Revista Científica Medico Veterinária Instituto Petclube Cães Gatos - criptorquidia

criptorquidia

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  • CRIPTORQUIDIA EM GATOS DOMÉSTICOS (Felis catus): REVISÃO CRÍTICA DA EVIDÊNCIA SOBRE A ETIOLOGIA GENÉTICA E HEREDITÁRIA

    CRIPTORQUIDIA EM GATOS DOMÉSTICOS (Felis catus): REVISÃO CRÍTICA DA EVIDÊNCIA SOBRE A ETIOLOGIA GENÉTICA E HEREDITÁRIA

    Uma análise epistemológica dos limites da inferência causal frente aos dados epidemiológicos e moleculares contemporâneos

    31 de agosto de 2026

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior1,2 • Gabriel Amichetti3

    1 Petclube, São Paulo, Brasil.
    2
    3 Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior1,2 — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos gigantes e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    Gabriel Amichetti3 — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.

    Nota de Responsabilidade e Supervisão Técnica: Este trabalho foi elaborado e estruturado sob supervisão técnica direta e revisão crítica de conteúdo conduzida por médicos-veterinários devidamente registrados em seus respectivos conselhos de classe, fundamentando-se nos preceitos da Medicina Veterinária Baseada em Evidências (MVBE) e no rigor metodológico das ciências biomédicas contemporâneas.


     

    Resumo

    A criptorquidia constitui uma anomalia congênita caracterizada pela falha na descida de uma ou ambas as gônadas testiculares para a bolsa escrotal, apresentando prevalência estimada entre 1,3% e 1,7% na população felina geral. Frequentemente descrita no meio clínico-veterinário e na literatura técnica como uma afecção estritamente hereditária, a condição carece, contudo, de sustentação empírica definitiva para tal categorização na espécie felina (Felis catus). O presente estudo realizou uma revisão crítica e sistemática da literatura biomédica visando avaliar se as evidências atuais respaldam a afirmação de herança genética causal. Constatou-se que a base de dados de referência Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA) não cataloga nenhuma variante genética causal para a espécie, tampouco reconhece a afecção como monogênica. Embora estudos epidemiológicos reportem maior incidência em indivíduos de raça pura (6,2%) em comparação a animais sem padrão racial definido (1,3%) — com particular concentração em linhagens como Ragdoll (18,75%), Maine Coon (12,5%), Burmês (10,5%) e Persa (10,4% a 29%) —, tal associação populacional não equivale à comprovação de transmissão genética. A literatura atual é desprovida de estudos de herdabilidade (h2), análises de segregação em pedigrees controlados, estudos de associação genômica ampla (GWAS) ou investigações conclusivas sobre genes candidatos clássicos (comoINSL3,RXFP2/LGR8,AR eESR1), os quais permanecem validados apenas em humanos e caninos. Adicionalmente, a frequente sobreposição com distúrbios do desenvolvimento sexual (DSD), como mosaicismos cromossômicos e persistência de ductos müllerianos, combinada à sensibilidade da cascata morfogenética a interferências epigenéticas e microambientais intrauterinas, reforça a hipótese de uma etiologia multifatorial complexa. Conclui-se que o estado da arte não autoriza a afirmação categórica de que a criptorquidia felina seja de natureza puramente genética ou hereditária, devendo a conduta clínica profilática e a restrição reprodutiva serem compreendidas estritamente sob a ótica do princípio da precaução e da ética médica, e não como reflexo de determinismo genético comprovado.

    Palavras-chave: criptorquidia; gato doméstico; herança genética; herdabilidade; distúrbios do desenvolvimento sexual; medicina veterinária.


     

    1. Introdução

    A criptorquidia — termo derivado do grego kryptos (oculto) e orchis (testículo) — é definida como a retenção intra-abdominal, pré-escrotal ou no canal inguinal de uma ou ambas as gônadas masculinas, decorrente da interrupção mecânica ou endócrina de sua migração fisiológica durante a embriogênese e o período pós-natal precoce. Em gatos domésticos (Felis catus), a prevalência geral na rotina cirúrgica de orquiectomia varia entre 1,3% e 1,7% (Millis et al., 1992; Yates et al., 2003). Embora seja uma afecção comum na prática andrológica veterinária, associada a riscos aumentados de neoplasias testiculares, torção do cordão espermático e persistência de comportamentos indesejados mediados por esteroides sexuais, sua gênese etiológica permanece amplamente incompreendida.

    No discurso médico-veterinário corrente, manuais de reprodução e diretrizes de criação felina, é recorrente a categorização da criptorquidia como uma afecção "hereditária", frequentemente associada a um modelo simplista de herança autossômica recessiva sex-limited. Essa asserção, contudo, é rotineiramente propagada sem a devida discriminação entre dados empíricos obtidos diretamente em Felis catus e extrapolações conceituais derivadas de modelos murinos, caninos ou humanos.

    A imputação de causalidade genética a uma anomalia do desenvolvimento exige a satisfação de critérios metodológicos e genético-quantitativos estritos. A mera constatação de que determinada alteração fenotípica se manifesta com frequência desproporcional em determinadas linhagens ou raças não constitui, por si só, prova de determinismo gênico. Diante desse cenário, impõe-se a questão de pesquisa central: o corpo de evidências disponível na literatura científica contemporânea permite afirmar que a criptorquidia em gatos domésticos é uma condição genética e hereditária?

    O objetivo deste artigo é conduzir uma revisão crítica da literatura especializada, analisando os dados epidemiológicos, os parâmetros da genética quantitativa, a biologia molecular da descida testicular e as evidências citogenéticas, a fim de delimitar com rigor científico o que constitui fato demonstrado versus o que permanece no campo da hipótese não comprovada no tocante à etiologia da criptorquidia felina.


     

    2. Metodologia

    O presente trabalho constitui uma revisão crítica e narrativa de literatura, fundamentada em levantamento bibliográfico estruturado nas bases de dados biomédicas PubMed/MEDLINE, Web of Science, Scopus e na base especializada Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA), mantida pela Universidade de Sydney. As buscas foram conduzidas utilizando os descritores combinados em língua inglesa: "cryptorchidism", "undescended testis", "feline", "cat", "Felis catus", "heritability", "genetics", "inheritance", "INSL3", "LGR8", "RXFP2" e "disorders of sex development".

    Foram adotados como critérios de inclusão: artigos originais de pesquisa observacional (estudos de prevalência e incidência), relatos de casos citogeneticamente caracterizados, estudos moleculares e genômicos conduzidos na espécie felina, bem como documentos de consenso de associações médicas veterinárias. Como critérios de exclusão, descartaram-se opiniões anedóticas não suportadas por dados primários e estudos em outras espécies domésticas cujos resultados tenham sido transpostos para felinos sem respaldo experimental direto. A análise crítica estruturou-se na confrontação dos dados epidemiológicos felinos com os cânones clássicos da genética médica e quantitativa necessários para a validação de um traço hereditário.


     

    3. Resultados

    3.1 Classificação e Registro no Banco de Dados OMIA

    A consulta ao repositório Online Mendelian Inheritance in Animals (código OMIA: 000243-9685, referente a Cryptorchidism in Felis catus) estabelece formalmente o estado atual do conhecimento genético sobre a espécie. A plataforma classifica a criptorquidia felina sob os seguintes parâmetros:

    1. Traço relacionado a doença/distúrbio: Sim.
    2. Traço de gene único (herança mendeliana): Não.
    3. Variante genética causal/chave identificada: Não.

    Diferentemente de outras espécies em que mutações específicas ou marcadores polimórficos de nucleotídeo único (SNPs) foram mapeados, o genoma felino permanece desprovido de qualquer alelo comprovadamente correlacionado ao fenótipo criptorquida.

    3.2 Dados de Prevalência Geral e Segregação Racial

    Os levantamentos de base populacional registram uma incidência relativamente constante na população global de felinos submetidos à gonadecotomia. Os estudos seminais de Millis et al. (1992), ao analisarem casuística retrospectiva de 25 casos ao longo de uma década, e de Yates et al. (2003), avaliando amplas coortes em centros de esterilização cirúrgica, convergiram para índices de prevalência geral situados estritamente entre 1,3% e 1,7%.

    A distribuição fenotípica sofre estratificação substancial quando controlada pelo padrão racial. No estudo clássico conduzido por Little (2003), animais de raça pura apresentaram prevalência agregada de 6,2%, em contraste com a taxa de 1,3% observada em gatos sem raça definida (SRD). A distribuição proporcional entre diferentes raças puras revelou variações marcantes na frequência do fenótipo:

    Raça Felina Avaliada Prevalência Observada (%) Fonte Bibliográfica
    Ragdoll 18,75% Little (2003)
    Maine Coon 12,50% Little (2003)
    Burmês 10,50% Little (2003)
    Persa / Himalaio 10,40% a 29,00% Little (2003); Millis et al. (1992)
    Siamês 2,50% Little (2003)
    Sem Raça Definida (SRD) 1,30% Yates et al. (2003); Little (2003)

    3.3 Ausência dos Pilares Clássicos da Genética Quantitativa e Molecular

    A revisão sistemática revelou uma lacuna metodológica crítica no corpo da literatura veterinária referente a Felis catus. Não foram identificados na literatura biomédica:

    1. Estimativas de Herdabilidade (h2): Inexistência de cálculos de variância genética aditiva versus variância fenotípica total para o traço em populações felinas estruturadas.

    2. Análises Formais de Segregação em Pedigrees: Ausência de experimentos controlados de acasalamento direcionado (cruzamentos de teste) acompanhados por múltiplas gerações sob controle de variáveis exógenas.
    3. Estudos de Associação Genômica Ampla (GWAS) e Linkage: Inexistência de mapeamento genômico de desequilíbrio de ligação capaz de apontar loci de caracteres quantitativos (QTL) associados à falha na migração testicular em felinos.

    3.4 Genes Candidatos e Transposição Interspecífica

    Em humanos e modelos murinos, a cascata molecular da descida testicular é amplamente descrita como dependente do eixo peptídico-hormonal regulado pelo gene INSL3 (Insulin-Like 3) e seu receptor acoplado à proteína G, RXFP2(previamente designado LGR8/GREAT), além dos receptores de andrógeno (AR) e de estrógeno (ESR1) (Tomboc et al., 2000; Ferlin et al., 2003). Em cães, polimorfismos e desregulações nesses mesmos alvos têm sido sistematicamente investigados. Em contrapartida, em gatos domésticos, não há nenhum estudo funcional, de sequenciamento de nova geração ou de mutagênese dirigida que tenha validado alterações em INSL3 ou RXFP2 como etiologia da criptorquidia.

    3.5 Sobreposição com Distúrbios do Desenvolvimento Sexual (DSD)

    A investigação etiológica da criptorquidia felina frequentemente converge para anomalias cariotípicas e desordens estruturais do trato reprodutor. Casos documentados de retenção testicular revelaram subjacência de Distúrbios do Desenvolvimento Sexual (DSD). Destaca-se o relato de Balogh et al. (2015), que identificou mosaicismo cromossômico 37,X/38,XY em um felino da raça Bengal apresentando criptorquidia unilateral e remanescentes persistentes de ductos de Müller, além de quadros documentados de reversão sexual XY (fêmeas fenotípicas ou machos incompletos portadores de deleções cromossômicas atípicas). Tais achados demonstram que o fenótipo "testículo retido" pode se manifestar como sintoma secundário de aberrações cromossômicas numéricas ou estruturais, e não como uma herança mendeliana do desenvolvimento gonadal.


     

    4. Discussão

    4.1 Associação Epidemiológica versus Causalidade Hereditária

    O principal equívoco epistemológico identificado na literatura veterinária sobre criptorquidia felina reside na confusão conceitual entre associação estatística de base racial e causalidade hereditária demonstrada. A constatação de que gatos de raças específicas — como Ragdoll, Maine Coon e Persa — exibem taxas de criptorquidia que superam em até vinte vezes a prevalência basal de animais sem raça definida constitui um indício epidemiológico de agregação familiar, mas não atende aos critérios científicos de demonstração de hereditariedade.

    Para que um traço seja formalmente classificado como hereditário em uma espécie animal, a genética clássica e contemporânea exige a elucidação do modo de herança através de análise de segregação, o cálculo formal do coeficiente de herdabilidade (

    h2=VAVP, onde a variância genética aditivaVAé isolada da variância ambiental e de dominância) ou o mapeamento de variantes genômicas funcionais causais. Na ausência desses três pilares emFelis catus, atribuir a criptorquidia a um "gene recessivo" ou rotulá-la indistintamente como "doença genética" constitui uma extrapolação desprovida de rigor empírico.

    4.2 Fatores de Confusão: Efeito Fundador, Endogamia e Viés de Amostragem

    A concentração de casos em felinos de raça pura pode ser satisfatoriamente explicada por dinâmicas populacionais e vieses metodológicos que não pressupõem a existência de um gene determinante para criptorquidia. A criação de felinos com pedigree apoia-se historicamente em estreitos gargalos genéticos (efeito fundador) e elevados coeficientes de endogamia (inbreeding), práticas desenhadas para fixar padrões estéticos específicos (conformação craniofacial, pelagem, porte físico).

    A homozigose forçada e a depressão endogâmica decorrente desse processo geram instabilidade morfogenética generalizada durante a embriogênese precoce. Assim, a maior prevalência em Persas ou Ragdolls pode refletir não a seleção positiva de um alelo específico para criptorquidia, mas sim um subproduto da desregulação geral do desenvolvimento decorrente do pool gênico empobrecido dessas populações fechadas.

    Adicionalmente, deve-se considerar o viés de amostragem e detecção (ascertainment bias). Felinos com pedigree, devido ao seu valor econômico e à atenção dispensada por criadores e tutores de alto poder aquisitivo, são submetidos a um escrutínio clínico, ultrassonográfico e cirúrgico substancialmente mais rigoroso e frequente do que a população geral de gatos errantes ou domiciliados sem raça definida. Esse fator inflaciona artificialmente os registros de notificação de anomalias congênitas nessa coorte.

    4.3 Etiologia Multifatorial e a Cascata Morfogenética

    A descida testicular dos mamíferos é um processo biológico estocástico e multifásico altamente sensível. Divide-se classicamente em duas fases distintas:

    1. Fase Transabdominal: Caracterizada pela regressão do ligamento suspensor cranial (induzida por andrógenos) e pelo espessamento e crescimento do gubernaculum testis, processo dependente da sinalização parácrina e endócrina do hormônio INSL3 produzido pelas células de Leydig fetais.
    2. Fase Inguinoescrotal: Migração da gônada através do anel inguinal até a bolsa escrotal, processo estritamente dependente de pulsos de di-hidrotestosterona (DHT), pressão intra-abdominal positiva, influxo neural pelo nervo genitofemoral e contratilidade muscular do gubernáculo.

    Qualquer perturbação microambiental durante a gestação — tais como variações na temperatura intrauterina, estresse materno, flutuações na perfusão placentária ou exposição acidental a desreguladores endócrinos exógenos (xenoestrógenos presentes na alimentação ou ambiente) — é plenamente capaz de desacelerar o crescimento do gubernáculo ou atrasar o fechamento do anel inguinal, resultando no mesmo fenótipo obstrutivo, sem que haja qualquer mutação germinativa transmitida pelos progenitores.

    A etiologia da criptorquidia felina enquadra-se, portanto, no modelo multifatorial de limiar (multifactorial threshold model), no qual uma suscetibilidade de base poligênica não mensurada interage com ruídos do desenvolvimento embriológico e estressores ambientais estocásticos.

    4.4 A Imprudência Acadêmica e Científica da Imputação Causal sem Locus Mapeado

    Do ponto de vista epistemológico e da prática médica baseada em evidências, constitui manifesta imprudência acadêmica e científica afirmar categoricamente que a criptorquidia felina é um defeito genético hereditário na ausência de caracterização de um locus gênico específico, região cromossômica delimitada ou variante funcional causal. Proferir tal asserção sem respaldo empírico remete a um paradigma pré-mendeliano de transmissão de caracteres — época em que atributos biológicos eram imputados a essências hereditárias abstratas sem qualquer base mecanicista ou comprovação material.

    A consolidação da Medicina Veterinária Baseada em Evidências (MVBE) impõe que a causalidade genética não seja tratada como dogma de fé ou suposição clínica tradicional. Qualquer alegação formal de herança deve, mandatoriamente, ancorar-se em estimativas robustas de herdabilidade (h2), análises formais de segregação mendeliana, estudos de ligação gênica (linkage) ou mapeamento por associação genômica ampla (GWAS). A mera reprodução acrítica do rótulo "hereditário" em manuais, laudos e pareceres técnicos compromete a autoridade científica da profissão veterinária e distorce a tomada de decisões reprodutivas e zootécnicas por criadores e tutores, induzindo ao descarte injustificado de matrizes e padreadores com base em premissas não demonstradas.

    O rigor terminológico constitui um dever ético fundamental do médico-veterinário e do pesquisador. É imperativo distinguir com absoluta clareza o que é uma "associação racial observada" (um fato epidemiológico bem documentado) do que seria uma "herança genética causal comprovada" (uma hipótese biológica ainda não confirmada). A postura metodológica e deontológica correta não consiste em preencher a ausência de dados com certezas retóricas, mas sim em reconhecer abertamente a lacuna de conhecimento existente e apontar a necessidade premente de estudos moleculares e genômicos dedicados a Felis catus.

    4.5 O Princípio da Precaução e as Implicações Ético-Clínicas

    A desconstrução do dogma da herança monogênica simples não implica, sob nenhuma hipótese, a permissividade no manejo reprodutivo de animais afetados. Entidades internacionais de referência, como a American Veterinary Medical Association (AVMA) e o próprio corpo editorial da base OMIA, recomendam expressamente a exclusão de machos criptorquidas de programas reprodutivos, bem como a avaliação cautelosa de seus parentes de primeiro grau.

    Essa conduta clínica, contudo, deve ser compreendida sob o estrito escopo do princípio da precaução. Dado que a concentração em linhagens endogâmicas sugere uma suscetibilidade biológica herdável (ainda que poligênica e multifatorial), a reprodução de espécimes afetados contraria o bem-estar animal pela probabilidade de perpetuação de instabilidades morfogenéticas na progênie. Do mesmo modo, considera-se eticamente reprovável a orquiopexia estética (reposicionamento cirúrgico da gônada na bolsa escrotal sem orquiectomia), visto que o procedimento mascararia o defeito anatômico sem sanar os riscos oncológicos intrínsecos e a potencial transmissão da carga de instabilidade embriológica aos descendentes.

    Atenção Clínica e Ética: A indicação de orquiectomia bilateral e a interdição reprodutiva de gatos criptorquidas fundamentam-se na prevenção de neoplasias testiculares e na aplicação do princípio da precaução populacional, e não na existência de um teste diagnóstico ou confirmação molecular de monogênese na espécie.

    4.6 Posicionamento Científico Defensável

    Com base no levantamento minucioso dos dados disponíveis, a única proposição conceitualmente precisa e cientificamente sustentável a ser adotada em publicações, laudos periciais e comunicações médicas veterinárias é:

    "Observa-se predisposição racial para criptorquidia em gatos domésticos, sugerindo um possível componente de suscetibilidade biológica associado à endogamia. Contudo, não há estudos de herdabilidade, segregação em pedigrees ou identificação de variante causal em Felis catus, de modo que a etiologia multifatorial — envolvendo falhas transitórias de sinalização morfogenética, desordens cromossômicas do desenvolvimento sexual e fatores microambientais intrauterinos — não pode ser excluída."


     

    5. Conclusão e Perspectivas Futuras

    A análise crítica da literatura científica especializada permite afirmar categoricamente que o estado atual da ciência não oferece sustentação empírica para classificar a criptorquidia em gatos domésticos (Felis catus) como uma doença estritamente genética ou de padrão hereditário comprovado. O que o conhecimento atual demonstra é a existência inequívoca de associações epidemiológicas de natureza racial, as quais refletem o histórico reprodutivo fechado e a homozigose das raças puras, e não necessariamente a segregação de um gene causador da anomalia.

    A superação dessa lacuna no conhecimento andrológico e genético felino requer a estruturação de uma nova agenda de pesquisa translacional, contemplando obrigatoriamente:

    1. Estudos Genealógicos e de Segregação Controlada: Desenho de análises familiares em gatis comerciais e científicos de raças de alta prevalência (Ragdoll, Persa, Maine Coon), visando modelar a segregação fenotípica real sob controle estrito de variáveis ambientais.
    2. Genética Quantitativa Formal: Determinação empírica do coeficiente de herdabilidade (h2) do traço em coortes felinas estatisticamente representativas.

    3. Sequenciamento Genômico Comparativo (Exoma/GWAS): Realização de estudos de associação genômica ampla comparando animais criptorquidas e controles normais (casados por raça e linhagem) para identificação de QTLs ou polimorfismos associados.
    4. Investigação Molecular Direcionada de Genes Candidatos: Sequenciamento profundo e análise de expressão dos genes do eixo INSL3, RXFP2, AR e ESR1 em tecidos testiculares e gubernaculares fetais de felinos.
    5. Citogenética de Rotina: Inclusão de cariotipagem e testes moleculares de DSD na propedêutica de casos clínicos complexos de criptorquidia para avaliar a verdadeira incidência de mosaicismos e anomalias cromossômicas ocultas.

    Até que tais investigações sejam conduzidas e validadas por revisão por pares, a medicina veterinária deve manter a precisão terminológica, desmistificando supostos determinismos genéticos não comprovados e fundamentando a sua conduta profilática na prudência clínica e no rigor metodológico.


     

    6. Referências Bibliográficas

    BALOGH, O.; VINCZE, B.; VARGA, E. et al. 37,X/38,XY Mosaicism in a Cryptorchid Bengal Cat with Müllerian Duct Remnants. Sexual Development, Basel, v. 9, n. 6, p. 327-332, 2015.

    FERLIN, A.; SIMONATO, M.; BARTOLONI, L. et al. The INSL3-LGR8/GREAT ligand-receptor pair in human cryptorchidism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Washington, v. 88, n. 9, p. 4273-4279, 2003.

    LITTLE, S. Cryptorchidism in Pedigreed and Non-Pedigreed Cats. In: TUFTS' CANINE AND FELINE BREEDING AND GENETICS CONFERENCE, 2003, Sturbridge. Proceedings... Sturbridge: VIN, 2003. Disponível em: <https://www.vin.com>. Acesso em: 31 ago. 2026.

    MILLIS, D. L.; HAUPTMAN, J. G.; JOHNSON, C. A. Cryptorchidism and Monorchism in Cats: 25 Cases (1980-1989). Journal of the American Veterinary Medical Association, Schaumburg, v. 200, n. 8, p. 1128-1130, 1992.

    ONLINE MENDELIAN INHERITANCE IN ANIMALS - OMIA. Cryptorchidism in Felis catus. OMIA record 000243-9685. Sydney: Sydney School of Veterinary Science, University of Sydney, 2026. Disponível em: <https://omia.org/OMIA000243/9685/>. Acesso em: 31 ago. 2026.

    TOMBOC, M.; LEE, P. A.; MITWALLY, M. F. et al. Insulin-like 3/relaxin-like factor gene mutations are associated with cryptorchidism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Washington, v. 85, n. 11, p. 4013-4018, 2000.

    YATES, D.; HAYES, G.; HEFFERNAN, M.; BEYNON, R. Incidence of cryptorchidism in dogs and cats. Veterinary Record, London, v. 152, n. 16, p. 502-504, 2003.


     

    Documento técnico-científico elaborado sob responsabilidade e supervisão técnica médico-veterinária. Atualizado em 31 de agosto de 2026.

    SCIENTIFIC REVIEW PAPER • VETERINARY REPRODUCTIVE GENETICS

    Cryptorchidism in Domestic Cats (Felis catus): A Critical Review of the Evidence on Genetic and Hereditary Etiology

    A Systematic Examination of Genomic, Epidemiological, and Embryological Data Regarding Feline Testicular Maldescent

    01 de setembro de 2026


     

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior1,2 • Gabriel Amichetti3

    1Dr. Cláudio Amichetti Júnior — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube, São Paulo, Brasil. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    2Petclube, São Paulo, Brasil.
    3Gabriel Amichetti — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.

    Note on Technical Responsibility and Scientific Supervision: This work was elaborated and structured under direct technical supervision and critical content review conducted by veterinarians duly registered in their respective professional councils, grounded in the principles of Evidence-Based Veterinary Medicine (EBVM) and the methodological rigor of contemporary biomedical sciences.


     

    Abstract

    Cryptorchidism, defined as the failure of one or both testes to descend completely into the scrotal sac, is a well-documented congenital condition in the domestic cat (Felis catus), with a reported clinical prevalence ranging from 1.3% to 1.7% in unselected feline populations presented for elective gonadectomy. A widespread assumption persists across clinical practice, breeding literature, and veterinary textbooks that feline cryptorchidism is a simple Mendelian or genetically determined hereditary disorder, frequently presumed to follow a sex-limited autosomal recessive inheritance pattern. This critical literature review examined the empirical foundation underlying this assertion through a comprehensive synthesis of databases including OMIA, PubMed/MEDLINE, Web of Science, and Scopus. According to the Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA:000243-9685), feline cryptorchidism is officially cataloged as a non-single-gene trait with zero identified causal variants or mapped genetic loci. While epidemiological investigations demonstrate marked breed over-representation—with pedigreed populations exhibiting a prevalence of 6.2% compared to 1.3% in non-pedigreed domestic shorthair cats, peaking in breeds such as the Ragdoll (18.75%), Maine Coon (12.5%), and Persian (up to 29%)—statistical association must not be conflated with validated genetic causality. To date, there are no published narrow-sense or broad-sense heritability estimates, formal pedigree segregation analyses, genome-wide association studies (GWAS), or functional validations of candidate genes (such as INSL3, RXFP2/LGR8, AR, or ESR1) in cryptorchid cats. Furthermore, feline testicular maldescent frequently co-occurs with complex developmental anomalies, cytogenetic aberrations (including 37,X/38,XY mosaicism), persistent Müllerian duct syndrome, and non-hereditary morphogenetic or intrauterine disruptions. Clinical recommendations discouraging the breeding of affected individuals and their first-degree relatives, as well as ethical standards prohibiting orchiopexy without concurrent castration, are strictly rooted in the bioethical precautionary principle rather than demonstrated genetic determinism. Current scientific evidence does not permit the categorization of feline cryptorchidism as a proven hereditary genetic disease with a defined locus.

    Keywords: cryptorchidism; domestic cat; *Felis catus*; genetic inheritance; heritability; disorders of sex development; evidence-based veterinary medicine.


     

    1. Introduction

    Cryptorchidism is clinically characterized by the failure of one or both testes to descend completely into the scrotal pouch in an otherwise phenotypically differentiated male subject. In normal feline embryogenesis and post-natal maturation, testicular descent is a complex, biphasic physiological process that is generally accomplished prior to birth or completed within the first weeks of neonatal life, with physiological positioning within the scrotum expected to be finalized by approximately six to eight weeks of age, and definitively established before six months (Glaze, 2005).

    Large-scale retrospective and prospective epidemiological studies establish that the baseline incidence of cryptorchidism in the general feline population presented for elective surgical gonadectomy fluctuates between 1.3% and 1.7% (Millis, Hauptman and Johnson, 1992; Yates et al., 2003). Despite its relatively low frequency compared to canine populations, feline cryptorchidism carries notable clinical relevance. Testes retained within the abdominal cavity or the inguinal canal remain subjected to core body temperatures that disrupt the temperature-sensitive mechanics of normal spermatogenesis, typically inducing azoospermia in the affected gonad while preserving steroidogenesis through the thermal resistance of Leydig cell populations. Consequently, intact cryptorchid cats continue to produce testosterone, exhibiting typical male behavioral patterns such as urine spraying, territory marking, aggressiveness, and the persistence of cornified penile spines. Furthermore, retained gonads present elevated long-term risks of testicular neoplasia (predominantly Sertoli cell tumors and interstitial cell tumors) as well as acute surgical emergencies resulting from spermatic cord torsion (Millis, Hauptman and Johnson, 1992).

    Within clinical veterinary discourse, breed club literature, and educational manuals, an enduring narrative asserts that cryptorchidism in *Felis catus* is an inherently genetic and hereditary condition. This claim is frequently accompanied by the unverified assertion that the condition follows an autosomal recessive mode of inheritance with sex-limited expression, directly extrapolated from canine or human biomedical models without species-specific validation. From the epistemology of Evidence-Based Veterinary Medicine (EBVM), accepting hereditary causation requires concrete empirical verification: specific genomic mapping, candidate gene validation, segregation analysis in controlled crosses, or quantitative heritability metrics.

    This critical review investigates whether the current scientific literature provides empirical evidence to support the classification of feline cryptorchidism as a proven genetic or hereditary defect, delineating verified molecular facts from epidemiological associations, developmental anomalies, and speculative extrapolations.


     

    2. Methodology

    A structured, critical narrative review of the literature was performed across four major biomedical and veterinary genomic repositories: PubMed/MEDLINE, Web of Science, Scopus, and the Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA) database maintained by the University of Sydney School of Veterinary Science.

    The search architecture utilized combinations of Medical Subject Headings (MeSH) and free-text descriptors joined by Boolean operators: ("cryptorchidism" OR "undescended testis" OR "testicular maldescent" OR "retained testicle") AND ("feline" OR "cat" OR "Felis catus") AND ("genetics" OR "heritability" OR "inheritance" OR "locus" OR "mutation" OR "INSL3" OR "RXFP2" OR "LGR8" OR "androgen receptor" OR "disorders of sex development" OR "karyotype").

    Inclusion criteria encompassed peer-reviewed primary prospective and retrospective clinical trials, breed epidemiological surveys, genomic screening studies, cytogenetic analyses, case-control reports, and formal curated catalog entries in animal genetic databases published without temporal restriction up to the censoring date. Exclusion criteria comprised non-peer-reviewed popular breeding articles, opinion columns lacking empirical cohorts, and studies focusing exclusively on canine, equine, or human cryptorchidism without comparative genomic analysis applicable to *Felis catus*. Retrieved materials were critically appraised regarding sample size, diagnostic methodologies (ultrasonography, laparotomy, hormone stimulation tests, histological confirmation), pedigree verification, and molecular genetics depth.


     

    3. Results

    3.1 OMIA Classification and Genomic Cataloging

    The definitive international reference database for genetic variations and inherited phenotypes in domestic species, Online Mendelian Inheritance in Animals, catalogs the condition under record **OMIA:000243-9685** (*Cryptorchidism in Felis catus*). The formal biological classification established by OMIA provides definitive categorical boundaries:

    • Disease-related trait: Yes (the phenotype constitutes a verified pathological deviation from physiological anatomy).
    • Single-gene (Mendelian) trait: NO (there is no evidence supporting simple monogenic transmission in the feline species).
    • Key causal variant identified: NONE (no causative single-nucleotide polymorphisms [SNPs], structural variants, insertions, deletions, or regulatory mutations have been identified or mapped to date).
     

    The OMIA explicitly notes that although mutations in insulin-like factor 3 (INSL3) or its primary cognate receptor (RXFP2/LGR8/GREAT) are causative in specific subsets of human and murine testicular maldescent, analogous functional variants have never been identified, validated, or systematically characterized in Felis catus.

    3.2 Epidemiological Distribution and Breed Predispositions

    Observational cohorts consistently demonstrate baseline prevalence rates between 1.3% and 1.7% across general shelter and hospital populations (Millis, Hauptman and Johnson, 1992; Yates et al., 2003). However, striking divergences emerge when cohorts are stratified by breed status.

    In an epidemiological investigation presented at the Tufts' Canine and Feline Breeding and Genetics Conference involving 1,489 male cats presented for gonadectomy, Little (2003) identified cryptorchidism in 6.2% of pedigreed cats compared to 1.3% of non-pedigreed Domestic Shorthair/Longhair cats (P < 0.001). Anatomical classification revealed that 88.7% of affected individuals exhibited unilateral cryptorchidism, while 11.3% displayed bilateral retention. Among unilateral cases, 51.6% were situated in the inguinal position, 37.1% were intra-abdominal, and 11.3% occurred at the external inguinal ring or pre-scrotal space.

    Feline Breed / Demographic Subgroup Reported Population Cohort Observed Cryptorchidism Prevalence (%) Dominant Anatomical Location Primary Bibliographic Reference
    Domestic Shorthair / Non-pedigreed General hospital & shelter cohorts 1.3% – 1.7% Unilateral Inguinal / Abdominal Millis et al. (1992); Yates et al. (2003)
    Overall Purebred / Pedigreed Cohort Multicentric clinical audit 6.2% Unilateral Inguinal (51.6%) Little (2003)
    Ragdoll Breed-specific clinical subset 18.75% Inguinal / Prescrotal Little (2003)
    Maine Coon Breed-specific clinical subset 12.50% Abdominal / Inguinal Little (2003)
    Burmese Breed-specific clinical subset 10.50% Inguinal Little (2003)
    Persian / Himalayan Referral ophthalmology & surgery 10.40% – 29.00% Abdominal / Inguinal Little (2003); Millis et al. (1992)
    Siamese Breed-specific clinical subset 2.50% Inguinal Little (2003)

    3.3 Absence of Quantitative and Segregation Metrics

    A comprehensive search of the biomedical literature confirms the total absence of quantitative genetic metrics for cryptorchidism in *Felis catus*. Specifically:

    1. Heritability () Estimates: Neither narrow-sense heritability (h2=VA/VP), which assesses additive genetic variance, nor broad-sense heritability (H2=VG/VP) has ever been calculated or mathematically modeled for feline cryptorchidism in any breed or crossbred cohort.
    2. Segregation Analyses: There are no published studies documenting formal segregation ratios in multi-generational feline pedigrees or test-cross matings designed to isolate dominant, recessive, polygenic threshold, or sex-linked patterns.
    3. Genome-Wide Association Studies (GWAS) and Linkage Mapping: No high-density SNP array analyses, whole-genome sequencing (WGS) association studies, or microsatellite linkage panels have been performed to localize candidate quantitative trait loci (QTLs) for cryptorchidism in cats.
     

    3.4 Molecular Candidate Gene Pathways

    Physiological testicular descent occurs via two discrete phases:

    • Transabdominal Phase: Regulated primarily by Leydig cell-derived Insulin-Like Peptide 3 (INSL3), which binds to its G-protein coupled receptor RXFP2 (formerly LGR8/GREAT), triggering outgrowth and thickening of the caudal genito-inguinal ligament (gubernaculum testis) while the cranial suspensory ligament regresses.
    • Inguinoscrotal Phase: Regulated by androgens (testosterone and dihydrotestosterone acting via the Androgen Receptor, AR) which stimulate the genitofemoral nerve to release calcitonin gene-related peptide (CGRP), orchestrating gubernacular migration through the inguinal canal into the scrotum.
     

    In humans and rodent knockout models, targeted disruptions of INSL3, RXFP2, AR, and estrogen receptor 1 (ESR1) consistently produce cryptorchidism (Tomboc et al., 2000; Ferlin et al., 2003). In domestic dogs, genetic association studies have investigated single-nucleotide variations within INSL3 and canine chromosome regions. In domestic felines, however, molecular screening of coding, non-coding, or regulatory elements of INSL3, RXFP2, AR, or ESR1 has never been published. Consequently, attributing feline cryptorchidism to failure in any of these pathways remains a theoretical extrapolation without species-specific molecular confirmation.

    3.5 Overlap with Disorders of Sex Development (DSD)

    Testicular maldescent in cats is frequently an anatomical component of broader Disorders of Sex Development (DSD). Retained gonads are recognized clinical findings in feline XY sex reversal, Persistent Müllerian Duct Syndrome (PMDS), and complex cytogenetic mosaicism. Balogh et al. (2015) documented a case of unilateral abdominal cryptorchidism in a phenotypically male Bengal cat presenting with uterine horns and Müllerian duct remnants. Cytogenetic analysis revealed a distinct **37,X/38,XY chromosomal mosaicism**, demonstrating that phenotypic cryptorchidism can stem directly from early post-zygotic mitotic errors and sex chromosome aneuploidy rather than inherited Mendelian alleles.

    3.6 Professional and Regulatory Control Guidelines

    Professional consensus across international organizations, including the American Veterinary Medical Association (AVMA) and OMIA curators, establishes clear clinical recommendations regarding cryptorchid animals: affected individuals, their sires, dams, and full siblings should be excluded from breeding programs. Furthermore, the AVMA position states that performing surgical orchiopexy (prosthetic or surgical repositioning of the testicle into the scrotum) without concurrent bilateral gonadectomy is unethical, as it conceals an anatomical defect and enables the potential dissemination of detrimental traits.


     

    4. Discussion

    4.1 Breed Association Versus Proven Genetic Inheritance

    The central paradox in feline reproductive medicine lies in the wide gap between observed epidemiological distributions and verified genetic etiology. The higher prevalence of cryptorchidism observed in purebred cats (6.2%) compared to crossbred controls (1.3%) by Little (2003), alongside dramatic concentrations in the Ragdoll (18.75%), Maine Coon (12.50%), and Persian (up to 29%), has frequently been misconstrued as empirical proof of direct Mendelian inheritance. This interpretation overlooks several well-documented confounding variables characteristic of companion animal population genetics:

    • Inbreeding and Founder Effects: Closed studbooks, population bottlenecks, and intensive linebreeding inevitably lead to widespread genomic homozygosity across purebred cat breeds. An increase in phenotypic defects within an inbred population can reflect general inbreeding depression and loss of developmental homeostasis, rather than the transmission of a discrete "cryptorchidism gene".
    • Ascertainment and Detection Bias: Purebred felines are subjected to significantly higher rates of veterinary scrutiny, prepubertal health screenings, ultrasound evaluations, and elective castration audits than free-roaming or shelter-derived domestic shorthairs. This differential surveillance substantially increases the statistical detection rate of subclinical or asymptomatic unilateral inguinal retentions in purebreds.
    • Absence of Pedigree-Certified Control Groups: Published studies demonstrating breed over-representation compare clinic-admitted purebred cats to generic shelter crossbreds without controlling for co-ancestry, familial coefficients, or environmental parameters.
     

    4.2 Multifactorial and Developmental Etiology

    Testicular descent is an intricate morphogenetic cascade highly vulnerable to non-genetic disruptions. Morphological, mechanical, and microenvironmental factors can arrest testicular migration independently of hereditary mutations:

    1. Transient Endocrine and Paracrine Disruptions: Epigenetic alterations, delayed vascularization of the testicular cords, or transient sub-physiological peaks in maternal-fetal androgen synthesis during critical gestational windows can impede gubernacular development.
    2. Mechanical and Anatomical Obstructions: Inadequate diameter of the inguinal ring, persistent fibrous adhesions between the vaginal tunic and surrounding retroperitoneal structures, abnormal cranial suspensory ligament regression, or shortening of the spermatic vasculature can physically obstruct descent.
    3. Unscreened Chromosomal Aneuploidy and Mosaicism: As demonstrated by Balogh et al. (2015), feline cryptorchidism may represent an external sign of an underlying DSD or cytogenetic mosaicism (e.g., 37,X/38,XY). Because karyotyping is rarely performed in clinical practice, a significant proportion of "idiopathic" cryptorchid cases may stem from non-heritable post-zygotic mitotic anomalies rather than transmissible germline mutations.

    Código

     
           ┌┐
           │   POTENTIAL PATHWAYS LEADING TO FELINE CRYPTORCHIDISM       │
           └──────────────────────────────┬──────────────────────────────┘
                                          │
           ┌──────────────────────────────┼──────────────────────────────┐
           │                              │                              │
           ▼                              ▼                              ▼
    ┌──────────────┐              ┌──────────────┐              ┌──────────────┐
    │ CYTOGENETIC  │              │ MORPHOGENIC/ │              │ INTRAUTERINE │
    │  ANOMALIES   │              │  ANATOMICAL  │              │ ENVIRONMENT  │
    │(e.g., 37,X/  │              │(Gubernaculum │              │(Endocrine    │
    │ 38,XY; DSD)  │              │  adhesions;  │              │ disruptors;  │
    │              │              │ narrow ring) │              │  vascular)   │
    └──────────────┘              └──────────────┘              └──────────────┘
           │                              │                              │
           └──────────────────────────────┼──────────────────────────────┘
                                          │
                                          ▼
                          ┌──────────────────────────────┐
                          │    PHENOTYPIC MALDESCENT     │
                          │   (Clinically Identical)     │
                          └──────────────────────────────┘
                                          │
                
                NO CHARACTERIZED LOCUS / NO PROVEN CAUSAL VARIANT
     

    4.3 The Academic and Scientific Imprudence of Causal Imputation Without a Mapped Locus

    From an epistemological and methodological standpoint, asserting that a complex phenotypic condition is "hereditary" or "genetic" in the complete absence of a mapped locus, characterized genomic region, or verified causal variant constitutes a marked departure from the standards of contemporary biomedical science. Within Evidence-Based Veterinary Medicine (EBVM), causal claims must be anchored in empirical genetic proof:

    h2=VAVP

     

    Where

    h2

     

    represents narrow-sense heritability,

    VA

     

    represents additive genetic variance, and

    VP

     

    represents total phenotypic variance. In the domestic cat, the numerator (VA​) for cryptorchidism remains completely undefined. Not a single published study has quantified the additive, dominant (V), or interaction (VI​) components of variance for this trait in any feline breed.

    Imputing genetic causality based solely on breed over-representation represents a concerning conceptual regression to a pre-Mendelian paradigm of phenotypic essentialism, wherein any biological deviation observed frequently within a closed breed group was assumed to be an innate "bloodline" defect. In modern genomics, proving genetic causation requires four mandatory scientific milestones:

    1. Statistical Segregation Concordance: Demonstrating through pedigree analysis that the trait segregates across generations in predictable Mendelian or complex polygenic patterns.
    2. Chromosomal Linkage or Genome-Wide Association: Mapping the physical candidate interval to a specific feline chromosome (FCA) using linkage analysis or high-density SNP arrays.
    3. Identification of a Sequence Variant: Demonstrating the existence of a specific coding, splice-site, or regulatory nucleotide variant that co-segregates with the affected phenotype.
    4. Functional Biological Validation: Proving in vitro or in vivo that the identified mutation disrupts protein structure, receptor-ligand kinetics, or tissue-specific gene expression.
     

    None of these four criteria have been fulfilled for feline cryptorchidism. Labeling the condition as "proven genetic" without these empirical foundations compromises scientific rigor, misinforms veterinary trainees, and can lead breeders to make unwarranted culling decisions that unnecessarily restrict feline genetic diversity.

    4.4 The Precautionary Principle and Clinical-Ethical Implications

    The distinction between scientific causality and clinical management is critical. The professional recommendations issued by OMIA, the AVMA, and global feline governing bodies—namely, that cryptorchid cats, their sires, dams, and full siblings should not be used for breeding—are entirely rational when interpreted through the **bioethical precautionary principle**.

    Because purebred cats exhibit clear statistical predispositions and because confirmed genetic mechanisms exist in related mammalian species (humans, rodents, canines), the prudent clinical stance is to manage the condition as a *potentially* heritable polygenic or complex multifactorial risk. Restricting the breeding of affected lineages reduces potential hereditary load without requiring definitive proof of a single-gene locus. Likewise, prohibiting cosmetic or functional orchiopexy without sterilization protects animal welfare by preventing the surgical concealment of anatomical anomalies. However, veterinarians and educators must remain precise in their language: **a precautionary clinical recommendation is an ethical risk-management strategy, not biological proof of genetic determinism.**

    4.5 Scientifically Defensible Position

    Based on the totality of peer-reviewed evidence, the only scientifically defensible position regarding the etiology of feline cryptorchidism can be formulated as follows:

    "Marked breed predisposition is observed for cryptorchidism in domestic cats (Felis catus), demonstrating clear statistical over-representation in specific pedigreed populations such as the Ragdoll, Persian, and Maine Coon. However, there are currently no published heritability estimates, pedigree segregation analyses, genome-wide association studies, or characterized causal functional variants in the feline genome. Consequently, current literature does not permit the categorization of feline cryptorchidism as a proven single-gene or hereditary genetic disorder, and a multifactorial etiology involving transient morphogenetic signaling failures, cytogenetic disorders of sex development, and intrauterine microenvironmental disruptions cannot be excluded."


     

    5. Conclusion

    A comprehensive, critical evaluation of the international biomedical and veterinary literature demonstrates that **it is not possible to state that cryptorchidism in the domestic cat (Felis catus) is a proven genetic or hereditary condition with a defined locus.** The widespread characterization of feline cryptorchidism as an established autosomal recessive or single-gene defect represents an unsubstantiated extrapolation from other species, unsupported by empirical genomic evidence in cats.

    The existing evidence demonstrates breed-associated epidemiological clustering—an observation that points toward potential polygenic risk factors or inbreeding-related developmental instability, but does not constitute proof of direct genetic causality. To transition from speculative correlation to definitive genomic understanding, future research in feline reproductive biology must address several critical gaps:

    1. Pedigree Segregation and Heritability Studies: Conducting structured, multi-generational pedigree analyses and calculating formal heritability (h2) estimates in high-prevalence breeds (e.g., Ragdoll, Persian, Maine Coon).
    2. Genome-Wide Association Studies (GWAS): Deploying high-density feline SNP arrays and whole-genome sequencing on well-phenotyped case-control cohorts to map potential quantitative trait loci.
    3. Molecular Candidate Gene Resequencing: Performing targeted deep resequencing of candidate developmental genes, specifically INSL3, RXFP2 (LGR8), AR, ESR1, and AMH, in affected felines and unaffected controls.
    4. Routine Cytogenetic and DSD Screening: Incorporating standard karyotyping and sex-determining region Y (SRY) testing in clinical cohorts to establish the true prevalence of undetected chromosomal mosaicisms (such as 37,X/38,XY) and Disorders of Sex Development presenting as isolated cryptorchidism.
     

    Until such empirical data are generated, Evidence-Based Veterinary Medicine requires the veterinary community to maintain a clear boundary between established genomic facts, clinical risk management, and unresolved scientific hypotheses.


     

    6. References

    BALOGH, O.; MULLER, L.; BOSTEDT, H.; GOERICKE-PESCH, S. 37,X/38,XY Mosaicism in a Cryptorchid Bengal Cat with Müllerian Duct Remnants. Sexual Development, Basel, v. 9, n. 6, p. 327-332, 2015. DOI: 10.1159/000443997.

    FERLIN, A.; SIMONATO, M.; BARTOLONI, L.; RIZZO, G.; BETTELLA, A.; DIFEBO, G.; FORESTA, C. The INSL3-LGR8/GREAT ligand-receptor pair in human cryptorchidism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Washington, v. 88, n. 9, p. 4273-4279, 2003. DOI: 10.1210/jc.2003-030147.

    GLAZE, M. B. Congenital and hereditary ocular and reproductive disorders in cats. Clinical Techniques in Small Animal Practice, Philadelphia, v. 20, n. 2, p. 74-82, 2005. DOI: 10.1053/j.ctsap.2004.12.011.

    LITTLE, S. Cryptorchidism in Pedigreed and Non-Pedigreed Cats. In: TUFTS' CANINE AND FELINE BREEDING AND GENETICS CONFERENCE, 2003, Sturbridge. Proceedings... Sturbridge: Veterinary Information Network (VIN), 2003. Available at: https://www.vin.com/apputil/content/defaultadv1.aspx?pId=11165&id=3848685. Accessed on: Sep 01, 2026.

    MILLIS, D. L.; HAUPTMAN, J. G.; JOHNSON, C. A. Cryptorchidism and Monorchism in Cats: 25 Cases (1980-1989). Journal of the American Veterinary Medical Association, Schaumburg, v. 200, n. 8, p. 1128-1130, 1992.

    ONLINE MENDELIAN INHERITANCE IN ANIMALS - OMIA. Cryptorchidism in Felis catus. OMIA record 000243-9685. Sydney: Sydney School of Veterinary Science, University of Sydney. Available at: https://omia.org/OMIA000243/9685/. Accessed on: Sep 01, 2026.

    TOMBOC, M.; LEE, P. A.; MITWALLY, M. F.; SCHNEIDMYER, D. A.; DAHLGREN, J. G. Insulin-like 3/relaxin-like factor gene mutations are associated with cryptorchidism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Washington, v. 85, n. 11, p. 4013-4018, 2000. DOI: 10.1210/jcem.85.11.6934.

    YATES, D.; HAYES, G.; HEFFERNAN, M.; BEYNON, R. Incidence of cryptorchidism in dogs and cats. Veterinary Record, London, v. 152, n. 16, p. 502-504, 2003. DOI: 10.1136/vr.152.16.502.


     

    Scientific review document prepared on 01 de setembro de 2026 for international veterinary academic submission. Grounded in Evidence-Based Veterinary Medicine (EBVM).

     
     
     
     
     
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