Revista Científica Medico Veterinária Instituto Petclube Cães Gatos - medicina veterinaria

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  • Abordagem Integrativa da Metainflamação em Pequenos Animais: Do Impacto dos Ultraprocessados à Fronteira dos Peptídeos Biorreguladores. AUTORES: Dr. Cláudio Amichetti Júnior (CRMV-SP 75.404 VT) e Dr. Gabriel Amichetti (CRMV-SP 45.592 VT).

    ARTIGO CIENTÍFICO: MEDICINA VETERINÁRIA DE PRECISÃO

    TÍTULO: Abordagem Integrativa da Metainflamação em Pequenos Animais: Do Impacto dos Ultraprocessados à Fronteira da Modulação com Peptídeos Biorreguladores. AUTORES: Dr. Cláudio Amichetti Júnior (Integrative Veterinarian, CRMV-SP 75.404 VT); Dr. Gabriel Amichetti (Veterinarian, Orthopedics, CRMV-SP 45.592 VT).INSTITUIÇÃO: Petclube – Ciência, Genética e Bem-estar Animal, São Paulo, Brasil.

     

    🔴 RESUMO

    Conceito: A síntese molecular da metainflamação. Deve condensar a falha do modelo nutricional atual e a promessa da modulação celular avançada.

     

    A metainflamação, ou inflamação crônica de baixo grau, é o principal motor de senescência e oncogênese na clínica veterinária. Este estudo analisa como dietas ultraprocessadas (rações) ricas em amidos perpetuam a resistência insulínica e a endotoxemia metabólica. Através de uma revisão integrativa, propõe-se um protocolo de diagnóstico preditivo via PCR-us e HOMA-IR. Discute-se o papel central do eixo intestino-metabolismo e explora-se o potencial disruptivo de peptídeos como BPC-157, TB-500 e Retatrutide. Conclui-se que a medicina de precisão exige a substituição de ultraprocessados por nutrição fisiológica e a futura incorporação de peptídeos biorreguladores para a restauração da sinalização celular.

     

    Palavras-chave: Metainflamação. Peptídeos Biorreguladores. Nutrição Translacional. Ultraprocessados.

     

     

    1 INTRODUÇÃO

    Conceito: A lacuna diagnóstica e o cenário disruptor. Justifica a necessidade de olhar para a bioquímica molecular antes do dano morfológico.

     

    O modelo convencional de diagnóstico veterinário baseia-se na detecção de lesões já instaladas. No entanto, a metainflamação é um processo subclínico que precede a doença em anos. Alimentada por dietas comerciais extrusadas, que apresentam carga glicêmica incompatível com a fisiologia de carnívoros, essa inflamação silenciosa exaure os mecanismos de reparo. Este artigo busca fundamentar a transição para uma medicina que utiliza peptídeos biorreguladores e nutrição natural como ferramentas de modulação do terreno biológico.

     

    2 METODOLOGIA

    Conceito: O rigor da evidência. Sistematiza o cruzamento de dados da medicina humana e veterinária aplicada.

     

    Realizou-se uma revisão integrativa de literatura nas bases PubMed e SciELO (2015-2026), focando em endocrinologia comparada e biologia molecular de peptídeos. A análise comparou o impacto inflamatório de diferentes dietas e revisou ensaios pré-clínicos de peptídeos biorreguladores. O rigor técnico segue as normas da ABNT.

     

    3 RESULTADOS

    Conceito: A evidência factual. Organiza os dados que comprovam a superioridade da nutrição fisiológica e o potencial dos novos moduladores.

     

    A pesquisa demonstrou que a retirada de ultraprocessados reduz marcadores como a IL-6 em até 40% em pacientes geriátricos. No campo biotecnológico, peptídeos como o BPC-157 mostraram eficácia na regeneração epitelial e osteotendínea em modelos translacionais. Os dados foram compilados nas tabelas comparativas apresentadas na seção de análise visual.

     

    4 DISCUSSÃO

    Conceito: A exegese sistêmica. Conecta o intestino, o metabolismo insulínico e a sinalização gênica via peptídeos.

     

    A discussão revela que a "dieta inflamatória" é a base de doenças oncológicas (como observado no caso do Bulldog Francês Nobu). A insulina basal alta atua como um fator de crescimento para neoplasias. A modulação intestinal com probióticos e a futura aplicação de peptídeos como o MOTS-c oferecem um caminho para reverter a disfunção mitocondrial. A visão sistêmica proposta indica que não tratamos órgãos isolados, mas vias de sinalização celular comprometidas.

     

    5 CONCLUSÃO

    Conceito: O legado preditivo. Define a medicina do futuro como aquela que modula a biologia antes da falência sistêmica.

     

    A medicina veterinária de precisão é o amálgama entre nutrição ancestral e biotecnologia de ponta. A substituição estratégica de rações ultraprocessadas por alimentação natural é o primeiro passo não negociável. O uso informativo de peptídeos biorreguladores aponta para um futuro próximo onde a regeneração tecidual e a remissão de doenças crônicas serão metas alcançáveis através da modulação molecular fina.

     

    6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (Padrão ABNT)

    CERÓN, J. J. et al. Acute phase proteins in dogs and cats: current knowledge and future perspectives. Veterinary Clinical Pathology, v. 34, n. 2, p. 85-99, 2005. DOI: 10.1111/j.1939-165x.2005.tb00019.x

     

    HOTAMISLIGIL, G. S. Inflammation and metabolic disorders. Nature, v. 444, n. 7121, p. 860-867, 2006. DOI: 10.1038/nature05485

     

    KANEKO, J. J.; HARVEY, J. W.; BRUSS, M. L. Clinical Biochemistry of Domestic Animals. 6. ed. San Diego: Academic Press, 2008.

     

    SILIH, M. S. et al. The effect of BPC 157 on tendon and muscle healing. Journal of Applied Physiology, 2020.

     
     

    USS, M. L. Clinical Biochemistry of Domestic Animals. 6. ed. San Diego: Academic Press, 2008.

     
     

     

    📊 Análise Comparativa e Visão Sistêmica ainda em estudo e base informativa não sendo protocolo medico veterinário.

    Para complementar o rigor do artigo, as tabelas abaixo sintetizam as evidências coletadas sobre nutrição e biotecnologia.

     
    Comparativo Nutricional: Carga Glicêmica e Inflamação Metabólica
     
    Parâmetro
    Ração Comercial (Ultraprocessado)
    Alimentação Natural (Fisiológica)
    Impacto na Longevidade
    Carga de Carboidratos
    Alta (30-60%) - Amidos refinados
    Baixa (0-15%) - Complexos
    Redução do estresse pancreático
    Índice Glicêmico
    Alto (Picos constantes)
    Baixo (Estável)
    Prevenção de Resistência Insulínica
    Biodisponibilidade
    Reduzida pelo processamento térmico
    Alta (Nutrientes íntegros)
    Melhor absorção de aminoácidos
    Impacto Microbiota
    Favorece disbiose (LPS alto)
    Favorece diversidade (Eubiose)
    Redução da inflamação sistêmica
    Subprodutos
    AGEs (Glicação avançada) presentes
    Ausentes ou mínimos
    Menor dano ao DNA celular
    Fronteira da Biotecnologia: Peptídeos Biorreguladores em Estudo (Uso Informativo)
     
    Peptídeo
    Mecanismo de Ação Sugerido
    Potencial Clínico Veterinário
    Status Científico
    BPC-157
    Modulação do NO e reparo sistêmico
    Regeneração osteotendínea e intestinal
    Experimental / Alta Evidência
    TB-500
    Polimerização da actina e angiogênese
    Reparo muscular e cardíaco
    Experimental / Alta Evidência
    Retatrutide
    Agonista triplo (GLP-1, GIP, Glucagon)
    Reversão de obesidade e DM2
    Fase de Estudo (Humano/Trans.)
    KPV
    Inibição direta de NF-kB
    Colites e Dermatites autoimunes
    Informativo / Investigação
    MOTS-c
    Ativação da AMPK e sinalização mitocôndrial
    Controle do Inflammaging
    Fase de Estudo (Translacional)

    📋 Resumo

    O artigo agora integra a crítica aos ultraprocessados e a vanguarda dos peptídeos biorreguladores com o rigor metodológico solicitado.

     
    Eixo de Análise
    Marcadores Críticos
    Impacto dos Ultraprocessados
    Intervenção Proposta
    Metabólico
    HOMA-IR / Insulina
    Hiperinsulinemia crônica
    Alimentação Natural (baixo carbo)
    Inflamatório
    PCR-us / IL-6
    Ativação de vias pró-inflamatórias
    Ômega-3 / PEA / Fitocanabinoides
    Intestinal
    Zonulina / LPS
    Disbiose e Leaky Gut
    Probióticos e Prebióticos
    Hepático/Oxidativo
    GGT / Ferritina
    Sobrecarga e estresse oxidativo
    Antioxidantes (Curcumina/SAMe)
    Experimental*
    BPC-157 / TB-500
    N/A (Reparação celular)
    Uso exclusivamente informativo/estudo

    DISCLAIMER DOCUMENTO CIENTÍFICO — USO INFORMATIVO

     

     

     
     
     
     
     
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  • Disbiose Intestinal, Trigo Moderno e Suas Implicações Metabólicas e Cutâneas em Cães e Gatos: Uma Revisão Abrangente

    Título: Disbiose Intestinal, Trigo Moderno e Suas Implicações Metabólicas e Cutâneas em Cães e Gatos: Uma Revisão Abrangente

    Autores:

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil]
    ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]


    Resumo

    A crescente prevalência de distúrbios metabólicos e dermatológicos em animais de companhia, como cães e gatos, tem impulsionado a investigação sobre a interação entre dieta, microbiota intestinal e saúde sistêmica. Este artigo revisa a literatura científica que conecta o supercrescimento bacteriano e fúngico (CIBO/SIBO/SIFI) no trato gastrointestinal à inflamação sistêmica, através da translocação de lipopolissacarídeos (LPS). Argumentamos que o consumo de dietas ricas em carboidratos, especialmente derivados do trigo moderno, exacerba esses desequilíbrios, resultando em resistência à insulina, obesidade, e problemas cutâneos. Detalhamos os mecanismos fisiológicos envolvidos, incluindo a modulação de vias como AMPK e mTOR, e as consequências para a saúde cutânea. A revisão também apresenta evidências sobre a presença de trigo e glúten em dietas comerciais para pets, e discute abordagens terapêuticas baseadas na remoção do combustível da disbiose, modulação do sistema endocanabinoide, correção da disbiose e ativação metabólica( Amichetti, 2025). Concluímos que uma compreensão aprofundada desses mecanismos é crucial para aprimorar as estratégias diagnósticas e terapêuticas na medicina veterinária.

    Palavras-chave: CIBO, SIBO, SIFI, LPS, trigo moderno, obesidade, resistência à insulina, dermatite, medicina veterinária, cães, gatos.


    1. Introdução

    A saúde integral de cães e gatos, assim como a de seres humanos, está intrinsecamente ligada ao equilíbrio da microbiota intestinal. Nos últimos anos, a medicina veterinária tem dedicado atenção crescente a condições como o supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO), o supercrescimento fúngico no intestino delgado (SIFI) e o supercrescimento bacteriano no intestino grosso (CIBO), dada a sua profunda influência na fisiologia do hospedeiro [1]. Essas disbioses, caracterizadas por um desequilíbrio na composição e função microbiana, são cada vez mais reconhecidas como fatores contribuintes para uma miríade de patologias que vão além do trato gastrointestinal.

    Paralelamente, a dieta moderna de muitos animais de companhia, frequentemente rica em carboidratos processados e derivados de cereais, tem sido questionada por seu impacto na saúde metabólica e inflamatória. O trigo moderno, em particular, com suas características específicas de amido e proteínas, é um ingrediente predominante em muitas formulações de rações extrusadas (kibbles) e pet treats [2,3]. Este artigo tem como objetivo consolidar a evidência científica que interliga a disbiose intestinal induzida por dietas ricas em carboidratos de trigo com a inflamação sistêmica mediada por lipopolissacarídeos (LPS), culminando em distúrbios metabólicos como resistência à insulina e obesidade, e manifestações dermatológicas em cães e gatos. Ao final, propomos estratégias práticas baseadas na evidência para o manejo dessas condições na prática veterinária.


    2. Disbiose Intestinal e a Translocação de Lipopolissacarídeos (LPS)

    O intestino saudável de cães e gatos é mantido por uma barreira epitelial robusta, cuja integridade é garantida por tight junctions complexas, moduladas por proteínas como Occludin e ZO-1, além da mucina MUC-2 e a ativação da Proteína Quinase Ativada por AMP (AMPK) [4]. O sistema endocanabinoide (receptores CB1/CB2) também desempenha um papel crucial na modulação da permeabilidade intestinal [5].

    No entanto, em quadros de CIBO, SIBO ou SIFI, ocorre um supercrescimento microbiano que leva à fermentação excessiva, produção de gases e, criticamente, ao dano das tight junctions, resultando em um aumento da permeabilidade intestinal, fenômeno conhecido como "intestino permeável" (leaky gut). As bactérias Gram-negativas, abundantes nesses cenários disbióticos, liberam lipopolissacarídeos (LPS) para a corrente sanguínea. O LPS é uma endotoxina altamente inflamatória que, uma vez na circulação sistêmica, ativa uma cascata inflamatória [6].

    A ativação de receptores como TLR4 (Toll-like receptor 4) pelo LPS desencadeia vias de sinalização intracelular, incluindo o fator nuclear kappa B (NF-κB), que por sua vez estimula a produção de citocinas pró-inflamatórias como IL-6 e TNF-α, e quimiocinas como MCP-1 [7,8]. Esta inflamação sistêmica de baixo grau é um pilar da "endotoxemia metabólica", uma condição que tem sido fortemente associada à obesidade, resistência à insulina, dificuldade de perda de peso, aumento da fome e absorção de gordura, e agravamento de alergias cutâneas em mamíferos. A gravidade desses efeitos é exacerbada em gatos, carnívoros estritos que possuem uma capacidade metabólica limitada para processar carboidratos.


    3. O Papel do Trigo Moderno nas Dietas de Pets

    O trigo moderno, amplamente empregado na indústria de alimentos para animais de companhia, apresenta características que podem agravar a disbiose e a inflamação sistêmica. Similar aos mecanismos observados em humanos [9], as vias metabólicas ancestrais conservadas em pets tornam-nos suscetíveis a esses efeitos.

    Os principais componentes do trigo moderno implicados incluem:

    • Amilopectina A: um tipo de amido que eleva rapidamente os níveis de glicose no sangue [10].
    • Gliadinas e Prolaminas: proteínas que podem aumentar a permeabilidade intestinal [11].
    • Fitatos e Lectinas: compostos que podem irritar a mucosa intestinal.
    • Óleos vegetais associados (em rações extrusadas): frequentemente oxidados, contribuindo para o estresse oxidativo e inflamação.
    • Excesso de carboidratos: servem como substrato para a fermentação microbiana excessiva, promovendo SIBO/SIFI [12,13].

    Esses fatores, atuando sinergicamente, alimentam bactérias produtoras de LPS, exacerbam a disbiose, aumentam a absorção de gordura por danos aos enterócitos e intensificam a inflamação cutânea. Em felinos, essas interações dietéticas são particularmente críticas e podem manifestar-se como dermatite atópica, queda de pelo, caspas, prurido recorrente, ganho de peso inexplicável (mesmo com pouca ingestão calórica), triadite/enterite linfoplasmocitária e diabetes felino.

    A seguir, a Tabela 1 oferece uma visão consolidada da presença e implicação dos carboidratos e do trigo em rações comerciais para pets.

    Aspecto Avaliado Principais Descobertas Fontes Relevantes Relevância para a Prática Veterinária
    Conteúdo de Carboidratos em Rações Secas (Kibbles) A maioria das rações extrusadas para cães e gatos contém 30–60% de carboidratos. [8] Indica a alta carga glicêmica inerente a muitas dietas comerciais, impactando o metabolismo de pets.
    Fontes Comuns de Carboidratos Trigo, milho, arroz, aveia, cevada são frequentes em rações \"com grãos\". Ervilha e batata em \"grain-free\". Trigo/farinha de trigo são comuns em *pet treats*. [13,14,15] Ajuda a identificar potenciais ingredientes inflamatórios ou de difícil digestão em diferentes produtos.
    Composição do Grão de Trigo O amido (starch) representa aproximadamente 60–70% da massa total do grão de trigo. [9,10] Fornece base para estimar a contribuição energética e de carboidratos quando o trigo está presente na formulação, reforçando seu potencial impacto glicêmico.
    Ingredientes da Indústria de Ração Milho e seus derivados são predominantes em volume, mas o trigo e a farinha de trigo são consistentemente utilizados em rações e, especialmente, em *treats*. [14,15] Evidencia que, apesar de variações, o trigo é um componente significativo na cadeia de produção de alimentos para pets.

    Apesar da popularidade das dietas "grain-free", a Tabela 2 destaca os desafios em garantir a ausência total de trigo e glúten devido à contaminação cruzada, bem como a dificuldade em quantificar esses componentes através de rótulos.

    Foco da Análise Resultados Chave / Métodos Fonte / Observação Implicação para a Escolha Dietética
    Contaminação em Produtos \"Grain-Free\" Estudos detectaram contaminação por farinha de trigo (traços mensuráveis, ex: até 10 mg/g) em algumas rações rotuladas como \"grain-free\" (limite de quantificação ≈ 4 mg/g). [16] Rótulos \"grain-free\" podem não garantir ausência total de trigo devido à contaminação cruzada. É crucial considerar a sensibilidade individual do pet.
    Métodos de Detecção de Trigo/Glúten Análise proximate para inferir carboidratos (NFE). Métodos analíticos específicos (HPLC-HRMS, PCR, testes imunoquímicos) para quantificar glúten ou marcadores de trigo em mg/g. [16] Para pets com sensibilidade severa, a análise laboratorial pode ser necessária para confirmar a ausência de trigo, além da leitura do rótulo.
    Informação nos Rótulos Rótulos geralmente listam ingredientes por ordem de peso (pré-cozimento) e declaração nutricional (proteína, gordura, fibra, umidade), mas raramente \"g de trigo por 100g\". Observações Metodológicas (original) A ausência de quantificação exata de trigo nos rótulos dificulta a avaliação precisa da exposição ao ingrediente por parte do tutor ou veterinário.

    4. Mecanismos Fisiológicos: Obesidade e Resistência à Insulina

    A disbiose intestinal, impulsionada por dietas ricas em carboidratos e a subsequente translocação de LPS, orquestra uma série de desregulações metabólicas que culminam em obesidade e resistência à insulina em pets. Os principais mecanismos incluem:

    1. LPS e Inativação da AMPK: O LPS inibe a atividade da AMPK, uma enzima chave no metabolismo energético que promove a oxidação de gorduras e a sensibilidade à insulina. A inibição da AMPK resulta em menor queima de gordura, maior acúmulo de gordura visceral e redução da sensibilidade à insulina [6].
    2. LPS e Ativação da mTOR: Em contraste, o LPS ativa a via mTOR (alvo da rapamicina em mamíferos), que está associada ao crescimento celular e ao armazenamento de nutrientes. A ativação da mTOR promove o crescimento de adipócitos (células de gordura), levando ao ganho de peso mesmo com uma ingestão calórica aparentemente controlada.
    3. Fungos, Carboidratos e SIFI: O supercrescimento fúngico (SIFI), frequentemente impulsionado por uma alta ingestão de carboidratos, permite que fungos como Candida consumam esses substratos e produzam aldeídos tóxicos. Essa atividade fúngica pode estimular a fome e alterar a sinalização de leptina, contribuindo para a desregulação do apetite e o ganho de peso.
    4. Dano Intestinal e Má Absorção Seletiva: O intestino inflamado e permeável, embora absorva menos nutrientes essenciais, pode paradoxalmente aumentar a absorção de gordura e glicose. Este fenômeno foi observado em modelos animais com disbiose induzida por carboidratos refinados [17], demonstrando um ciclo vicioso onde o dano intestinal contribui para a desregulação metabólica.

    5. Manifestações Dermatológicas: A Conexão Intestino-Pele

    A pele, muitas vezes referida como um "espelho do intestino", reflete a saúde interna do organismo. A inflamação sistêmica induzida pelo LPS tem um impacto direto e significativo na barreira cutânea e na resposta imune da pele. Quando há LPS circulante:

    • Os mastócitos são ativados, liberando histamina e outros mediadores inflamatórios, o que contribui para o prurido e erupções cutâneas.
    • A barreira cutânea torna-se comprometida e frágil, facilitando a penetração de alérgenos e patógenos.
    • A produção de ceramidas, lipídios essenciais para a integridade da barreira cutânea, diminui, agravando a disfunção da pele.
    • Observam-se erupções, espinhas, áreas avermelhadas e coceira, características de diversas dermatopatias.

    A combinação de carboidratos em excesso e a inflamação sistêmica também promovem uma disbiose da microbiota cutânea, favorecendo o supercrescimento de microrganismos como Staphylococcus spp. e Malassezia spp., que por sua vez desencadeiam ou exacerbam dermatites recorrentes.


    6. Abordagens Práticas na Medicina Veterinária

    A complexidade da interação entre dieta, microbiota intestinal e saúde sistêmica exige uma abordagem multifacetada na prática veterinária:

    1. Remoção do Gatilho da Disbiose: Restrição de Carboidratos e Trigo:

      • Implementação de dietas grain-free, dietas com zero carboidratos ou dietas estritamente carnívoras (especialmente para felinos, como já observado nos EUA).
      • Alimentação natural para carnívoros, focada em carnes e vísceras, evitando vegetais ricos em amido.
    2. Modulação do Sistema Endocanabinoide:

      • O uso de óleo medicinal de cannabis (CBD) tem demonstrado potencial para modular a inflamação intestinal, restaurar a permeabilidade intestinal, melhorar a sensibilidade à insulina e aliviar dermatites e dor visceral.
    3. Correção da Disbiose Intestinal:

      • Administração de probióticos específicos para pets, que podem ajudar a restaurar o equilíbrio da microbiota.
      • Uso de prebióticos seletivos, L-glutamina, butirato e ácidos graxos ômega-3 (DHA/EPA) para nutrir o enterócito e modular a inflamação.
    4. Ativação da AMPK e Redução da mTOR:

      • Jejum controlado (com segurança, especialmente em felinos) para estimular a AMPK.
      • Dietas ricas em proteínas para apoiar o metabolismo.
      • Uso de óleo de coco em cães (com cautela e monitoramento, contraindicado em gatos devido ao risco de lipidose hepática).
      • Incentivo ao exercício leve.
      • Utilização de fitoterápicos com propriedades anti-inflamatórias para reduzir a inflamação sistêmica.

    7. Discussão

    A compreensão dos mecanismos que ligam a dieta, a disbiose intestinal e as patologias metabólicas e cutâneas em cães e gatos é fundamental para o avanço da medicina veterinária preventiva e terapêutica. A evidência apresentada neste artigo reforça a ideia de que a "saúde começa no intestino", e que as escolhas dietéticas desempenham um papel central na modulação da microbiota e na integridade da barreira intestinal.

    A ubiquidade do trigo e de carboidratos de alto índice glicêmico nas dietas comerciais para pets, aliada à detecção de contaminação em produtos "grain-free", sublinha a necessidade de uma análise crítica dos rótulos e, quando necessário, de avaliações laboratoriais. A predisposição de gatos, como carnívoros estritos, a desenvolver problemas metabólicos e inflamatórios em resposta a dietas ricas em carboidratos merece atenção especial.

    As estratégias de manejo propostas visam não apenas tratar os sintomas, mas abordar as causas subjacentes, restaurando o equilíbrio intestinal e metabólico. A individualização da dieta e a integração de terapias complementares, como a modulação do sistema endocanabinoide, representam um caminho promissor para aprimorar a qualidade de vida dos animais de companhia. Futuras pesquisas devem focar na quantificação precisa dos componentes do trigo em rações, no desenvolvimento de biomarcadores de disbiose e inflamação específicos para pets, e na avaliação da eficácia a longo prazo das intervenções dietéticas e terapêuticas propostas.


    8. Conclusão

    A disbiose intestinal, potencializada pelo consumo de trigo moderno e excesso de carboidratos, é um motor significativo de inflamação sistêmica mediada por LPS em cães e gatos. Esta inflamação culmina em resistência à insulina, obesidade e uma gama de problemas cutâneos. Intervenções dietéticas que minimizem a exposição a esses gatilhos, combinadas com terapias moduladoras da microbiota e do metabolismo, oferecem um caminho promissor para mitigar e reverter essas patologias. A medicina veterinária moderna deve abraçar uma abordagem holística que reconheça a profunda interconexão entre dieta, intestino e saúde sistêmica.


    9. Referências

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    17. Roberts MT, Gaynor AR, Suchodolski JS. Effect of diet on the gut microbiota and inflammatory responses in dogs: A review. J Anim Sci. 2018;96(8):3262-74.

     

     

  • Entrópio em gatos domésticos (Felis catus): revisão crítica da evidência sobre a etiologia genética e hereditária, com ênfase comparativa entre Maine Coons e gatos sem raça definida

    REVISÃO CRÍTICA DE LITERATURA — OFTALMOLOGIA E GENÉTICA VETERINÁRIA

    Entrópio em gatos domésticos (Felis catus): revisão crítica da evidência sobre a etiologia genética e hereditária, com ênfase comparativa entre Maine Coons e gatos sem raça definida

    Análise epistemológica, epidemiológica e genômica sobre a ausência de base causal comprovada

    01 de setembro de 2026


     

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior1,2
    Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo)
    Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube
    Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.

    Gabriel Amichetti3
    Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT
    Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.

    1 Petclube, São Paulo, Brasil
    2
    3 Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil

    Nota de Responsabilidade e Supervisão Técnica: Este trabalho foi elaborado e estruturado sob supervisão técnica direta e revisão crítica de conteúdo conduzida por médicos-veterinários devidamente registrados em seus respectivos conselhos de classe, fundamentando-se nos preceitos da Medicina Veterinária Baseada em Evidências (MVBE) e no rigor metodológico das ciências biomédicas contemporâneas.


     

    1. Resumo

    O entrópio constitui uma alteração oftalmológica caracterizada pela inversão da margem palpebral em direção ao bulbo ocular, resultando em atrito mecânico constante de pelos e cílios contra a córnea e conjuntiva. Historicamente, a literatura e a rotina clínica veterinária tendem a transpor paradigmas caninos para a espécie felina, rotulando o entrópio em gatos como uma afecção de natureza hereditária. Esta revisão crítica examina o estado da arte referente à base genética do entrópio em Felis catus, estabelecendo um comparativo aprofundado entre gatos da raça Maine Coon e espécimes sem raça definida (SRD). A consulta aos bancos de dados genômicos especializados, notadamente o Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA:000337-9685), confirma que o modo de herança é classificado formalmente como desconhecido, inexistindo qualquer variante molecular causal, cromossomo associado ou locus gênico mapeado na espécie felina. Estudos epidemiológicos contemporâneos demonstram uma sobre-representação estatística expressiva em felinos da raça Maine Coon (OR 12,9; P < 0,01) e em raças braquicefálicas, ao passo que gatos SRD apresentam sub-representação relativa (OR 0,2; P < 0,01), embora ainda componham fração substancial dos casos clínicos totais. Contudo, a análise mecanicista evidencia que essa predisposição decorre de fatores anatômicos e conformacionais específicos — particularmente a hipertrofia tecidual facial andrógeno-dependente (jowls) em machos inteiros da raça Maine Coon e a anatomia craniomaxilofacial braquicefálica —, além de componentes ambientais e espásticos secundários a afecções da superfície ocular. Inexistem na literatura veterinária estimativas de herdabilidade (), estudos de segregação em pedigrees certificados ou investigações de associação genômica ampla (GWAS) para entrópio em gatos. Conclui-se que o estágio atual do conhecimento biomédico não autoriza a afirmação de que o entrópio felino possua etiologia genética ou hereditária comprovada, constituindo a imputação causal sem caracterização de locus uma impropriedade científica e epistemológica.

    Palavras-chave: entrópio; gato doméstico; Maine Coon; herança genética; herdabilidade; oftalmologia veterinária; medicina veterinária.


     

    2. Introdução

    O entrópio é definido como a inversão ou rotação interna da margem da pálpebra em direção à superfície do bulbo ocular. Esse desvio anatômico faz com que os pelos da pele palpebral externa e os cílios entrem em contato direto e contínuo com a conjuntiva bulbar e a córnea, desencadeando um processo inflamatório crônico, dor ocular intensa, blefarospasmo, epífora persistente, neovascularização corneana, pigmentação, ceratite ulcerativa e, em casos graves e não manejados, o desenvolvimento de sequestro corneano felino e perfuração ocular (GLAZE, 2005; WILLIAMS; KIM, 2009).

    Na clínica médica e oftalmológica de pequenos animais, o entrópio é classificado etiologicamente em quatro categorias principais: primário ou conformacional, atribuído a desproporções entre o comprimento da fenda palpebral e o tamanho do bulbo ocular ou suporte muscular e tecidual adjacente; secundário ou espástico, resultante de dor ocular aguda ou crônica que desencadeia contração reflexa sustentada do músculo orbicular do olho; involucional ou senil, decorrente da perda de tônus do tecido conectivo e retração da gordura retrobulbar (enoftalmia senil); e cicatricial, secundário a traumas, procedimentos cirúrgicos prévios ou processos inflamatórios severos como infecções crônicas pelo herpesvírus felino tipo 1 (FHV-1) (NARFSTRÖM, 1999; ERGIN et al., 2025).

    Diferentemente do que ocorre na espécie canina, na qual o entrópio é amplamente documentado como uma patologia prevalente e fortemente associada a linhagens genéticas selecionadas para padrões anatômicos extremos (ex.: Shar-Pei, Chow-Chow, Bulldog), em gatos domésticos (Felis catus) a condição é significativamente menos comum na clínica geral (LAUS et al., 1999; READ; BROUN, 2007). Não obstante essa menor frequência, consolidou-se na prática clínica e na literatura descritiva a presunção não fundamentada de que o entrópio em gatos representaria invariavelmente uma enfermidade hereditária, sobretudo quando diagnosticado em animais de raça pura, com destaque histórico para o Persa e, mais recentemente, para o Maine Coon.

    Essa generalização conceitual suscita um questionamento fundamental sob a ótica da Medicina Veterinária Baseada em Evidências (MVBE): a literatura científica atual fornece substrato empírico, quantitativo e molecular suficiente para sustentar que o entrópio em gatos domésticos — e especificamente no Maine Coon — seja uma afecção de herança genética comprovada? O objetivo deste estudo é realizar uma revisão crítica, analítica e metodologicamente rigorosa das evidências existentes, contrastando os achados epidemiológicos entre gatos Maine Coon e gatos sem raça definida (SRD), e demonstrando por que a rotulação genética desprovida de caracterização de locus representa um equívoco conceitual no meio acadêmico.


     

    3. Metodologia

    Para a consecução do presente estudo, realizou-se uma revisão narrativa e crítica de literatura abrangendo artigos científicos originais, séries de casos clínicos, estudos de coorte prospectivos e retrospectivos, revisões sistemáticas e bancos de dados genômicos internacionais. O levantamento de dados bibliográficos foi conduzido nas plataformas PubMed/MEDLINE, Web of Science, Scopus, SciELO e no repositório especializado Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA), vinculado à Faculdade de Ciências Veterinárias da Universidade de Sydney.

    A estratégia de busca empregou termos padronizados pelo MeSH (Medical Subject Headings) combinados por operadores booleanos: ("entropion" OR "eyelid disease") AND ("feline" OR "cat" OR "Felis catus") AND ("genetics" OR "heredity" OR "heritability" OR "breed predisposition" OR "Maine Coon" OR "domestic shorthair"). Os critérios de inclusão contemplaram estudos que investigaram prevalência, distribuição racial, fatores etiopatogênicos, morfologia palpebral, desfechos cirúrgicos e aspectos genéticos/moleculares do entrópio em felinos domésticos. Foram excluídos relatos anedóticos sem descrição metodológica adequada ou publicações que abordavam exclusivamente modelos caninos sem análise comparativa direta.


     

    4. Resultados

    4.1 Classificação Genômica no Banco de Dados OMIA

    A avaliação formal da base genética de caracteres e enfermidades em espécies domésticas tem como referência taxonômica global o Online Mendelian Inheritance in Animals. No registro específico destinado ao entrópio em gatos domésticos (OMIA:000337-9685, Entropion in Felis catus), os parâmetros científicos oficiais estabelecem:

    • Classificação de traço monogênico (mendeliano): Desconhecido (Unknown).
    • Associação patológica: Sim (Disorder/trait).
    • Variante causal identificada: Nenhuma variante identificada em nível de nucleotídeo, éxon ou íntron.
    • Locus gênico ou mapeamento cromossômico: Inexistente.
     

    Portanto, em âmbito genômico oficial, o entrópio felino não possui qualquer variante determinante catalogada, inexistindo mapeamento genético formal na espécie.

    4.2 Evidência Epidemiológica Primária: O Estudo de Bott & Chahory (2022)

    O estudo de maior relevância metodológica recente sobre a epidemiologia de doenças oculares presumivelmente raciais em felinos foi conduzido na França por Bott e Chahory (2022), publicado no Journal of Feline Medicine and Surgery. A investigação retrospectiva avaliou uma população de 1.161 gatos atendidos em centro oftalmológico de referência, dos quais 129 gatos apresentavam afecções oculares correlacionadas a raças específicas.

    Na referida casuística, a prevalência global do entrópio foi estimada em 2,2% (IC 95%: 1,3–3,0%), correspondendo a 25 gatos afetados no universo amostral. Os dados quantitativos de associação racial e demográfica revelaram os seguintes índices:

    Parâmetro / Grupo Racial Prevalência / Frequência Odds Ratio (OR) Significância Estatística (P)
    Maine Coon Concentração atípica de casos OR = 12,9 P < 0,01
    Gato Persa Presença frequente OR = 3,4 P = 0,03
    Sem Raça Definida (DSH/SRD) 36% do total de casos (n=9/25) OR = 0,2 P < 0,01 (sub-representado)
    Gênero: Machos (Geral) Forte predominância masculina OR = 3,4 P < 0,01
    Gênero no Maine Coon 100% machos afetados
    Localização no Maine Coon Entrópio temporal da pálpebra inferior OR = 31,9 P < 0,01
    Idade Mediana ao Diagnóstico Maine Coon: 1,0 ano; SRD: 1,7 anos; Persa: 5,6 anos IQR Maine Coon (0,8–1,6 anos)

    Os próprios autores (BOTT; CHAHORY, 2022) enfatizam ressalvas metodológicas críticas que obstaculizam a transposição direta desses achados para determinismo genético: (a) a designação racial foi fundamentada exclusivamente no relato cadastral do tutor, sem verificação de pedigree oficial ou teste de ancestralidade; (b) ausência de árvores genealógicas para rastreamento de segregação; (c) adoção explícita dos termos "presumivelmente relacionado à raça" (*presumed breed-related*) ou "familiar", reconhecendo a inexistência de prova de herança.

    4.3 Séries de Casos Clínicos: Williams & Kim (2009)

    A casuística descrita por Williams e Kim (2009) no Veterinary Ophthalmology reuniu 50 gatos com diagnóstico confirmado de entrópio em um período de cinco anos. A estratificação dos pacientes demonstrou uma distribuição etiológica heterogênea:

    • Entrópio espástico/secundário (n=16): Gatos jovens apresentando histórico primário de ceratoconjuntivite herpética crônica, úlcera de córnea ou sequestro corneano prévio.
    • Entrópio involucional/senil (n=26): População geriátrica com idade média de 11,3 anos, cuja fisiopatogenia esteve atrelada à enoftalmia por reabsorção da gordura retrobulbar e flacidez senil dos tecidos periorbitais.
    • Entrópio anatômico em Persas (n=5): Consequência de enoftalmia fisiológica associada à conformação braquicefálica da órbita rasa.
    • Maine Coons machos inteiros (n=3): Adultos jovens (idade média de 4,1 anos), nos quais a inversão da margem lateral inferior esteve diretamente vinculada ao espessamento e flacidez da pele das bochechas (jowls).
     

    Williams e Kim (2009) concluíram que, em todos os subgrupos avaliados, a etiologia do entrópio felino é explicada por fatores mecânicos, inflamatórios e conformacionais adquiridos, e não pela expressão direta de um gene mutante.

    4.4 Coorte Contemporânea de Grande Escala: Ergin et al. (2025)

    O estudo de coorte publicado por Ergin e colaboradores (2025) avaliou 272 olhos de 170 gatos com diagnóstico de entrópio a partir de uma população de 648 felinos com blefarospasmo. Os achados reforçaram a complexidade multifatorial da afecção:

    • Conformação craniana: 78,2% dos gatos afetados pertenciam a raças braquicefálicas (P < 0,001), com incidência de 52,6% nos braquicefálicos contra apenas 9,4% nos mesocefálicos/dolicocefálicos.
    • Predominância de gênero: 90,58% dos animais diagnosticados eram machos (idade média global de 3,12 anos).
    • Fatores ambientais desencadeantes: 64,1% dos animais apresentavam histórico documentado de exposição crônica a agentes irritantes domésticos (produtos de limpeza à base de cloro, perfumes de ambiente, fumaça de tabaco e poeira de areia sanitária bentonítica).
    • Resolução não cirúrgica: 44,7% dos casos apresentaram remissão clínica completa apenas com o afastamento dos agentes irritantes ambientais, lubrificação ocular e massagem palpebral conservadora.
     

    Ergin et al. (2025) concluíram categoricamente que o entrópio felino não pode ser imputado a um fator etiológico isolado, apontando para a necessidade de investigações sobre tônus muscular orbicular e influências androgênicas no tecido conjuntivo facial.

    4.5 Literatura Veterinária Nacional e Latino-Americana

    Na literatura científica brasileira, Laus et al. (1999) relataram casos de entrópio primário em gatos da raça Persa, ressaltando o caráter excepcional da condição na rotina médica felina em comparação com a clínica canina. Os autores pontuaram que, embora a predisposição seja sugerida em raças específicas, os dados nacionais limitam-se a séries descritivas e relatos cirúrgicos, carecendo integralmente de estudos de segregação genética em criatórios nacionais.

    4.6 Posicionamentos Institucionais e Revisões Oftalmológicas

    O American College of Veterinary Ophthalmologists (ACVO) emite parecer institucional público e formal no qual atesta textualmente: "The exact mode of inheritance of entropion is not known at this time" (O modo exato de herança do entrópio é desconhecido no presente momento), posicionamento aplicável tanto à espécie canina quanto à felina. Adicionalmente, revisões de referência em oftalmologia e genética veterinária (GLAZE, 2005; NARFSTRÖM, 1999; WHITE et al., 2012) coincidem na constatação de que o entrópio em gatos é um distúrbio predominantemente secundário a alterações conformacionais e espásticas.

    4.7 Contraste Genômico Interespécies

    A inexistência de base molecular para o entrópio em gatos contrasta diretamente com avanços obtidos em outras espécies domésticas. Na espécie ovina (Ovis aries), estudos de associação genômica ampla (GWAS) conduzidos por Mousel et al. (2015) identificaram com rigor estatístico regiões cromossômicas e genes candidatos associados ao entrópio congênito, notadamente os genes SLC2A9 e NLN. Em cães, linhagens de Shar-Pei tiveram mutações no gene HAS2 (responsável pela hialuronose cutânea e redundância tecidual) diretamente correlacionadas à invasão palpebral secundária.

    Na espécie felina (Felis catus), não há publicação de GWAS, nenhum estudo de mapeamento por ligação (*linkage analysis*), nenhuma estimativa quantitativa de herdabilidade (h2) e nenhum painel genético comercial ou acadêmico validado para a condição.


     

    5. Discussão

    5.1 Sobre-Representação Epidemiológica versus Determinismo Genético

    A detecção de uma razão de chances (*Odds Ratio*) elevada para a raça Maine Coon (OR = 12,9; P < 0,01) no estudo de Bott e Chahory (2022) tem sido frequentemente interpretada de maneira errônea por clínicos e criadores como "prova de herança genética". No método epidemiológico, a identificação de uma associação estatística entre uma variável de exposição (pertencer a determinada raça) e um desfecho clínico (apresentar entrópio) indica unicamente a existência de uma correlação populacional, jamais uma relação de causa e efeito determinística de natureza gênica.

    Diversos fatores de confusão comprometem a interpretação estritamente genética desses dados. Em primeiro lugar, populações de gatos de raça pura estão sujeitas ao efeito fundador e a coeficientes de endogamia (*inbreeding*) elevados. A fixação de determinadas características morfológicas externas (como crânios volumosos e bochechas proeminentes) pode aumentar a incidência de distúrbios conformacionais adjacentes sem que haja uma mutação primária codificando a patologia ocular. Em segundo lugar, existe um viés de seleção e amostragem evidente: gatos de raça pura, de alto valor econômico, são levados a centros de especialidade oftalmológica com frequência muito superior à de gatos sem raça definida mantidos em domicílio comum, inflando a detecção de casos nas coortes hospitalares. Em terceiro lugar, como apontado pelos próprios autores franceses, a ausência de pedigree documental nos registros clínicos impede distinguir espécimes puros de cruzas com conformações híbridas.

    5.2 O Modelo Biomecânico e Conformacional: A Fisiopatogenia nos Maine Coons e SRD

    A convergência dos dados clínicos de Bott e Chahory (2022) e Williams e Kim (2009) elucida a verdadeira fisiopatogenia do entrópio no gato Maine Coon: 100% dos animais afetados eram machos, com pico de incidência em adultos jovens (mediana de 1,0 a 4,1 anos) e localização estritamente restrita ao canto temporal (lateral) da pálpebra inferior (OR = 31,9).

    Essa apresentação clínica não é explicada por um gene palpebral defeituoso, mas pelo dimorfismo sexual andrógeno-dependente típico da raça. Machos inteiros da raça Maine Coon desenvolvem, ao atingirem a maturidade reprodutiva, um espessamento cutâneo e deposição de gordura subcutânea massiva na região dos arcos zigomáticos e bochechas (tecido comumente referido na literatura anglo-saxônica como jowls). O peso e a redundância dessa massa de tecido facial exercem tração mecânica cranioventral sobre a comissura palpebral lateral e a margem inferior temporal, promovendo a rotação interna da pálpebra em direção à córnea. Trata-se, portanto, de uma decorrência biomecânica secundária à conformação cefálica do macho adulto inteiro, e não de um defeito genético ocular intrínseco.

    Em contrapartida, a análise dos gatos sem raça definida (SRD) — que, embora apresentem sub-representação estatística (OR = 0,2), ainda perfizeram 36% dos casos absolutos no estudo de Bott e Chahory (2022) — revela uma dinâmica completamente distinta. Nesses animais, a condição decorre primariamente de: (a) blefarospasmo persistente em resposta a agressões externas (poeira, irritantes ambientais, infecção primária por FHV-1 ou Chlamydia felis), desencadeando entrópio espástico que, se não tratado, evolui com espessamento fibroso do músculo orbicular; ou (b) enoftalmia senil e perda de sustentação periorbital no gato idoso (entrópio involucional).

    5.3 A Imprudência Acadêmica e Científica da Imputação Causal sem Locus Mapeado

    Na genética quantitativa e biomédica contemporânea, a afirmação formal de que um fenótipo patológico possui determinação genética exige a demonstração de parâmetros matemáticos e moleculares rigorosos. A herdabilidade no sentido estrito (h2) define a proporção da variação fenotípica total () observada em uma população que é atribuível exclusivamente à variância genética aditiva (VA):

    h2=VAVP

     

    Para que o cálculo de h2seja válido, faz-se imperativa a condução de matrizes de parentesco em múltiplos pedigrees, análises de regressão genitor-prole ou estudos de irmãos completos sob condições ambientais controladas.Na espécie felina, o valor deh2para o entrópio é absolutamente desconhecido, inexistindo um único estudo publicado na literatura global que tenha estimado tal índice.

    Declarar ou reproduzir em laudos, livros-texto ou comunicações científicas que o entrópio felino é "uma doença genética" ou "uma herança hereditária", sem que haja a identificação de uma região cromossômica, um padrão de herança mendeliana ou uma variante molecular causal, constitui uma grave imprudência acadêmica e científica. Tal postura representa um retrocesso epistemológico a paradigmas pré-mendelianos do século XIX, nos quais qualquer traço compartilhado entre indivíduos morfologicamente semelhantes era rotulado aprioristicamente como "do sangue" ou "genético", prescindindo de validação causal mecanicista.

    As consequências dessa imprudência transcendem o erro teórico e geram repercussões práticas danosas:

    • Dano à seleção zootécnica e ao bem-estar animal: Induz criadores e médicos-veterinários a eliminarem sumariamente reprodutores de excelência zootécnica com base em um evento conformacional decorrente de manejo de peso ou desenvolvimento de jowls, enquanto negligenciam fatores ambientais reais (irritantes químicos, sobrecarga alérgena, estresse promotor de reativação de FHV-1).
    • Subversão da Medicina Veterinária Baseada em Evidências (MVBE): Desgasta a credibilidade do corpo técnico da profissão ao emitir afirmativas categóricas desprovidas de respaldo metodológico perante a comunidade biomédica.
    • Dever ético da diferenciação conceitual: É obrigação ética e científica do médico-veterinário distinguir com clareza aquilo que é "associação racial/conformacional observada" (fato epidemiológico empírico) daquilo que é "herança genética causal comprovada" (hipótese ainda não demonstrada).

       

    5.4 Implicações Clínicas e Terapêuticas

    Do ponto de vista terapêutico, a elucidação etiopatogênica direciona a conduta clínica com maior precisão. O tratamento definitivo do entrópio conformacional em gatos que já estruturaram fibrose tecidual é eminentemente cirúrgico, sendo a técnica de Hotz-Celsus modificada — associada ou não à ressecção em cunha lateral palpebral (*lateral eyelid wedge resection*) — a abordagem padrão ouro (READ; BROUN, 2007; WHITE et al., 2012).

    Ressalta-se que a correção cirúrgica no gato exige excisão tecidual proporcionalmente mais ampla que no cão, em virtude da ausência do ligamento palpebral lateral rígido e da flacidez periorbital felina (WILLIAMS; KIM, 2009). Nos casos incipientes, espásticos ou relacionados à exposição ambiental em fases precoces (conforme demonstrado por Ergin et al., 2025, com 44,7% de resolução clínica), a intervenção ambiental imediata, a lubrificação e o controle do blefarospasmo evitam cirurgias desnecessárias.

    5.5 Posicionamento Acadêmico Cientificamente Defensável

    Com base no conjunto da evidência biomédica analisada, o único posicionamento técnico e acadêmico que resiste ao crivo do método científico pode ser formulado nos seguintes termos:

    "Observa-se sobre-representação racial e de gênero para entrópio em gatos domésticos, particularmente machos inteiros da raça Maine Coon (OR 12,9) e felinos de conformação braquicefálica, evidenciando uma relação predominantemente conformacional, biomecânica e adquirida. Contudo, inexistem estudos de herdabilidade, análises de segregação em pedigrees certificados ou variantes causais mapeadas em Felis catus, de modo que a etiologia genética hereditária não pode ser afirmada, permanecendo a afecção como um distúrbio de natureza multifatorial (conformacional, espástica, ambiental e involucional)."


     

    6. Conclusão

    A literatura científica contemporânea não sustenta a alegação de que o entrópio em gatos domésticos, incluindo a raça Maine Coon, constitua uma anomalia de transmissão genética ou hereditária direta. A ausência de registro de variantes causais no banco de dados OMIA, a inexistência de estudos de herdabilidade ( h2), a falta de mapeamento genômico amplo (GWAS) e a inconsistência em testes de segregação demonstram que a elevada ocorrência da afecção em subgrupos raciais específicos reflete padrões anatômicos conformacionais — notadamente o desenvolvimento dejowls em machos de grande porte e o achatamento orbital em braquicefálicos —, frequentemente agravados por irritantes ambientais e blefarospasmo espástico crônico.

    Para que o debate sobre a etiologia do entrópio felino avance do campo descritivo para a ciência genômica moderna, a comunidade científica veterinária deve direcionar esforços futuros para:

    1. Condução de estudos de pedigree prospectivos com genealogias certificadas e acasalamentos controlados em criatórios de Maine Coon e felinos braquicefálicos;
    2. Cálculo formal dos coeficientes de herdabilidade aditiva (h2) e repetibilidade para a morfologia da fenda palpebral;
    3. Sequenciamento genômico de alto rendimento (WGS/WES) comparando cortes de animais afetados e controles negativos para avaliação de variantes estruturais em genes do desenvolvimento ectodérmico e muscular periocular;
    4. Estudos multicêntricos de GWAS em felinos, à semelhança do protocolo já executado com sucesso em ovinos para mapeamento de loci de suscetibilidade.
     

    Enquanto tais lacunas não forem preenchidas com dados empíricos robustos, rotular o entrópio felino como uma enfermidade hereditária deve ser formalmente evitado, priorizando-se uma abordagem diagnóstica e terapêutica alicerçada na biomecânica tecidual, no controle ambiental e na Medicina Veterinária Baseada em Evidências.


     

    7. Referências

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    WHITE, J. S. et al. Surgical management and outcome of lower eyelid entropion in 124 cats. Veterinary Ophthalmology, Malden, v. 15, n. 4, p. 231-235, 2012. DOI: 10.1111/j.1463-5224.2011.00974.x.

    WILLIAMS, D. L.; KIM, J.-Y. Feline entropion: a case series of 50 affected animals (2003-2008). Veterinary Ophthalmology, Malden, v. 12, n. 4, p. 221-226, 2009. DOI: 10.1111/j.1463-5224.2009.00705.x.


     

    Documento técnico-científico estruturado sob as diretrizes da ABNT e os princípios da Medicina Veterinária Baseada em Evidências em 01 de setembro de 2026.

     

     

    Entropion in Domestic Cats (Felis catus): A Critical Review of the Evidence on Genetic and Hereditary Etiology, with a Comparative Emphasis Between Maine Coons and Mixed-Breed Cats

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior1, 2 — Integrative Veterinarian – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Agricultural Engineer). Specialist in Feline and Canine Nutrition, Cannabinoid Medicine and Raw/Natural Feeding, Petclube. Over 40 years of practical experience dedicated to felines and bull-type dogs, focusing on dietary transition and development of welfare protocols.
    Gabriel Amichetti3 — Veterinarian – CRMV-SP 45.592 VT. Specialization in Orthopedics and Small Animal Surgery – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil.

    1 Petclube, São Paulo, Brazil
    2
    3 Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil

    Technical Responsibility and Supervision Note: This work was elaborated and structured under direct technical supervision and critical content review conducted by veterinarians duly registered in their respective professional councils, grounded in the principles of Evidence-Based Veterinary Medicine (EBVM) and the methodological rigor of contemporary biomedical sciences.


     

    Abstract

    Feline entropion is an ophthalmic condition characterized by the inversion of the eyelid margin toward the globe, resulting in trichiasis, persistent keratitis, ulceration, and potentially feline corneal sequestrum. In small animal veterinary practice, the condition has historically been categorized as hereditary based on clinical extrapolation from canine ophthalmology. This critical review examines the empirical and molecular evidence regarding the etiology of entropion in domestic cats (Felis catus), with specific comparative focus on the Maine Coon breed and domestic shorthair (mixed-breed) populations. The Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA:000337-9685) classifies the mode of single-gene inheritance for feline entropion as unknown, with zero validated causal functional variants, mapped loci, or chromosomal linkages identified to date. Epidemiological investigations document significant breed over-representation, particularly in intact male Maine Coons (odds ratio [OR] = 12.9; P < 0.01) and brachycephalic Persians (OR = 3.4; P = 0.03), while domestic shorthair cats are statistically under-represented (OR = 0.2; P < 0.01) despite representing 36% of all clinical presentations. However, documented pathophysiological mechanisms demonstrate that this distribution is mediated by secondary anatomical and conformational dynamics—specifically, androgen-dependent suborbicularis tissue hypertrophy ("jowls") in entire male Maine Coons, facial brachycephaly in Persians, and chronic environmental or inflammatory blepharospasm in mixed-breed cats—rather than direct Mendelian gene expression. In the total absence of formal heritability coefficients (

    h2=VA/VP

     

    ), segregation analyses in certified multi-generational pedigrees, or genome-wide association studies (GWAS) in the feline species, imputing a primary genetic or hereditary cause constitutes an unsubstantiated causal leap. Current scientific evidence does not support the classification of feline entropion as a proven hereditary disease; rather, it represents a multifactorial disorder driven by conformational, biomechanical, environmental, and involutional mechanisms.

    Keywords: entropion; domestic cat; Maine Coon; genetic inheritance; heritability; veterinary ophthalmology; veterinary medicine.


     

    1. Introduction

    Entropion is defined as the inward inversion or rolling of the palpebral margin toward the ocular surface. This structural displacement causes cilia, trichiatic hairs, and keratinized periocular skin to maintain continuous abrasive contact with the bulbar conjunctiva and cornea. The downstream clinical consequences range from epiphora, persistent blepharospasm, conjunctival hyperemia, and superficial keratitis to deep stromal ulceration, stromal perforation, and the development of feline corneal sequestrum (corneal nigrum)—a pathological condition uniquely prevalent in Felis catus following chronic corneal irritation.

    In comprehensive veterinary ophthalmic literature, entropion is categorized into four distinct etiologic presentations: primary (conformational/anatomical), secondary (spastic or inflammatory), involutional (senile laxity and orbital fat loss), and cicatricial (post-traumatic or post-surgical contraction). In canine patients, primary conformational entropion has established genetic associations in specific purebred populations, with documented heritability patterns in breeds such as the Shar-Pei, Chow Chow, and Labrador Retriever. Consequently, veterinary clinicians and academic authors have frequently transposed this hereditary paradigm onto the domestic feline, assuming that the presence of entropion in purebred cats represents an inherited defect transmitted across generations.

    This assumption warrants rigorous scrutiny under the tenets of Evidence-Based Veterinary Medicine (EBVM). The uncritical attribution of "hereditary transmission" to any condition showing non-uniform breed distribution creates significant clinical and zootechnical distortions. It leads to the premature disqualification of breeding individuals, obscures actual biomechanical and environmental drivers of disease, and misrepresents the foundational definitions of medical genetics. The explicit scientific objective of this review is to evaluate whether current published literature provides empirical, epidemiological, or molecular evidence to affirm that entropion in domestic cats, specifically in Maine Coons and mixed-breed populations, is a proven genetic or hereditary condition.


     

    2. Methods

    A comprehensive narrative literature review was conducted to evaluate the genetic, anatomical, and epidemiological literature on feline entropion. Electronic database searches were executed across PubMed/MEDLINE, Web of Science, Scopus, SciELO, and the Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA) repository maintained by the University of Sydney. Search strings incorporated combinations of Medical Subject Headings (MeSH) and free-text terms utilizing Boolean operators: ("entropion" OR "eyelid disease" OR "eyelid inversion") AND ("cat" OR "feline" OR "Felis catus") AND ("genetic" OR "heredity" OR "heritability" OR "inheritance" OR "breed predisposition" OR "Maine Coon" OR "locus" OR "GWAS").

    Inclusion criteria encompassed peer-reviewed observational studies, prospective and retrospective cohort investigations, surgical case series, comparative genomic studies, and official veterinary specialty registry statements published up to the current date. Exclusion criteria comprised non-peer-reviewed clinical anecdotes, opinion-based commentary lacking primary data, and studies where feline data could not be disaggregated from canine cohorts. Retrieved studies were analyzed for sample size, diagnostic criteria, breed ascertainment methods, pedigree certification, and statistical metrics of association versus genetic causality.


     

    3. Results and Evidence Synthesis

    3.1. OMIA Classification and Genomic Status

    The Online Mendelian Inheritance in Animals (OMIA) catalog serves as the international comparative benchmark for documented animal genetic traits and inherited disorders. Under the specific entry for feline entropion (OMIA:000337-9685, Entropion in Felis catus), the trait is cataloged with the following parameters:

    • Disease-related trait: Yes.
    • Single-gene (Mendelian) trait: Unknown.
    • Causal mutation/variant identified: None.
    • Mapped chromosomal locus: None.
    • Associated molecular markers: None.
     

    To date, no genomic coordinates, candidate gene variants, structural variations, or quantitative trait loci (QTL) have been identified, mapped, or validated for entropion in the domestic cat genome.

    3.2. Epidemiological Data: Breed Distribution and Demographics

    The largest multicenter retrospective epidemiological study on feline ocular conditions presumed to be breed-related was conducted in France by Bott and Chahory (2022), evaluating 1,161 feline ophthalmic presentations, of which 129 cats presented with suspected breed-related disorders.

    Parameter / Variable Epidemiological Value Statistical Significance
    Overall Entropion Prevalence 2.2% (95% CI: 1.3% – 3.0%) Cohort baseline (n = 25/1161)
    Maine Coon Representation Odds Ratio (OR) = 12.9 P < 0.01
    Persian Breed Representation Odds Ratio (OR) = 3.4 P = 0.03
    Domestic Shorthair (Mixed-Breed) Odds Ratio (OR) = 0.2 P < 0.01 (Under-represented)
    Domestic Shorthair Proportional Share 36.0% (9 of 25 cases) Largest absolute sub-group
    Sex Distribution (Entire Population) Male OR = 3.4 P < 0.01
    Maine Coon Sex Distribution 100% Male (Entire males) 100% concordance with sex
    Maine Coon Anatomical Location Temporal lower eyelid (OR = 31.9) P < 0.01
    Median Age at Diagnosis (Maine Coon) 1.0 year (IQR: 0.8 – 1.6 years) Coincides with sexual maturity
    Median Age at Diagnosis (Persian) 5.6 years Adult / mature presentation
    Median Age at Diagnosis (Mixed-Breed) 1.7 years Variable distribution

    Critically, the authors of the study explicitly emphasized methodological constraints regarding genetic inferences. Bott and Chahory (2022) stated that "pedigree analysis is required to prove inheritance" and noted that "there is no current proof of inheritance for many diseases," advocating for the conservative terms "presumed breed-related" or "familial"over "hereditary." Furthermore, breed assignments in the cohort were based upon owner declarations without verification through official pedigree registries.

    3.3. Clinical Case Series and Anatomical Pathophysiology

    Williams and Kim (2009) evaluated a retrospective series of 50 cats diagnosed with entropion presented to a specialized referral service over a five-year period. Their clinical and morphological analysis revealed three distinct subpopulations with non-genetic mechanical drivers:

    1. Young cats with spastic entropion (n = 16): Entropion was secondary to severe ocular surface inflammation, primarily chronic conjunctivitis, corneal ulceration, and feline herpesvirus-1 (FHV-1) keratitis. Persistent pain stimulated sustained blepharospasm and orbicularis oculi contraction, driving secondary inward rolling of the margin.
    2. Mature to geriatric cats with involutional entropion (n = 26): Mean age of 11.3 years. Pathogenesis was characterized by systemic weight loss, loss of retrobulbar orbital fat leading to enophthalmos, and progressive age-related laxity of the lateral canthal tendon and tarsal plate.
    3. Persian cats with brachycephalic facial conformation (n = 5): Driven by medial canthal pocketing, shallow orbits, and pronounced facial skin folds.
    4. Maine Coon young adult intact males (n = 3): Entropion occurred exclusively at the temporal lower eyelid margin in young adult males displaying heavy cranial conformation and hypertrophied subcutaneous facial tissue ("jowls"). The physical weight and bulk of this androgen-stimulated tissue exerted direct inward rotational vectors on the lateral lid margin.
     

    Williams and Kim (2009) concluded that feline entropion is fundamentally driven by persistent blepharospasm, age-related mechanical laxity, and sexually dimorphic facial conformation, finding no evidence for a primary Mendelian defect.

    3.4. Environmental Factors and Non-Surgical Reversibility

    A large prospective cohort study by Ergin et al. (2025) analyzed 272 eyes across 170 cats presenting with blepharospasm and entropion from a base population of 648 felines. The findings demonstrated profound environmental and acquired contributions:

    • Brachycephalic predisposition: 78.2% of total cases occurred in brachycephalic breeds (P < 0.001), with an incidence of 52.6% in brachycephalic versus 9.4% in non-brachycephalic cats.
    • Sex bias: Male predominance of 90.58% across the cohort.
    • Environmental irritants: 64.1% of affected cats had a confirmed history of direct chronic exposure to household aerosol irritants, including perfumes, chlorine-based cleaning products (bleach), cigarette smoke, and highly dusty silica-based or clay cat litter.
    • Non-surgical clinical resolution: 44.7% of eyes resolved completely without surgical intervention following removal of the environmental chemical irritants combined with mechanical palpebral massage and ocular surface lubrication.
     

    These data demonstrate that a significant proportion of feline entropion cases represent reversible, environmentally triggered spastic manifestations rather than permanent anatomical or genetic abnormalities.

    3.5. Regional Literature and Specialist Positions

    In South American veterinary literature, Laus et al. (1999) documented primary entropion in Persian cats in Brazil, stating: "Congenital entropion commonly affects dogs and is frequently hereditary in some breeds, whereas cats are rarely affected. A predisposition of the Persian breed has been suggested." The study presented descriptive surgical cases without familial linkage or genomic tracking.

    Surgical series by White et al. (2012) evaluating 124 cats and Read and Broun (2007) evaluating 311 eyes across dogs and cats focused entirely on surgical outcomes of the modified Hotz-Celsus and lateral wedge resection techniques, reaffirming that the disease in felines is anatomical and inflammatory. The American College of Veterinary Ophthalmologists (ACVO) maintains an official consensus position stating that "the exact mode of inheritance of entropion is not known at this time" in either canine or feline species, warning against definitive genetic labeling in the absence of molecular proof (Glaze, 2005; Narfström, 1999).

    3.6. Interspecies Comparative Genomics

    To contextualize the level of genomic evidence required to demonstrate genetic inheritance, findings in other domestic species provide a direct methodological contrast. In domestic sheep (Ovis aries), where congenital entropion is a recognized production defect, Mousel, Reynolds, and White (2015) executed a high-density Genome-Wide Association Study (GWAS) identifying statistically validated candidate regions on chromosomes containing the *SLC2A9* and *NLN* genes. In canine medicine, multiple pedigree segregation models and heritability analyses have been conducted across purebred lines.

    In domestic felines, zero GWAS studies, zero linkage analyses, zero pedigree-based segregation models, and zero candidate gene mutation screenings have been published for entropion. The comparison highlights a total void of molecular genetic validation in *Felis catus*.


     

    4. Discussion

    4.1. Statistical Association Versus Proven Genetic Inheritance

    The core finding of this review is that the high odds ratio observed in Maine Coons (OR = 12.9) represents an epidemiological association, not evidence of genetic causality. Conflating statistical over-representation in a purebred population with direct hereditary transmission is a common methodological error. Closed purebred cat populations naturally exhibit elevated levels of inbreeding and strong founder effects. Consequently, any polygenic morphological trait, secondary anatomical characteristic, or environmental management practice prevalent within breed catteries will demonstrate statistical clustering without possessing a specific, single-locus genetic etiology.

    Furthermore, ascertainment and sampling biases heavily skew published feline cohorts. Purebred cats—particularly high-value breeding individuals such as intact Maine Coons and Persians—receive significantly higher levels of veterinary surveillance and specialized ophthalmic referrals compared to domestic shorthair cats. While domestic shorthairs are statistically under-represented (OR = 0.2), they still constitute 36% of absolute entropion presentations in primary referral datasets (Bott & Chahory, 2022). This confirms that the physiological capacity for palpebral inversion is widely distributed across the generalized feline genome and is triggered by non-breed-specific mechanisms.

    4.2. Biomechanical and Conformational Pathophysiology

    The anatomical distribution of entropion across different feline groups demonstrates that mechanical and physiological forces drive the phenotype. In the Maine Coon, the condition is almost exclusively restricted to the temporal aspect of the lower eyelid in young, sexually mature, intact males (Williams & Kim, 2009; Bott & Chahory, 2022). This demographic specificity correlates directly with androgen-driven secondary sexual characteristics. Post-pubertal entire male cats develop pronounced fibrous and subcutaneous facial tissue pads ("jowls") overlying the zygomatic arch and masseteric regions. In heavy-boned breeds like the Maine Coon, the physical weight of these lateral facial structures exerts a direct mechanical inward-rolling force on the lateral canthal ligament and the adjacent lower palpebral margin.

    This explains why the median age of onset in Maine Coons is 1.0 year (IQR: 0.8–1.6 years), perfectly coinciding with the completion of musculoskeletal and secondary sexual development. In contrast, Persian cats exhibit medial lower-lid entropion resulting from orbital brachycephaly and prominent nasalfolds at a median age of 5.6 years. In mixed-breed domestic shorthair cats, entropion is predominantly spastic (secondary to FHV-1, chlamydiosis, or chemical irritants) or involutional (associated with geriatric enophthalmos and orbital fat atrophy). Thus, three distinct physical mechanisms produce an identical clinical endpoint without requiring a shared genetic locus.

    4.3. The Academic and Scientific Imprudence of Causal Imputation Without a Mapped Locus

    From an epistemological standpoint, asserting that a complex clinical presentation is "hereditary" or "genetic" in the absence of a characterized genetic locus, mapped chromosomal region, or validated functional mutation constitutes academic and scientific imprudence. Such assertions represent a regression to pre-Mendelian paradigms, where any trait shared among phenotypically similar animals was assumed to be directly transmissible via "bloodlines" without mechanistic proof.

    In contemporary biomedical science and Evidence-Based Veterinary Medicine (EBVM), establishing a genetic etiology requires satisfying rigorous methodological criteria:

    1. Formal heritability estimation (h2): Quantifying the proportion of total phenotypic variance (VP) attributable to additive genetic variance (VA): h2=VAVP No study has ever calculated
     

    h2

     

    for feline entropion in any breed. 2. Segregation analysis: Demonstrating that the phenotype segregates through multi-generational, certified pedigrees under classic Mendelian (autosomal dominant, autosomal recessive, X-linked) or established polygenic threshold models.
    3. Molecular linkage or Genome-Wide Association: Mapping specific single nucleotide polymorphisms (SNPs) or structural variants to defined genomic loci that demonstrate genome-wide statistical significance (P &lt; 5 \times 10^{-8}).
    4. Functional validation: Characterizing the biological mechanism through which the identified mutation alters embryonic development, extracellular matrix composition, or neuromuscular palpebral tone.

     

    None of these four evidentiary pillars exists for entropion in *Felis catus*. Repeating the label "hereditary" without empirical support compromises veterinary academic rigor and can lead to misguided breeding decisions—such as the unjustified exclusion of valuable genetic stock based on a condition that may be purely conformational, environmentally triggered, or secondary to infectious keratitis. It is the ethical duty of veterinary scientists to explicitly separate observed breed associations (clinical facts) from unproven genetic causation (unsupported hypotheses).

    4.4. Clinical, Therapeutic, and Surgical Considerations

    Understanding the true multifactorial etiology of feline entropion has direct clinical and surgical ramifications. When conformational entropion requires surgical intervention, the modified Hotz-Celsus procedure, often combined with a lateral eyelid wedge resection, remains the definitive treatment of choice (Read & Broun, 2007; White et al., 2012). However, surgical execution in felines differs fundamentally from canine practice. Williams and Kim (2009) demonstrated that cats possess significantly thinner tarsal plates and less rigid palpebral margins, requiring proportionally larger skin and orbicularis muscle excisions relative to eyelid surface area than dogs to achieve anatomical eversion.

    Furthermore, recognizing the high prevalence of environmentally and inflammatory-induced spastic entropion (Ergin et al., 2025) dictates that surgical intervention must never be executed precipitously. In cats presenting with active blepharospasm, immediate management must prioritize eliminating environmental toxins (aerosols, dust-heavy litters), initiating intensive topical lubrication, and treating underlying infectious keratitis (e.g., FHV-1). As demonstrated by Ergin et al. (2025), nearly 45% of cases resolve completely under medical and environmental management alone, avoiding unnecessary surgical trauma.

    4.5. Scientifically Defensible Formulation

    "Breed and sex over-representation is observed for entropion in domestic cats, particularly intact male Maine Coons (OR = 12.9) and brachycephalic breeds, evidencing a predominantly conformational, biomechanical, and acquired relationship. However, there are no heritability studies, certified-pedigree segregation analyses, or mapped causal variants in Felis catus; therefore, a primary genetic or hereditary etiology cannot be affirmed, and multifactorial drivers (conformational, spastic, environmental, and involutional) account for the observed clinical presentations."


     

    5. Conclusion

    Based upon exhaustive critical analysis of current veterinary and genomic literature, it is not possible to state that feline entropion—in Maine Coons, Persians, or mixed-breed domestic shorthairs—is a proven genetic or hereditary condition. The scientific literature confirms significant breed and sex associations, but these are mechanistically explained by secondary anatomical conformations (androgen-dependent facial jowl development in intact male Maine Coons; orbital brachycephaly in Persians), environmental chemical irritants, and infectious or involutional blepharospasm.

    To advance the scientific understanding of this condition, the veterinary community must address clear research gaps. Future efforts must focus on: (1) structured multi-generational pedigree studies with controlled breeding records in Maine Coon and brachycephalic catteries; (2) biostatistical estimation of heritability coefficients (

    h2

     

    ); (3) high-density Genome-Wide Association Studies (GWAS) and whole-genome sequencing comparing affected and unaffected cohorts; and (4) candidate gene investigations evaluating extracellular matrix and connective tissue pathways, establishing an empirical standard equivalent to that already achieved in other domestic species.


     

    6. References

    AMERICAN COLLEGE OF VETERINARY OPHTHALMOLOGISTS - ACVO. Entropion. Public Information Resource on Ocular Diseases. Available at: https://www.acvo.org. Accessed on: 01 Sep. 2026.

    BOTT, M. M. P.; CHAHORY, S. Epidemiology and clinical presentation of feline presumed hereditary or breed-related ocular diseases in France: retrospective study of 129 cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, London, v. 24, n. 12, p. 1274-1282, 2022. DOI: 10.1177/1098612X221080598.

    ERGIN, İ. et al. The effects of animal-related and environmental factors on feline entropion: a comprehensive cohort study of 272 eyes. Kafkas Universitesi Veteriner Fakultesi Dergisi, Kars, v. 31, n. 2, p. 189-196, 2025. DOI: 10.9775/kvfd.2024.33011.

    GLAZE, M. B. Congenital and hereditary ocular abnormalities in cats. Clinical Techniques in Small Animal Practice, Philadelphia, v. 20, n. 2, p. 74-82, 2005. DOI: 10.1053/j.ctsap.2004.12.011.

    LAUS, J. L. et al. Primary entropion in Persian cats. Ciência Rural, Santa Maria, v. 29, n. 4, p. 741-743, 1999. DOI: 10.1590/S0103-84781999000400029.

    MOUSEL, M. R.; REYNOLDS, J. O.; WHITE, S. N. Genome-wide association identifies SLC2A9 and NLN gene regions as associated with entropion in domestic sheep. PLoS ONE, San Francisco, v. 10, n. 6, e0128909, p. 1-11, 2015. DOI: 10.1371/journal.pone.0128909.

    NARFSTRÖM, K. Hereditary and congenital ocular disease in the cat. Journal of Feline Medicine and Surgery, London, v. 1, n. 3, p. 135-141, 1999. DOI: 10.1016/S1098-612X(99)90202-4.

    ONLINE MENDELIAN INHERITANCE IN ANIMALS - OMIA. Entropion in Felis catus. OMIA record 000337-9685. Sydney: Sydney School of Veterinary Science, University of Sydney, 2026. Available at: https://omia.org/OMIA000337/9685/. Accessed on: 01 Sep. 2026.

    READ, R. A.; BROUN, H. C. Entropion correction in dogs and cats using a combination Hotz-Celsus and lateral eyelid wedge resection: results in 311 eyes. Veterinary Ophthalmology, Oxford, v. 10, n. 1, p. 6-11, 2007. DOI: 10.1111/j.1463-5224.2007.00482.x.

    WHITE, J. S. et al. Surgical management and outcome of lower eyelid entropion in 124 cats. Veterinary Ophthalmology, Oxford, v. 15, n. 4, p. 231-235, 2012. DOI: 10.1111/j.1463-5224.2011.00974.x.

    WILLIAMS, D. L.; KIM, J.-Y. Feline entropion: a case series of 50 affected animals (2003-2008). Veterinary Ophthalmology, Oxford, v. 12, n. 4, p. 221-226, 2009. DOI: 10.1111/j.1463-5224.2009.00705.x.

     
     
     
     
     
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  • EPITHALON (EPITALON): EVIDÊNCIAS PRÉ-CLÍNICAS EM MODELOS ANIMAIS E POTENCIAL TRANSLACIONAL PARA A MEDICINA VETERINÁRIA GERIÁTRICA

    EPITHALON (EPITALON): EVIDÊNCIAS PRÉ-CLÍNICAS EM MODELOS ANIMAIS E POTENCIAL TRANSLACIONAL PARA A MEDICINA VETERINÁRIA GERIÁTRICA

    Autores:
    Cláudio Amichetti Júnior1,2*
    Gabriel Amichetti3

     

    1Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal, São Paulo, SP, Brasil. CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP.
    2Médico Veterinário Integrativo, Foco em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinoide e Medicina Translacional.
    3Médico Veterinário, Especialista em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais. CRMV-SP 45.592 VT.

     

    *Autor para correspondência: claudio@petclube.com.br

     

    Resumo
    O Epithalon (Ala-Glu-Asp-Gly), tetrapeptídeo sintético derivado da epitalamina pineal, exibe efeitos geroprotetores em modelos murinos, com aumento da longevidade (até 12-27% em camundongos SHR), ativação da telomerase, redução de tumores espontâneos (até 50%) e modulação antioxidante/imunológica. Esta revisão sistemática analisa 25 estudos pré-clínicos (1990-2025), destacando mecanismos moleculares (telômeros, NF-κB/Nrf2, eixo pineal-hipotálamo) e limitações (predomínio russo, ausência de trials em caninos/felinos). Perspectivas veterinárias incluem suporte em cães/gatos idosos com imunossenescência, neoplasias e disfunções endócrinas, alinhadas à medicina integrativa.

     

    Palavras-chave: Epithalon; longevidade; telomerase; medicina veterinária translacional; geriatria animal.

     

    Abstract
    Epithalon (Ala-Glu-Asp-Gly), a synthetic tetrapeptide derived from pineal epithalamin, exhibits geroprotective effects in murine models, with increased longevity (up to 12-27% in SHR mice), telomerase activation, spontaneous tumor reduction (up to 50%), and antioxidant/immunomodulatory modulation. This systematic review analyzes 25 preclinical studies (1990-2025), highlighting molecular mechanisms (telomeres, NF-κB/Nrf2, pineal-hypothalamic axis) and limitations (Russian predominance, lack of trials in canines/felines). Veterinary perspectives include support for elderly dogs/cats with immunosenescence, neoplasms, and endocrine dysfunctions, aligned with integrative medicine.

     

    Keywords: Epithalon; longevity; telomerase; translational veterinary medicine; animal geriatrics.

     

    1. Introdução

    O envelhecimento é multifatorial, envolvendo encurtamento telomérico, estresse oxidativo, imunossenescência e desregulação neuroendócrina. Peptídeos bioreguladores pineais, como o Epithalon — sequência Ala-Glu-Asp-Gly (AEDG) —, mimetizam a epitalamina natural, modulando genes de longevidade (hTERT, p53) e ritmos circadianos via melatonina.

     

    Desenvolvido por Khavinson e Anisimov (Rússia, 1990s), o composto ativa telomerase em fibroblastos humanos (até 2,5x) e roedores, estendendo vida útil celular. Em veterinária, sua relevância surge para pacientes geriátricos (cães >10 anos, gatos >12 anos), com prevalência de neoplasias (40-50%) e comorbidades crônicas.

     

    2. Metodologia

    Revisão sistemática/PRISMA adaptada: buscas em PubMed, Scopus, Springer (1990-2025) com termos "Epithalon OR Epitalon AND (longevity OR aging OR telomerase OR tumors) AND (mice OR rats)". Inclusão: estudos in vivo em roedores (n>20/grupo), outcomes primários (sobrevida, telômeros, tumores), secundários (antioxidantes, imunidade). Exclusão: in vitro isolados, relatos humanos não controlados. Análise qualitativa (efeitos, doses: 0,1-10 µg/kg SC, cíclico mensal) e quantitativa (meta-análise informal de % aumento sobrevida).

     

    3. Resultados e Discussão

    3.1 Efeitos na Longevidade e Sobrevivência

    Em camundongos SHR fêmeas (n=54/grupo), Epithalon (1 µg/mouse mensal, 3- morte natural) aumentou sobrevida máxima em 13,3% e reduziu mortalidade (p<0,01). Ratos expostos a DMH (carcinógeno cólon): sobrevida +27% (p<0,05). Drosophila: +12-20% lifespan. Mecanismo: estabilização genômica via telomerase, reduzindo senescência.

     

    3.2 Ativação Telomerase e Estabilidade Telomérica

    Epithalon upregula hTERT (2-3x em linfócitos roedores), alongando telômeros (10-20% em fibroblastos). Em ratos idosos: restauração cromossômica, ↓ aberrações (30-40%). Epigenético: modula histonas (acetilação H3K9), influenciando loci de longevidade.

     

    3.3 Modulação Neuroendócrina e Circadiana

    Normaliza melatonina pineal (↑33% em ratos idosos), regula eixo HPA (↓ cortisol, ↑ GH/IGF-1). Em camundongos sob estresse luminoso: restaura ritmos, ↓ mortalidade (25%).

     

    3.4 Efeitos Antioxidantes e Anti-Inflamatórios

    ↓ Peroxidação lipídica (40%), ↑ SOD/catalase (20-50%). Inibe NF-κB (↓ TNF-α/IL-6), ativa Nrf2 (↑ glutationa). Sinergia com canabinoides (relevante vet. integrativa).

     

    3.5 Oncologia Experimental

    C3H/He mice: ↓ tumores mamários espontâneos (50%, p<0,001). Ratos DMH: ↓ adenocarcinomas cólon (4x, p<0,01), ↑ apoptose tumoral (Ki-67 ↓). Imunomodulação: ↑ NK cells, linfócitos T (30%).

     

    3.6 Imunidade e Imunossenescência

    Ratos idosos: ↑ resposta adaptativa (IgG +25%), ↓ senescência CD8+ T. Potencial em lúpus canino (modulação autoimune, sinérgico TB-500/TA1).

     

    3.7 Toxicologia e Segurança

    Sem toxicidade aguda/crônica (LD50 >100 mg/kg). Ratos: sem mutagenicidade, teratogenicidade.

     

    4. Aplicações Translacionais em Medicina Veterinária

    Geriatria pet: Cães/gatos com telômeros curtos (medida via RT-PCR), dosagem extrapolada 0,1-1 µg/kg SC cíclico (10 dias/mês). Protocolos integrativos: + nutricão anti-inflamatória, CBD (0,5-2 mg/kg), Ômega-3 (100 mg/kg EPA/DHA). Indicações potenciais: Neoplasias hepáticas, CKD inicial, osteoartrite (sin. TB-500/BPC-157). Ética: off-label, IBAMA/MAPA-compliant.

     

    5. Limitações e Viés

    Predomínio russo (Khavinson/Anisimov >80%), risco publicação seletiva. Amostras pequenas (n<100), sem power analysis. Ausência trials caninos/felinos; extrapolação alométrica incerta. Human trials limitados (n<200, não FDA-approved). Variabilidade dose/regime.

     

    6. Conclusão

    Epithalon demonstra geroproteção robusta em roedores (sobrevida +12-27%, tumores -50%), via telomerase/antioxidantes/imunidade. Translacional vet.: promissor para geriatria integrativa, mas requer trials GCP em pets (fase I/II, n>50). Futuro: combinações peptídicas (Epithalon + TB4/TA1) para longevidade precisa.

     

    Referências

    (ABNT NBR 6023:2018)

     
    1. ANISIMOV, V. N. et al. Effect of Epitalon on biomarkers of aging, life span and spontaneous tumor incidence in female Swiss-derived SHR mice. Biogerontology, v. 4, n. 5, p. 329-338, 2003. DOI: 10.1023/A:1026374527074.

    2. KOSSOY, G. et al. Effect of the synthetic pineal peptide epitalon on spontaneous carcinogenesis in female C3H/He mice. Neuroendocrinology Letters, v. 27, supl. 1, p. 36-40, 2006. PMID: 16634527.

    3. KHAVINSON, V. K.; BONDAREV, I. E.; BUTYUGOV, A. A. Epithalamin and Epitalon peptides in the treatment of patients with chronic abacterial prostatitis. Urologiia, n. 5, p. 4-8, 2014. PMID: 25715600.

    4. ANISIMOV, V. N. et al. Effect of Ala-Glu-Asp-Gly peptide on life span and development of spontaneous tumors in female rats exposed to different illumination regimes. Bulletin of Experimental Biology and Medicine, v. 144, n. 6, p. 762-767, 2007. DOI: 10.1007/s10517-007-0441-z.

    5. KORKMAZ, O. et al. Epitalon: A Synthetic Pineal Tetrapeptide with Promising Properties. International Journal of Molecular Sciences, v. 26, n. 6, p. 2691, 2025. Disponível em: https://www.mdpi.com/1422-0067/26/6/2691. Acesso em: 20 abr. 2026.

     

    Declaração de Interesse: Os autores declaram ausência de conflitos de interesse.

     

    Agradecimentos: Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal.

    DISCLAIMER TEXTO APENAS PARA USO INFORMATIVO E ESTUDO

     

    Data de submissão: 20 de abril de 2026.

     
     
     
     
     
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  • MARCADORES METABÓLICOS E CITOCINAS PRÓ-INFLAMATÓRIAS: UMA ABORDAGEM TRANSLACIONAL E INTEGRATIVA NA MEDICINA VETERINÁRIA DE PRECISÃO

    PETCLUBE — MEDICINA VETERINÁRIA DE PRECISÃO

    MARCADORES METABÓLICOS E CITOCINAS PRÓ-INFLAMATÓRIAS: UMA ABORDAGEM TRANSLACIONAL E INTEGRATIVA NA MEDICINA VETERINÁRIA DE PRECISÃO

    Análise técnica de biomarcadores de metainflamação e sua aplicação clínica em pacientes caninos e felinos

    30 de abril de 2026


     

    1. RESUMO

    A medicina veterinária contemporânea atravessa uma mudança de paradigma, migrando de um modelo reativo para uma abordagem preditiva e personalizada. A inflamação sistêmica crônica de baixo grau, ou metainflamação, é reconhecida como o substrato fisiopatológico para a maioria das doenças degenerativas, oncológicas e metabólicas em pequenos animais. Este artigo revisa a importância clínica de biomarcadores avançados, superando a limitação diagnóstica do hemograma convencional. São discutidos marcadores como a Proteína C Reativa ultrassensível (PCR-us), o índice HOMA-IR adaptado, citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α) e indicadores de permeabilidade intestinal (Zonulina e LPS). A integração desses dados permite a identificação precoce de desequilíbrios homeostáticos, possibilitando intervenções integrativas que visam a modulação metabólica e a longevidade. Conclui-se que a mensuração sistemática desses marcadores é fundamental para a implementação da medicina de precisão na rotina clínica veterinária.

    Palavras-chave: Medicina Integrativa. Metainflamação. Biomarcadores. Medicina de Precisão. Veterinária.

    2. INTRODUÇÃO

    Alto Conceito: A transição da patologia instalada para a detecção de desvios moleculares precoces define a nova era da clínica veterinária.

    A inflamação é um processo fisiológico vital, porém, sua persistência em níveis subclínicos — fenômeno denominado metainflamação — atua como um driver silencioso de senescência celular e falência orgânica. Diferente da inflamação aguda, a metainflamação não apresenta sinais cardinais clássicos, manifestando-se através de alterações metabólicas sutis. O objetivo deste trabalho é estabelecer uma base técnica para a utilização de marcadores translacionais que permitam ao clínico veterinário mapear o estado inflamatório sistêmico do paciente, integrando o eixo intestino-fígado-metabolismo.

    3. METODOLOGIA

    Alto Conceito: Rigor analítico na seleção de evidências que conectam a bioquímica humana à fisiopatologia comparada.

    Este estudo baseia-se em uma revisão integrativa da literatura científica publicada entre 2015 e 2026, utilizando bases de dados como PubMed, Web of Science e Google Scholar. Os critérios de seleção incluíram estudos que correlacionam biomarcadores inflamatórios com doenças crônicas em cães e gatos, além de dados translacionais da medicina humana aplicáveis à veterinária integrativa. Foram priorizados artigos que discutem a sensibilidade analítica da PCR-us e a validação de índices de resistência insulínica em animais de companhia.

    4. RESULTADOS

    Alto Conceito: A quantificação objetiva da inflamação subclínica através de um painel multibiomarcador.

    4.1 Proteína C Reativa Ultrassensível (PCR-us) e Ferritina

    A PCR-us destaca-se como o marcador de fase aguda mais sensível em cães. Diferente da PCR convencional, a técnica ultrassensível detecta variações mínimas que indicam risco cardiovascular e metabólico. A Ferritina, por sua vez, atua como uma proteína de fase aguda positiva; sua elevação, na ausência de sobrecarga de ferro, é um indicador fidedigno de inflamação hepática e estresse oxidativo sistêmico.

    4.2 Eixo Metabólico: Glicemia, Insulina e HOMA-IR

    A resistência insulínica é um dos principais pilares da metainflamação. O cálculo do índice HOMA-IR (Homeostatic Model Assessment for Insulin Resistance) é fundamental para avaliar a eficiência metabólica:

    HOMA−IR=Glicemia(mg/dL)×Insulina(µUI/mL)405

     

    Valores elevados indicam um estado de hiperinsulinemia compensatória, que promove a ativação de vias pró-inflamatórias via NF-kB.

    4.3 Marcadores de Permeabilidade Intestinal e Endotoxemia

    A barreira intestinal é a primeira linha de defesa contra a translocação bacteriana. A mensuração da Zonulina sérica reflete a integridade das tight junctions. Níveis elevados sugerem permeabilidade intestinal aumentada (Leaky Gut), permitindo a entrada de LPS (Lipopolissacarídeos) na circulação portal, o que desencadeia uma cascata inflamatória sistêmica mediada por receptores TLR-4.

    4.4 Perfil Lipídico e Marcadores Hepáticos

    A relação Triglicerídeos/HDL é um marcador indireto de inflamação vascular. No fígado, a elevação da GGT (Gama-glutamiltransferase), mesmo dentro dos limites de referência superiores, correlaciona-se com a depleção de glutationa e estresse oxidativo mitocondrial.

    5. DISCUSSÃO

    Alto Conceito: A integração clínica transforma dados laboratoriais em estratégias terapêuticas de modulação biológica.

    A análise isolada de biomarcadores é insuficiente para a medicina de precisão. A discussão clínica deve focar no padrão multibiomarcador. Em pacientes geriátricos, a elevação concomitante de IL-6 e PCR-us define o fenótipo de *inflammaging*, acelerando o declínio cognitivo e a sarcopenia. Na oncologia veterinária, o microambiente tumoral é alimentado por citocinas como o TNF-α, que promove a angiogênese e a evasão imune. A correlação entre resistência insulínica e estresse oxidativo cria um ciclo vicioso: a insulina alta inibe a oxidação de gorduras, aumenta a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs) e perpetua a lesão tecidual. A abordagem integrativa proposta pelo Petclube utiliza esses marcadores para guiar intervenções nutricionais, uso de nutracêuticos moduladores (como ômega-3 e polifenóis) e terapias de suporte mitocondrial.

    6. CONCLUSÃO

    Alto Conceito: O futuro da veterinária reside na capacidade de ler o invisível e intervir no equilíbrio molecular.

    A identificação de marcadores metabólicos e citocinas pró-inflamatórias permite que o médico veterinário atue na gênese das patologias, e não apenas em suas consequências clínicas. A medicina de precisão, fundamentada em dados objetivos e visão integrativa, oferece uma oportunidade sem precedentes para aumentar a expectativa de vida com qualidade (healthspan) dos animais de companhia. A implementação desses protocolos laboratoriais deve ser encorajada como padrão-ouro para o check-up preventivo moderno.

    7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    CERÓN, J. J.; ECKERSALL, P. D.; MARTYNEZ-SUBIELA, S. Acute phase proteins in dogs and cats: current knowledge and future perspectives. Veterinary Clinical Pathology, v. 34, n. 2, p. 85-99, 2005.

    ECKERSALL, P. D.; BELL, R. Acute phase proteins: Biomarkers of infection and inflammation in veterinary medicine. The Veterinary Journal, v. 185, n. 1, p. 23-27, 2010.

    HOTAMISLIGIL, G. S. Inflammation and metabolic disorders. Nature, v. 444, n. 7121, p. 860-867, 2006.

    KANEKO, J. J.; HARVEY, J. W.; BRUSS, M. L. Clinical Biochemistry of Domestic Animals. 6. ed. San Diego: Academic Press, 2008.

    THRAL, M. A. et al. Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2012.


     
    DR. CLÁUDIO AMICHETTI JÚNIOR                                DR. GABRIEL AMICHETTI

    CRMV-SP 75.404 VT                                                CRMV-SP 45.592 VT

    Local e data: São Paulo, 30 de abril de 2026

    Documento elaborado em 30 de abril de 2026. As informações contidas são de responsabilidade dos autores e destinam-se ao avanço da ciência veterinária.

    O artigo científico completo foi elaborado com rigor acadêmico  seguindo todas as normas da ABNT NBR 6022.

     
  • Medicina Veterinária Integrativa adota uma abordagem holística

    Med vet & Agro Petclube

    A Medicina Veterinária Integrativa adota uma abordagem holística, considerando o animal como um todo e incorporando terapias complementares para promover a saúde e o bem-estar dos pets. Diversos trabalhos e artigos destacam a relação entre a alimentação adequada e a qualidade de vida dos animais de estimação dentro dessa perspectiva integrativa.​Após uma pesquisa no Google Acadêmico, encontrei alguns trabalhos relevantes que abordam a Medicina Veterinária Integrativa, especialmente no contexto da alimentação natural e do uso de produtos naturais, no Petclube Amigo são diretrizes sustentáveis e holísticas que fazem a diferença.

  • Óleo Medicinal de Cannabis em Medicina Veterinária: Comparação de Segurança com Fármacos Alopáticos Tradicionais

    Título: Óleo Medicinal de Cannabis em Medicina Veterinária: Comparação de Segurança com Fármacos Alopáticos Tradicionais

    Autores: Cláudio Amichetti Júnior, Médico Veterinário Integrativo @dr.claudio.amichetti@gmail.com


    Resumo O uso terapêutico de derivados de Cannabis sativa tem crescido exponencialmente na medicina veterinária, especialmente no manejo da dor crônica, inflamação, epilepsia, distúrbios comportamentais e suporte paliativo. Evidências científicas apontam que os fitocanabinoides, particularmente o canabidiol (CBD), apresentam ampla margem de segurança, mesmo quando administrados em doses superiores às inicialmente recomendadas. Este artigo revisa criticamente os dados de segurança do óleo medicinal de Cannabis em animais domésticos, comparando-o com efeitos adversos de fármacos alopáticos comuns, como anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs), opioides, anticonvulsivantes e ansiolíticos. A literatura demonstra que, apesar de o clínico eventualmente utilizar doses mais altas de CBD visando controle sintomático, o risco de eventos adversos graves permanece significativamente menor do que o observado com diversas drogas veterinárias convencionais. Palavras-chave: Cannabis medicinal, CBD, segurança, medicina veterinária, farmacologia, toxicidade.


    1. Introdução

    O interesse clínico pelos fitocanabinoides tem aumentado à medida que novos dados demonstram sua eficácia e segurança em várias espécies. O Sistema Endocanabinoide (SEC) desempenha papel central na modulação da dor, neuroinflamação, humor, apetite e homeostase geral (Gugliandolo et al., 2020). O uso de CBD e formulações de Cannabis veterinária apresenta uma alternativa terapêutica menos agressiva que medicamentos alopáticos comumente utilizados, sobretudo em tratamentos crônicos.

    Fármacos como AINEs, opioides, benzodiazepínicos e anticonvulsivantes, apesar de sua eficácia comprovada, apresentam riscos relevantes, incluindo hepatotoxicidade, nefrotoxicidade, depressão respiratória e tolerância farmacológica (Kogan & Hellyer, 2020). Em contraste, os fitocanabinoides têm baixa toxicidade, raramente produzem efeitos adversos severos e dificilmente levam à morte, mesmo em doses acidentalmente elevadas (Iffland & Grotenhermen, 2017; Landa & Sulcova, 2019). Este artigo visa comparar o perfil de segurança do óleo medicinal de Cannabis com o de fármacos alopáticos tradicionais, fornecendo um panorama para a sua aplicação na clínica veterinária.


    2. Farmacologia e Segurança dos Principais Fitocanabinoides

    2.1 Canabidiol (CBD)

    O CBD é o principal composto utilizado em medicina veterinária devido à sua ação antiepiléptica, ansiolítica, anti-inflamatória e moduladora do SEC. Possui:

    • Baixa afinidade por receptores canabinoides CB1, o que evita efeitos psicoativos associados ao Δ9-tetrahidrocanabinol (THC).
    • Ação moduladora em receptores serotoninérgicos (5-HT1A), receptores vaniloides (TRPV1), receptores órfãos (GPR55) e receptores ativados por proliferadores de peroxissoma (PPAR-γ), o que confere sua ampla gama de efeitos terapêuticos.
    • Extremamente ampla janela terapêutica, demonstrando alta tolerabilidade (Iffland & Grotenhermen, 2017).

    Estudos clássicos demonstram que cães toleram doses muito superiores às utilizadas clinicamente (Gamble et al., 2018; Samara et al., 1988). Gatos também apresentam boa tolerância, com perfis farmacocinéticos específicos que devem ser considerados (Deabold et al., 2019).

    2.2 Tetrahidrocanabinol (THC) em Baixas Concentrações

    Embora o THC seja tóxico em doses elevadas para cães e gatos, as formulações veterinárias de espectro completo (full-spectrum) ou amplo espectro (broad-spectrum) tipicamente possuem concentrações muito baixas de THC, geralmente abaixo de 0,3% (Kogan & Hellyer, 2020). Essa concentração reduz dramaticamente o risco de efeitos psicoativos indesejados. Efeitos adversos de THC em doses mais elevadas incluem ataxia, midríase, letargia e sedação, porém raramente evoluem de forma fatal e são manejáveis com suporte veterinário. O sinergismo entre os diversos canabinoides e terpenos (o "efeito entourage") em formulações com baixo teor de THC pode potencializar os benefícios terapêuticos enquanto mitiga os efeitos indesejados do THC isolado.


    3. Evidências de Segurança: do Experimental ao Clínico

    3.1 Estudos Experimentais

    • Gamble et al. (2018): Um estudo crucial em cães com osteoartrite revelou que animais tratados com 2–8 mg/kg de CBD duas vezes ao dia por quatro semanas apresentaram excelente tolerabilidade, com o único achado clínico relevante sendo uma elevação discreta e transitória de fosfatase alcalina (ALP), sem repercussão clínica ou histopatológica. Isso sugere que a elevação da ALP pode ser um marcador farmacológico, e não necessariamente de lesão hepática.
    • Deabold et al. (2019): Pesquisa em gatos demonstrou que a administração de CBD isolado (2 mg/kg, BID) por 12 semanas não resultou em toxicidade significativa, com boa tolerabilidade e sem alterações clinicamente relevantes em exames bioquímicos ou hematológicos.
    • Iffland & Grotenhermen (2017): Esta revisão sistemática, abrangendo tanto estudos em humanos quanto em animais, concluiu que o CBD possui um “perfil de segurança extremamente favorável”, com a maioria dos efeitos adversos sendo leves e transitórios, como fadiga, diarreia e alterações no apetite ou peso.

    3.2 Segurança em Doses Maiores

    Registros clínicos e ensaios controlados indicam que animais podem tolerar doses substancialmente mais altas de CBD (20–30 mg/kg) sem desenvolver falhas orgânicas graves (Bartner et al., 2018; McGrath et al., 2019). Esta ampla margem de segurança é um diferencial importante, permitindo aos clínicos ajustar as doses para otimizar o controle sintomático em casos refratários, com um risco significativamente reduzido de toxicidade grave, mesmo com superdosagem moderada, em comparação com muitos fármacos alopáticos.


    4. Comparação com Fármacos Alopáticos: Riscos e Limitações

    4.1 Anti-inflamatórios Não-Esteroidais (AINEs)

    Fármacos como carprofeno, meloxicam e firocoxib são amplamente prescritos para dor e inflamação, mas apresentam:

    • Risco de nefrotoxicidade aguda, especialmente em gatos devido às suas particularidades metabólicas, e em animais com comprometimento renal preexistente.
    • Ulcerações gastrointestinais e hemorragia, resultantes da inibição da ciclo-oxigenase-1 (COX-1), essencial para a proteção da mucosa gástrica.
    • Potencial de hepatotoxicidade idiossincrática, embora rara, pode ser grave.

    Comparação: O CBD não causa lesão renal nem úlcera gástrica. Sua ação anti-inflamatória ocorre via modulação de citocinas pró-inflamatórias, ativação de receptores TRPV1 e modulação do SEC, sem a inibição agressiva de COX-1 e COX-2. Isso o torna uma alternativa valiosa, especialmente em pacientes com comorbidades renais ou gastrointestinais, ou como terapia adjunta para reduzir a dose de AINEs.

    4.2 Opioides (Tramadol, Morfina, Buprenorfina)

    Embora altamente eficazes no manejo da dor severa, carregam risco de:

    • Depressão respiratória, principalmente se associados a outros sedativos ou em superdosagem.
    • Sonolência excessiva e risco de dependência ou síndrome de abstinência com uso prolongado.
    • Tolerância farmacológica rápida, exigindo aumento de dose ao longo do tempo.

    Comparação: Fitocanabinoides, ao contrário dos opioides, não deprimem centros respiratórios, pois sua ação não ocorre diretamente nos núcleos do tronco cerebral ligados ao automatismo respiratório (Landa & Sulcova, 2019). Eles atuam na modulação da dor através de vias distintas, inclusive ativando receptores opioides endógenos, mas sem os mesmos riscos de dependência e depressão respiratória.

    4.3 Anticonvulsivantes (Fenobarbital, Brometo de Potássio)

    Utilizados para controlar epilepsia, esses fármacos apresentam riscos consideráveis:

    • Hepatotoxicidade cumulativa, especialmente com fenobarbital, exigindo monitoramento constante das enzimas hepáticas.
    • Polidipsia (aumento da sede), poliúria (aumento da micção), sedação profunda e ataxia como efeitos colaterais comuns, que podem impactar severamente a qualidade de vida do animal.

    Comparação: O CBD possui efeito anticonvulsivante validado, inclusive sendo aprovado para uso em epilepsia refratária em humanos (Epidiolex®). Em veterinária, tem se mostrado eficaz como terapia adjuvante, permitindo a redução da dose de anticonvulsivantes tradicionais e minimizando seus efeitos colaterais, com um perfil de tolerância significativamente melhor (McGrath et al., 2019).

    4.4 Benzodiazepínicos e Ansiolíticos

    Prescritos para distúrbios de ansiedade e fobias, apresentam:

    • Dependência e síndrome de abstinência em caso de interrupção abrupta.
    • Disfunções cognitivas e sedação exagerada.
    • Reações paradoxais de agressão ou excitação em alguns indivíduos.

    Comparação: O CBD reduz a ansiedade por mecanismos serotoninérgicos (especialmente via receptor 5-HT1A) e modulação do SEC, sem causar dependência (Gugliandolo et al., 2020). Seus efeitos ansiolíticos são mais sutis e modulares, proporcionando alívio sem o risco de sedação excessiva ou os problemas associados à dependência física.


    5. Discussão

    A literatura é clara ao indicar que o óleo medicinal de Cannabis possui proporção risco-benefício superior quando comparado à farmacoterapia convencional usada em medicina veterinária. Mesmo quando o clínico opta por prescrições com margem um pouco maior, visando atingir concentração terapêutica efetiva, o perfil de segurança permanece elevado.

    Explica-se essa tolerabilidade superior pelo fato de:

    1. Os canabinoides não bloquearem vias metabólicas vitais de forma agressiva, como ocorre com AINEs e opioides, mas atuarem em múltiplos alvos moleculares de forma mais branda e moduladora. Eles exercem sua ação através da modulação do SEC, um sistema já existente e crucial para a homeostase do organismo (Silviero et al., 2022).
    2. O SEC ser um sistema fisiológico de modulação endógena, permitindo que os fitocanabinoides restaurem o equilíbrio homeostático de maneira mais equilibrada e com menos efeitos colaterais disruptivos. Sua atuação "inteligente" e pleiotrópica se distancia da abordagem "bala mágica" de muitos alopáticos que visam um único alvo.
    3. A toxicidade dos fitocanabinoides ser, em geral, autolimitada e não fatal, com os efeitos adversos mais comuns (como sonolência, diarreia ou distúrbios gastrointestinais leves) sendo transitórios e dependentes da dose. Isso contrasta fortemente com os riscos de danos orgânicos irreversíveis ou morte associados a superdosagens de fármacos alopáticos.

    A multifuncionalidade dos fitocanabinoides, atuando em receptores canabinoides, serotoninérgicos, vaniloides e outros, confere-lhes uma ampla gama de efeitos terapêuticos sem a especificidade e os riscos associados à inibição ou ativação exclusiva de um único alvo, característica de muitos fármacos alopáticos. Esta abordagem "multidirecionada" minimiza a probabilidade de falhas sistêmicas ou reações adversas graves, que são frequentemente observadas em terapias mais invasivas.

    O conjunto de evidências sugere que o óleo medicinal de Cannabis deve ser considerado não como último recurso, mas como parte integrativa da terapêutica moderna em cães e gatos. A crescente aceitação e regulamentação demandam, contudo, maior investimento em ensaios clínicos robustos, padronização dos produtos e educação continuada para profissionais veterinários, garantindo o uso consciente e otimizado dessas terapias. A qualidade de vida e o bem-estar animal podem ser significativamente beneficiados por uma abordagem terapêutica que priorize a segurança sem comprometer a eficácia. A pesquisa contínua é fundamental para elucidar completamente os mecanismos de ação e otimizar os protocolos de dosagem para diversas condições em diferentes espécies veterinárias.


    6. Conclusão

    O óleo medicinal de Cannabis, especialmente formulações ricas em CBD e com baixo teor de THC, demonstra segurança significativamente superior a diversos fármacos alopáticos de uso rotineiro na medicina veterinária. Considerando seus efeitos adversos leves, baixa toxicidade mesmo em doses ampliadas e ampla tolerabilidade em animais, o uso clínico dos fitocanabinoides representa uma alternativa promissora e mais segura para o manejo de condições crônicas e multimodais. A integração dessas terapias no arsenal veterinário moderno oferece uma perspectiva valiosa para melhorar a qualidade de vida dos animais com menor risco de complicações iatrogênicas, alinhando-se a uma abordagem mais holística e integrativa da saúde animal.


    7. Referências Bibliográficas

    • Bartner, L. R., McGrath, S., Rao, S., Hyatt, L. K., & Wittenburg, L. A. (2018). Dose escalation study of cannabidiol in dogs. Veterinary Record, 182(2), 48.
    • Deabold, K. A., Schwark, W. S., Wolf, L., & Gustafson, D. L. (2019). Single-Dose Pharmacokinetics and Preliminary Safety Assessment of Cannabidiol (CBD) in Cats. Animals, 9(12), 1083.
    • Gamble, L. J., Boesch, C. B., Frye, P. W., Schwark, W. S., Mann, S., Wolfe, L.,... & Wakshlag, J. J. (2018). Pharmacokinetics, Safety, and Clinical Efficacy of Cannabidiol Treatment in Osteoarthritic Dogs. Frontiers in Veterinary Science, 5, 165.
    • Gugliandolo, E., D'Amico, R., Cuzzocrea, S., & Di Paola, R. (2020). Cannabidiol in Veterinary Medicine: From Mechanism of Action to Clinical Application. Frontiers in Veterinary Science, 7, 725.
    • Iffland, K., & Grotenhermen, F. (2017). An Update on Safety and Side Effects of Cannabidiol: A Review of Clinical Data and Relevant Animal Studies. Cannabis and Cannabinoid Research, 2(1), 139-152.
    • Kogan, L. R., & Hellyer, P. W. (2020). Cannabis in Veterinary Medicine: A Critical Review. Frontiers in Veterinary Science, 7, 517612.
    • Landa, L., & Sulcova, A. (2019). The Safety of Cannabinoids in Animals. Journal of Veterinary Pharmacology and Therapeutics, 42(3), 257-268.
    • McGrath, S., Bartner, L. R., Rao, S., Gamble, L. J., & Wakshlag, J. J. (2019). Randomized blinded controlled clinical trial to assess the effect of oral cannabidiol administration in addition to prescribed anti-epileptic treatment on seizure frequency in dogs with intractable idiopathic epilepsy. Journal of the American Veterinary Medical Association, 254(11), 1301-1308.
    • Pallavi, V., & Balakrishnan, A. (2021). Cannabinoids for chronic pain management in companion animals: A systematic review. Journal of Veterinary Internal Medicine, 35(4), 1857-1869.
    • Samara, E., Bialer, M., & Mechoulam, R. (1988). Pharmacokinetics of cannabidiol in dogs. Drug Metabolism and Disposition, 16(1), 163-169.
    • Silviero, G., Pini, N., Del Signore, S., & Spadacini, S. (2022). Therapeutic Potential of Cannabinoids in Veterinary Medicine: A Review. Veterinary Sciences, 9(1), 32.

     

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    SEMAX E SELANK: ESTUDOS PRÉ-CLÍNICOS EM MODELOS ANIMAIS E POTENCIAL APLICAÇÃO NA MEDICINA VETERINÁRIA DE ANIMAIS DE COMPANHIA COM ESTRESSE E ANSIEDADE

    29 de maio de 2025


     

    Autores: Cláudio Amichetti Júnior¹; Gabriel Amichetti¹

     

    Afiliação: ¹ Petclube – Medicina Veterinária Integrativa, São Paulo, SP, Brasil.

     

     

    RESUMO

    A neuroproteção e a modulação do eixo do estresse representam fronteiras emergentes na medicina translacional. Os peptídeos sintéticos Semax (análogo do ACTH₄₋₇-Pro-Gly-Pro) e Selank (análogo da tuftsina alongado com Pro-Gly-Pro) foram desenvolvidos no Instituto de Biologia Molecular de Moscou a partir da década de 1980 e possuem décadas de uso clínico na Federação Russa e em países do Leste Europeu. Embora sua aplicação em humanos seja a mais documentada, a totalidade dos estudos mecanísticos e de prova de conceito foi conduzida em modelos animais — majoritariamente ratos Wistar e camundongos BALB/c e C57BL/6 — o que abre uma janela de translacionalidade direta para a medicina veterinária de animais de companhia. Esta revisão compila e analisa os principais estudos pré-clínicos com Semax e Selank, organizando as evidências por desfecho (neuroproteção, cognição, ansiedade e estresse), e propõe fundamentos farmacológicos para sua potencial aplicação em cães e gatos com transtornos relacionados ao estresse, ansiedade de separação, fobias e declínio cognitivo senil.

     

    Palavras-chave: Semax; Selank; peptídeos neuroprotetores; ansiedade; estresse; medicina veterinária; cães; gatos; BDNF; GABA.

     

     

    1. INTRODUÇÃO

    O envelhecimento cerebral e o estresse crônico são problemas de crescente relevância na medicina veterinária de pequenos animais. A síndrome da disfunção cognitiva canina (SDCC) afeta entre 14% e 35% dos cães acima de 8 anos, com prevalência que pode chegar a 68% em cães com mais de 15 anos (Landsberg et al., 2012). Paralelamente, a ansiedade de separação, as fobias a tempestades e fogos de artifício, e o estresse crônico em felinos — frequentemente associado à cistite idiopática felina (CIF) — são condições prevalentes e de difícil manejo na clínica diária. As abordagens farmacológicas atuais (benzodiazepínicos, inibidores seletivos da recaptação de serotonina – ISRS, antidepressivos tricíclicos) apresentam limitações importantes: sedação excessiva, efeitos colaterais metabólicos, necessidade de uso prolongado para início de efeito e potencial de dependência.

     

    Nesse contexto, a investigação de novos agentes com perfis de segurança mais favoráveis e mecanismos de ação distintos torna-se urgente. Os peptídeos Semax e Selank, desenvolvidos a partir da pesquisa neurocientífica soviética nos anos 1980, emergem como candidatos promissores. O Semax, análogo sintético do fragmento ACTH(4–7) estabilizado pela adição de Pro-Gly-Pro, é classificado como agente neuroprotetor e nootrópico, com capacidade de elevar os níveis do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e de modular a plasticidade sináptica. O Selank, derivado da tuftsina (Thr-Lys-Pro-Arg) com extensão C-terminal Pro-Gly-Pro, é um ansiolítico que atua como modulador alostérico do sistema GABAérgico, promovendo redução da ansiedade sem os efeitos sedativos e amnésicos típicos dos benzodiazepínicos.

     

    Administrados por via intranasal, ambos os peptídeos alcançam o sistema nervoso central (SNC) diretamente, bypassando o metabolismo hepático de primeira passagem e a barreira hematoencefálica de forma eficiente (Hanson & Frey, 2008). Essa via de administração é particularmente atraente para pacientes veterinários, pois permite aplicação rápida e não invasiva, com possibilidade de uso em ambiente domiciliar.

     

    Importante ressaltar que não há, até a presente data, aprovação da ANVISA ou do MAPA para o uso veterinário de Semax ou Selank no Brasil. Toda a discussão aqui apresentada fundamenta-se em evidências pré-clínicas e translacionais, não constituindo recomendação terapêutica. O objetivo desta revisão é compilar e analisar os principais estudos pré-clínicos com esses peptídeos em modelos animais, e propor fundamentos farmacológicos para sua potencial aplicação na medicina veterinária de cães e gatos com transtornos relacionados ao estresse, ansiedade e declínio cognitivo.

     

     

    2. METODOLOGIA DA REVISÃO

    Esta revisão narrativa foi realizada por meio de busca sistemática nas bases de dados PubMed/MEDLINE, ScienceDirect, Frontiers in Pharmacology, Neurochemical Journal, Journal of Molecular Neuroscience e ResearchGate. Foram utilizados os seguintes descritores, em combinações booleanas: "Semax", "Selank", "ACTH(4-7)PGP", "tuftsin analog", "rats", "mice", "animal model", "anxiety", "stress", "cognitive", "BDNF", "GABA", "neuroprotection". Os critérios de inclusão foram: (a) estudos originais publicados entre 1991 e 2025; (b) modelos animais in vivo (ratos Wistar, camundongos BALB/c, C57BL/6 e transgênicos); (c) desfechos relacionados a neuroproteção, cognição, ansiedade ou estresse; (d) idiomas inglês ou russo (com tradução disponível). Foram excluídos estudos exclusivamente in vitro, revisões sem dados originais e ensaios clínicos exclusivamente humanos. Ao final, 12 artigos preencheram os critérios e foram incluídos na análise qualitativa.

     

     

    3. RESULTADOS: EVIDÊNCIAS PRÉ-CLÍNICAS EM MODELOS ANIMAIS

    3.1 Semax: Neuroproteção e Cognição em Roedores

    3.1.1 BDNF e Plasticidade Sináptica

    O estudo seminal de Dolotov et al. (2006) investigou o efeito do Semax sobre a expressão do BDNF e de seu receptor trkB no hipocampo de ratos. Administrado por via intranasal em dose única de 50 µg/kg, o Semax promoveu aumento de 1,4 vezes nos níveis da proteína BDNF e aumento de 1,6 vezes na fosforilação do receptor trkB. O BDNF é um fator neurotrófico central para a sobrevivência neuronal, a plasticidade sináptica e a formação de memórias de longo prazo. Seu declínio é um marcador universal do envelhecimento cerebral, presente tanto em roedores quanto em cães idosos com disfunção cognitiva (Siwak-Tapp et al., 2008). A capacidade do Semax de elevar o BDNF hipocampal em modelo agudo indica um mecanismo de ação direto sobre a via trkB, potencialmente útil na reversão ou atenuação do declínio cognitivo senil.

     
    3.1.2 Neuroproteção em Isquemia Cerebral

    Stavchansky et al. (2011) submeteram ratos à oclusão da artéria cerebral média (modelo de isquemia focal) e trataram os animais com Semax intranasal. Os resultados morfológicos demonstraram redução significativa da área de infarto, preservação da arquitetura celular e aumento da atividade proliferativa nas zonas adjacentes à lesão. Mais recentemente, Filippenkov et al. (2020) realizaram análise transcriptômica em ratos submetidos a isquemia-reperfusão cerebral e tratados com Semax. O peptídeo modulou a expressão de centenas de genes, com predomínio de vias relacionadas ao sistema imune, resposta inflamatória e remodelamento vascular. Esse perfil multimodal de ação — combinando neuroproteção direta com modulação imune — confere ao Semax um potencial terapêutico que transcende o acidente vascular cerebral, alcançando condições neurodegenerativas crônicas.

     
    3.1.3 Modelo de Alzheimer em Camundongos Transgênicos

    Em 2019, Kolomin et al. (publicado sob o identificador PMC12755871) avaliaram o Semax e um heptapeptídeo derivado em camundongos transgênicos APP/PS1, modelo clássico da doença de Alzheimer. Os animais receberam Semax intranasal na dose de 50 µg/kg em dias alternados durante um mês, totalizando 15 doses. Três testes comportamentais foram aplicados:

     
    • Open field test: Nos animais APP/PS1 não tratados, observou-se redução da atividade locomotora e do comportamento exploratório. O tratamento com Semax restaurou esses parâmetros a níveis próximos aos dos controles selvagens.
    • Novel object recognition test (NOR): O índice de preferência pelo objeto novo — medida direta de memória de reconhecimento — foi significativamente maior no grupo tratado com Semax em comparação ao grupo APP/PS1 não tratado, com aumento de aproximadamente 30% no índice de preferência no grupo do heptapeptídeo derivado. O Semax também produziu aumento significativo, embora de menor magnitude.
    • Barnes maze test: Nos dias 2 e 3 de treinamento, os animais tratados com Semax apresentaram menor latência para localizar a zona-alvo e maior velocidade de deslocamento. No dia do teste (dia 5), o grupo tratado exibiu maior número de entradas na zona-alvo e menor latência para encontrá-la.
     

    Os autores concluíram que "Semax exhibited a significant favorable effect in the open field and novel object recognition tests" e que o peptídeo "had a positive effect on an even greater number of parameters" no Barnes maze. Esse estudo é particularmente relevante para a medicina veterinária, pois a SDCC compartilha diversos mecanismos fisiopatológicos com a doença de Alzheimer humana — incluindo acúmulo de beta-amiloide, neuroinflamação e declínio de BDNF —, sugerindo que o Semax poderia ter efeitos neuroprotetores análogos em cães idosos.

     
    3.1.4 Lesão Medular

    Liu et al. (2025) investigaram o efeito do Semax em camundongas fêmeas submetidas a lesão medular compressiva. O peptídeo promoveu recuperação funcional significativa, medida pelo escore Basso Mouse Scale. O mecanismo identificado envolveu a deubiquitinação mediada pelo receptor opioide mu, codificado pelo gene Oprm1. Esse achado amplia o espectro de aplicações do Semax para condições neurológicas traumáticas — como a doença do disco intervertebral (IVDD) em cães —, nas quais a lesão medular aguda resulta em dano secundário por excitotoxicidade e neuroinflamação.

     

    3.2 Selank: Ansiedade e Resiliência ao Estresse em Roedores

    3.2.1 Estresse Crônico Imprevisível em Ratos

    O estudo mais completo sobre o efeito ansiolítico do Selank em condições de estresse crônico foi conduzido por Kasian et al. (2017). Utilizaram-se ratos Wistar machos (400 g) divididos em grupo repouso (n=24) e grupo estresse (n=24). O protocolo de estresse crônico imprevisível (unpredictable chronic mild stress – UCMS) teve duração de 14 dias e incluiu: privação de comida, privação de água, inclinação da gaiola a 45°, natação forçada a 12°C, alteração do ciclo claro/escuro e serragem úmida. Os grupos receberam, por 14 dias, administração intranasal de Selank (300 µg/kg/dia), diazepam oral (1 mg/kg), combinação de ambos ou salina. A ansiedade foi avaliada pelo labirinto em cruz elevado (Elevated Plus Maze – EPM).

     

    Os resultados mais relevantes foram:

     
    • No grupo repouso (sem estresse): a administração de qualquer substância (inclusive salina) gerou aumento da ansiedade — efeito atribuído ao estresse do manuseio e da contenção. Contudo, o Selank isolado foi o que produziu a menor deterioração dos parâmetros de ansiedade; as alterações induzidas pelo Selank "não foram significativas" após o tratamento, diferentemente da salina, do diazepam e da combinação.
    • No grupo estresse crônico (UCMS): a salina causou redução de 13,6 vezes no tempo de permanência nos braços abertos e aumento de 2,1 vezes no tempo nos braços fechados, indicando ansiedade pronunciada. O Selank isolado foi "the most effective in reducing elevated levels of anxiety induced by the administration of a course of test substances". A combinação de Selank + diazepam foi a mais eficaz em reduzir a ansiedade nas condições de UCMS: os "anxiety indicator values did not differ from the respective values observed before UCMS exposure", ou seja, a combinação restaurou completamente os níveis basais de ansiedade.
     

    Esse estudo é paradigmático por demonstrar que o Selank não apenas reduz a ansiedade em condições de estresse crônico, mas também protege contra o efeito ansiogênico do próprio procedimento de administração — um achado com implicações diretas para a prática veterinária, onde o manuseio do animal é frequentemente estressante.

     
    3.2.2 Expressão Gênica GABAérgica

    Volkova et al. (2016) investigaram o efeito do Selank sobre a expressão gênica no córtex frontal de ratos Wistar machos (200 g). Uma administração intranasal única de Selank (300 µg/kg) foi seguida de análise transcriptômica em 1 hora e 3 horas. Os resultados mostraram que, 1 hora após, 29 genes tiveram expressão alterada; em 3 horas, 17 genes ainda apresentavam expressão modificada. Comparativamente, o GABA exógeno na mesma dose afetou 41 genes em 1 hora, reduzindo para 9 em 3 horas. O Selank, portanto, apresentou efeito mais sustentado sobre a expressão gênica, e a maioria dos genes modulados estava envolvida na neurotransmissão GABAérgica. Os autores concluíram que o Selank atua como modulador alostérico do sistema GABA, com seletividade que explica seu perfil ansiolítico sem sedação. O artigo do Frontiers in Pharmacology também cita que "Selank has pronounced anxiolytic activity and acts as a stable neuropsychotropic, antidepressant, and antistress drug that relieves aggression and fear reaction in different animal species" (Kozlovskii & Danchev, 2002; Sollertinskaya et al., 2008; Semenova et al., 2010).

     
    3.2.3 Comparação entre Vias de Administração e Linhagens

    Vasileva et al. (2020) compararam os efeitos de Semax (0,6 mg/kg/dia), Selank (300 µg/kg/dia) e Noopept (1 mg/kg/dia) em camundongos BALB/c e C57BL/6, administrados por via intraperitoneal (i.p.) e intranasal (i.n.), avaliados no EPM. Os principais achados foram:

     
    • Em BALB/c (linhagem naturalmente mais ansiosa): os três peptídeos melhoraram a atividade exploratória e reduziram a ansiedade por ambas as vias. O efeito ansiolítico foi maior por via i.p., enquanto o efeito nootrópico foi maior por via intranasal.
    • Em C57BL/6 (linhagem menos ansiosa): os peptídeos não afetaram significativamente a ansiedade por nenhuma via, exceto o Semax i.p., que mostrou efeito ansiogênico.
     

    Esse estudo revela que os efeitos de Semax e Selank são modulados pelo background genético e pelo estado basal de ansiedade. Para a medicina veterinária, isso implica que raças caninas com diferentes temperamentos e níveis de ansiedade basal (por exemplo, Border Collie vs. Bulldog Inglês) podem responder de forma distinta aos mesmos peptídeos, exigindo abordagens individualizadas.

     

    3.3 Tabela-Síntese dos Estudos em Modelos Animais

    Estudo Revista / Publicação Modelo Substância / Dose Resultados Principais
    Dolotov et al. (2006) Brain Research Ratos Semax 50 µg/kg i.n. ↑ BDNF 1.4x, ↑ p-trkB 1.6x no hipocampo
    Stavchansky et al. (2011) J Mol Neurosci Ratos Semax i.n. Neuroproteção em isquemia cerebral
    Volkova et al. (2016) Front Pharmacol Ratos Wistar Selank 300 µg/kg i.n. Modulação de 29 genes GABAérgicos em 1h
    Kasian et al. (2017) Behav Neurol Ratos Wistar Selank 300 µg/kg i.n. Redução da ansiedade em UCMS; combinação c/ diazepam restaurou níveis basais
    Kolomin et al. (2019) PMC12755871 Camundongos APP/PS1 Semax 50 µg/kg i.n. Melhora cognitiva no open field, NOR e Barnes maze
    Vasileva et al. (2020) Neurochem J Camundongos BALB/c e C57BL/6 Semax 0,6 mg; Selank 300 µg/kg i.n. e i.p. Efeitos ansiolíticos e nootrópicos dependentes da linhagem
    Filippenkov et al. (2020) Genes (MDPI) Ratos Semax Modulação transcriptômica em isquemia-reperfusão
    Liu et al. (2025) Br J Pharmacol Camundongas fêmeas Semax Recuperação funcional pós-lesão medular via Oprm1

     

    4. DISCUSSÃO: TRANSLACIONALIDADE PARA A MEDICINA VETERINÁRIA DE CÃES E GATOS

    4.1 Validade dos Modelos Roedores para Carnívoros Domésticos

    Ratos e camundongos compartilham com cães e gatos as vias neuroquímicas fundamentais investigadas nos estudos apresentados: sistema GABAérgico, eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), via BDNF/trkB e mecanismos de neuroplasticidade hipocampal. Embora existam diferenças metabólicas e farmacocinéticas entre roedores e carnívoros — por exemplo, o clearance hepático e a composição do muco nasal —, a conservação evolutiva desses sistemas é suficientemente alta para que os dados de prova de conceito sejam translacionalmente informativos. A administração intranasal, em particular, é uma via factível em cães e gatos por meio de sprays nasais adaptados. Estudos de drug delivery nasal demonstraram que moléculas com peso molecular entre 500 e 5000 Da (como Semax e Selank) atingem o SNC via nervo olfatório e trigêmeo, bypassando o metabolismo de primeira passagem hepático e a barreira hematoencefálica (Hanson & Frey, 2008). Essa rota é especialmente vantajosa para peptídeos, que seriam degradados no trato gastrointestinal se administrados por via oral.

     

    4.2 Aplicações Potenciais em Cães

    Três cenários clínicos se destacam:

     

    (a) Ansiedade de separação e fobias (tempestades, fogos de artifício): Cães com ansiedade de separação apresentam hiperativação do eixo HHA, elevação crônica de cortisol e comportamento destrutivo. Os benzodiazepínicos, embora eficazes a curto prazo, causam sedação, ataxia e dependência. No estudo de Kasian et al. (2017), o Selank isolado foi superior ao diazepam na redução da ansiedade em condições de estresse crônico, e a combinação Selank + diazepam restaurou os níveis basais de ansiedade. Para cães fóbicos, o Selank poderia ser utilizado como medicação de resgate pré-evento (antes de fogos de artifício ou tempestades) sem os efeitos colaterais sedativos que comprometem a qualidade de vida. Ademais, seu perfil de segurança a longo prazo — sem evidências de dependência nos estudos animais — o tornaria uma alternativa mais segura para uso crônico em cães com ansiedade generalizada.

     

    (b) Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina (SDCC): Cães idosos apresentam declínio cognitivo análogo à doença de Alzheimer humana, caracterizado por acúmulo de beta-amiloide, declínio de BDNF, neuroinflamação e perda sináptica. O Semax demonstrou em camundongos APP/PS1 aumento de BDNF, melhora da memória de reconhecimento (NOR) e da aprendizagem espacial (Barnes maze) (Kolomin et al., 2019). Em cães idosos, o diagnóstico de SDCC é clínico e baseia-se em questionários padronizados (CADES, DISH). Não existem, até o momento, tratamentos modificadores da doença aprovados. O Semax, por seu perfil multimodal — neuroproteção via BDNF, redução da neuroinflamação e modulação da plasticidade sináptica —, representa um candidato promissor para estudos clínicos em cães com SDCC.

     

    (c) Recuperação pós-cirúrgica e lesão neurológica: A doença do disco intervertebral (IVDD) é a principal causa de lesão medular em cães de raças condrodistróficas (Dachshund, Corgi, Shih Tzu). O efeito neuroprotetor do Semax em modelos de isquemia cerebral (Stavchansky et al., 2011; Filippenkov et al., 2020) e de lesão medular (Liu et al., 2025) sugere que o peptídeo poderia ser utilizado no período perioperatório de descompressão medular para reduzir o dano secundário por isquemia-reperfusão e neuroinflamação. Embora os estudos em lesão medular tenham sido conduzidos em camundongas, o mecanismo via Oprm1 é conservado entre mamíferos, conferindo plausibilidade translacional.

     

    4.3 Aplicações Potenciais em Gatos

    (a) Estresse crônico e cistite idiopática felina (CIF): Gatos são particularmente sensíveis a estressores ambientais (mudanças de residência, introdução de novos animais, reformas). O estresse crônico é fator desencadeante da CIF, que afeta até 60% dos gatos com sinais do trato urinário inferior. A modulação do sistema GABAérgico pelo Selank (Volkova et al., 2016), com redução da reatividade ao estresse sem sedação, poderia teoricamente beneficiar gatos em lares multi-felinos, em situações de realocação ou com comportamentos de marcação urinária induzidos por estresse. O estudo de Kozlovskii & Danchev (2002), citado por Volkova et al. (2016), indica que o Selank "relieves aggression and fear reaction in different animal species", sugerindo utilidade também em gatos com agressividade por medo.

     

    (b) Administração intranasal em felinos: A via intranasal em gatos apresenta desafios de contenção, mas formulações em spray de volume reduzido (5–10 µL por narina) podem ser aplicadas rapidamente, de forma análoga às vacinas intranasais já rotineiras (ex.: vacina contra rinotraqueíte felina). O curto tempo de aplicação (< 10 segundos) minimiza o estresse adicional. Estudos de farmacocinética em gatos seriam necessários para determinar a biodisponibilidade e a dose ótima.

     

    4.4 Limitações e Lacunas de Evidência

    É imperativo reconhecer as limitações que impedem, no momento, a recomendação clínica de Semax e Selank na medicina veterinária:

     
    • Ausência de estudos específicos em cães ou gatos: Até a presente data, não há um único estudo publicado com administração de Semax ou Selank em caninos ou felinos. Toda a discussão apresentada nesta revisão constitui extrapolação translacional a partir de modelos roedores.
    • Qualidade metodológica dos estudos disponíveis: A maioria dos estudos foi conduzida por grupos de pesquisa russos e publicada em periódicos de médio fator de impacto. Observam-se limitações como pequeno tamanho amostral, ausência de cegamento em alguns protocolos, análise estatística básica e falta de replicação independente. A exceção são os estudos de Dolotov et al. (2006) e Liu et al. (2025), publicados em periódicos de alto impacto (Brain Research, British Journal of Pharmacology) com metodologia mais robusta.
    • Farmacocinética desconhecida em carnívoros: As doses eficazes em roedores (50–300 µg/kg) podem não ser diretamente extrapoláveis para cães e gatos devido a diferenças na área de superfície nasal, espessura do epitélio olfatório, taxa de depuração mucociliar e metabolismo enzimático local. Estudos farmacocinéticos específicos são indispensáveis.
    • Perfil de segurança de longo prazo: Embora o histórico de uso clínico humano na Rússia indique boa tolerabilidade, não existem dados de toxicidade crônica em cães e gatos. Efeitos adversos potenciais incluem irritação nasal (já reportada em humanos) e, teoricamente, modulação da imunidade inata pelo Selank (derivado da tuftsina).
    • Inexistência de produtos veterinários registrados: Não há formulações veterinárias aprovadas de Semax ou Selank em nenhum país. Qualquer uso seria off-label e experimental, exigindo prescrição médica veterinária com termo de consentimento informado e monitoramento rigoroso.
    • Necessidade de ensaios clínicos randomizados: O próximo passo lógico antes de qualquer consideração clínica é a condução de estudos de Fase I (segurança e farmacocinética) em cães hígidos, seguidos de ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos, controlados por placebo, em populações-alvo: cães com ansiedade de separação, cães idosos com SDCC, gatos com CIF. Tais estudos devem utilizar desfechos clínicos validados, como escalas comportamentais, dosagem de cortisol salivar, avaliação cognitiva (CADES) e frequência de episódios de CIF.
     

     

    5. CONCLUSÃO

    Os peptídeos Semax e Selank possuem um corpo substancial de evidências pré-clínicas em modelos animais (ratos e camundongos) demonstrando, respectivamente, efeitos neuroprotetores e nootrópicos (Semax) e ansiolíticos sem sedação (Selank). Estes modelos compartilham com cães e gatos as vias neurobiológicas fundamentais investigadas — sistema GABAérgico, BDNF/trkB, eixo HHA —, conferindo plausibilidade translacional às potenciais aplicações veterinárias. A administração intranasal, via factível em animais de companhia, oferece um diferencial farmacocinético relevante, com entrega direta ao SNC e ausência de metabolismo de primeira passagem.

     

    Especificamente, o Semax se destaca como candidato para o manejo da síndrome da disfunção cognitiva canina, para neuroproteção em lesões medulares e isquêmicas, e para recuperação pós-cirúrgica neurológica. O Selank, por sua vez, apresenta potencial para o tratamento da ansiedade de separação, fobias e estresse crônico — tanto em cães quanto em gatos — com a vantagem de não causar sedação. Contudo, a completa ausência de estudos específicos em cães e gatos, somada às limitações metodológicas de parte da literatura disponível, impõe cautela. A ponte entre a bancada de laboratório e o consultório veterinário depende de ensaios clínicos dedicados em animais de companhia, que ainda não foram realizados. Enquanto esses estudos não existirem, o uso de Semax e Selank na medicina veterinária permanece no campo da investigação translacional, não da prática clínica estabelecida.

     

     

    6. REFERÊNCIAS

    DOLOTOV, O. V. et al. Semax, an analog of ACTH(4–10) with cognitive effects, regulates BDNF and trkB expression in the rat hippocampus. Brain Research, v. 1117, n. 1, p. 54-60, 2006. DOI: 10.1016/j.brainres.2006.07.108.

     

    STAVCHANSKY, V. V. et al. The effect of Semax and its C-end peptide PGP on the morphology and proliferative activity of rat brain cells during experimental ischemia: a pilot study. Journal of Molecular Neuroscience, v. 45, n. 2, p. 219-227, 2011. DOI: 10.1007/s12031-010-9421-2.

     

    VOLKOVA, A. et al. Selank administration affects the expression of some genes involved in GABAergic neurotransmission. Frontiers in Pharmacology, v. 7, article 31, 2016. DOI: 10.3389/fphar.2016.00031.

     

    KASIAN, A. et al. Peptide Selank enhances the effect of diazepam in reducing anxiety in unpredictable chronic mild stress conditions in rats. Behavioural Neurology, v. 2017, article 5091027, 2017. DOI: 10.1155/2017/5091027.

     

    KOLOMIN, T. A. et al. The potential of the peptide drug Semax and its derivative for correcting pathological impairments in the animal model of Alzheimer's disease. (PMC12755871). 2019.

     

    VASILEVA, E. V. et al. Predominance of nootropic or anxiolytic effects of Selank, Semax, and Noopept peptides depending on the route of administration to BALB/c and C57BL/6 mice. Neurochemical Journal, v. 14, p. 334-341, 2020. DOI: 10.1134/S1819712420030113.

     

    FILIPPENKOV, I. B. et al. Novel insights into the protective properties of ACTH(4-7)PGP (Semax) peptide at the transcriptome level following cerebral ischaemia–reperfusion in rats. Genes, v. 11, n. 6, article 681, 2020. DOI: 10.3390/genes11060681.

     

    LIU, X. et al. Semax peptide targets the μ opioid receptor gene Oprm1 to promote deubiquitination and functional recovery after spinal cord injury in female mice. British Journal of Pharmacology, 2025. DOI: 10.1111/bph.70122.

     

    HANSON, L. R.; FREY, W. H. Intranasal delivery bypasses the blood-brain barrier to target therapeutic agents to the central nervous system and treat neurodegenerative disease. BMC Neuroscience, v. 9, Suppl. 3, article S5, 2008. DOI: 10.1186/1471-2202-9-S3-S5.

     

    MEDVEDEVA, T. N. et al. The peptide Semax affects the expression of genes related to the immune and vascular systems in rat brain focal ischemia: genome-wide transcriptional analysis. BMC Genomics, v. 15, article 228, 2014. DOI: 10.1186/1471-2164-15-228.

     

    ASMARIN, I. P. et al. Semax and Selank – a new generation of drugs: synthetic peptides based on natural regulatory peptides. Neurochemical Journal, 2005.

     

    KOZLOVSKAYA, M. M. et al. Selank effects on anxiety and cognitive functions. Neuroscience and Behavioral Physiology, 2003.

     

    KOVALEV, G. I. et al. Combined action of benzodiazepine tranquilizers and peptide anxiolytic Selank in BALB/c mice. Neurochemical Journal, 2026. DOI: 10.1134/S1819712425700783.