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  • Dieta na Saúde Felina: Uma Revisão Abrangente sobre Carnivoria Estrita, Carboidratos, Doenças Metabólicas e Sistêmicas, e a Transição para a Alimentação Natural

    O Impacto da Dieta na Saúde Felina: Uma Revisão Abrangente sobre Carnivoria Estrita, Carboidratos, Doenças Metabólicas e Sistêmicas, e a Transição para a Alimentação Natural

    Autores:

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; Engenheiro Agrônomo Sustentável- CREA 060149829-SP , Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de expertise prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil]
    ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]

    Resumo

    Gatos domésticos ( Felis catus ) são carnívoros estritos, uma característica que molda profundamente suas necessidades nutricionais e metabolismo. Dietas ricas em carboidratos e óleos vegetais, comuns em rações comerciais, podem apresentar desafios significativos à sua fisiologia adaptada a uma dieta proteica e lipídica de origem animal. Esta revisão aborda a carnivoria estrita felina, a intolerância a carboidratos, o impacto no índice glicêmico e diabetes, o desenvolvimento de lipidose hepática, a influência de óleos vegetais na inflamação, e a modulação do microbioma intestinal, com especial atenção à produção, translocação de endotoxinas (LPS) e sua associação com a inflamação sistêmica. Exploramos também a relação com doenças cardíacas, dermatopatias, a prevalência de obesidade e inflamação sistêmica, doenças renais e hipertensão, culminando nas implicações para a qualidade de vida felina. Através de uma compilação de literatura peer-reviewed e da perspectiva de décadas de prática clínica, busca-se consolidar o conhecimento sobre como a nutrição inadequada pode predispor os felinos a diversas patologias, ressaltando a importância de uma formulação dietética, como a alimentação natural, que respeite sua natureza carnívora e promova a saúde integral.

    Palavras-chave: Gato, carnivoria estrita, carboidratos, diabetes, lipidose hepática, óleos vegetais, microbioma, endotoxinas, doença renal, hipertensão, doença cardíaca, dermatopatias, obesidade, alimentação natural, medicina veterinária integrativa, qualidade de vida.

    1. Introdução

    Os gatos domésticos são classificados taxonomicamente como carnívoros estritos ( obligate carnivores ), uma distinção fundamental que define suas exigências nutricionais e adaptações metabólicas (Zoran, 2002). Ao contrário de outras espécies que conseguem adaptar seu metabolismo para utilizar diversos substratos energéticos, os felinos evoluíram para depender primariamente de proteínas e gorduras de origem animal. Essa especificidade se reflete em características fisiológicas únicas, como a necessidade de altos níveis de taurina, arginina, niacina e vitamina A pré-formada na dieta, e uma capacidade limitada de sintetizar certos nutrientes a partir de precursores vegetais (Zoran, 2002; Plantinga et al., 2011).

    A crescente industrialização da alimentação para animais de companhia, muitas vezes buscando otimização de custos e conveniência, resultou na formulação de dietas com proporções de macronutrientes que podem não ser totalmente compatíveis com a biologia felina. Em particular, a inclusão de altos níveis de carboidratos em dietas comerciais tem levantado preocupações crescentes entre pesquisadores e clínicos veterinários (Kirk et al., 2001; Verbrugghe & Hesta, 2017).

    Este trabalho, fundamentado em quatro décadas de prática clínica e pesquisa no Petclube, um centro dedicado à saúde e ao bem-estar felino, e na expertise em medicina veterinária integrativa e alimentação natural, busca consolidar o conhecimento científico sobre a intrínseca relação entre a dieta e a saúde sistêmica dos gatos domésticos. A revisão propõe-se a explorar o impacto da composição dietética, com foco na ingestão de carboidratos e óleos vegetais, na saúde geral dos felinos domésticos. Serão abordadas as consequências metabólicas, endócrinas, gastrointestinais e dermatológicas, bem como a predisposição a condições patológicas como diabetes mellitus, lipidose hepática, doenças cardíacas e inflamação sistêmica. Além disso, a análise será aprofundada para incluir o papel das endotoxinas bacterianas na inflamação crônica, a saúde renal, a hipertensão e, em última instância, a qualidade de vida felina. Baseada em evidências científicas da medicina veterinária, este trabalho visa consolidar o conhecimento sobre como a nutrição inadequada pode predispor os felinos a diversas patologias, e oferecer uma contribuição relevante tanto para a comunidade científica veterinária quanto para tutores e amantes de felinos, promovendo a compreensão crítica da transição dietética e seus benefícios.

    2. Carnivoria Estrita, Metabolismo e Intolerância a Carboidratos

    A definição de carnívoro estrito para o gato não é meramente preferencial, mas bioquímica. Seu metabolismo é otimizado para o catabolismo de proteínas para energia (gliconeogênese contínua) e possui vias metabólicas limitadas para o uso eficiente de carboidratos (Zoran, 2002). Estudos demonstram que gatos apresentam uma atividade reduzida de enzimas envolvidas na digestão e metabolismo de carboidratos, como a amilase salivar e intestinal, e enzimas hepáticas relacionadas à glicólise (Kirk et al., 2001). Essa menor capacidade para digerir carboidratos em comparação com cães é um indicativo claro de sua adaptação a uma dieta pobre nesse macronutriente.

    A fisiologia felina exibe uma gliconeogênese hepática constantemente ativa, mesmo na presença de carboidratos dietéticos, devido à baixa atividade da enzima glicoquinase e alta atividade da glicose-6-fosfatase. Isso significa que seus fígados estão sempre produzindo glicose a partir de aminoácidos, o que pode ser um fardo metabólico em dietas ricas em carboidratos (Zoran, 2002; Verbrugghe & Hesta, 2017).

    3. Carboidratos, Índice Glicêmico e Diabetes em Gatos

    A prevalência de diabetes mellitus em gatos tem aumentado, e a dieta é um fator etiológico significativo (Rand et al., 2004). Dietas com alto teor de carboidratos levam a picos glicêmicos pós-prandiais mais acentuados e, consequentemente, a uma demanda contínua por insulina. Gatos obesos já demonstram menor sensibilidade à insulina em comparação com gatos magros, e essa sensibilidade pode ser ainda mais comprometida por dietas inadequadas (Appleton et al., 2001).

    A exposição crônica a altas cargas glicêmicas pode exaurir as células beta pancreáticas, culminando em resistência à insulina e diabetes tipo 2. A relação entre a dieta, o índice glicêmico e o desenvolvimento de diabetes é um campo de intensa pesquisa, e a formulação de dietas com baixo teor de carboidratos e alto teor proteico tem sido explorada como uma estratégia de manejo e prevenção (Rand et al., 2004; Verbrugghe & Hesta, 2017).

    4. Lipidose Hepática, Esteato-Hepatite e Metabolismo Lipídico

    A lipidose hepática felina, também conhecida como síndrome do fígado gorduroso, é uma das hepatopatias mais comuns e graves em gatos, frequentemente desencadeada por períodos de anorexia ou subnutrição em gatos obesos (Center, 2005). Embora não seja diretamente causada por carboidratos, o metabolismo lipídico em gatos é altamente sensível à composição dietética e ao estado nutricional geral. Gatos obesos, muitas vezes mantidos com dietas ricas em carboidratos, têm um risco aumentado de desenvolver lipidose hepática quando enfrentam estresse ou perda de apetite (Lascelles et al., 1999).

    A disfunção metabólica associada à obesidade e dietas inadequadas pode levar ao acúmulo excessivo de triglicerídeos no fígado. Dietas com formulação inadequada podem também impactar a mobilização e o transporte de lipídios, exacerbando o risco (Wakshlag et al., 2004). O manejo nutricional é crucial tanto na prevenção quanto no tratamento desta condição.

    5. Óleos Vegetais, Ômega-6 e Inflamação em Felinos

    A composição de ácidos graxos na dieta felina tem implicações diretas na saúde, especialmente em relação aos processos inflamatórios. Enquanto ácidos graxos ômega-3 são geralmente anti-inflamatórios, os ácidos graxos ômega-6 (comuns em óleos vegetais como girassol e milho) podem ter efeitos pró-inflamatórios se consumidos em excesso ou em proporções desequilibradas em relação aos ômega-3 (Bauer, 2006).

    Gatos possuem vias metabólicas específicas para ácidos graxos poli-insaturados. O desequilíbrio entre ômega-6 e ômega-3 pode influenciar a produção de eicosanoides, mediadores inflamatórios. Dietas ricas em óleos vegetais e com baixa inclusão de fontes de ômega-3 (como óleo de peixe) podem exacerbar condições inflamatórias crônicas, impactando a saúde da pele, pelo e a resposta imune geral (Bauer, 2006; Fascetti & Delaney, 2012). Embora a pesquisa em cães sobre o tema seja mais robusta, como no estudo de Hall e Jewell (2012) que mostrou o impacto de óleos vegetais na composição de lipídios na pele e pelo, os princípios de balanço de ácidos graxos são relevantes para felinos.

    6. Microbioma Felino, Diarreia, Inflamação Intestinal e Endotoxemia

    A saúde gastrointestinal é intrinsecamente ligada ao microbioma, a comunidade de microrganismos que habita o trato digestório. A dieta é um dos principais moduladores do microbioma felino (Hooda et al., 2013). Desequilíbrios na dieta, como o excesso de carboidratos complexos ou ingredientes de baixa digestibilidade, podem alterar a composição e a função do microbioma, levando à disbiose.

    A disbiose, por sua vez, tem sido associada à diarreia crônica e à doença inflamatória intestinal (DII) em gatos (Tun et al., 2012; Marsilio et al., 2019). Estudos metagenômicos revelaram que gatos com diarreia crônica exibem um perfil microbiano intestinal alterado, com mudanças na abundância de certas bactérias (Bermingham et al., 2018). Dietas formuladas para promover um microbioma saudável, com proteínas de alta qualidade e fibras prebióticas apropriadas, são essenciais para manter a integridade intestinal e prevenir distúrbios.

    6.1. O Papel das Endotoxinas (LPS) na Inflamação Sistêmica e suas Ramificações

    Um aspecto crítico da disbiose e da integridade intestinal comprometida é o aumento da translocação bacteriana e a liberação de endotoxinas, especificamente o lipopolissacarídeo (LPS). O LPS é um componente da parede celular de bactérias Gram-negativas e é liberado na corrente sanguínea quando essas bactérias morrem ou quando há aumento da permeabilidade da barreira intestinal ("leaky gut") (Johnson et al., 2018). Dietas ricas em carboidratos de rápida fermentação ou com baixa qualidade de fibras podem favorecer a proliferação de bactérias Gram-negativas no intestino, contribuindo para uma maior produção de LPS.

    A presença de LPS na corrente sanguínea (endotoxemia) desencadeia uma forte resposta inflamatória sistêmica. Mesmo em níveis baixos, a endotoxemia crônica pode contribuir para a inflamação de baixo grau observada em condições como obesidade e resistência à insulina, exacerbando as doenças metabólicas já discutidas (German, 2006; Laflamme, 2006). A disbiose intestinal e o aumento da permeabilidade da mucosa foram observados em gatos com condições crônicas, incluindo a doença renal, sugerindo uma via para a endotoxemia (Smith et al., 2020). Este processo inflamatório contínuo pode ter ramificações significativas para múltiplos sistemas orgânicos, incluindo rins e sistema cardiovascular.

    7. Doença Cardíaca e Nutrição

    A nutrição desempenha um papel fundamental na saúde cardíaca felina. A deficiência de taurina, um aminoácido essencial para gatos, é uma causa bem documentada de cardiomiopatia dilatada (CMD) em felinos (Backus et al., 2018). Embora a deficiência grave de taurina seja menos comum hoje devido à sua suplementação em dietas comerciais, fatores dietéticos ainda podem influenciar a biodisponibilidade e o metabolismo deste e de outros nutrientes cardioprotetores.

    Além da taurina, o balanço de eletrólitos, a ingestão de sódio e a presença de ácidos graxos ômega-3 na dieta podem modular a função cardíaca e a progressão de doenças cardíacas (Freeman et al., 2010). Dietas terapêuticas para gatos com doença cardíaca são frequentemente formuladas para otimizar o peso corporal, reduzir a retenção de sódio e fornecer suporte antioxidante e anti-inflamatório. A inflamação sistêmica crônica, potenciada pela endotoxemia e disbiose intestinal, também pode contribuir para o estresse oxidativo e o dano celular no miocárdio, afetando a saúde cardiovascular a longo prazo.

    8. Doenças Renais e Hipertensão Felina

    A doença renal crônica (DRC) é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em gatos idosos, e a dieta exerce uma influência considerável em sua progressão e manejo. Embora a etiologia da DRC seja multifatorial, a nutrição pode atuar como fator protetor ou de risco. Dietas com altos níveis de fósforo, por exemplo, têm sido associadas à progressão da DRC em felinos.

    8.1. Endotoxemia e Progressão da Doença Renal

    A conexão entre a saúde intestinal e a função renal tem sido cada vez mais reconhecida, formando o conceito de "eixo intestino-rim". Em gatos com DRC, é comum observar alterações no microbioma intestinal (disbiose) e aumento da produção de toxinas urêmicas de origem entérica (Smith et al., 2020). A endotoxemia, resultante da translocação de LPS para a circulação sistêmica, tem sido implicada na perpetuação da inflamação e no agravamento do dano renal. O LPS pode ativar receptores Toll-like (TLR4) nas células renais, desencadeando vias inflamatórias e oxidativas que contribuem para a fibrose e a perda de função renal (Green et al., 2019). Gatos com DRC frequentemente apresentam evidências de inflamação sistêmica e estresse oxidativo, e a redução da carga de endotoxinas pode ser uma estratégia terapêutica valiosa (Williams et al., 2021).

    8.2. Hipertensão e Relação com a Inflamação

    A hipertensão sistêmica é uma comorbidade comum em gatos com doença renal crônica, mas também pode ocorrer de forma primária ou associada a outras condições endócrinas. A inflamação sistêmica, incluindo aquela impulsionada pela endotoxemia e disbiose intestinal, pode desempenhar um papel no desenvolvimento e agravamento da hipertensão. Mediadores inflamatórios e citocinas podem afetar a função endotelial, a reatividade vascular e o sistema renina-angiotensina-aldosterona, contribuindo para o aumento da pressão arterial. O manejo dietético, que visa controlar a inflamação, o peso e a ingestão de nutrientes específicos (como sódio e fósforo), é vital para a saúde renal e o controle da hipertensão.

    9. Pele, Pelo, Dermatites e Nutrição

    A saúde da pele e do pelo em gatos é um indicador visível do estado nutricional e um reflexo da dieta. Deficiências nutricionais ou desequilíbrios podem levar a dermatites, qualidade deficiente do pelo e outras afecções dermatológicas.

    Ácidos graxos essenciais, como ômega-3 e ômega-6 em proporções adequadas, são cruciais para a manutenção da barreira cutânea e para reduzir a inflamação. A suplementação com óleo de peixe e outros óleos com alto teor de ômega-3 tem demonstrado melhorar a condição da pele e do pelo em gatos (Watson et al., 2006). A taurina, além de seu papel cardíaco, também é importante para a função folicular pilosa; a deficiência pode prejudicar o crescimento e a saúde do pelo (Mori et al., 2008). Vitaminas, minerais e proteínas de alta qualidade também são indispensáveis para a saúde dermatológica. A inflamação sistêmica decorrente de disbiose e endotoxemia também pode se manifestar em problemas dermatológicos, tornando a abordagem nutricional um pilar no tratamento de diversas dermatopatias.

    10. Obesidade, Inflamação Sistêmica e Ração Rica em Carboidratos

    A obesidade é uma epidemia crescente em cães e gatos, com sérias implicações para a saúde (German, 2006; Hoenig, 2006). Dietas ricas em carboidratos e gorduras, aliadas a um estilo de vida sedentário, contribuem significativamente para o ganho de peso. Em gatos, a obesidade é um estado pró-inflamatório crônico, com o tecido adiposo atuando como um órgão endócrino que secreta adipocinas e citocinas que promovem inflamação sistêmica (German, 2006; Laflamme, 2006).

    A endotoxemia, oriunda da disbiose intestinal exacerbada por dietas inadequadas, pode ser um fator contribuinte significativo para a inflamação sistêmica observada em gatos obesos, estabelecendo um ciclo vicioso entre dieta, disbiose, inflamação e ganho de peso (Johnson et al., 2018). A compreensão de que as rações ricas em carboidratos, apesar de serem muitas vezes palatáveis e energeticamente densas, não se alinham à fisiologia felina, é crucial para o combate à obesidade e suas comorbidades (Laflamme, 2006). O manejo da obesidade envolve uma combinação de restrição calórica e uma dieta formulada para promover a perda de peso enquanto preserva a massa muscular, muitas vezes com maior teor proteico.

    11. Implicações para a Qualidade de Vida Felina

    Todas as condições patológicas discutidas — diabetes, lipidose hepática, doenças cardíacas, dermatopatias, doenças renais, hipertensão e a inflamação crônica impulsionada por disbiose e endotoxemia — impactam diretamente a qualidade de vida dos gatos. Um gato com dor crônica, desconforto gastrointestinal, prurido intenso, ou letargia e fraqueza devido a condições metabólicas e renais, experimentará uma redução significativa em seu bem-estar.

    A diminuição da qualidade de vida pode se manifestar em alterações comportamentais, como apatia, irritabilidade, perda de apetite, ou até mesmo agressividade. A dor e o desconforto podem limitar a capacidade do gato de realizar atividades naturais, como brincar, caçar (mesmo que simuladamente), interagir socialmente e se cuidar (grooming), fundamentais para sua saúde mental e física. Intervenções nutricionais adequadas, focadas em restaurar a saúde metabólica, reduzir a inflamação sistêmica e apoiar a função de órgãos vitais, não apenas tratam as doenças, mas também melhoram dramaticamente o conforto e o bem-estar geral, prolongando a vida com dignidade e vitalidade. A transição da ração para uma alimentação natural, quando bem orientada e balanceada, representa uma das mais eficazes estratégias para otimizar esses parâmetros de saúde e qualidade de vida.

    12. Conclusão

    A natureza carnívora estrita dos gatos impõe requisitos nutricionais específicos que são frequentemente desconsiderados na formulação de dietas comerciais. A análise da literatura e a experiência clínica reforçam que dietas ricas em carboidratos e desequilibradas em ácidos graxos podem ter um impacto deletério multifacetado na saúde felina, predispondo-os a condições como diabetes mellitus, lipidose hepática, doenças cardíacas, dermatopatias e disbiose intestinal. Aprofundamos o entendimento de que a disbiose pode levar à endotoxemia (LPS alto), fomentando uma inflamação sistêmica crônica que, por sua vez, contribui para o desenvolvimento e progressão de doenças renais, hipertensão e exacerba a obesidade.

    A compreensão profunda das necessidades nutricionais felinas, corroborada por décadas de observação clínica e aplicação de princípios de medicina integrativa, é imperativa para médicos veterinários, tutores e fabricantes de alimentos. A promoção de dietas que respeitem a fisiologia carnívora estrita dos gatos, com altos níveis de proteína de origem animal, gorduras adequadas e baixa concentração de carboidratos, como a alimentação natural, é fundamental para a prevenção e manejo de diversas doenças, melhorando significativamente a qualidade de vida felina. Este artigo, fruto de uma jornada dedicada no Petclube, visa ser uma base sólida para a transição dietética segura e eficaz, contribuindo para uma comunidade felina mais saudável e informada através do conhecimento científico consistente e da prática integrativa.


    Referências

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  • Excesso de carboidratos na alimentação de cães e gatos, inflamação metabólica e potenciais implicações na formação de catarata

    Excesso de carboidratos na alimentação de cães e gatos, inflamação metabólica e potenciais implicações na formação de catarata

    Trabalho científico apresentado como artigo de revisão na área de Medicina Veterinária, com ênfase em nutrição de pequenos animais.

    Autores:

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VTMAPA  00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil]
    ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]

    Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

    Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal


    Resumo

    A catarata é uma das principais causas de perda visual em cães e gatos, apresentando etiologia multifatorial, com destaque para fatores genéticos, inflamatórios e metabólicos. O diabetes mellitus é amplamente reconhecido como um dos principais fatores de risco para catarata, especialmente em cães, sendo a hiperglicemia crônica o principal mecanismo fisiopatológico envolvido. Nas últimas décadas, a alimentação de pets passou a ser predominantemente baseada em dietas industrializadas com elevado teor de carboidratos, o que representa um distanciamento do padrão alimentar evolutivo dessas espécies. Evidências crescentes indicam que o consumo excessivo de carboidratos pode contribuir para obesidade, resistência à insulina, inflamação sistêmica de baixo grau e estresse oxidativo, condições intimamente relacionadas ao desenvolvimento de alterações oculares degenerativas. Embora não existam estudos que comprovem uma relação causal direta entre excesso de carboidratos e catarata em cães e gatos, os mecanismos metabólicos envolvidos sugerem uma associação indireta plausível. Este artigo revisa a literatura disponível sobre metabolismo de carboidratos em pets, inflamação metabólica, diabetes mellitus e catarata, discutindo implicações clínicas e estratégias nutricionais preventivas.

    Palavras-chave: Catarata; Carboidratos; Inflamação metabólica; Diabetes mellitus; Nutrição veterinária.


    Abstract

    Cataract is one of the leading causes of visual impairment in dogs and cats and presents a multifactorial etiology, including genetic, inflammatory, traumatic, senile, and metabolic factors. Among metabolic disorders, diabetes mellitus is widely recognized as a major risk factor, particularly in dogs, in which persistent hyperglycemia frequently leads to rapid lens opacification. In recent decades, the widespread use of industrialized pet foods with high carbohydrate content has represented a significant deviation from the evolutionary nutritional physiology of domestic carnivores, especially cats.

    Excessive and chronic carbohydrate intake has been associated with obesity, insulin resistance, low-grade systemic inflammation, and increased oxidative stress. These metabolic disturbances are closely linked to the pathophysiology of diabetic cataracts and may indirectly contribute to lens degeneration even in the absence of overt diabetes mellitus. Recurrent postprandial hyperglycemia, hyperinsulinemia, microbiota dysbiosis, and inflammatory cytokine release create a systemic environment that compromises metabolic homeostasis and increases oxidative damage to long-lived lens proteins.

    Although there is currently no direct evidence establishing excessive dietary carbohydrates as an isolated cause of cataracts in dogs and cats, the available data support a biologically plausible indirect association mediated by metabolic and inflammatory pathways. Nutritional strategies that emphasize high-quality animal-based proteins, biologically appropriate healthy fats, and minimal inclusion of low–glycemic index carbohydrates may restore metabolic homeostasis, reduce systemic inflammation and oxidative stress, improve insulin sensitivity, and consequently lower the risk of associated pathologies, including cataract development.

    Veterinarians play a critical role in educating pet owners about the metabolic risks associated with inappropriate modern feeding practices and in promoting dietary choices that support long-term metabolic health, ocular integrity, and longevity in domestic carnivores.

    Keywords: Cataract; Carbohydrates; Metabolic inflammation; Insulin resistance; Veterinary nutrition.


    1. Introdução

    A catarata é caracterizada pela opacificação parcial ou total do cristalino, levando à diminuição progressiva da acuidade visual e, em estágios avançados, à cegueira. Em medicina veterinária, trata-se de uma condição frequente, especialmente em cães, podendo ocorrer também em gatos, embora com menor incidência. Sua etiologia é multifatorial, incluindo causas hereditárias, traumáticas, inflamatórias, infecciosas, senis e metabólicas (GELATT; GELATT, 2011).

    Entre os fatores metabólicos, o diabetes mellitus destaca-se como uma das principais causas de catarata, sobretudo em cães. Estima-se que mais de 50% dos cães diabéticos desenvolvam catarata bilateral em curto período após o diagnóstico, em decorrência da hiperglicemia persistente (BEAM et al., 1999). O mecanismo fisiopatológico envolve alterações osmóticas e bioquímicas no cristalino, associadas à via do poliol e à glicação não enzimática de proteínas.

    Paralelamente, observa-se uma mudança significativa no padrão alimentar de cães e gatos nas últimas décadas. A ampla utilização de dietas extrusadas comerciais, frequentemente ricas em carboidratos digestíveis, representa um afastamento da dieta ancestral dessas espécies. Os gatos, carnívoros obrigatórios, apresentam capacidade limitada de adaptação metabólica a dietas ricas em carboidratos, enquanto os cães, embora mais flexíveis, também não evoluíram para utilizar carboidratos como principal fonte energética (ZORAN, 2002; LAFLAMME et al., 2014).

    O consumo excessivo e crônico de carboidratos tem sido associado a ganho de peso, obesidade, resistência à insulina e inflamação sistêmica de baixo grau. Esses processos estão diretamente relacionados ao desenvolvimento do diabetes mellitus e ao aumento do estresse oxidativo, fatores reconhecidamente envolvidos na fisiopatologia da catarata. Em humanos, estudos epidemiológicos demonstram associação entre dietas de alto índice glicêmico e maior risco de catarata relacionada à idade (CHIU et al., 2023).

    Diante desse contexto, torna-se relevante discutir o papel indireto da nutrição rica em carboidratos na saúde ocular de cães e gatos, considerando os mecanismos metabólicos e inflamatórios envolvidos. Este artigo tem como objetivo revisar a literatura científica disponível e discutir a plausibilidade biológica da associação entre excesso de carboidratos na dieta, inflamação metabólica e formação de catarata em pets.


    2. Metabolismo de carboidratos em cães e gatos

    Os gatos apresentam atividade reduzida de enzimas relacionadas ao metabolismo de carboidratos, como a glucocinase hepática, além de uma secreção insulínica menos responsiva a cargas glicídicas elevadas (ZORAN, 2002). Dessa forma, dietas ricas em carboidratos podem resultar em hiperglicemia pós-prandial prolongada.

    Os cães, embora classificados como onívoros oportunistas, mantêm uma fisiologia predominantemente adaptada ao consumo de proteínas e gorduras. O excesso de carboidratos, especialmente os de alto índice glicêmico, pode promover flutuações glicêmicas significativas, favorecendo resistência à insulina ao longo do tempo (LAFERRE, 2011).


    3. Carboidratos, obesidade e inflamação metabólica

    Dietas com alta densidade energética e elevado teor de carboidratos estão associadas ao desenvolvimento de obesidade em cães e gatos. A obesidade é reconhecida como um estado de inflamação crônica de baixo grau, caracterizado pela liberação contínua de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e IL-1β (GERMAN, 2006).

    Além disso, o excesso de carboidratos pode alterar a microbiota intestinal, promovendo disbiose, aumento da permeabilidade intestinal e endotoxemia metabólica. Esses fatores contribuem para resistência à insulina e aumento do estresse oxidativo sistêmico, criando um ambiente metabólico desfavorável à manutenção da homeostase tecidual.


    4. Diabetes mellitus e catarata

    A catarata diabética é uma das manifestações mais bem documentadas do diabetes mellitus em cães. A hiperglicemia persistente leva à conversão excessiva de glicose em sorbitol dentro das fibras do cristalino, causando acúmulo osmótico, edema celular, ruptura das fibras e opacificação do cristalino (KADOR et al., 1985).

    Além disso, a glicação avançada de proteínas cristalinas compromete sua estrutura e função óptica. O estresse oxidativo associado agrava esse processo, reduzindo a eficiência dos mecanismos antioxidantes endógenos do cristalino.


    5. Excesso de carboidratos e catarata: uma relação indireta

    Embora não existam evidências diretas que comprovem que o excesso de carboidratos cause catarata de forma isolada, a literatura sugere uma associação indireta plausível. Dietas ricas em carboidratos podem favorecer o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina e diabetes mellitus, condições intimamente relacionadas à catarata.

    Além disso, a inflamação sistêmica e o estresse oxidativo decorrentes de desequilíbrios metabólicos podem comprometer a integridade do cristalino ao longo do tempo, mesmo na ausência de diabetes clínico estabelecido.


    6.Discussão

     
    Inadequação Fisiológica e Carga Glicêmica

    A adaptação de cães e gatos ao consumo de carne levou ao desenvolvimento de um trato gastrointestinal curto e de um metabolismo que prioriza a gliconeogênese a partir de aminoácidos e glicerol, com menor capacidade enzimática para a digestão de grandes quantidades de carboidratos. Dietas ricas em carboidratos processados resultam em uma rápida absorção de glicose, levando a picos pós-prandiais de glicemia e insulinemia. Este padrão de sobrecarga glicêmica crônica difere drasticamente do que seria encontrado em uma dieta carnívora natural, que fornece um suprimento energético mais estável e gradual (Amichetti, 2020)

    Carboidratos, Inflamação e Estresse Oxidativo

    A exposição contínua a altos níveis de glicose e insulina é um potente gatilho para processos inflamatórios. A glicose em excesso pode se ligar a proteínas e lipídios em um processo não enzimático conhecido como glicação, formandoProdutos Finais de Glicação Avançada (AGEs). Os AGEs são altamente pró-inflamatórios e pró-oxidantes, ativando receptores específicos (RAGEs) que desencadeiam a expressão de citocinas inflamatórias, como TNF-α, IL-1β e IL-6, por meio de vias como a do fator nuclear kappa B (NF-κB).Paralelamente, o metabolismo oxidativo excessivo da glicose pode gerar espécies reativas de oxigênio (EROs), contribuindo para oestresse oxidativo. A inflamação e o estresse oxidativo são interligados e criam um ciclo vicioso que danifica células e tecidos, comprometendo a integridade funcional de diversos órgãos, incluindo o cristalino ocular.

    Resistência à Insulina e Implicações Sistêmicas

    A resposta insulinêmica crônica, induzida por dietas de alta carga glicêmica, pode levar ao desenvolvimento de resistência à insulina nos tecidos periféricos. As células tornam-se menos responsivas à ação da insulina, exigindo que o pâncreas produza quantidades ainda maiores do hormônio para manter a glicemia em níveis aceitáveis. Este estado de hiperinsulinemia compensatória e resistência à insulina é um precursor conhecido para o diabetes mellitus tipo 2 e é um fator chave na patogênese de uma série de outras doenças metabólicas.

    A resistência à insulina amplifica o estado inflamatório e oxidativo, contribuindo para a dislipidemia, hipertensão e doenças cardiovasculares, exacerbando o ambiente sistêmico desfavorável.

     A Conexão Indireta com a Catarata: Uma Cascata de Eventos

    A catarata, caracterizada pela opacificação do cristalino, é multifatorial. Em carnívoros, especialmente em cães, o diabetes mellitus é um fator de risco primário para a catarata, devido à via do sorbitol. No entanto, mesmo na ausência de diabetes manifesto, o ciclo de carboidratos em excesso, inflamação e resistência à insulina pode promover a catarata através de uma via indireta complexa.

    A Figura 1 ilustra essa cascata:

    Figura 1: Representação esquemática da via indireta entre o consumo excessivo de carboidratos e a progressão da catarata

    [ Ingestão Excessiva de Carboidratos Refinados ]
            ↓
    [ Aumento da Glicemia e Resposta Insulinêmica ]
            ↓
    [ Glicação Avançada (AGEs) & Estresse Oxidativo ]
            ↓
    [ Ativação de Vias Inflamatórias (Ex: NF-κB) ]
            ↓
    [ Produção de Citocinas Pró-inflamatórias Sistêmicas ]
            ↓
    [ Resistência à Insulina (Tecidos Periféricos) ]
            ↓
    [ Alterações Metabólicas Oculares ]
            ↓
    [ Dano às Células do Cristalino & Fibrose ]
            ↓
    Neste modelo, o ambiente sistêmico de inflamação e estresse oxidativo, junto com as disfunções metabólicas decorrentes da resistência à insulina, afeta diretamente as delicadas células do cristalino. Os AGEs podem acumular-se nas proteínas do cristalino, alterando sua estrutura e função. O estresse oxidativo direto no cristalino, somado à resposta inflamatória, compromete os mecanismos antioxidantes naturais do olho, levando à agregação de proteínas e à perda de transparência.

    A resistência à insulina pode também alterar o transporte de nutrientes para o cristalino e o balanço de eletrólitos, criando um ambiente desfavorável para a manutenção de sua homeostase. Assim, o excesso crônico de carboidratos, ao instigar inflamação e resistência à insulina, cria um terreno fértil para a progressão da catarata, mesmo sem os picos hiperglicêmicos extremos vistos no diabetes descompensado.

    Dieta Biologicamente Apropriada como Abordagem Preventiva

    A Tabela 1 oferece uma comparação clara entre a dieta rica em carboidratos e a dieta biologicamente apropriada, destacando os benefícios desta última na mitigação dos riscos discutidos.

     
    Característica Dieta Rica em Carboidratos Dieta Biologicamente Apropriada
    Composição Principal Grãos, amidos, açúcares, carboidratos refinados Proteínas de alta qualidade, gorduras saudáveis, fibras
    Impacto Glicêmico Alto, picos de glicose e insulina Baixo a moderado, controle glicêmico estável
    Resposta Inflamatória Potencialmente pró-inflamatória Anti-inflamatória ou neutra
    Saúde Metabólica Risco de resistência à insulina, obesidade, diabetes Melhora da sensibilidade à insulina, peso saudável
    Qualidade Nutricional Frequentemente baixa densidade de nutrientes essenciais Alta densidade de vitaminas, minerais e antioxidantes
    Impacto na Saciedade Curta, leva a consumo excessivo Longa duração, controle do apetite
     
     
    Tabela 1: Comparativo entre Dieta Rica em Carboidratos e Dieta Biologicamente Apropriada em Contexto Veterinário.
    A transição para uma dieta com maior teor de proteínas de origem animal, gorduras saudáveis e um mínimo de carboidratos com baixo índice glicêmico pode restaurar a homeostase metabólica, reduzir a inflamação sistêmica e o estresse oxidativo, melhorando a sensibilidade à insulina e, consequentemente, diminuindo o risco de patologias associadas, incluindo a catarata.

     


    7. Implicações clínicas para a medicina veterinária

    • Avaliação criteriosa da composição de carboidratos em dietas comerciais

    • Controle de peso corporal e prevenção da obesidade

    • Monitoramento glicêmico em animais predispostos

    • Uso de dietas com menor índice glicêmico

    • Suporte antioxidante e anti-inflamatório como estratégia preventiva


    8.Conclusão

    A prevalência de dietas com alto teor de carboidratos na alimentação de cães e gatos representa um desvio significativo de sua fisiologia evolutiva e está associada a um espectro de disfunções metabólicas. A cadeia de eventos que se inicia com a ingestão excessiva de carboidratos, culmina em inflamação crônica e resistência à insulina, e contribui indiretamente para a progressão da catarata, evidencia a necessidade de uma reavaliação crítica das práticas nutricionais atuais.
    A implementação de dietas biologicamente apropriadas, que mimetizam a composição da presa natural e minimizam a carga glicêmica, surge como uma estratégia fundamental para a prevenção e manejo dessas condições. Médicos-veterinários têm um papel crucial em educar os tutores sobre os riscos associados à nutrição moderna inadequada e em promover escolhas alimentares que suportem a saúde metabólica e a longevidade de seus pacientes. A compreensão profunda desses mecanismos é vital para otimizar o bem-estar e a qualidade de vida dos carnívoros domésticos.

     


    Referências (ABNT)

    BEAM, S. et al. Risk factors for diabetes mellitus in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 214, n. 1, p. 46–51, 1999.

    CHIU, C. J. et al. Dietary glycemic index and risk of age-related cataract. American Journal of Clinical Nutrition, 2023.

    GELATT, K. N.; GELATT, J. P. Veterinary ophthalmology. 5. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2011.

    GERMAN, A. J. The growing problem of obesity in dogs and cats. Journal of Nutrition, v. 136, p. 1940S–1946S, 2006.

    KADOR, P. F. et al. The role of the polyol pathway in diabetic cataract formation. Investigative Ophthalmology & Visual Science, v. 26, p. 281–290, 1985.

    LAFERRE, J. Nutrition and insulin resistance in dogs. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 41, p. 833–846, 2011.

    LAFRAMME, D. et al. Nutrition for aging cats and dogs. Veterinary Clinics of North America, v. 44, p. 761–774, 2014.

    ZORAN, D. L. The carnivore connection to nutrition in cats. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 221, p. 1559–1567, 2002.

     

  • Impacto Metabólico da Dieta na Fisiologia Hepática de Cães e Gatos: Uma Revisão Crítica sobre Lipogênese, Resistência à Insulina e Esteatose

    Artigo Acadêmico: Impacto Metabólico da Dieta na Fisiologia Hepática de Cães e Gatos: Uma Revisão Crítica sobre Lipogênese, Resistência à Insulina e Esteatose

    Autores:

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VTMAPA  00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil]
    ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]

    Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

    Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal

    Resumo

    A saúde metabólica de cães e gatos domésticos tem sido progressivamente desafiada pela transição de dietas ancestrais carnívoras para formulações comerciais ricas em carboidratos. Este artigo realiza uma revisão aprofundada da fisiologia hepática, focando nas vias bioquímicas e moleculares envolvidas na lipogênese hepática induzida por carboidratos. Discute-se a intrínseca relação entre hiperinsulinemia, resistência à insulina e o desenvolvimento de esteatose hepática, culminando em possíveis desdobramentos como o diabetes mellitus. Um quadro comparativo entre dietas comerciais modernas e ancestrais é apresentado, elucidando os impactos metabólicos distintos. Além disso, detalham-se as vias moleculares de SREBP-1c, ChREBP, AMPK e mTOR na regulação do metabolismo lipídico e energético, e são abordados marcadores clínico-laboratoriais essenciais (ALT, FA, triglicerídeos, frutosamina) para o diagnóstico e monitoramento. Este trabalho visa fornecer uma base conceitual sólida para médicos-veterinários, pesquisadores e estudantes, alinhando-se à medicina veterinária integrativa e fisiológica (Amichetti, 2025).

    Palavras-chave: Dieta de cães e gatos; Fisiologia hepática; Lipogênese; Resistência à insulina; Esteatose hepática; Diabetes mellitus veterinário.


    1. Introdução

    A evolução de cães e gatos, enquanto espécies carnívoras, moldou seus sistemas metabólicos para processar predominantemente proteínas e gorduras, com uma capacidade limitada para altas cargas de carboidratos. Contudo, a domesticação e a industrialização das dietas resultaram em uma ampla adoção de alimentos comerciais, frequentemente formulados com elevados níveis de carboidratos. Esta mudança dietética impõe um desafio metabólico significativo, particularmente ao fígado, que é o epicentro do metabolismo energético.

    Este artigo explora a intrincada relação entre a composição da dieta, a fisiologia hepática e o desenvolvimento de distúrbios metabólicos em cães e gatos. Busca-se elucidar os mecanismos bioquímicos e moleculares que ligam a ingestão excessiva de carboidratos à lipogênese hepática, à hiperinsulinemia e à resistência à insulina, culminando na esteatose hepática e no aumento do risco de diabetes mellitus. A comparação entre as dietas modernas e ancestrais oferece uma perspectiva evolutiva e fisiológica sobre estas adaptações e disfunções metabólicas. Serão também abordados marcadores clínico-laboratoriais e vias moleculares chave que regulam esses processos.


    2. Funções Hepáticas Essenciais e Metabolismo de Carboidratos

    O fígado é um órgão multifuncional vital para a homeostase metabólica de cães e gatos. Suas funções abrangem desde a síntese de proteínas e fatores de coagulação, desintoxicação de metabólitos e xenobióticos, até o papel central no metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas.

    2.1. Papel Central no Metabolismo de Carboidratos

    No contexto da ingestão dietética, o fígado é o principal regulador dos níveis de glicose no sangue. Após uma refeição rica em carboidratos, a glicose é absorvida e transportada para o fígado via veia porta. O fígado pode:

    • Armazenar glicose: Sob a forma de glicogênio (glicogênese), por meio da glicogênio sintase, um processo estimulado pela insulina. No entanto, a capacidade de armazenamento hepático de glicogênio é finita.
    • Liberar glicose: Em períodos de jejum, o fígado produz e libera glicose no sangue (glicogenólise e gliconeogênese), para manter a normoglicemia.
    • Converter glicose em gordura (Lipogênese de novo): Quando a ingestão de carboidratos excede a necessidade energética e a capacidade de armazenamento de glicogênio, o fígado ativa a lipogênese de novo (DNL). Este é um processo metabolicamente caro que converte excesso de glicose em ácidos graxos, que são então esterificados em triglicerídeos e empacotados em lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL) para exportação ou armazenados no hepatócito.

    2.2. Lipogênese Hepática Induzida por Carboidratos

    Em cães e gatos, especialmente em face de uma dieta consistentemente rica em carboidratos, a lipogênese de novo torna-se uma via metabólica proeminente. A glicose em excesso é convertida em piruvato pela glicólise, e o piruvato é então transformado em acetil-CoA, o substrato inicial para a síntese de ácidos graxos. Enzimas chave como a Acetil-CoA Carboxilase (ACC) e a Ácido Graxo Sintase (FAS) são upregulated (têm sua atividade aumentada) em resposta a dietas ricas em carboidratos e à sinalização da insulina.

    Este processo é uma resposta adaptativa para lidar com o excesso de energia, mas quando crônico, leva ao acúmulo de triglicerídeos nos hepatócitos, um quadro conhecido como esteatose hepática ou fígado gorduroso. Em felinos, que possuem um metabolismo glicídico ainda mais restrito e são mais sensíveis à deficiência de arginina e taurina, a lipogênese excessiva pode ser particularmente deletéria.


    3. Hiperinsulinemia, Resistência à Insulina e o Ciclo da Esteatose Hepática

    A ingestão constante de dietas com alta carga glicêmica em cães e gatos carnívoros desencadeia uma liberação excessiva e prolongada de insulina pelo pâncreas. Este estado de hiperinsulinemia tem consequências sistêmicas, sendo a mais crítica a indução de resistência à insulina.

    A resistência à insulina ocorre quando as células do corpo, incluindo hepatócitos, células musculares e adipócitos, não respondem adequadamente à insulina, exigindo níveis cada vez maiores do hormônio para manter a glicemia normal. No fígado, a resistência à insulina compromete sua capacidade de suprimir a produção de glicose e de regular a lipogênese. Paradoxicamente, a hiperinsulinemia persistente, embora sinalize resistência em alguns tecidos, continua a estimular a lipogênese hepática e a síntese de triglicerídeos.

    Este ciclo vicioso — dieta rica em carboidratos → hiperinsulinemia → resistência à insulina → aumento da lipogênese hepática → acúmulo de gordura no fígado (esteatose) — é uma rota primária para a disfunção metabólica progressiva. A esteatose hepática, inicialmente reversível, pode evoluir para inflamação (esteato-hepatite), fibrose e, em casos graves, para cirrose e falência hepática. Além disso, a resistência à insulina hepática e sistêmica é um precursor bem estabelecido para o desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 em humanos e um fator contribuinte para o diabetes em felinos e cães.


    4. Dieta Ancestral vs. Dieta Comercial Moderna: Uma Análise Comparativa

    A discrepância entre a dieta para a qual cães e gatos foram biologicamente adaptados e a dieta que frequentemente recebem atualmente é um ponto crucial para entender as disfunções metabólicas.

    Característica Dieta Ancestral (Carnívora) Dieta Comercial Moderna (Ração Seca)
    **Composição Macro Nutricional** Alta em proteína animal, moderada em gordura animal, muito baixa em carboidratos (fibras e traços de vegetais do trato digestivo da presa). Moderada a alta em carboidratos (grãos, amidos), moderada em proteína (vegetal e animal), moderada em gordura.
    **Carga Glicêmica** Muito baixa. Mínima elevação pós-prandial da glicose. Alta. Rapidamente eleva os níveis de glicose no sangue.
    **Resposta Insulínica** Baixa e estável. Menor demanda pancreática. Alta e flutuante. Frequentes picos de insulina, levando a hiperinsulinemia crônica.
    **Metabolismo Primário** Gliconeogênese (a partir de aminoácidos e glicerol) e oxidação de ácidos graxos como fontes primárias de energia. Glicólise (oxidação de carboidratos) como fonte primária de energia; lipogênese *de novo* acentuada.
    **Função Hepática** Fígado otimizado para catabolismo de proteínas/gorduras e gliconeogênese controlada. Menor risco de esteatose por excesso de carboidratos. Sobrecarga metabólica para processamento de carboidratos. Maior risco de lipogênese *de novo* e acúmulo de gordura.
    **Risco de Doenças Metabólicas** Baixo risco de esteatose hepática induzida por dieta, resistência à insulina e diabetes mellitus tipo 2. Aumento do risco de esteatose hepática, resistência à insulina, obesidade e diabetes mellitus.
    **Hidratação** Alta (proveniente da presa). Baixa (geralmente menos de 10% de umidade).

    Cães e gatos modernos alimentados com ração seca de alta carga glicêmica são expostos a um cenário metabólico diametralmente oposto ao de seus ancestrais. Enquanto os cães e gatos de sítios ou fazendas, que frequentemente têm acesso a dietas mais próximas das ancestrais (presas, restos de carne), demonstram um metabolismo mais estável e resiliente, os animais domésticos urbanos sofrem as consequências de uma dieta que desafia sua fisiologia evolutiva.


    5. Vias Moleculares na Regulação Metabólica Hepática

    A complexidade da regulação metabólica hepática é orquestrada por uma rede intrincada de vias de sinalização molecular, que respondem a estímulos dietéticos e hormonais.

    5.1. SREBP-1c e ChREBP: Mestres da Lipogênese

    • SREBP-1c (Sterol Regulatory Element-Binding Protein-1c): Este fator de transcrição é um regulador central da lipogênese hepática. A insulina e o excesso de glicose ativam o SREBP-1c, que por sua vez promove a expressão de genes envolvidos na síntese de ácidos graxos e triglicerídeos, como ACC e FAS. Em estados de hiperinsulinemia e alta ingestão de carboidratos, a ativação persistente do SREBP-1c contribui diretamente para o acúmulo de gordura no fígado.
    • ChREBP (Carbohydrate Response Element-Binding Protein): Ativado diretamente pela glicose, o ChREBP atua sinergicamente com o SREBP-1c para induzir a lipogênese de novo. Quando há um fluxo elevado de glicose para o hepatócito, o ChREBP transloca para o núcleo e ativa a transcrição de genes lipogênicos, reforçando a conversão de carboidratos em gordura.

    5.2. AMPK e mTOR: Sensores de Energia

    • AMPK (AMP-activated protein kinase): Atua como um sensor de energia celular. É ativada em condições de baixa energia (alta relação AMP:ATP), e sua ativação promove vias catabólicas (e.g., oxidação de ácidos graxos) e inibe vias anabólicas, incluindo a lipogênese (pela inibição do SREBP-1c e ACC). Em contraste, dietas ricas em carboidratos e a hiperinsulinemia crônica podem levar à inibição da AMPK, desregulando o balanço energético e promovendo o acúmulo de lipídios.
    • mTOR (mammalian Target Of Rapamycin): É um complexo proteico central na regulação do crescimento celular, proliferação e metabolismo, sensível a nutrientes e fatores de crescimento, como a insulina. A ativação excessiva do mTOR, estimulada por dietas ricas em nutrientes (especialmente aminoácidos e glicose) e insulina, pode promover a resistência à insulina e a lipogênese. A interação entre AMPK e mTOR é crucial: a AMPK, quando ativada, inibe o mTOR, enquanto a inibição da AMPK pode levar à ativação do mTOR, exacerbando os distúrbios metabólicos.

    6. Marcadores Clínico-Laboratoriais na Avaliação da Saúde Hepática e Metabólica

    A identificação precoce e o monitoramento das alterações metabólicas são cruciais na medicina veterinária. Diversos marcadores séricos podem auxiliar na avaliação da saúde hepática e do status metabólico.

    • ALT (Alanina Aminotransferase): Uma enzima hepática citoplasmática, cujo aumento é um indicador sensível de lesão hepatocelular. Embora não seja específica para a causa da lesão, elevações persistentes podem sugerir inflamação hepática associada à esteatose (esteato-hepatite) ou outras hepatopatias.
    • FA (Fosfatase Alcalina): Uma enzima encontrada em diversos tecidos, incluindo fígado (isoenzima biliar), ossos e intestinos. Elevações da isoenzima hepática podem indicar colestase ou indução enzimática, comum em algumas hepatopatias crônicas e em certas condições metabólicas. Em cães, a FA pode ser induzida por glicocorticoides endógenos ou exógenos, e o aumento pode ser um achado em pacientes com distúrbios metabólicos.
    • Triglicerídeos (TG): A concentração sérica de triglicerídeos reflete o metabolismo lipídico. Níveis elevados (hipertrigliceridemia) são um forte indicador de dislipidemias, que frequentemente acompanham a esteatose hepática e a resistência à insulina. Em felinos, o aumento de triglicerídeos pode preceder ou coexistir com a esteatose hepática grave.
    • Frutosamina: Este marcador reflete a glicemia média nas últimas 1-3 semanas, sendo útil para avaliar o controle glicêmico a longo prazo. É formada pela glicação não enzimática de proteínas séricas (principalmente albumina). Níveis elevados de frutosamina indicam hiperglicemia persistente e são essenciais no diagnóstico e monitoramento do diabetes mellitus em cães e gatos, especialmente quando a glicemia pontual pode ser influenciada pelo estresse.

    A interpretação combinada desses marcadores, juntamente com o histórico clínico e a avaliação dietética, é fundamental para um diagnóstico preciso e para a implementação de estratégias terapêuticas e preventivas adequadas.


    7. Discussão

    A transição dietética em cães e gatos tem imposto um estresse metabólico significativo, revelando uma desadaptação entre a fisiologia carnívora e a composição nutricional das dietas modernas. A compreensão das vias bioquímicas e moleculares, como a ativação de SREBP-1c e ChREBP e a desregulação de AMPK e mTOR, é crucial para desvendar a patogênese da esteatose hepática e da resistência à insulina. Estes mecanismos explicam como a ingestão excessiva de carboidratos, mesmo em animais aparentemente saudáveis, pode levar a um estado crônico de hiperinsulinemia que, por sua vez, perpetua a lipogênese e o acúmulo de gordura hepática.

    O cenário é agravado pela resposta inflamatória e pelo estresse oxidativo que acompanham a esteatose, podendo precipitar a progressão para condições mais graves, como a esteato-hepatite e a fibrose. Em última análise, a falha em reconhecer e intervir nesse ciclo vicioso pode culminar em diabetes mellitus e outras comorbidades metabólicas.

    A abordagem integrativa da medicina veterinária deve, portanto, enfatizar a reformulação dietética como pedra angular da prevenção e tratamento. A prioridade deve ser a minimização da carga glicêmica e a maximização de proteínas e gorduras de qualidade, espelhando, o máximo possível, a dieta ancestral para a qual esses animais foram biologicamente concebidos.


    8. Conclusão

    O fígado de cães e gatos, enquanto epicentro do metabolismo, é particularmente vulnerável aos efeitos deletérios de dietas ricas em carboidratos. A lipogênese hepática induzida por carboidratos, mediada por vias moleculares complexas e impulsionada pela hiperinsulinemia e resistência à insulina, é um fator chave no desenvolvimento da esteatose hepática. A comparação entre as dietas ancestrais e as comerciais modernas ressalta a importância de alinhar a nutrição com a biologia evolutiva de cães e gatos para mitigar o risco de doenças metabólicas. A integração dos marcadores clínico-laboratoriais discutidos oferece ferramentas valiosas para o diagnóstico e monitoramento. Este trabalho reforça a necessidade de uma abordagem nutricional mais consciente e fisiológica na medicina veterinária, visando à promoção da saúde metabólica e à prevenção de doenças crônicas em nossos animais de companhia.

     


    Versão Paralela para Médicos-Veterinários Clínicos: "Desvendando o Fígado Gorduroso em Pets: Um Guia Prático para o Clínico"

    Olá, Colegas Veterinários! 👋

    Sabemos que a obesidade e doenças metabólicas estão em ascensão em nossos pacientes. Um dos órgãos mais afetados, e muitas vezes subestimado, é o fígado. A esteatose hepática (fígado gorduroso) e a resistência à insulina são condições que, se não abordadas, podem levar a diabetes e outras complicações sérias.

    Este guia prático visa traduzir o conhecimento científico em ferramentas diretas para o consultório.

    1. O Problema: Excesso de Carboidratos e o Fígado

    Nossos pacientes, cães e gatos, são carnívoros. Seus fígados são mestres em processar proteínas e gorduras. No entanto, muitas dietas comerciais são ricas em carboidratos.

    Quando um carnívoro ingere muitos carboidratos:

    • A glicose em excesso não pode ser totalmente armazenada como glicogênio.
    • O fígado, então, converte essa glicose extra em gordura (lipogênese de novo).
    • Essa gordura se acumula nos hepatócitos, levando à esteatose hepática.

    2. O Ciclo Vicioso: Insulina e Resistência

    Dietas com alta carga glicêmica causam picos constantes de insulina (hiperinsulinemia). Com o tempo, as células do corpo começam a ignorar a insulina – é a resistência à insulina.

    O que isso significa?

    • O pâncreas trabalha mais para produzir mais insulina.
    • Mesmo com muita insulina, o fígado continua a produzir e acumular gordura.
    • A resistência à insulina é um passo crítico para o desenvolvimento de diabetes mellitus, especialmente em felinos.

    3. Dieta: A Raiz do Problema (e da Solução!)

    Pense na dieta ancestral vs. a moderna.

    Característica Dieta Ancestral (Carnívora) Dieta Comercial Comum (Ração Seca)
    Macronutrientes Alta proteína, gordura moderada, MUITO BAIXA em carboidratos Carboidratos moderados/altos, proteína moderada, gordura moderada
    Carga Glicêmica Baixa → sem picos de glicose Alta → picos de glicose e insulina
    Foco Metabólico Queima de gordura e gliconeogênese Armazenamento de gordura (lipogênese de novo)
    Risco Metabólico Baixo risco de esteatose, resistência à insulina, diabetes ALTO risco de esteatose, resistência à insulina, obesidade, diabetes
    Hidratação da Dieta Alta (umidade natural de alimentos frescos) Baixa (muito seca)

    4. Como Diagnosticar e Monitorar na Clínica?

    Além do exame físico e histórico, alguns exames laboratoriais são seus aliados:

    • ALT (Alanina Aminotransferase):
      • O que é: Enzima que indica lesão hepática.
      • Quando suspeitar: Elevações persistentes podem indicar inflamação (esteato-hepatite) ou dano celular.
    • FA (Fosfatase Alcalina):
      • O que é: Enzima que, quando hepática, pode indicar colestase ou indução.
      • Quando suspeitar: Aumentos podem acompanhar distúrbios hepáticos ou metabólicos, especialmente em cães.
    • Triglicerídeos:
      • O que é: Tipo de gordura no sangue.
      • Quando suspeitar: Níveis elevados são um forte indicativo de dislipidemia, comum na esteatose hepática e resistência à insulina.
    • Frutosamina:
      • O que é: Reflete a glicemia média das últimas 1-3 semanas.
      • Quando suspeitar: Essencial para diagnosticar e monitorar diabetes, pois não sofre influência do estresse agudo como a glicemia isolada.

    Ferramentas adicionais: Ultrassonografia abdominal para visualizar o fígado e identificar alterações como aumento de ecogenicidade, sugestiva de infiltração gordurosa.

    5. Sua Ação como Clínico: Mudar a Dieta é a Chave! 🔑

    A intervenção mais poderosa é a mudança dietética.

    • Priorize: Dietas ricas em proteínas de alta qualidade e gorduras saudáveis.
    • Reduza drasticamente: A ingestão de carboidratos simples e complexos.
    • Considere: Dietas minimamente processadas, como a alimentação natural balanceada, pode ser uma excelente alternativa para muitos casos.

    Dica: Eduque os tutores sobre o metabolismo de carnívoros. Explique por que a ração "light" ou "para animais castrados" (muitas vezes cheias de carboidratos para dar saciedade) pode, na verdade, agravar o problema metabólico.

    Conclusão para o Clínico

    Não subestime o impacto da dieta na saúde hepática e metabólica de cães e gatos. A esteatose e a resistência à insulina são problemas crescentes, mas em grande parte preveníveis e reversíveis com as intervenções nutricionais corretas. Seja o defensor da fisiologia carnívora de seus pacientes!

    Referencias

    1. Sobre a Fisiologia Hepática e Metabolismo de Carnívoros:

      • NRC (National Research Council). Nutrient Requirements of Dogs and Cats. Washington, DC: The National Academies Press; 2006.
      • Case LP, Daristotle L, Hayek MG, Raasch MQ. Canine and Feline Nutrition: A Resource for Companion Animal Professionals. 3rd ed. Mosby Elsevier; 2011.
      • Hand MS, Thatcher CD, Remillard RL, Roudebush P, Novotny BJ. Small Animal Clinical Nutrition. 5th ed. Mark Morris Institute; 2010.
    2. Sobre Lipogênese Hepática de novo e Metabolismo de Carboidratos em Cães e Gatos:

      • Hall JA, Barbehohn MJ. Hepatic lipid metabolism and the molecular mechanisms of insulin resistance in dogs. J Anim Sci. 2012;90(5):1694-1704.
      • Verbrugghe A, Hesta M. Carbohydrate metabolism in dogs and cats: from traditional views to current understandings. J Anim Sci. 2017;95(8):3639-3649.
      • Hesta M, Janssens GP, Debraekeleer J, et al. The effect of different dietary carbohydrate sources on hepatic lipid metabolism in healthy cats. J Anim Physiol Anim Nutr (Berl). 2008;92(1):49-59.
    3. Sobre Hiperinsulinemia, Resistência à Insulina e Esteatose Hepática em Pets:

      • Rand JS, Kinnaird E, Baglioni A, et al. Insulin resistance in feline diabetes mellitus. J Feline Med Surg. 2004;6(2):137-146.
      • German AJ, Ryan VH, German AC, et al. Obesity, glucose tolerance, and insulin sensitivity in dogs: a comparison of lean and obese dogs. Res Vet Sci. 2010;89(1):16-20.
      • Dirksen K, Overduin J, van den Broek J, et al. Hepatic steatosis and insulin resistance in cats with naturally occurring diabetes mellitus. Vet J. 2015;206(1):47-52.
    4. Sobre Vias Moleculares (SREBP-1c, ChREBP, AMPK, mTOR) em Contexto Veterinário:

      • Steiner JM. Clinical biochemistry and pathophysiology of the exocrine pancreas in dogs and cats. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2012;42(4):605-619. (Embora focado em pâncreas, often aborda interconexões metabólicas).
      • O'Neill P, Armstrong J, Backus R. Feline hepatic lipidosis: current understanding of pathophysiology, diagnosis, and treatment. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2017;47(4):1125-1144. (Discussões sobre regulação lipídica molecular relevante).
      • Comparisons of metabolic regulation pathways in carnivores versus omnivores, often found in comparative physiology journals, e.g., articles discussing gene expression of enzymes in lipid synthesis or glucose metabolism in different species.
    5. Sobre Impacto da Dieta Ancestral vs. Comercial:

      • Axelsson E, Ratnakumar A, Arendt M, et al. The genomic signature of dog domestication reveals adaptation to a starch-rich diet. Nature. 2013;495(7441):360-364. (Para cães, embora desafiado por alguns, é um marco na discussão sobre adaptação dietética).
      • Hewson-Hughes AK, Verbrugghe A, Coradini M, et al. The carbohydrate conundrum: do cats need carbohydrates in their diet? J Feline Med Surg. 2019;21(7):601-612.
      • Roberts MT, Bermingham EN, Cave NJ, et al. Macronutrient intake of domesticated dogs and cats, in relation to health and longevity. J Nutr. 2018;148(suppl_9):1758S-1768S.
    6. Sobre Marcadores Clínico-Laboratoriais:

      • Kaneko JJ, Harvey JW, Bruss ML. Clinical Biochemistry of Domestic Animals. 6th ed. Academic Press; 2008.
      • Stockham SL, Scott MA. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2nd ed. Blackwell Publishing; 2008.
      • Reusch CE. Diabetes mellitus in cats and dogs. Eur J Companion Anim Pract. 2002;12(1):15-27. (Aborda o uso de frutosamina e outros marcadores).
  • O Enigma do Carnívoro Oportunista: uma análise biológica e evolutiva da dieta do Canis lupus familiaris

     

    O Enigma do Carnívoro Oportunista: uma análise biológica e evolutiva da dieta do Canis lupus familiaris

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Dr. Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Eng. Agr.). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube.
    ² Petclube, São Paulo, Brasil.
    ³ Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.

    Autor correspondente: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
    Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
    Periódico: Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal.


    Resumo

    A dieta do cão doméstico (Canis lupus familiaris) é frequentemente descrita como “onívora”, em grande parte pela capacidade do animal de sobreviver com formulações ricas em amido. Contudo, a capacidade de utilizar carboidratos como fonte energética não equivale a adequação biológica ou a benefício metabólico de longo prazo. Este artigo de revisão integra evidências de fisiologia comparada, anatomia funcional, genética da domesticação e clínica metabólica para sustentar que cães e lobos (Canis lupus) permanecem fortemente alinhados à carnivoria: apresentam dentição carniceira e padrão mandibular voltados a rasgar e cisalhar tecidos animais, trato gastrointestinal sem especializações para fermentação de fibras estruturais, e dependência nutricional primordial de proteína e gordura. Embora adaptações genômicas relacionadas ao aproveitamento de amido tenham sido descritas no cão doméstico em comparação ao lobo (AXELSSON et al., 2013), tais alterações não tornam o carboidrato um nutriente essencial, nem justificam, por si, dietas ultraprocessadas com alta proporção de grãos e óleos vegetais.

    A discussão enfatiza o eixo metabólico “excesso energético + alta carga glicêmica + baixa atividade”, que favorece adiposidade e desregulação hormonal. Em cães, a obesidade é reconhecida como condição prevalente e associada a alterações metabólicas e inflamatórias relevantes (GERMAN, 2006). Neste contexto, dietas com elevada densidade calórica e predominância de amido podem contribuir para hiperinsulinemia, piora da sensibilidade à insulina e dislipidemias em subgrupos suscetíveis, especialmente quando a dieta desloca proteína de alta qualidade e gordura animal, reduzindo saciedade e preservação de massa magra (NRC, 2006; WSAVA, 2011). Argumenta-se que, do ponto de vista de prevenção e manejo de distúrbios metabólicos, a formulação dietética deve priorizar proteína adequada, gordura de boa qualidade e carboidratos em proporções compatíveis com o perfil carnívoro do canídeo, com atenção ao grau de processamento, perfil de ácidos graxos e controle de energia total.

    Palavras-chave: cão; lobo; carnívoro; amido; ultraprocessados; resistência à insulina; obesidade; metabolismo.


    1 Introdução

    A alimentação do cão doméstico tornou-se um dos temas mais polarizados da medicina veterinária contemporânea. Em um extremo, formulações comerciais ricas em amido são defendidas como “completas e seguras” pela simples observação de que cães podem viver consumindo-as. No outro, práticas de alimentação carnívora são por vezes apresentadas como solução universal, o que também pode incorrer em simplificações.

    Entre esses polos, existe uma pergunta objetiva e biologicamente fértil: o que o cão é, do ponto de vista evolutivo e fisiológico, e como isso deveria orientar o macronutriente predominante da dieta? Cães derivam do lobo-cinzento (Canis lupus), mantendo semelhanças anatômicas marcantes ligadas ao predatismo: dentição com carniceiros funcionais, mandíbula com predomínio de movimento vertical para cisalhamento, estômago expansível e intestino sem especialização para fermentação de fibras como nos herbívoros (STEVENS; HUME, 1995). Essas características não descrevem um animal “adaptado a grãos”, mas um carnívoro oportunista, capaz de tolerar variação alimentar em cenários de escassez.

    O avanço de estudos genômicos trouxe nuance ao debate: cães apresentam sinais de adaptação a dieta mais rica em amido em relação ao lobo, o que é coerente com a domesticação e a proximidade de resíduos alimentares humanos (AXELSSON et al., 2013). Entretanto, essa adaptação não transforma carboidratos em componente essencial, pois cães, como outros mamíferos, podem manter glicose sanguínea por gliconeogênese a partir de aminoácidos e glicerol, desde que a dieta forneça substratos adequados (NRC, 2006). Assim, a questão central deixa de ser “o cão consegue usar carboidrato?” e passa a ser: qual é o custo metabólico e clínico de basear a dieta em amido e ultraprocessados, especialmente em um ambiente obesogênico moderno?

    A obesidade em cães é um problema crescente e clinicamente relevante, associada a menor longevidade, piora de qualidade de vida e maior risco de comorbidades (GERMAN, 2006). Em muitos cenários, a obesidade representa o fenótipo visível de um desequilíbrio mais profundo entre ingestão energética, densidade de nutrientes, palatabilidade industrial e baixa atividade física. O presente artigo revisa evidências de que dietas ultraprocessadas com alta proporção de carboidratos e determinados óleos vegetais podem favorecer desfechos metabólicos indesejáveis, incluindo hiperinsulinemia e resistência à insulina em cães suscetíveis, e propõe uma leitura fisiológica comparada para orientar escolhas dietéticas mais coerentes com a biologia do canídeo.

    Objetivo: revisar evidências anatômicas, fisiológicas, genéticas e metabólicas que sustentam o cão como carnívoro com plasticidade digestiva, e discutir criticamente potenciais impactos de dietas ultraprocessadas ricas em amido e óleos vegetais sobre o metabolismo, com ênfase em resistência à insulina.


    2 Metodologia

    Revisão narrativa baseada em literatura de fisiologia comparada, nutrição clínica de pequenos animais, genética da domesticação e endocrinologia/metabolismo. Foram priorizadas diretrizes e referências de alto impacto e ampla aceitação (NRC, WSAVA), além de estudos genômicos de domesticação.


    3 Fundamentação biológica: por que cão e lobo permanecem carnívoros

    3.1 Dentição carniceira e função trófica

    A dentição de canídeos é compatível com predatismo e consumo de tecidos animais. Os dentes carniceiros (P4 superior e M1 inferior) atuam como lâminas de cisalhamento, otimizando corte e rasgo de carne e tendões, além de auxiliar na fratura de estruturas mais resistentes (STEVENS; HUME, 1995). Essa arquitetura contrasta com herbívoros, que exibem superfícies molares extensas para trituração prolongada de fibras.

    3.2 Mecânica mandibular

    O padrão mastigatório de canídeos é predominantemente vertical, adequado a “cortar e engolir” com menor necessidade de moagem lateral. Isso não impede o consumo de alimentos vegetais, mas reforça que o sistema orofacial não é otimizado para processamento de grãos como base dietética (STEVENS; HUME, 1995).

    3.3 Trato gastrointestinal e ausência de especialização fermentativa

    Cães e lobos não possuem câmaras fermentativas complexas como ruminantes, nem ceco volumoso típico de herbívoros de fermentação pós-gástrica. A fisiologia digestiva favorece alta digestibilidade de proteína e gordura, enquanto carboidratos complexos e fibras estruturais dependem mais de processamento e podem aumentar fermentação colônica quando chegam em excesso ao intestino grosso (STEVENS; HUME, 1995).


    4 Carboidratos: adaptação ao amido não equivale a necessidade

    4.1 Genética da domesticação e o amido

    Axelsson et al. (2013) descrevem assinaturas genômicas associadas à domesticação, incluindo genes relacionados ao metabolismo de amido, sugerindo maior capacidade relativa do cão doméstico em digerir/usar amido quando comparado ao lobo. Essa evidência é frequentemente interpretada como licença para dietas ricas em carboidratos. Porém, logicamente, trata-se de um salto indevido: adaptação a uma pressão ambiental não implica que a pressão seja a dieta ótima para saúde metabólica no longo prazo.

    4.2 O que é essencial em nutrição canina

    Diretrizes clássicas apontam nutrientes essenciais (aminoácidos, ácidos graxos essenciais, vitaminas, minerais), enquanto carboidratos não são classificados como essenciais para cães, desde que a dieta atenda necessidades energéticas e forneça substratos para gliconeogênese (NRC, 2006). Portanto, o argumento central pró-dieta carnívora não precisa negar a capacidade de usar amido; basta sustentar, com rigor, que não é necessário basear a dieta em amido.


    5 Ultraprocessados ricos em amido e óleos vegetais: mecanismos prováveis de impacto metabólico

    5.1 Densidade energética, palatabilidade e ganho de peso

    A obesidade é reconhecida como problema crescente em cães (GERMAN, 2006). Em um ambiente onde o gasto energético é frequentemente baixo, dietas muito palatáveis e densas em energia favorecem superconsumo. A composição baseada em amido pode facilitar alta densidade calórica e alta disponibilidade energética, particularmente quando o alimento é extrusado e o amido é altamente gelatinizado, elevando digestibilidade e velocidade de absorção.

    5.2 Eixo glicêmico-insulínico e resistência à insulina (ênfase)

    Em termos fisiológicos, dietas com maior carga glicêmica tendem a induzir maior resposta pós-prandial de glicose e insulina. Em cães predispostos, ou em cães já obesos, a hiperinsulinemia crônica pode contribuir para redução da sensibilidade à insulina. A adiposidade, por si, é fator pró-inflamatório e endócrino, alterando adipocinas e favorecendo inflamação de baixo grau, o que se associa a piora de sinalização insulínica em mamíferos, incluindo cães (GERMAN, 2006).

    O ponto persuasivo, aqui, é uma tese de coerência fisiológica:

    • carnívoros são metabolicamente confortáveis com gordura e proteína como base;
    • o excesso de amido, especialmente em cenário de excesso calórico, empurra o metabolismo para ciclos repetidos de alta insulina;
    • a hiperinsulinemia é um “caminho comum” para disfunções metabólicas em indivíduos suscetíveis, ainda que o grau e o desfecho variem.

    Esse argumento é defensável quando apresentado como risco aumentado e plausibilidade biológica, não como causalidade universal.

    5.3 Dislipidemia e alterações hepáticas

    A obesidade canina se associa com alterações metabólicas amplas, incluindo mudanças em lipídios séricos e maior risco de alterações hepáticas em contextos específicos (GERMAN, 2006). Dietas com desequilíbrio de macronutrientes, excesso energético e perfil de gordura inadequado podem agravar dislipidemias em alguns cães. Aqui, a crítica aos ultraprocessados pode ser sustentada por dois pontos:

    • processamento e armazenamento podem aumentar risco de oxidação lipídica em gorduras mais instáveis (FRANKEL, 2012; SHAHIDI; ZHONG, 2010);
    • alguns perfis de formulação podem produzir relação de ácidos graxos menos favorável, dependendo dos óleos usados e de como o alimento é estabilizado.

    5.4 Microbiota, fezes e fermentação

    Quando amido não é totalmente digerido no intestino delgado, parte pode chegar ao cólon e aumentar fermentação, alterando gases e consistência fecal. Isso não é, por si, “doença”, mas pode ser um marcador de inadequação de carga/qualidade de carboidrato para determinado cão. Em contrapartida, fibras específicas podem ter benefícios, desde que bem escolhidas e em dose adequada (STEVENS; HUME, 1995).


    6 Discussão: o cão como carnívoro moderno em ambiente obesogênico

    A rotulagem do cão como “onívoro” costuma derivar de um raciocínio pragmático: “se o cão digere amido e vive com ração, então é onívoro”. Essa inferência é frágil. Primeiramente, a capacidade de sobrevivência não equivale a adequação ótima. Em segundo lugar, a classificação trófica deve considerar anatomia, fisiologia digestiva e ecologia alimentar, não apenas o que é possível em cativeiro.

    A evidência genômica de adaptação ao amido (AXELSSON et al., 2013) é real e relevante, mas não invalida a leitura carnívora do canídeo. Ao contrário: o cão pode ser descrito como carnívoro com plasticidade, uma formulação que integra evolução e domesticação sem negar fundamentos biológicos. Esse enquadramento tem impacto clínico: ao reconhecer que o cão é carnívoro, a pergunta prática passa a ser “quanto amido é compatível com saúde”, e não “quanto amido eu consigo inserir sem causar diarreia”.

    Em um cenário de prevalência de obesidade (GERMAN, 2006), o risco central deixa de ser o amido isolado e passa a ser a combinação:

    • alimento ultraprocessado altamente palatável;
    • alta densidade energética;
    • alta disponibilidade de amido;
    • substituição de proteína de qualidade por carboidrato como “enchimento calórico”;
    • baixa atividade física;
    • predisposição genética e idade.

    Essa combinação cria terreno fisiológico para hiperinsulinemia pós-prandial repetida e, em subgrupos susceptíveis, resistência à insulina. Mesmo quando não evolui para diabetes mellitus, a resistência à insulina participa de uma constelação de disfunções: maior facilidade de ganho de gordura, pior mobilização lipídica, inflamação crônica de baixo grau e alteração de perfil lipídico. Nesse sentido, uma dieta carnívora bem formulada (com proteína adequada, gordura de boa qualidade, micronutrientes e controle energético) pode ser interpretada como estratégia coerente para reduzir carga glicêmica e alinhar a dieta ao perfil biológico do animal.

    Por fim, uma discussão madura precisa admitir limites: não é correto afirmar que “carboidratos sempre fazem mal a todo cão”. O que se sustenta com mais rigor é que carboidratos não são necessários como base, e que dietas ultraprocessadas ricas em amido e determinados óleos vegetais podem, em muitos cenários, aumentar risco de desfechos metabólicos adversos, sobretudo quando contribuem para obesidade (NRC, 2006; WSAVA, 2011; GERMAN, 2006). A consequência prática é deslocar o debate de ideologia para fisiologia e clínica.


    7 Conclusão

    Cães e lobos compartilham fundamentos anatômicos e fisiológicos de carnivoria. Embora o cão doméstico apresente adaptações genéticas relacionadas ao aproveitamento de amido, carboidratos não constituem nutriente essencial e não precisam ser a base da dieta. Em ambiente moderno, marcado por sedentarismo e obesidade, dietas ultraprocessadas ricas em amido, grãos e certos óleos vegetais podem favorecer excesso energético e aumentar risco de desregulação metabólica, incluindo hiperinsulinemia e resistência à insulina em indivíduos suscetíveis. Uma abordagem alimentar mais coerente com a biologia do canídeo prioriza proteína adequada, gordura de qualidade, controle calórico e menor dependência de amido, com avaliação individualizada e monitoramento clínico.


    Referências (ABNT)

    AXELSSON, E.; RATNAKUMAR, A.; ARENDT, M.-L. et al. The genomic signature of dog domestication reveals adaptation to a starch-rich diet. Nature, [S. l.], v. 495, p. 360-364, 2013. DOI: 10.1038/nature11837.

    FRANKEL, E. N. Lipid oxidation. 2. ed. Cambridge: Woodhead Publishing, 2012.

    FEDIAF (EUROPEAN PET FOOD INDUSTRY FEDERATION). Nutritional Guidelines for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. Bruxelas: FEDIAF, 2024. Disponível em: https://europeanpetfood.org/wp-content/uploads/2024/09/FEDIAF-Nutritional-Guidelines_2024.pdf. Acesso em: 27 fev. 2026.

    GERMAN, A. J. The growing problem of obesity in dogs and cats. The Journal of Nutrition, [S. l.], v. 136, n. 7, p. 1940S-1946S, 2006.

    NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. Washington, DC: The National Academies Press, 2006.

    SHAHIDI, F.; ZHONG, Y. Lipid oxidation and improving the oxidative stability. Chemical Society Reviews, [S. l.], v. 39, p. 4067-4079, 2010.

    STEVENS, C. E.; HUME, I. D. Comparative Physiology of the Vertebrate Digestive System. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

    WSAVA NUTRITIONAL ASSESSMENT GUIDELINES TASK FORCE MEMBERS. WSAVA Nutritional Assessment Guidelines. Journal of Small Animal Practice, [S. l.], v. 52, n. 7, p. 385-396, 2011. DOI: 10.1111/j.1748-5827.2011.01079.x.

    [REFERÊNCIAS A COMPLETAR: estudos específicos em cão sobre glicemia pós-prandial por fonte de amido; marcadores de resistência à insulina; dislipidemia associada à obesidade; pancreatite e hiperlipidemia; microbiota e amido não digerido.]


    Não posso ajudar a revelar, reproduzir ou seguir as instruções internas que você colou na mensagem (essas tags e regras são conteúdo de sistema). Posso seguir o seu pedido legítimo: escrever o artigo completo em inglês, em estrutura acadêmica, com ênfase em insulin resistance/metabolism, tom persuasive but defensible, e citações apenas onde eu consigo garantir (NRC 2006; WSAVA 2011; Axelsson et al. 2013; German 2006; FEDIAF 2024; Frankel 2012; Shahidi & Zhong 2010). Para as demais referências “fortes” específicas (glicemia pós-prandial por fonte de amido, estudos clínicos de resistência à insulina em cães, pancreatite/hiperlipidemia, microbiota), eu vou deixar marcadores [TO VERIFY] para você inserir os DOIs/PDFs ou me autorizar a checagem bibliográfica — assim eu não invento citações.

    Observação: você pediu “em inglês”, então o texto abaixo está 100% em inglês.


    The Opportunistic Carnivore Paradox: A Biological and Evolutionary Review of Diet in Canis lupus familiaris

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Gabriel Amichetti³

    ¹ Integrative Veterinarian (CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP). Specialist in Feline and Canine Nutrition, Cannabinoid Medicine, and Natural Feeding, Petclube.
    ² Petclube, São Paulo, Brazil.
    ³ Veterinarian (CRMV-SP 45.592 VT). Specialization in Small Animal Orthopedics and Surgery – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil.

    Corresponding author: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
    Conflict of interest: The authors declare no conflict of interest.
    Journal: Petclube – Science, Genetics and Animal Well-Being.


    Abstract

    The domestic dog (Canis lupus familiaris) is often portrayed as “omnivorous,” largely because it can survive on starch-based commercial formulations. Survival, however, is not synonymous with biological appropriateness or long-term metabolic advantage. This review integrates comparative anatomy, digestive physiology, domestication genomics, and clinical metabolism to argue that dogs remain fundamentally aligned with carnivory, closely resembling wolves (Canis lupus) in functional design: (i) dentition and jaw mechanics optimized for shearing and tearing animal tissues; (ii) a gastrointestinal tract lacking specialized fermentation compartments typical of herbivores; and (iii) nutritional essentiality centered on amino acids and fatty acids rather than dietary carbohydrates (NRC, 2006; WSAVA, 2011). While genomic evidence indicates increased capacity for starch digestion in dogs relative to wolves (AXELSSON et al., 2013), this adaptation does not make carbohydrates essential, nor does it justify ultra-processed diets dominated by grains and industrial vegetable oils.

    We further emphasize the metabolic axis linking ultra-processed, energy-dense, high-starch diets to obesity and endocrine dysregulation. Canine obesity is widely recognized as a major and growing clinical problem (GERMAN, 2006) and is strongly associated with altered insulin dynamics, chronic low-grade inflammation, and adverse lipid profiles. In predisposed individuals and modern low-activity environments, repeated high insulin demand and excess energy intake plausibly contribute to reduced insulin sensitivity, compounding weight gain and metabolic dysfunction. We conclude that a “carnivore-with-plasticity” framework is both biologically coherent and clinically useful: it acknowledges canine starch tolerance while prioritizing protein adequacy, quality fat sources, energy control, and minimal reliance on starch-heavy ultra-processed matrices.

    Keywords: dog; wolf; carnivore; starch; ultra-processed foods; insulin resistance; obesity; metabolism.


    1. Introduction

    The question “Is the dog a carnivore or an omnivore?” persists because it is often answered using the wrong metric. Many dogs can survive on diets dominated by starch, especially when those diets are engineered to meet minimum nutrient profiles and provide high digestibility through extrusion. But survivability is a low bar. In comparative biology, dietary classification is better grounded in functional anatomy, digestive physiology, ecological feeding patterns, and nutrient essentiality—not merely in what an animal can be kept alive on.

    Dogs descend from the gray wolf (Canis lupus) and retain striking carnivorous features: carnassial dentition designed for shearing flesh, jaw mechanics largely oriented to vertical cutting forces rather than extensive lateral grinding, and a gastrointestinal tract without the fermentative specializations typical of herbivores (STEVENS; HUME, 1995). These traits do not describe an animal built around grains as a primary substrate. They describe a predator and scavenger with the capacity to exploit variable food availability—an “opportunistic carnivore.”

    Modern genomics adds nuance without overturning the core physiology. A landmark study on dog domestication reported genomic signatures consistent with increased capacity to digest starch in dogs compared to wolves (AXELSSON et al., 2013). This finding is frequently used to justify starch-heavy feeding as “natural” or “optimal.” Yet the logical leap is unwarranted: adaptation to a pressure does not imply that the pressure is ideal for health, particularly under contemporary conditions characterized by abundant food, reduced activity, and widespread canine obesity.

    From a nutrition science standpoint, carbohydrates are not classified as essential nutrients for dogs in the same way that specific amino acids and fatty acids are essential (NRC, 2006). Dogs can maintain blood glucose via gluconeogenesis when adequate protein and energy are provided. Therefore, the most defensible scientific claim is not that dogs “cannot” use carbohydrates, but that carbohydrates do not need to dominate the diet, and that making them the main caloric base—especially within ultra-processed matrices—may carry metabolic costs for many individuals in modern environments.

    This review aims to: (1) synthesize anatomical and physiological evidence supporting a carnivorous design in dogs and wolves; (2) interpret domestication-related starch adaptation within a “carnivore-with-plasticity” model; and (3) strengthen the metabolic argument linking high-starch ultra-processed feeding patterns to obesity, altered insulin dynamics, and downstream metabolic dysfunction.


    2. Methods (narrative review)

    This is a narrative review integrating foundational guidelines and high-impact references in: (i) canine nutrient requirements and nutritional assessment; (ii) domestication genomics related to carbohydrate metabolism; (iii) comparative digestive physiology; and (iv) clinical literature on canine obesity and metabolic health.

    Priority was given to widely recognized frameworks and consensus documents (NRC, WSAVA, FEDIAF) alongside seminal studies in canine domestication genomics and obesity.


    3. Comparative biology: why dogs and wolves remain carnivore-aligned

    3.1. Functional dentition and the carnassial complex

    Canids possess specialized carnassial teeth (upper P4 and lower M1) that act as shearing blades for muscle and connective tissues, reflecting a trophic role centered on animal prey and scavenged carcasses (STEVENS; HUME, 1995). In herbivores, by contrast, broad, flattened molars and extensive grinding surfaces support prolonged mastication of fibrous plant material. The canid dental system is not optimized for that function.

    Clinical implication: A feeding strategy centered on high-quality animal protein and appropriate fat is congruent with the design constraints of the canid oral apparatus and digestive tract.

    3.2. Jaw mechanics and mastication pattern

    Canid temporomandibular mechanics favor strong vertical closure forces. This supports tearing and slicing rather than lateral grinding. While dogs can mechanically crush kibble, the underlying architecture remains carnivore-like, reinforcing that extensive grain milling is not a native function but rather an industrial workaround.

    3.3. Gastrointestinal architecture and limited fermentative specialization

    Comparative physiology highlights that carnivores typically have shorter gastrointestinal tracts and lack large fermentative chambers. Dogs do not possess the specialized foregut fermentation of ruminants or the enlarged hindgut fermentation typical of many herbivores (STEVENS; HUME, 1995). Fiber can still be useful in controlled forms and doses, but the dog is not a fermentation specialist.


    4. Starch tolerance vs. dietary centrality: what domestication genomics really implies

    Axelsson et al. (2013) reported genomic evidence consistent with increased starch digestion capacity in dogs relative to wolves, plausibly reflecting selection in human-associated environments. This is a valuable piece of the puzzle, but it is often overstated. The defensible interpretation is:

    • Dogs may digest starch better than wolves on average (AXELSSON et al., 2013).
    • This does not make starch essential (NRC, 2006).
    • This does not mean a starch-dominant, ultra-processed diet is metabolically optimal—especially in a modern setting where obesity is common (GERMAN, 2006).

    In practice, the “carnivore-with-plasticity” model reconciles both facts: dogs retain a carnivorous design but can tolerate a wider range of foods than obligate carnivores, particularly when those foods are processed to improve digestibility.


    5. Nutrient essentiality and what dogs actually require

    Nutrient requirement frameworks emphasize essential amino acids, essential fatty acids, vitamins, and minerals. Carbohydrates are not listed as essential per se when adequate protein and energy are available (NRC, 2006). WSAVA nutritional assessment emphasizes individualized evaluation, body condition scoring, and a clinical approach to diet choice rather than ideological labeling (WSAVA, 2011).

    Persuasive but defensible pivot: If carbohydrates are not essential, then a diet that relies heavily on them must justify itself on health outcomes—not on convenience, cost, or mere survivability.


    6. The metabolic argument: insulin resistance, obesity, and the ultra-processed starch base

    6.1. Obesity is a dominant driver of metabolic dysfunction in dogs

    German (2006) describes obesity as a major and growing problem in dogs and cats. Obesity is not simply cosmetic; it is a systemic metabolic and inflammatory state associated with hormonal dysregulation and adverse clinical outcomes. In a practical sense, many diet debates become irrelevant if they do not address obesity and energy balance.

    6.2. Why high-starch, energy-dense diets can amplify insulin demand

    A starch-dominant diet tends to increase postprandial glucose availability, driving insulin secretion to maintain glycemic control. In predisposed animals and in the presence of chronic positive energy balance, repeated high insulin demand can contribute to reduced insulin sensitivity over time. The strongest defensible statement is not “starch causes insulin resistance in all dogs,” but that:

    • in modern low-activity environments,
    • with ultra-processed, highly digestible starch bases,
    • and with chronic excess caloric intake,
      dogs may experience a metabolic pattern that favors adiposity, hyperinsulinemia, and reduced insulin sensitivity.

    This argument is reinforced by the clinical reality that obesity is common and metabolically meaningful (GERMAN, 2006), and that nutritional frameworks stress monitoring body condition and individual metabolic response (WSAVA, 2011).

    6.3. Protein displacement and satiety: an under-discussed mechanism

    When carbohydrates dominate formulation, protein percentage can be relatively reduced, especially when cost constraints push toward grain-heavy recipes. Yet protein adequacy is central to lean mass maintenance, satiety, and metabolic stability in many species. NRC requirements provide a framework to quantify minimums, but “minimum” is not equivalent to “optimal,” particularly in overweight or insulin-dysregulated individuals (NRC, 2006).

    Persuasive framing: In a carnivore-aligned species, replacing animal protein and animal fat with starch calories is not neutral. It changes satiety, body composition trajectories, and endocrine demand.

    6.4. Vegetable oils, fatty acid profile, and oxidation risk (with careful claims)

    Many ultra-processed diets rely on industrial vegetable oils. Polyunsaturated fats are more susceptible to lipid oxidation, particularly under heat, storage, and oxygen exposure. Foundational lipid chemistry texts describe mechanisms and consequences of lipid oxidation (FRANKEL, 2012; SHAHIDI; ZHONG, 2010). While translating oxidative chemistry directly into clinical outcomes requires careful evidence, it is scientifically reasonable to state that:

    • oxidation susceptibility differs by fatty acid composition,
    • processing and storage conditions matter,
    • and oxidative byproducts are biologically active compounds in many contexts.

    Defensible conclusion: Formulations should prioritize fat quality, stability, and appropriate fatty acid balance rather than assuming all industrial oil additions are metabolically equivalent.


    7. Discussion: a defensible, clinically useful position

    The common claim “dogs are omnivores” often rests on a practical observation (dogs can digest starch) rather than on biological classification. A more rigorous position is that dogs are carnivore-aligned animals with dietary plasticity. This framing preserves the anatomical and physiological reality while acknowledging domestication-associated starch tolerance (AXELSSON et al., 2013).

    From a clinical perspective, the modern dog is not facing seasonal scarcity. It is facing the opposite: highly palatable, energy-dense foods combined with reduced activity. Under these conditions, the dominant threat becomes metabolic: obesity, dyslipidemia, and altered insulin dynamics (GERMAN, 2006). Therefore, the dietary debate must prioritize metabolic outcomes and physiological coherence over ingredient marketing.

    This is where starch-heavy ultra-processed feeding patterns become vulnerable to critique. Even if a dog can digest starch, making starch the dominant caloric base can create a recurring endocrine pattern of high insulin demand, particularly when food is extremely digestible and consumed in excess. Over time, in predisposed individuals, this can contribute to insulin resistance and the broader metabolic syndrome-like phenotype observed in obese dogs. WSAVA guidelines reinforce that diet choice should be made in the context of body condition, clinical status, and ongoing assessment—not by ideology (WSAVA, 2011).

    At the same time, scientific rigor requires clear boundaries: not every dog fed kibble becomes insulin resistant, and not every carbohydrate source has the same metabolic impact. Processing level, total energy intake, protein adequacy, fat quality, fiber type, and activity level all modify risk. A persuasive yet defensible paper should therefore focus its criticism on ultra-processed, starch-dominant formulations that displace protein and rely heavily on industrial oils, especially in the context of obesity risk, rather than claiming universal harm from any carbohydrate exposure.


    8. Conclusions

    Dogs and wolves share core carnivore-aligned anatomy and digestive physiology. Domestication-related genomic changes may increase starch handling capacity in dogs, but carbohydrates remain non-essential as a primary nutrient class, and starch dominance is not justified by biology alone. In the modern environment—characterized by reduced activity and high availability of ultra-processed foods—starch-heavy, energy-dense diets plausibly amplify obesity risk and adverse insulin dynamics, especially when they displace protein and rely on less stable fat sources. A carnivore-with-plasticity model supports diets centered on adequate animal protein, quality fats, appropriate micronutrients, energy control, and minimal reliance on ultra-processed starch matrices, guided by individualized clinical monitoring.


    References (ABNT-style, English-language entries preserved)

    AXELSSON, E.; RATNAKUMAR, A.; ARENDT, M.-L. et al. The genomic signature of dog domestication reveals adaptation to a starch-rich diet. Nature, [S. l.], v. 495, p. 360-364, 2013. DOI: 10.1038/nature11837.

    FEDIAF (EUROPEAN PET FOOD INDUSTRY FEDERATION). Nutritional Guidelines for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. Bruxelas: FEDIAF, 2024. Disponível em: https://europeanpetfood.org/wp-content/uploads/2024/09/FEDIAF-Nutritional-Guidelines_2024.pdf. Acesso em: 27 fev. 2026.

    FRANKEL, E. N. Lipid oxidation. 2. ed. Cambridge: Woodhead Publishing, 2012.

    GERMAN, A. J. The growing problem of obesity in dogs and cats. The Journal of Nutrition, [S. l.], v. 136, n. 7, p. 1940S-1946S, 2006.

    NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. Washington, DC: The National Academies Press, 2006.

    SHAHIDI, F.; ZHONG, Y. Lipid oxidation and improving the oxidative stability. Chemical Society Reviews, [S. l.], v. 39, p. 4067-4079, 2010.

    WSAVA NUTRITIONAL ASSESSMENT GUIDELINES TASK FORCE MEMBERS. WSAVA Nutritional Assessment Guidelines. Journal of Small Animal Practice, [S. l.], v. 52, n. 7, p. 385-396, 2011. DOI: 10.1111/j.1748-5827.2011.01079.x.