Efeitos Endócrinos Adversos da Castração em Cães e Gatos: Ênfase no Aumento de LH e na Associação com Hiperadrenocorticismo Atípico
Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina, Medicina canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
A castração, seja por ovariohisterectomia em fêmeas ou orquiectomia em machos, é uma intervenção cirúrgica rotineira na medicina veterinária, universalmente reconhecida por seus benefícios no controle populacional e na prevenção de diversas patologias reprodutivas. No entanto, a remoção das gônadas acarreta profundas e persistentes alterações no perfil endócrino dos animais. Evidências crescentes apontam para uma elevação compensatória e crônica do hormônio luteinizante (LH), com potenciais efeitos sistêmicos que extrapolam o eixo reprodutivo (Amichetti, 2023). Tais alterações hormonais sugerem uma possível influência sobre o eixo adrenal, culminando em manifestações clínicas que, embora não se enquadrem no hiperadrenocorticismo clássico, assemelham-se a síndromes adrenais atípicas ou disfunções secundárias. Este artigo propõe uma revisão aprofundada da literatura científica, explorando os mecanismos fisiopatológicos subjacentes a essas alterações, suas implicações clínicas potenciais e as considerações essenciais para a prática veterinária contemporânea, com foco na contribuição de Kutzler (2020) para o entendimento do tema.
Endocrine Adverse Effects of Gonadectomy in Dogs and Cats: Emphasis on LH Elevation and Association with Atypical Hyperadrenocorticism
Castration (ovariohysterectomy/orchiectomy) is a common practice in veterinary medicine with widely recognized benefits, such as reproductive control and prevention of reproductive neoplasms. However, there is growing evidence that gonadal removal can lead to persistent hormonal alterations, including chronic elevation of Luteinizing Hormone (LH) and potential effects on the adrenal axis. These changes suggest an association with clinical manifestations resembling atypical hyperadrenocorticism, rather than the classical form. This article reviews the scientific literature on these endocrine alterations, with emphasis on the underlying pathophysiological mechanisms, potential clinical implications, and crucial considerations for contemporary veterinary practice. A particular focus is placed on the significant contributions of Michelle Kutzler (2020) to understanding the systemic impact of post-gonadectomy LH elevation.
A castração eletiva de cães e gatos representa um pilar fundamental da medicina veterinária preventiva, sendo amplamente recomendada por seus benefícios no controle de doenças reprodutivas, como piometra, tumores mamários em fêmeas, e neoplasias testiculares e prostáticas em machos, além de auxiliar no manejo comportamental (Root-Kustritz, 2007). Contudo, a simplicidade e a eficácia dessa prática não devem obscurecer as complexas reverberações endócrinas que ela provoca no organismo. A remoção das gônadas — os principais produtores de esteroides sexuais (estrógenos, progesterona e testosterona) — interrompe o feedback negativo sobre o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, resultando em uma elevação compensatória e persistente dos hormônios gonadotróficos, notadamente o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH) (Kutzler, 2020).
Tradicionalmente, a elevação de LH pós-castração era considerada uma consequência fisiológica benigna da esterilização. No entanto, pesquisas recentes, como as compiladas por Michelle Kutzler (2020), têm lançado luz sobre a possibilidade de que o LH elevado possa exercer efeitos sistêmicos além da esterilidade, atuando em tecidos extragonadais que expressam seus receptores. A glândula adrenal, por exemplo, é um órgão que pode ser particularmente suscetível a essa modulação hormonal, levantando questionamentos sobre a integridade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) em animais castrados.
O hiperadrenocorticismo, ou Síndrome de Cushing, é uma endocrinopatia bem caracterizada em cães, resultante da produção excessiva de cortisol, manifestando-se clinicamente por polidipsia, poliúria, polifagia, alopecia bilateral não pruriginosa, distensão abdominal e alterações metabólicas (Behrend et al., 2013). Embora a castração não seja diretamente implicada como causa do hiperadrenocorticismo clássico (dependente da hipófise ou adrenal), a literatura sugere que as alterações hormonais pós-castração, especialmente o aumento do LH, podem predispor ou exacerbar disfunções adrenais, levando a síndromes adrenais atípicas com sinais clínicos semelhantes. Essa relação complexa exige uma análise mais aprofundada, especialmente para profissionais como Claudio, que buscam otimizar a saúde e bem-estar de cães e gatos.
Objetivo: Este artigo tem como objetivo analisar criticamente os efeitos endócrinos adversos da castração em cães e gatos, com foco nas alterações do hormônio luteinizante (LH) e suas potenciais interações com a função adrenal, investigando possíveis relações com a ocorrência de hiperadrenocorticismo atípico e discutindo as implicações clínicas para a prática veterinária.
A fisiologia do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal é intrinsecamente regulada por um sistema de feedback negativo. As gônadas (ovários e testículos) produzem esteroides sexuais que inibem a liberação de GnRH pelo hipotálamo e de LH e FSH pela hipófise anterior. Com a castração, a fonte primária de estrógenos e testosterona é eliminada, removendo essa inibição. Consequentemente, a hipófise aumenta compensatoriamente a secreção de LH e FSH, que permanecem elevados cronicamente (Kutzler, 2020).
Michelle Kutzler (2020), em sua revisão abrangente, enfatiza que o aumento persistente de LH não é um evento isolado, mas sim um fator com potenciais repercussões sistêmicas. Receptores de LH não estão confinados às gônadas; eles foram identificados em diversos tecidos extragonadais, incluindo a glândula adrenal, rins, cérebro, células imunes e tecidos metabólicos. A ativação desses receptores por níveis cronicamente elevados de LH pode, portanto, modular a função desses órgãos. No contexto adrenal, o LH pode influenciar a esteroidogênese, alterando a produção de glicocorticoides e outros esteroides adrenais, potencialmente predispondo a disfunções endócrinas, especialmente em indivíduos com predisposição genética ou metabólica. Essa modulação pode culminar em uma produção alterada de precursores do cortisol ou de outros hormônios esteroides adrenais, sem necessariamente causar o hiperadrenocorticismo clássico mediado por ACTH.
O eixo HHA é o principal sistema de resposta ao estresse e regulador do metabolismo energético, mediado pela liberação de CRH, ACTH e cortisol. A ausência de hormônios gonadais pós-castração pode desequilibrar a interação entre o eixo reprodutivo e o HHA. Embora a castração não seja um fator etiológico direto do hiperadrenocorticismo clássico, há evidências de que as mudanças hormonais pós-castração podem alterar a sensibilidade e a resposta da glândula adrenal ao ACTH. Kutzler (2020) sugere que o LH elevado pode ter um efeito trófico direto ou indireto sobre o córtex adrenal, estimulando a síntese de esteroides adrenais.
Essa interação pode ser particularmente relevante em síndromes adrenais atípicas, onde os cães apresentam sinais clínicos de hiperadrenocorticismo, mas com concentrações normais de cortisol pré e pós-estimulação por ACTH. Nesses casos, outros esteroides adrenais, como progesterona, 17-hidroxiprogesterona, androstenediona ou DHEA, podem estar elevados. A hipótese é que o LH, agindo sobre os receptores adrenais, possa estimular seletivamente a via de produção desses precursores esteroides, contribuindo para os sinais clínicos observados (Behrend et al., 2013; Kutzler, 2020).
Os estudos que investigam a relação direta entre LH elevado pós-castração e disfunções adrenais em gatos são menos numerosos e robustos do que em cães. No entanto, a castração em felinos está consistentemente associada a alterações metabólicas significativas, que podem ter interações complexas com a regulação hormonal adrenal:
A castração é uma ferramenta indispensável na medicina veterinária, trazendo consigo inúmeros benefícios. No entanto, a literatura científica, incluindo as análises críticas de Kutzler (2020), reforça que esta prática não é isenta de profundos efeitos colaterais hormonais. A retirada das gônadas elimina não apenas a capacidade reprodutiva, mas também redefine permanentemente o perfil endócrino do animal, sendo a elevação crônica do LH uma das consequências mais significativas.
O ponto crucial da discussão reside na ubiquidade dos receptores de LH em tecidos extra-reprodutivos, como o córtex adrenal. Essa distribuição sustenta a hipótese de que o LH elevado cronicamente pós-castração pode influenciar indiretamente a esteroidogênese adrenal, alterando a produção de glicocorticoides e outros esteroides. Essa modulação pode culminar em uma "disfunção adrenal atípica", onde os animais exibem sinais clínicos consistentes com hiperadrenocorticismo, mas com testes diagnósticos de cortisol frequentemente inconclusivos ou normais, enquanto outros precursores esteroides estão elevados.
Em cães, a ligação entre a castração e a obesidade, por exemplo, é bem estabelecida, e a obesidade, por sua vez, é um fator de risco para o hiperadrenocorticismo. Em gatos, as alterações metabólicas pós-castração, como ganho de peso e resistência à insulina, são igualmente prevalentes e podem criar um ambiente que favorece disfunções endócrinas, incluindo potenciais alterações na função adrenal, mesmo que a correlação direta com o LH elevado ainda precise de mais investigação específica em felinos.
É imperativo reconhecer que, embora uma relação causal direta entre castração e hiperadrenocorticismo clássico (doença de Cushing) não esteja firmemente estabelecida, a base mecanística para a preocupação clínica com a função adrenal pós-castração é sólida. A discussão se move para a compreensão de que a castração pode ser um fator contribuinte para a manifestação de síndromes adrenais atípicas, exigindo um olhar mais atento e aprofundado na monitorização desses pacientes.
Diante das evidências e da complexidade das alterações endócrinas pós-castração, as seguintes implicações e recomendações clínicas são propostas para profissionais como Claudio, visando uma abordagem mais informada:
A castração é uma prática veterinária de grande valor, mas é essencial que os profissionais compreendam suas ramificações endócrinas. As evidências apresentadas, particularmente a luz da revisão de Kutzler (2020), demonstram que a castração altera significativamente o perfil hormonal de cães e gatos, resultando em um aumento persistente do LH. Esta elevação tem potenciais efeitos em tecidos extragonadais, incluindo a glândula adrenal, podendo predispor a disfunções semelhantes ao hiperadrenocorticismo atípico em indivíduos suscetíveis.
A compreensão desses efeitos não busca desqualificar a castração, mas sim promover uma abordagem mais holística e informada, permitindo a identificação precoce e o manejo adequado de possíveis complicações. Para profissionais como Dr. Claudio, que atuam na vanguarda da saúde animal, o conhecimento detalhado desses mecanismos é crucial para tomar decisões clínicas mais assertivas e para garantir o bem-estar e a qualidade de vida de seus pacientes a longo prazo.
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