Dr Claudio Med Veterinário Integrativo e Funcional e Eng. Agrônomo Sustentável
A dermatofitose em felinos e caninos representa uma das dermatopatias mais frequentemente diagnosticadas na rotina veterinária, destacando-se não apenas por sua natureza contagiosa, mas, sobretudo, por seu significativo caráter zoonótico. Compreender a etiopatogenia, epidemiologia, manifestações clínicas, bem como as estratégias diagnósticas, terapêuticas e preventivas, é imperativo para médicos-veterinários, visando a saúde animal e a saúde pública.
Esses fungos filamentosos, septados e hialinos invadem o tecido queratinizado do hospedeiro, degradando a queratina para obter nutrientes essenciais. Sua reprodução ocorre por fragmentação das hifas, dando origem a artroconídios, que são as estruturas infecciosas de alta resistência e capacidade de disseminação ambiental (SOARES & SÉRVIO, 2022; Moriello, 2014).
A transmissão da dermatofitose ocorre primariamente por contato direto entre indivíduos infectados (sintomáticos ou assintomáticos) e suscetíveis, ou indiretamente, por meio de fômites e ambiente contaminado (Moriello, 2014). A persistência dos esporos fúngicos no ambiente e sua resistência a condições adversas contribuem significativamente para a disseminação da afecção, representando um desafio tanto na medicina veterinária quanto na saúde pública (SOARES & SÉRVIO, 2022; Moriello, 2014).
Fatores Predisponentes:
| * Fatores do Hospedeiro: |
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Raças: Animais de pelagem longa, como Yorkshire Terriers e gatos Persas, apresentam maior prevalência devido à dificuldade na auto-higienização e maior retenção de esporos (Scott et al., 2012).Comportamento:Animais com comportamento agressivo ou territorialista (especialmente não castrados) estão mais propensos a lesões cutâneas que servem como porta de entrada.Idade e Imunidade: Filhotes e animais jovens (<1 ano), idosos e imunossuprimidos (devido a doenças concomitantes como FIV/FeLV, diabetes mellitus, uso de corticosteroides ou outras patologias crônicas) são mais vulneráveis devido à imaturidade ou deficiência do sistema imunológico (Scott et al., 2012; Moriello, 2014).
A dermatofitose é uma zoonose de importância considerável. Agentes como o M. canis, o dermatófito zoofílico mais frequente, são responsáveis por aproximadamente 30% das dermatofitoses em humanos, sendo que em algumas regiões a prevalência pode ser ainda maior (SOUZA et al., 2022; Moriello, 2014). A convivência próxima entre pets e tutores facilita a transmissão, tornando essencial a orientação sobre medidas preventivas e de higiene pessoal (Moriello, 2014). A utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) pela equipe veterinária (avental impermeável, luvas descartáveis, máscara) é indispensável durante o manejo de animais suspeitos ou confirmados, minimizando o risco de contaminação cruzada e a disseminação ambiental do agente (AMORIM, 2020).
| * Alopecia: Perda de pelo de padrão geográfico, irregular ou circular, frequentemente com pelos quebradiços ("em pincel"). |
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As lesões podem ser localizadas ou disseminadas, e a intensidade varia conforme o agente envolvido e a resposta imune do hospedeiro. O diagnóstico diferencial abrange outras dermatopatias, como dermatites bacterianas (foliculite, furunculose), demodicose, dermatite miliar felina e doenças imunomediadas, exigindo um diagnóstico assertivo (Scott et al., 2012).
Um diagnóstico ágil e assertivo é fundamental para instituir o tratamento correto, minimizando a transmissão e o impacto na saúde pública.
O tratamento da dermatofitose felina e canina deve ser abrangente, visando a eliminação do fungo, a redução da contaminação ambiental e a prevenção da transmissão (Moriello, 2014).
| * Suporte Nutricional Otimizado: |
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Aprofundando nas medidas de suporte à saúde dermatológica em felinos e caninos, a medicina veterinária integrativa e funcional preconiza uma abordagem nutricional e suplementar que vai além do suprimento das necessidades básicas. O objetivo é modular processos fisiológicos específicos para fortalecer a barreira cutânea e a resposta imune, criando um ambiente sistêmico menos propício à infecção e mais eficiente na recuperação.
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Suporte Nutricional Otimizado: A dieta e a suplementação são pilares para a modulação da saúde dermatológica e imunológica. |
Ácidos Graxos Essenciais (Ômega-3: EPA e DHA):**
A suplementação com EPA (ácido eicosapentaenoico) e DHA (ácido docosahexaenoico) é fundamental para suas propriedades anti-inflamatórias e para a manutenção da integridade da barreira cutânea. O mecanismo de ação primário dos ômega-3 reside na sua capacidade de competir com o ácido araquidônico (AA) pelas enzimas ciclooxigenase (COX) e lipoxigenase (LOX) na cascata do metabolismo dos eicosanoides. Ao serem incorporados nas membranas celulares, o EPA e o DHA resultam na produção de eicosanoides menos inflamatórios (prostaglandinas da série 3 e leucotrienos da série 5), em contraste com os mediadores altamente pró-inflamatórios (prostaglandinas da série 2 e leucotrienos da série 4) derivados do AA. Esta modulação anti-inflamatória é crucial para mitigar o eritema, o prurido e a inflamação associados às lesões fúngicas, promovendo um ambiente mais propício à cicatrização. Além disso, o EPA e o DHA desempenham um papel vital na composição da matriz lipídica intercelular da epiderme, contribuindo para a redução da perda transepidérmica de água (TEWL) e fortalecendo a função de barreira da pele, o que pode dificultar a invasão secundária por patógenos e otimizar a hidratação cutânea (Fadok, 2018; Scott et al., 2012).
Probióticos e Prebióticos:
A modulação da microbiota intestinal é um pilar da saúde integrativa, reconhecendo o conceito do "eixo intestino-pele". Probióticos (microrganismos vivos benéficos, como *Lactobacillus* e *Bifidobacterium*) e prebióticos (fibras fermentáveis que promovem o crescimento de bactérias benéficas) atuam sinergicamente para otimizar a saúde gastrointestinal. Um microbioma intestinal equilibrado é crucial para a competência imunológica sistêmica, pois grande parte do sistema linfoide associado ao intestino (GALT) reside nessa região. A produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs) pelas bactérias benéficas, por exemplo, tem efeitos imunomoduladores sistêmicos. A disbiose intestinal, por outro lado, pode levar à inflamação sistêmica e à manifestação de problemas dermatológicos. Ao promover um microbioma saudável, busca-se fortalecer a resposta imune inata e adaptativa do hospedeiro, potencialmente auxiliando na contenção da proliferação fúngica e na prevenção de infecções secundárias. Adicionalmente, a redução do estresse, que pode estar associada a um microbioma equilibrado, contribui indiretamente para a homeostase imune (Mueller et al., 2016; O'Neill et al., 2016).
Antioxidantes (Vitaminas E, C, Selênio e Zinco):
Os processos inflamatórios e infecciosos, como os observados na dermatofitose, geram um aumento na produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), que causam estresse oxidativo. Esse estresse pode danificar membranas celulares, proteínas e DNA, perpetuando a inflamação e comprometendo a cicatrização. A suplementação com antioxidantes visa neutralizar esses radicais livres.
Vitamina E (tocoferóis): É um antioxidante lipossolúvel primário, protegendo as membranas celulares do dano oxidativo. Essencial para a integridade dos queratinócitos e a saúde epitelial.
Vitamina C (ácido ascórbico): Antioxidante hidrossolúvel que regenera a vitamina E e é um cofator essencial na síntese de colágeno, fundamental para a reparação tecidual e cicatrização.
Selênio: Componente chave da glutationa peroxidase, uma das enzimas antioxidantes mais importantes do corpo.
Zinco: Cofator para inúmeras enzimas, incluindo a superóxido dismutase (SOD), outra enzima antioxidante crucial. Também desempenha um papel vital na proliferação celular, na diferenciação dos queratinócitos, na cicatrização de feridas e na função imunológica, modulando a resposta inflamatória (Scott et al., 2012; Watson, 2011).
Vitaminas do Complexo B:
As vitaminas do complexo B são hidrossolúveis e atuam como coenzimas em inúmeras reações metabólicas essenciais para a saúde celular, especialmente em tecidos com alta taxa de renovação, como a pele e os folículos pilosos.
Biotina (B7): Crucial para a síntese de ácidos graxos, metabolismo de aminoácidos e gliconeogênese, sendo particularmente importante para a integridade da pele e a queratinização. A deficiência pode levar a pele seca, escamosa e má qualidade da pelagem.
Piridoxina (B6): Envolvida no metabolismo de aminoácidos, essencial para a síntese de proteínas (incluindo queratina) e neurotransmissores.
Riboflavina (B2), Niacina (B3), Ácido Pantotênico (B5): Essenciais para a produção de energia celular e manutenção da função de barreira da pele.
A otimização desses nutrientes é fundamental para apoiar a estrutura e a função da pele e do pelo, que são os alvos primários da infecção dermatofítica, auxiliando na resistência e reparo tecidual (Scott ets al., 2012; Watson, 2011).
Alimentos Funcionais:
Dietas formuladas com nutrientes específicos para a saúde dermatológica, como as linhas Royal Canin® Hair and Skin para gatos e Royal Canin® Coat Care para cães, representam um componente valioso na abordagem integrativa. Embora não sejam tratamentos farmacológicos para a dermatofitose em si, esses alimentos são projetados para otimizar a saúde da pele e do pelo ao fornecerem perfis nutricionais que incluem:
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Proteínas de alta digestibilidade: Para a síntese adequada de queratina e outras proteínas estruturais da pele e do pelo. |
Aminoácidos específicos:** Como metionina e cisteína, precursores da queratina.
Níveis otimizados de ácidos graxos (incluindo Ômega-3 e Ômega-6):** Para suporte à barreira cutânea e redução da inflamação.
Concentrações elevadas de vitaminas do complexo B e antioxidantes:** Para suportar o metabolismo celular e proteger contra o estresse oxidativo.
Essas formulações criam um ambiente nutricional ideal que complementa o tratamento específico, promovendo a recuperação da integridade cutânea e a qualidade da pelagem, e contribuindo para a resiliência geral do animal.
Aprevenção da dermatofitose baseia-se em um conjunto de medidas que visam quebrar a cadeia de transmissão e fortalecer a resiliência do animal:
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Higiene Ambiental Rigorosa: A desinfecção do ambiente é fundamental para erradicar os esporos fúngicos, que podem permanecer viáveis por até 18 meses (Moriello, 2014). |
Limpeza mecânica (aspirar, esfregar) é o primeiro passo para remover pelos e escamas contaminadas.
Desinfetantes Convencionais:** Produtos à base de amônia quaternária e hipoclorito de sódio (água sanitária 1:10) são comprovadamente eficazes contra os esporos de dermatófitos e são amplamente recomendados (Moriello, 2014; Scott et al., 2012).
Desinfetantes Naturais/Alternativos Potenciais: Embora a pesquisa sobre a eficácia de "desinfetantes naturais" contra esporos fúngicos em ambientes veterinários ainda seja emergente e requeira validação rigorosa para garantir a segurança e eficácia, alguns agentes demonstram potencial:
Ácido Hipocloroso (HOCl):Gerado por eletrólise de água e sal, é um oxidante potente, seguro para uso tópico em mamíferos em concentrações adequadas, com ampla atividade antimicrobiana, incluindo fungicida. Sua aplicação em ambientes pode ser uma alternativa promissora para sanitização, minimizando a toxicidade residual (Sakarya et al., 2014; Roman et al., 2021).
Dióxido de Cloro (ClO₂): Um potente agente oxidante, utilizado em diversas indústrias como desinfetante e esporicida. Em concentrações apropriadas, pode ser eficaz na desinfecção ambiental contra fungos, incluindo esporos, e é menos corrosivo que o hipoclorito em algumas superfícies (Lestari et al., 2021). A segurança para aplicação em ambientes domésticos com animais deve ser criteriosamente avaliada e formulada.
Ozônio (O₃):Gás oxidante com atividade antimicrobiana, incluindo fungicida. Utilizado para sanitização de ar e água. A eficácia ambiental depende da concentração e tempo de exposição, e deve-se garantir a ausência de animais e pessoas durante a aplicação devido à toxicidade por inalação (Oda et al., 2008; Zupancic et al., 2019).
Ácidos Cítricos e Acético: Em concentrações específicas, ácidos como o cítrico e o acético (vinagre) podem ter alguma atividade antimicrobiana, incluindo antifúngica, e são considerados mais "naturais". No entanto, sua esporicidia e eficácia como desinfetantes ambientais primários contra dermatófitos são limitadas e não comparáveis aos agentes químicos estabelecidos para a desinfecção de ambientes contaminados por dermatófitos (Adams & Moss, 2008; Cortez-Rocha et al., 2009).
Extratos de Plantas/Óleos Essenciais: Alguns óleos essenciais (ex: *Origanum vulgare*, *Thymus vulgaris*, *Melaleuca alternifolia* - óleo de melaleuca) demonstraram atividade antifúngica *in vitro* contra dermatófitos (Carson et al., 2002; Burt, 2004). No entanto, sua segurança para uso ambiental em presença de gatos é altamente questionável devido à sensibilidade felina a terpenos e fenóis, e a eficácia *in situ* contra esporos resistentes não é consistentemente comprovada para desinfecção primária. Não são recomendados como desinfetantes ambientais primários em áreas onde animais têm acesso.
Para todos os desinfetantes, o contato e tempo de ação adequados são cruciais para a eficácia.
Em síntese, o manejo eficaz da dermatofitose em felinos e caninos exige uma abordagem multidisciplinar, que integra o diagnóstico preciso, o tratamento antifúngico convencional e estratégias complementares da medicina veterinária integrativa. A colaboração entre o veterinário e o tutor, aliada à rigorosa higiene ambiental, é fundamental para o sucesso terapêutico e a proteção da saúde pública.
Referências:
Efeitos Endócrinos Adversos da Castração em Cães e Gatos: Ênfase no Aumento de LH e na Associação com Hiperadrenocorticismo Atípico
Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina, Medicina canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
A castração, seja por ovariohisterectomia em fêmeas ou orquiectomia em machos, é uma intervenção cirúrgica rotineira na medicina veterinária, universalmente reconhecida por seus benefícios no controle populacional e na prevenção de diversas patologias reprodutivas. No entanto, a remoção das gônadas acarreta profundas e persistentes alterações no perfil endócrino dos animais. Evidências crescentes apontam para uma elevação compensatória e crônica do hormônio luteinizante (LH), com potenciais efeitos sistêmicos que extrapolam o eixo reprodutivo (Amichetti, 2023). Tais alterações hormonais sugerem uma possível influência sobre o eixo adrenal, culminando em manifestações clínicas que, embora não se enquadrem no hiperadrenocorticismo clássico, assemelham-se a síndromes adrenais atípicas ou disfunções secundárias. Este artigo propõe uma revisão aprofundada da literatura científica, explorando os mecanismos fisiopatológicos subjacentes a essas alterações, suas implicações clínicas potenciais e as considerações essenciais para a prática veterinária contemporânea, com foco na contribuição de Kutzler (2020) para o entendimento do tema.
Endocrine Adverse Effects of Gonadectomy in Dogs and Cats: Emphasis on LH Elevation and Association with Atypical Hyperadrenocorticism
Castration (ovariohysterectomy/orchiectomy) is a common practice in veterinary medicine with widely recognized benefits, such as reproductive control and prevention of reproductive neoplasms. However, there is growing evidence that gonadal removal can lead to persistent hormonal alterations, including chronic elevation of Luteinizing Hormone (LH) and potential effects on the adrenal axis. These changes suggest an association with clinical manifestations resembling atypical hyperadrenocorticism, rather than the classical form. This article reviews the scientific literature on these endocrine alterations, with emphasis on the underlying pathophysiological mechanisms, potential clinical implications, and crucial considerations for contemporary veterinary practice. A particular focus is placed on the significant contributions of Michelle Kutzler (2020) to understanding the systemic impact of post-gonadectomy LH elevation.
A castração eletiva de cães e gatos representa um pilar fundamental da medicina veterinária preventiva, sendo amplamente recomendada por seus benefícios no controle de doenças reprodutivas, como piometra, tumores mamários em fêmeas, e neoplasias testiculares e prostáticas em machos, além de auxiliar no manejo comportamental (Root-Kustritz, 2007). Contudo, a simplicidade e a eficácia dessa prática não devem obscurecer as complexas reverberações endócrinas que ela provoca no organismo. A remoção das gônadas — os principais produtores de esteroides sexuais (estrógenos, progesterona e testosterona) — interrompe o feedback negativo sobre o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, resultando em uma elevação compensatória e persistente dos hormônios gonadotróficos, notadamente o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH) (Kutzler, 2020).
Tradicionalmente, a elevação de LH pós-castração era considerada uma consequência fisiológica benigna da esterilização. No entanto, pesquisas recentes, como as compiladas por Michelle Kutzler (2020), têm lançado luz sobre a possibilidade de que o LH elevado possa exercer efeitos sistêmicos além da esterilidade, atuando em tecidos extragonadais que expressam seus receptores. A glândula adrenal, por exemplo, é um órgão que pode ser particularmente suscetível a essa modulação hormonal, levantando questionamentos sobre a integridade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) em animais castrados.
O hiperadrenocorticismo, ou Síndrome de Cushing, é uma endocrinopatia bem caracterizada em cães, resultante da produção excessiva de cortisol, manifestando-se clinicamente por polidipsia, poliúria, polifagia, alopecia bilateral não pruriginosa, distensão abdominal e alterações metabólicas (Behrend et al., 2013). Embora a castração não seja diretamente implicada como causa do hiperadrenocorticismo clássico (dependente da hipófise ou adrenal), a literatura sugere que as alterações hormonais pós-castração, especialmente o aumento do LH, podem predispor ou exacerbar disfunções adrenais, levando a síndromes adrenais atípicas com sinais clínicos semelhantes. Essa relação complexa exige uma análise mais aprofundada, especialmente para profissionais como Claudio, que buscam otimizar a saúde e bem-estar de cães e gatos.
Objetivo: Este artigo tem como objetivo analisar criticamente os efeitos endócrinos adversos da castração em cães e gatos, com foco nas alterações do hormônio luteinizante (LH) e suas potenciais interações com a função adrenal, investigando possíveis relações com a ocorrência de hiperadrenocorticismo atípico e discutindo as implicações clínicas para a prática veterinária.
A fisiologia do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal é intrinsecamente regulada por um sistema de feedback negativo. As gônadas (ovários e testículos) produzem esteroides sexuais que inibem a liberação de GnRH pelo hipotálamo e de LH e FSH pela hipófise anterior. Com a castração, a fonte primária de estrógenos e testosterona é eliminada, removendo essa inibição. Consequentemente, a hipófise aumenta compensatoriamente a secreção de LH e FSH, que permanecem elevados cronicamente (Kutzler, 2020).
Michelle Kutzler (2020), em sua revisão abrangente, enfatiza que o aumento persistente de LH não é um evento isolado, mas sim um fator com potenciais repercussões sistêmicas. Receptores de LH não estão confinados às gônadas; eles foram identificados em diversos tecidos extragonadais, incluindo a glândula adrenal, rins, cérebro, células imunes e tecidos metabólicos. A ativação desses receptores por níveis cronicamente elevados de LH pode, portanto, modular a função desses órgãos. No contexto adrenal, o LH pode influenciar a esteroidogênese, alterando a produção de glicocorticoides e outros esteroides adrenais, potencialmente predispondo a disfunções endócrinas, especialmente em indivíduos com predisposição genética ou metabólica. Essa modulação pode culminar em uma produção alterada de precursores do cortisol ou de outros hormônios esteroides adrenais, sem necessariamente causar o hiperadrenocorticismo clássico mediado por ACTH.
O eixo HHA é o principal sistema de resposta ao estresse e regulador do metabolismo energético, mediado pela liberação de CRH, ACTH e cortisol. A ausência de hormônios gonadais pós-castração pode desequilibrar a interação entre o eixo reprodutivo e o HHA. Embora a castração não seja um fator etiológico direto do hiperadrenocorticismo clássico, há evidências de que as mudanças hormonais pós-castração podem alterar a sensibilidade e a resposta da glândula adrenal ao ACTH. Kutzler (2020) sugere que o LH elevado pode ter um efeito trófico direto ou indireto sobre o córtex adrenal, estimulando a síntese de esteroides adrenais.
Essa interação pode ser particularmente relevante em síndromes adrenais atípicas, onde os cães apresentam sinais clínicos de hiperadrenocorticismo, mas com concentrações normais de cortisol pré e pós-estimulação por ACTH. Nesses casos, outros esteroides adrenais, como progesterona, 17-hidroxiprogesterona, androstenediona ou DHEA, podem estar elevados. A hipótese é que o LH, agindo sobre os receptores adrenais, possa estimular seletivamente a via de produção desses precursores esteroides, contribuindo para os sinais clínicos observados (Behrend et al., 2013; Kutzler, 2020).
Os estudos que investigam a relação direta entre LH elevado pós-castração e disfunções adrenais em gatos são menos numerosos e robustos do que em cães. No entanto, a castração em felinos está consistentemente associada a alterações metabólicas significativas, que podem ter interações complexas com a regulação hormonal adrenal:
A castração é uma ferramenta indispensável na medicina veterinária, trazendo consigo inúmeros benefícios. No entanto, a literatura científica, incluindo as análises críticas de Kutzler (2020), reforça que esta prática não é isenta de profundos efeitos colaterais hormonais. A retirada das gônadas elimina não apenas a capacidade reprodutiva, mas também redefine permanentemente o perfil endócrino do animal, sendo a elevação crônica do LH uma das consequências mais significativas.
O ponto crucial da discussão reside na ubiquidade dos receptores de LH em tecidos extra-reprodutivos, como o córtex adrenal. Essa distribuição sustenta a hipótese de que o LH elevado cronicamente pós-castração pode influenciar indiretamente a esteroidogênese adrenal, alterando a produção de glicocorticoides e outros esteroides. Essa modulação pode culminar em uma "disfunção adrenal atípica", onde os animais exibem sinais clínicos consistentes com hiperadrenocorticismo, mas com testes diagnósticos de cortisol frequentemente inconclusivos ou normais, enquanto outros precursores esteroides estão elevados.
Em cães, a ligação entre a castração e a obesidade, por exemplo, é bem estabelecida, e a obesidade, por sua vez, é um fator de risco para o hiperadrenocorticismo. Em gatos, as alterações metabólicas pós-castração, como ganho de peso e resistência à insulina, são igualmente prevalentes e podem criar um ambiente que favorece disfunções endócrinas, incluindo potenciais alterações na função adrenal, mesmo que a correlação direta com o LH elevado ainda precise de mais investigação específica em felinos.
É imperativo reconhecer que, embora uma relação causal direta entre castração e hiperadrenocorticismo clássico (doença de Cushing) não esteja firmemente estabelecida, a base mecanística para a preocupação clínica com a função adrenal pós-castração é sólida. A discussão se move para a compreensão de que a castração pode ser um fator contribuinte para a manifestação de síndromes adrenais atípicas, exigindo um olhar mais atento e aprofundado na monitorização desses pacientes.
Diante das evidências e da complexidade das alterações endócrinas pós-castração, as seguintes implicações e recomendações clínicas são propostas para profissionais como Claudio, visando uma abordagem mais informada:
A castração é uma prática veterinária de grande valor, mas é essencial que os profissionais compreendam suas ramificações endócrinas. As evidências apresentadas, particularmente a luz da revisão de Kutzler (2020), demonstram que a castração altera significativamente o perfil hormonal de cães e gatos, resultando em um aumento persistente do LH. Esta elevação tem potenciais efeitos em tecidos extragonadais, incluindo a glândula adrenal, podendo predispor a disfunções semelhantes ao hiperadrenocorticismo atípico em indivíduos suscetíveis.
A compreensão desses efeitos não busca desqualificar a castração, mas sim promover uma abordagem mais holística e informada, permitindo a identificação precoce e o manejo adequado de possíveis complicações. Para profissionais como Dr. Claudio, que atuam na vanguarda da saúde animal, o conhecimento detalhado desses mecanismos é crucial para tomar decisões clínicas mais assertivas e para garantir o bem-estar e a qualidade de vida de seus pacientes a longo prazo.
Você sabia que o DNA mitocondrial é herdado exclusivamente pela linha materna? 🧬 Isso significa que ele passa de mãe para filhos, mas apenas as filhas o repassam às próximas gerações!
Isso ocorre porque as mitocôndrias, que produzem energia celular, vêm do óvulo, enquanto o espermatozoide contribui apenas com o DNA nuclear.
Na criação de cães e gatos, a escolha das fêmeas é fundamental!
Além do DNA nuclear, elas transmitem o DNA mitocondrial, que influencia metabolismo, resistência e até longevidade. Criadores responsáveis sabem que uma boa matriz define a qualidade genética e comportamental da ninhada.
Por isso, valorizar as fêmeas é essencial para linhagens saudáveis e equilibradas!"** 🐶🐱
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