizo para permitir ao cego saber sempre onde se encontra o seu cão.
"Muita coisa mudou nestes dez anos. Hoje as pessoas já sabem o que é um cão-guia e conhecem melhor os seus direitos", diz Augusto Hortas, desfiando histórias antigas de barramentos em restaurantes e recusa de transporte em táxis. A identificação dos prevaricadores pelas autoridades é o conselho que aprendeu à custa de ter perdido um processo contra o proprietário e motorista de um táxi que não o deixou o entrar, na altura ainda com Camila - a primeira cadela que se tornou nos seus olhos, expressão que usa com orgulho. Feito o estágio de adaptação (uma semana em Mortágua, outra em Vila Franca de Xira, onde reside, e sempre com a presença do educador), começou o dia-a-dia de Augusto com Camila, ela a levá-lo com segurança, de casa até ao comboio para Alverca, da estação para o Instituto do Emprego e Formação Profissional, onde trabalha como técnico superior, o inverso ao final do dia. "É estar sempre acompanhado por um amigo, a conversar... Em troca, estes cães apenas pedem comida e carinho."
A autonomia foi tal que deixou a bengala praticamente de lado, "mais do que devia". Quando Camila foi operada devido a uma ruptura de ligamentos e não o podia acompanhar, Augusto sentiu-se perdido: "Foi como voltar ao princípio, a reconhecer os caminhos e pontos de referência. Aprendi que a bengala é um objecto inerte mas útil, e desde então voltei a usá-la mais". Camila nunca recuperou devidamente e Lua veio substituí-la nas tarefas. Mas Augusto pensou em andar com as duas, para que Camila não se sentisse preterida. Em vão: as cadelas disputavam o direito a ir do lado esquerdo (o lugar que lhes compete como guia); aconselhado pelo educador Vítor Costa a levar ambas do lado esquerdo, lutavam pela posição junto à perna de Augusto... "A Camila tinha atitudes irreconhecíveis", recorda Augusto. Eram, afinal, já sintoma da doença maligna que a vitimou ao fim de sete anos e alguns meses a guiá-lo. "Foi o maior desgosto da minha vida". A confissão dolorosa é sublinhada pelo humedecer dos olhos. Augusto faz questão de frisar que apesar de ter sido enorme o desgosto que sentiu quando um médico lhe assegurou que ia ser cego toda a vida, foi maior o da perda da labradora. "Foi a perda de um familiar muito, muito próximo. Ela substituía realmente os meus olhos."
Os cães de assistência têm de ter prazer naquilo que fazem. Este é um dos segredos dos educadores, assim chamados nestas duas associações após a formação feita no estrangeiro, porque, salientam, treinadores há muitos, educadores muito poucos. "Eles vão passar o resto da vida a servir alguém", frisa Sabina Teixeira, 38 anos, da Escola de Cães-Guia para Cegos. Todos os dias, ela e Marta Ferreira, 32 anos, levam os "seus" cães para uma cidade vizinha para simularem, até no andar, o que significa guiar um cego, a missão que irão ter nos próximos oito, dez anos. Um treino técnico que não começa antes dos 12 meses e acontece após uma fase de socialização dos cães em famílias de acolhimento. Depois, durante cerca de um ano, educador e educando viverão diariamente a batalha pelas competências especiais, estabelecendo relações fortes e desejáveis porque, como diz Liliana de Sousa, "os cães não são robôs".
António Neves, 49 anos, um dos educadores da Ânimas e que faz igualmente voluntariado como técnico de actividades assistidas por animais na Associação Portuguesa de de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente, em Vila Real, sintetiza estes laços únicos: "Quando entregamos um cão é a chorar. Quem o recebe é também a chorar".
Cães de assistência São, segundo o Decreto-Lei n.º 74/2007, de 27 de Março, cães que auxiliam pessoas com deficiência, caso dos cães-guia, cães para surdos e cães de serviço. Há uma quarta categoria, que a Ânimas quer trazer para Portugal, e que são os cães de alerta, cuja missão é avisar os utilizadores para a ocorrência de ataques de doenças como a epilepsia ou a diabetes.
Cães de Serviço: auxiliam pessoas com deficiência motora, realizando tarefas como abrir portas, recolher objectos do chão ou de locais inacessíveis, acender luzes, accionar elevadores, despir certas peças de vestuário, etc.
Cães para Surdos: alertam para o toque de campainhas, alarmes, choro de recém-nascido, etc.
Cães-Guia: conduzem o cego em segurança, evitando que choque com obstáculos e ajudando-o a encontrar locais, etc.
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Villa Amichetti- Paraíso Ecológico- uma forma sustentável de ConViver.
Rod. Régis Bittencourt, km 334, apenas 40 min. de SP-Juquitiba .
Agende uma agradável visita para adquirir seu filhote e faça belo passeio no santuário ecológico com a Mata Atlântica preservada.